Ópera do Malandro – Ato II – Cena 5
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Cadeia; Max dentro da cela e Barrabás do lado de fora
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BARRABÁS
Desta tu não escapa, hein?
MAX
Escapo sim.
BARRABÁS
Ah, é? E quem te safa?
MAX
Você, Barrabás. Você vai tomar a arma do inspetor, vai trancar todo mundo no banheiro e vai embora comigo.
BARRABÁS
Ah sim, meu amor? Depois promete que casa comigo? Hein, coraçãozinho? Também vai me levar pra Hollywood?
MAX
Não, muito melhor. Vou te levar pra Cuba. Já ouviu falar de Cuba? É o paraíso, Barrabás. Muita praia, muito coqueiro, muito cassino, muita rumba, muita mulher e ninguém precisa trabalhar. Eu tenho um camaradinha lá chamado Fulgêncio. Imagina que o Fulgêncio me mandou um cartão postal contando que, agora ele é o manda-chuva de lá. Quer dizer, Barrabás, que lá em Havana você é amigo do rei.
BARRABÁS
Conta mais, conta mais que eu tô quase abrindo as pernas!
MAX
Pára com isso, Barrabás! Eu sei que você não é mulher nem criança pra cair em conversa fiada. Você é malandro, que eu sei! Muito mais malandro de que eu! Basta dizer que arranjou emprego na polícia, logo você que tem uma folha corrida mais suja que colchão de puta. Não precisa dizer mais nada, é só ver quem tá de que lado da grade pra saber quem é mais malandro.
BARRABÁS
Obrigado.
MAX
Então, isso que eu falo do meu amigo Fulgêncio, isso não é nada, é só uma sugestão dum belo lugar pra você passar o resto dos seus dias, fazendo pesca submarina no Caribe. É só isso, e você não vai me soltar por causa disso. Você vai me soltar porque eu te dou condições de ser feliz em Cuba, em Honolulu ou em qualquer outro lugar do mundo. Em outras palavras, vou te dar todo dinheiro que tenho no cofre.
BARRABÁS
Cala a boca, Max. Assim você me ofende. Agora eu sou um homem de bem… Quanto é que você tem no cofre?
MAX
Pra lá de cinco mil dólares… Escuta! É a voz da Teresinha. Vamos fazer melhor, Barrabás. Eu digo à Teresinha pra te abrir o cofre. Você me solta e fica garantido. Eu não vou te dar um golpe se a Teresinha tá contigo de refém… Teresinha, meu amor!
TERESINHA (Entra)
Max, que bom te ver! Eu tava com tanto medo de chegar atrasada!
MAX
Você chegou na hora exata. Conhece o Barrabás, não é mesmo?
TERESINHA
Prazer. Sabe o que é, Max? A gente tá com o tempo apertado e eu trouxe uns papéis pra você assinar.
MAX
Isso a gente vê amanhã, baby. Agora o Barrabás vai me soltar e você vai dar a ele todo o dinheiro do cofre.
TERESINHA
Dinheiro do cofre?
MAX
Todinho. Vamos, Barrabás! Dá uma gravata no inspetor.
TERESINHA
Mas, querido, não tem dinheiro nenhum no cofre.
MAX
Não tem? Cê tá louca? Tinha mais de cinco mil dólares!
TERESINHA
Cinco mil cento e sete dólares e vinte e cinco cents. Mas agora a gente tá devendo dezessete mil.
BARRABÁS
Adeus, Max.
MAX
Tá brincando. Devendo a quem?
TERESINHA
Aos bancos, é claro. Uma firma tem que estar sempre devendo a todos os bancos. Tá tudo aqui no livro-caixa, meu amor, mas é meio complicado de explicar e não vai dar tempo de você conferir. Mas pra ter uma idéia, só de advogados, contabilidade e documentação, foram uns seis mil. E dez mil dólares eu dei de entrada nun conjunto de salas na Avenida Central. Uma beleza, Max. No oitavo andar, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Você tem que assinar aqui, aqui e aqui. Foi mais por isso que eu vim assim correndo, porque é de maior urgência e mal deu pra eu me pintar. (Max vai assinando tudo sem esboçar a menor reação) A firma precisava dum endereço comercial porque não tinha graça timbrar no papel: MAXTERTEX Limitada, endereço cabana da praia. Ah, as promissórias, que eu prometi levar a tua assinatura aos bancos amanhã bem cedo. Os gerentes têm sido muito camaradas comigo, sabe, Max? Imagina que eles me atenderam em dia de sábado! Agora só falta assinar essa folha em branco que é pra me prevenir em caso de acidente grave ou doença que te deixe impedido e que é pros nossos negócios não sofrerem solução de continuidade e o dr. Sobral já me disse que espólio é um processo muito demorado… Ah, que bom que deu tempo pra tudo! Fala de você agora, querido. Max, eu nunca te vi calado assim! Diz o que é que você tá sentindo, por favor!
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MAX
Eu estou sentindo medo, muito medo. (Cresce o barulho da passeata, como uma canção selvagem)
TERESINHA
Bom, não é pra te consolar, mas quem hoje te condena à morte tá condenado pra depois de amanhã. Papai, inspetor Chaves, a Lapa, as falcatruas, todo esse mundo já tá morto e caindo aos pedaços.
MAX
É, isso não me consola muito não. Tô com medo.
TERESINHA
Eles também tão com medo, Max. Precisava ver a cara da mamãe. Tá ouvindo a multidão aí embaixo? Coitada da mãe, mas essa gente tá certa, tem mesmo que desabafar. Ninguém agüenta mais esse clima, esse sufoco! Tá todo mundo precisando duma coisa nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na cara que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas largas, tem que levantar muitos arranha-céus, tem que inventar anúncios luminosos, e a MAXTERTEX faz parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, porque nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um pouquinho do teu espírito…
MAX
Que se foda o meu espírito. Quem tá com medo é o meu corpo. É deste corpo aqui que eu gosto, gosto muito, adoro. Tô acostumado dentro dele e não quero sair.
TERESINHA
Sangue novo! A nova civilização! É claro que os malandrinhos, os bandidinhos e os que acham que sempre dá-se um jeitinho, esses vão apodrecer debaixo da ponte. E vai ter um lugar ao sol pra quem quiser lutar e souber vencer na vida. É daí que vem o progresso, Max, do trabalho dessa gente e da nossa imaginação. Daqui a uns anos, você vai ver só. Em cada sinal de trânsito, em cada farol de carro, em cada nova sirene de fábrica vai ter um dedo da nossa firma. Você devia se orgulhar, Max.
MAX
Este meu corpo tá inteirinho, tá cheiroso, tá com toda a vida, tá jogando saúde pro ladrão. A boca quer chupar mais manga, a garganta quer tomar mais cerveja, o pau tá querendo foder e a cabeça quer pensar besteira. Depois ia chegar um dia que o corpo ia parando de querer. Ia minguando a fome, a sede, o tesão, ia dando preguiça de pensar, e as carnes se decompondo naturalmente, devagar, na cama. Assim é que tinha que ser.
TERESINHA
E vai demorar meio século pra essa gente se juntar de novo e levantar a voz. Porque a multidão não vai estar abafada, nem encurralada, nem tiranizada, nem nada. Você devia se orgulhar.
MAX
Então, não é justo esmagar um corpo assim no meio do caminho. Interromper um gesto, a digestão, interromper uma idéia, um programa, uma música, o sangue correndo nas veias, e o corpo parar de chofre, ainda produzindo saliva e esperma, e cheio de merda por dentro.
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Orquestra ataca a introdução, abafando o barulho da passeata
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TERESINHA
Acho que tá na hora, Max.
MAX
Acho que tá na hora.
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Max e Teresinha cantam “Pedaço de Mim”
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