Archive for Júlia

Ópera do Malandro – Ato II – Cena 5

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Cadeia; Max dentro da cela e Barrabás do lado de fora

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BARRABÁS

Desta tu não escapa, hein?

MAX

Escapo sim.

BARRABÁS

Ah, é? E quem te safa?

MAX

Você, Barrabás. Você vai tomar a arma do inspetor, vai trancar todo mundo no banheiro e vai embora comigo.

BARRABÁS

Ah sim, meu amor? Depois promete que casa comigo? Hein, coraçãozinho? Também vai me levar pra Hollywood?

MAX

Não, muito melhor. Vou te levar pra Cuba. Já ouviu falar de Cuba? É o paraíso, Barrabás. Muita praia, muito coqueiro, muito cassino, muita rumba, muita mulher e ninguém precisa trabalhar. Eu tenho um camaradinha lá chamado Fulgêncio. Imagina que o Fulgêncio me mandou um cartão postal contando que, agora ele é o manda-chuva de lá. Quer dizer, Barrabás, que lá em Havana você é amigo do rei.

BARRABÁS

Conta mais, conta mais que eu tô quase abrindo as pernas!

MAX

Pára com isso, Barrabás! Eu sei que você não é mulher nem criança pra cair em conversa fiada. Você é malandro, que eu sei! Muito mais malandro de que eu! Basta dizer que arranjou emprego na polícia, logo você que tem uma folha corrida mais suja que colchão de puta. Não precisa dizer mais nada, é só ver quem tá de que lado da grade pra saber quem é mais malandro.

BARRABÁS

Obrigado.

MAX

Então, isso que eu falo do meu amigo Fulgêncio, isso não é nada, é só uma sugestão dum belo lugar pra você passar o resto dos seus dias, fazendo pesca submarina no Caribe. É só isso, e você não vai me soltar por causa disso. Você vai me soltar porque eu te dou condições de ser feliz em Cuba, em Honolulu ou em qualquer outro lugar do mundo. Em outras palavras, vou te dar todo dinheiro que tenho no cofre.

BARRABÁS

Cala a boca, Max. Assim você me ofende. Agora eu sou um homem de bem… Quanto é que você tem no cofre?

MAX

Pra lá de cinco mil dólares… Escuta! É a voz da Teresinha. Vamos fazer melhor, Barrabás. Eu digo à Teresinha pra te abrir o cofre. Você me solta e fica garantido. Eu não vou te dar um golpe se a Teresinha tá contigo de refém… Teresinha, meu amor!

TERESINHA (Entra)

Max, que bom te ver! Eu tava com tanto medo de chegar atrasada!

MAX

Você chegou na hora exata. Conhece o Barrabás, não é mesmo?

TERESINHA

Prazer. Sabe o que é, Max? A gente tá com o tempo apertado e eu trouxe uns papéis pra você assinar.

MAX

Isso a gente vê amanhã, baby. Agora o Barrabás vai me soltar e você vai dar a ele todo o dinheiro do cofre.

TERESINHA

Dinheiro do cofre?

MAX

Todinho. Vamos, Barrabás! Dá uma gravata no inspetor.

TERESINHA

Mas, querido, não tem dinheiro nenhum no cofre.

MAX

Não tem? Cê tá louca? Tinha mais de cinco mil dólares!

TERESINHA

Cinco mil cento e sete dólares e vinte e cinco cents. Mas agora a gente tá devendo dezessete mil.

BARRABÁS

Adeus, Max.

MAX

Tá brincando. Devendo a quem?

TERESINHA

Aos bancos, é claro. Uma firma tem que estar sempre devendo a todos os bancos. Tá tudo aqui no livro-caixa, meu amor, mas é meio complicado de explicar e não vai dar tempo de você conferir. Mas pra ter uma idéia, só de advogados, contabilidade e documentação, foram uns seis mil. E dez mil dólares eu dei de entrada nun conjunto de salas na Avenida Central. Uma beleza, Max. No oitavo andar, com porteiro, elevador e ar refrigerado para os dias de calor. Você tem que assinar aqui, aqui e aqui. Foi mais por isso que eu vim assim correndo, porque é de maior urgência e mal deu pra eu me pintar. (Max vai assinando tudo sem esboçar a menor reação) A firma precisava dum endereço comercial porque não tinha graça timbrar no papel: MAXTERTEX Limitada, endereço cabana da praia. Ah, as promissórias, que eu prometi levar a tua assinatura aos bancos amanhã bem cedo. Os gerentes têm sido muito camaradas comigo, sabe, Max? Imagina que eles me atenderam em dia de sábado! Agora só falta assinar essa folha em branco que é pra me prevenir em caso de acidente grave ou doença que te deixe impedido e que é pros nossos negócios não sofrerem solução de continuidade e o dr. Sobral já me disse que espólio é um processo muito demorado… Ah, que bom que deu tempo pra tudo! Fala de você agora, querido. Max, eu nunca te vi calado assim! Diz o que é que você tá sentindo, por favor!

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MAX

Eu estou sentindo medo, muito medo. (Cresce o barulho da passeata, como uma canção selvagem)

TERESINHA

Bom, não é pra te consolar, mas quem hoje te condena à morte tá condenado pra depois de amanhã. Papai, inspetor Chaves, a Lapa, as falcatruas, todo esse mundo já tá morto e caindo aos pedaços.

MAX

É, isso não me consola muito não. Tô com medo.

TERESINHA

Eles também tão com medo, Max. Precisava ver a cara da mamãe. Tá ouvindo a multidão aí embaixo? Coitada da mãe, mas essa gente tá certa, tem mesmo que desabafar. Ninguém agüenta mais esse clima, esse sufoco! Tá todo mundo precisando duma coisa nova, mais aberta, mais limpa e arejada. Tá na cara que tem que mudar tudo e já! Tem que abrir avenidas largas, tem que levantar muitos arranha-céus, tem que inventar anúncios luminosos, e a MAXTERTEX faz parte do grande projeto. Você devia se orgulhar, Max, porque nisso tudo tem um pedaço do teu nome e um pouquinho do teu espírito…

MAX

Que se foda o meu espírito. Quem tá com medo é o meu corpo. É deste corpo aqui que eu gosto, gosto muito, adoro. Tô acostumado dentro dele e não quero sair.

TERESINHA

Sangue novo! A nova civilização! É claro que os malandrinhos, os bandidinhos e os que acham que sempre dá-se um jeitinho, esses vão apodrecer debaixo da ponte. E vai ter um lugar ao sol pra quem quiser lutar e souber vencer na vida. É daí que vem o progresso, Max, do trabalho dessa gente e da nossa imaginação. Daqui a uns anos, você vai ver só. Em cada sinal de trânsito, em cada farol de carro, em cada nova sirene de fábrica vai ter um dedo da nossa firma. Você devia se orgulhar, Max.

MAX

Este meu corpo tá inteirinho, tá cheiroso, tá com toda a vida, tá jogando saúde pro ladrão. A boca quer chupar mais manga, a garganta quer tomar mais cerveja, o pau tá querendo foder e a cabeça quer pensar besteira. Depois ia chegar um dia que o corpo ia parando de querer. Ia minguando a fome, a sede, o tesão, ia dando preguiça de pensar, e as carnes se decompondo naturalmente, devagar, na cama. Assim é que tinha que ser.

TERESINHA

E vai demorar meio século pra essa gente se  juntar de novo e levantar a voz. Porque a multidão não vai estar abafada, nem encurralada, nem tiranizada, nem nada. Você devia se orgulhar.

MAX

Então, não é justo esmagar um corpo assim no meio do caminho. Interromper um gesto, a digestão, interromper uma idéia, um programa, uma música, o sangue correndo nas veias, e o corpo parar de chofre, ainda produzindo saliva e esperma, e cheio de merda por dentro.

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Orquestra ataca a introdução, abafando o barulho da passeata

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TERESINHA

Acho que tá na hora, Max.

MAX

Acho que tá na hora.

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Max e Teresinha cantam “Pedaço de Mim”

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Ópera do Malandro – Ato II – Cena 4a

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GENI

Acabou.

DURAN

Ah, muito bem.

VITÓRIA

Bravos!

GENI

Não vão pedir bis?

VITÓRIA

Ah, Genival!

GENI

Inspetor, não vai pedir bis?

CHAVES

Bis.

GENI

É, mas hoje eu tô muito cansada pra dar bis. Vocês voltam amanhã, tá?

DURAN

O endereço, Genival!

GENI

É Rua do Catete, 194. A Renascença, Móveis e Decorações.

CHAVES

Tu tá gozando…

GENI

É isso mesmo. Ele tem cópia das chaves. Todo domingo, feriado e dia santo ele festeja uma mocinha naquela garçonnière lá

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Todos saem correndo, exceto Geni que senta-se na poltrona, toma um gole de conhaque e se abana com o cheque; cai a luz em resistência

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Ópera do Malandro – Ato II – Cena 4

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Casa de Duran; Duran e Vitória estão à janela, observando a multidão lá fora; continua o canto da cena anterior, acrescido de gritos e sussurros

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DURAN

Estão todos esperando um aceno meu, Vitória! São dez mil cabeças, fora as perucas das nossas funcionárias. Sabe como é que estou me sentindo? Igualzinho ao Moisés na margem do mar Vermelho! Só fico puto que o que me custa duzentos contos, aquele judeu conseguiu de graça.

VITÓRIA

Eu estou tão preocupada, Duran.

DURAN

Que é isso, Vitória, tô só especulando. E eu sou lá maluco de gastar duzentos contos com vagabundo? O pagamento tá marcado pro final da passeata. Como não vai haver passeata…

VITÓRIA

O que me apavora é o cheiro dessa gente… É um troço pegajoso. Já tomei cinco banhos de Shalimar e continua parecendo que sou eu que estou cheirando a povo.

DURAN

Olha o Chaves chegando aí. E pela cara do desgraçado, vem de mão vazia. Olha, Vitória, em último caso, se a polícia não pegar o Max, é evidente que a gente suspende a passeata do mesmo jeito. Isso aí tá engrossando muito e pode dar complicação. Sem falar nos duzentos contos. Mas se o Chaves suspeitar que a gente tá vacilando, aí então é que ele faz corpo mole. Segura firme, Vitória!

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Entra Chaves

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DURAN

E então? Exterminou o bandido? Parabéns, Chaves! deve ter sido duro pra você. Mas eu gostei. Você foi pragmático! Ainda chega a senador…

CHAVES

Muito bem, senhores. Acabo de descobrir que posso processar vocês dois por incitamento à baderna.

VITÓRIA

Aceita um chá de camomila, inspetor?

CHAVES

Camomila o cacete! Eu não posso permitir que uma minoria insignificante perturbe a ordem pública dessa maneira! Os senhores façam o favor de conter essa manifestação imediatamente!

DURAN

Mas quem sou eu, Chaves? A polícia é você!

CHAVES

Tu não quer solução pacífica? Tá bem. Eu prendo essas putas todas!

DURAN

Prende mesmo, é fácil. Isso aí é realmente uma minoria insignificante. É tudo gente aprumada na vida, gente asseada, assalariada, umas proletárias de luxo. Mas se você prestar atenção à janela, vai notar que vem aí outro tipo de gente. Quem vai protestar na rua são os milhares de desempregados desta cidade, esses sim, com toneladas de motivos. Sem falar nos subempregados, nos engraxates, nos lambe-botas, nos vendedores de bugigangas. Vagabundo então, não pode ver aglomerado que vai logo se enfiando no meio. E se tanta gente imunda e miserável vai pra rua, por que não haverão de sair os aleijados? Ah, não, esses não vão perder a chance de exibir seus tocos à luz do dia. Junta os leprosos, os bêbados, os toxicômanos, e só aí a tua minoria já foi à merda. Mais os tuberculosos, os maleitosos, os sifilíticos, os epiléticos, os débeis mentais, os menores abandonados, os velhinhos desamparados, as bichas, os pretos e os curiosos, e se prepare para prender noventa por cento da população do Rio de Janeiro! São um milhão e setecentos mil cadáveres pra boiar no rio da Guarda.

CHAVES

Porra! Um milhão e setecentos mil presuntos é encomenda pra atacadista. Tu sempre encomendou no varejo, Duran.

DURAN

Um momento, inspetor! Cuidado com o que diz! Denunciar criminosos é dever de todo cidadão honesto. Já não se pode dizer o mesmo de quem pratica a pena de morte ao arrepio da lei.

CHAVES

Que é que tú quer dizer?

DURAN

Minha maneira de contribuir para a redução da marginalidade é empregar mil quatrocentos e trinta e dois funcionários fixos. Além de outros dez mil que eu ajudo aqui e ali. Mas você não, você tá tingindo os subúrbios com o sangue dos mendigos e dos adversários. Não adianta, Chaves, você não me enquadra. A minha bíblia é a Constituição da República e as leis trabalhistas são o meu breviário. Você já ouviu falar em lei? Em Constituição?

CHAVES

Eu não tô no banco dos réus pra ser julgado assim.

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DURAN

Mas vai estar, inspetor, vai estar logo logo. E quem vai julgar não sou eu não, vai ser esse povo aí fora. Você não lê jornal, lê? Pois fique sabendo que os alemães perderam as calças em Stalingrado. Os aliados já ocuparam o norte da África. Os ingleses e os americanos já desembarcaram em Nápoles, viu? Mussolini tá perigando. Enfim, pra teu governo, o nazi-fascismo tá no fim!

CHAVES

Pro meu governo? E tu, como é que fica? Afinal, nós fomos colegas na Ação Integralista…

DURAN

Mas você é casca-grossa mesmo. Continua fazendo uma confusão grosseira entre a filosofia integralista e a delinqüência de alguns sádicos nazistas. Olha, Chaves, outro dia houve um levante no gueto de Varsóvia. Logo outros guetos vão-se levantar e, mais dia menos dia, todos os perseguidos nesta guerra vão exigir justiça. Os nazistas vão pagar caro por seus crimes. Haverá tribunais populares em todos os cantos do mundo. E o que é que te fazes pensar que aqui no Brasil os criminosos vão ficar impunes? Hein? Como é que o Hitlerzinho da Lapa vai-se safar desta, hein? Calcule a indignação da opinião pública quando forem denúnciadas as atrocidades cometidas por um certo inspetor Chaves, mais conhecido por Tigrão, o facínora…

CHAVES

Não, Duran, por favor, chega!

DURAN

Liquidou o bandido?

CHAVES

Eu fiz o possível e o impossível!

DURAN

Vais ter um nobre destino. Igualzinho à dona Maria Antonieta. A não ser, é claro, que você use a cabeça e me apresente a cabeça do teu amigo. Aí, quem sabe, dá-se um jeitinho, né? Mas acho que já nem dá tempo, inspetor.

CHAVES

Me acredita, Duran! Botei todas as patrulhas pra caçar aquele desgraçado. Toda a força pública, bombeiro, cachorro, fuzileiro naval, DIP, tudo. Vasculhei os covins, fechei os cassinos, invadi as pensões, bloqueei as estradas, parei os trens, interditei o Santos Dumont, o serviço de barcas, e nada! A esta altura ele já deve estar longe… O país tem oito mil quilômetros de fronteira!

DURAN

Pois é. Igualzinho à dona Maria Antonieta. Tribunais populares… Cabeças rolando… Aliás, os moleques de rua vão adorar bater umas peladas com o teu coco.

CHAVES

Ai, meu Deus, a vida já não tem sentido pra mim! Duran, pelo amor que tu tem a Cristo, me atende um último desejo! Dona Vitória, pelo amor da tua filha, me escuta! Eu também tenho uma filha… Ela vai ficar desamparada no mundo. Promete que cuida dela, dona Vitória? Duran, tu emprega Lúcia num dos teus puteiros? Me promete isso e eu morro sossegado!

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Entra Geni com a chapeleira

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GENI

Olá, todo mundo. Vitória, me vê um conhaque urgente que eu estou com uma angina no peito! (Estende-se na poltrona enquanto Vitória vai buscar a garrafa)

DURAN

Ué, Genival, você não vai ao desfile?

GENI

Pra quê? Por vinte pratas que você nem vai pagar?

DURAN

Que é isso? Duvidando da minha honestidade?

GENI

Nunca, Duran. Mas por que é que você vai pagar por uma passeata que não vai acontecer?

DURAN

Não vai acontecer? Já viu a multidão aí fora?

GENI

Que tumulto, hein? Eles vão ficar bem chateados quando você suspender a passeata.

DURAN

Eu não vou suspender nada, de jeito nenhum. A não ser, é claro, que meu amigo Chaves cumpra com o seu dever.

GENI

Justamente. Acho que o Tigrão só não cumpre o dever se não quiser.

CHAVES

Que é que tu tá insinuando, ô, veado? Pensa que eu tô protegendo aquele patife?

GENI

Eu não disse isso…

CHAVES

Sai da minha frente, vai, cai fora!

VITÓRIA

Calma, inspetor. Algo me diz que o Genival tem novidades pra nós.

DURAN

Você sabe do Max, Genival?

GENI

Esse conhaque caiu redondinho, Vitória.

CHAVES

Sabe do Max, porra? Fala duma vez!

GENI

Serve mais um, Vitória?

CHAVES

Ah, eu esgano este puto! (Avança sobre Geni)

VITÓRIA

Não faça isso, inspetor, que você estraga tudo! Fala, Genival, fica à vontade.

GENI

Oh, inspetor, que lindas mãos! Posso ler?

CHAVES

Tu vai ler é uma caceta!

DURAN

Deixa ele ler, Chaves, ouve o que eu tô falando! Lê a mão dele, Genival, que ele tá morrendo de curiosidade.

CHAVES

Vai, vai logo, lê essa bosta!

GENI

Ah, que emocionante. Um futuro grandioso! Muito poder nas suas mãos! Quantas viagens! Oh, oh, oh que lindo! Um aviãozinho no céu azul… Nossa, que aviãozão enorme! Xiiiiii…

CHAVES

O que foi?

GENI

Caiu.

CHAVES

Agora chega. Se tu sabe de alguma coisa do Max, desembucha duma vez.

GENI

Pois é, o Max… Sujeito alinhado, o Max. Mulhereeeeengo! Lembra ontem à tarde, quando eu deixei escapar para vocês que o Max tava no puteiro dos Arcos?

CHAVES

Mas hoje ele não tá em puteiro nenhum, que eu já revistei todos.

GENI

É claro que não tá. O Max jamais vai a puteiro em feriado nacional. Eu tava falando de ontem.

DURAN

E você veio aqui para falar de ontem, Genival?

GENI

Também. Eu ontem dei uma informação, sem querer mas dei, e vocês nem agradeceram.

CHAVES

Ah, é? Pois não tem agradecimento nenhum. O Max fugiu da cadeia no mesmo dia.

GENI

Bom, eu não tenho culpa se a polícia é incompetente…

CHAVES

Ah, Duran, ah, dona Vitória, vocês vão me desculpar mas agora eu arrebento esse veado puto!

VITÓRIA

Inspetor, eu tenho certeza que o Genival tem outras coisas pra falar. Tô vendo nos olhos dele.

DURAN

Quanto é o agradecimento por ontem, Genival?

GENI

Olha, era só dois contos. Mas agora que o inspetor me chamou de veado puto eu vou ter que exigir uma indenização. Fica tudo por quatro contos e eu me dou por satisfeita.

CHAVES

Se não é veado, o que é que é? É machão?

GENI

Nem veado nem machão. Eu sou plurissexual.

DURAN

É melhor pagar logo, Chaves, senão aumenta.

CHAVES

Toma, porra!

GENI

Não, assim tão cru eu nem tenho jeito de receber.

CHAVES

O que tu quer mais?

GENI

Aceito desculpas.

CHAVES

Nunca! Não peço desculpa a veado por nada deste mundo!

GENI

Veado, não.

VITÓRIA

Por favor, inspetor.

DURAN

Deixa de besteira, Chaves. Pede desculpas.

CHAVES

Descupa, porra!

GENI (Pega o dinheiro)

Dá mais um conhaque, querida?

VITÓRIA

Toma, Genival. Mas agora é melhor vender teu peixe, que já passa das duas.

GENI

Pois é, como eu ia dizendo, o Max conheceu uma putinha nova ontem e marcou encontro pra esta tarde. O Max é um cavalheiro muito distinto e é incapaz de faltar com a palavra. As mulheres também não faltam, é claro, todas elas adoram o Max. Por falar nisso, que menina sortuda a tua filha, hein, Vitória? Sabe, eu trouxe aqui um anel que é feito sob medida pra uma recém-casada. (Abre a chapeleira) É platina pura com um big solitário da Índia.

VITÓRIA

Faz aí um cheque, Duran. São três contos, né?

GENI

Três? Isso faz muito tempo, meu anjo. Agora não pode ficar por menos de doze.

DURAN

O quê? Doze contos? De jeito nenhum!

VITÓRIA

Duran, o tempo tá correndo!

DURAN

Eu pago sete e fim.

GENI

É doze e fim.

CHAVES

Vamos, pessoal, vamos logo com isso!

GENI

Ah, Tigrão, eu também não me esqueci da tua filha. Coitada, ela era tarada pelo Max e ele chutou ela pra titia. Olha aqui, esses brincos vão cair lindamente numa solteirona. Bem discretos, são de marcassita. Pra você eu faço um precinho especial: quinze contos.

CHAVES

Tá louco! Onde é que eu vou arranjar quinze contos?

GENI

Ah, Vitória, olha só esse xale. Todo bordado a mão. É da ilha da Madeira e bate com o solitário: doze contos, apenas. E pro Duran não ficar chateado, tem esse isqueiro Dupont, folheado a ouro…

DURAN

Eu não fumo!

GENI

Sai por dezesseis contos. Dezesseis com vinte e quatro, olha que graça, deu quarenta justinhos! Você, Tigrão, tem os quinze dos brincos, mais este chaveiro com uma figa de marfim, total: trinta e cinco contos, só porque é amigo…

CHAVES (Pula sobre Geni e torce-lhe o braço)

Diga já onde é que tá o Max, senão…

GENI

Avenida Atlântica, 120.

CHAVES

Tão vendo, seus idiotas? (Prepara-se para sair) Comigo não tem cu doce não!

GENI

Otário.

CHAVES

Como disse?

GENI

Otário.

CHAVES

Vai dizer que deu o endereço errado? Não, tu não é homem pra isso! Se o Max não tá lá nesse número, eu volto, te prendo e te mato!

GENI

Só que, quando voltar de Copacabana, às quatro e meia da tarde, com esse carnaval aí fora, você não vai ter tempo de prender ninguém. Você vai estar promovido a xerife no território do Acre! Bem, gente, eu vou andando. Agora sim, eu acredito nessa passeata. E eu não quero perder.

DURAN

Espera, Genival.

VITÓRIA

Você é burro mesmo, hein, inspetor? Puta que pariu!

CHAVES

Genival, eu peço perdão, eu perdi o controle, desculpa.

GENI

Eu tô exausta de desculpas. Agora eu quero é quarenta contos do Duran e trinta e conco do inspetor que aliás acabam de passar a cinqüenta pra indenizar a ofensa física.

CHAVES

Mas eu não tenho esse dinheiro todo!

GENI

O teu amigo Duran empresta, né?

DURAN

Você tá me arruinando, Genival. Noventa contos é demais!

VITÓRIA

Duran, tá em cima da hora!

DURAN

Merda! (Assina o cheque)

VITÓRIA

Agora fala, Genival.

CHAVES

Pelo amor que tu tem a Cristo, fala!

GENI

Então o Max marcou encontro esta tarde com a menina. Aliás, não sei o que ele viu naquela biscatinha. Mas enfim, ele é tão novidadeiro! E, ao mesmo tempo, o Max é muito metódico. O primeiro encontro com uma mulher tem que ser sempre no mesmo lugar. Diga-se de passagem que é um lugar maravilhoso. Muito bem decorado, espaçoso, confortável, cheio de tapetes, almofadas, coisa e tal. Enfim, a mulher passa horas inesquecíveis com o Max. Porque ele é insaciável. Dá uma, muda de cama, dá outra, muda de cama,ele não pára quieto. E nessa agitação toda consegue ser romântico, tão romântico…

CHAVES

Assim é foda”

DURAN

Toma o cheque e diz logo o endereço.

GENI (Guarda o cheque no peito como se usasse sutiã)

Tão romântico! Mas tão romântico que me deu vontade de cantar. Vocês agora vão-se sentar direitinho para assistir ao meu show.

CHAVES

Ai meu saco, meus culhõs, caralho…

VITÓRIA

Cala a boca, cretino, e senta aqui.

GENI

Ah, na hora do coro vocês cantam comigo, tá? Mas bem forte, inspetor, bem forte!

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Orquestra ataca introdução

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Geni canta “Geni e o Zepelim”

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Ópera do Malandro – Ato II – Cena 3a

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BARRABÁS (Entra tentando separá-las)

Pára! Solta! Ah, essas unhas! (Puxa Teresinha) Fora daqui, moça!

LÚCIA

Dá umas porradas nela, dá!

BARRABÁS

Aqui tu não manda nada, viu? Fora!

TERESINHA

Me larga!

BARRABÁS

Aqui o galo sou eu! Fora!

TERESINHA

Eu sou uma senhora de respeito, caralho! Me solta!

BARRABÁS (Arrasta Teresinha pra fora)

E se voltar, fica! Fora!

LÚCIA

Me desculpe, amor, eu perdi a cabeça. Essa história de casamento me deixou confusa…

MAX

Casamento, tem graça… Você acha que eu ia deixar esse filho da mãe escorraçar minha esposa desse jeito? Sabe, Lúcia, eu te amo e sou fiel.

LÚCIA

Você pode até me achar cruel, mas eu preferia te ver morto a te ver nos braços de outra.

MAX

E eu prefiro morrer nos teus braços a viver nos braços de outra.

LÚCIA

Que lindo! Repete, vá!

MAX

Prefiro morrer nos teus braços a viver nos braços de outra.

LÚCIA

Tu é poeta pra caramba, hein?

MAX

Mas eu quero te dever mais do que já devo. Quero te dever a própria vida. Me solta, Lúcia, me solta!

LÚCIA

Não sei…

MAX

Você sabe que podem me liquidar a qualquer momento! Cadê teu pai?

LÚCIA

Tava no quarto dele tomando uns rabo-de-galo. A esta altura do porre, já deve estar dormindo…

MAX

Então vá lá e me traga as chaves. Depois você distrai o Barrabás como só você sabe. E nessa eu caio fora.

LÚCIA

Não, Max! Eu quero ir contigo!

MAX

Não dá, Lúcia. O Barrabás vai perceber… Já reparou como ele não tira os olhos de ti? Mas assim que a coisa serenar, venho correndo te buscar. A gente se casa nas burocracias todas e eu te levo pra Hollywood.

LÚCIA

Eu te adoro, te quero e te venero.

MAX

Rápido, rápido. Eu também te adoro, quero e venero. Ah, Lúcia, quando apanhar as chaves, aproveita e pega uns dois contos do teu pai, que eu vou precisar pro táxi. Rápido, vai!

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Black-out; breve interlúdio da orquestra, lembrando o tema de “O Meu Amor”

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Uma Canção Desnaturada – Vídeo

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