março 13, 2008
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- Desde a remota Antiguidade que a Arte se confronta com o Comércio!
Para entenderem um pouco melhor a essa afirmativa, passarei um breve histórico das influências dele nela, especificamente no que se refere às Escritas, base das análises.
A maioria das escritas apresentou quatro fases distintas:
Pictografia – Ocorreu quando a humanidade começou a desenhar as coisas que a cercavam no cotidiano, normalmente, se inspirando nos animais e nos astros. Por exemplo: O desenho rupestre de um Boi.
Ideografia – Nessa fase começamos a juntar pictografias num mesmo quadro para sugerirmos uma Idéia. Por exemplo: um boi com um homem ao lado já dava a idéia de que ele tinha um dono. Ou mesmo, uma seqüência de sol-lua-sol-lua-sol-lua sugeria que alguém tinha ficado no local por três dias inteiros.
Silabismo – Coincidiu com a descoberta das demais utilidades da Língua, além da natural Gustação, que suspeito ter precedido ao Raciocínio. Com ela, descobrimos os grunhidos mais elaborados e próprios a cada elemento pictográfico integrante da ideografia. Nasceram as primeiras sílabas pronunciadas.
Alfabeto – Do silabismo a ele foi um pequeno salto de milênios, ou séculos, ou mesmo segundos, pouco importa, já que todos são, apenas, unidades de medida do tempo.
Com a chegada do Comércio, originalmente, as mercadorias eram negociadas à base de troca, na chamada fase das Permutas. Como os comerciantes se adentraram em territórios, antes nunca sequer supostos, para negociarem os seus produtos, depararam com povos, ou mesmo tribos, que se encontravam em distintas fases da escrita.
Começaram a usar sinais gráficos para identificar os grunhidos diferentes de cada dialeto silábico e, rapidamente, construíram o Alfabeto capaz de torná-los compreensíveis aos diversos e distantes clientes.
Dos alfabetos, o que mais nos interessa é o grego, cujos caracteres deram origem a estes que usamos até hoje.
Diversas civilizações, inclusive a grega, tiveram a história marcada pelo afastamento dos Artistas, com o crescimento dos Escribas, no período de transição da Ideografia para o Silabismo, provavelmente já usado pelo comércio nas respectivas épocas.
Os gregos usaram de muita criatividade para justificar ao próprio alfabeto, vindo dos comerciantes Fenícios, com a lenda das Núpcias de Cadmo e Harmonia, onde ele, um fenício que procurava pela irmã, Europa, perdida em alguma ilha do Egeu; ensinou o alfabeto e acabou se casando com deusa Harmonia, sob a tutela de Zeus.
Foi assim que a Grécia justificou as suas Artes Escritas a partir de um Alfabeto Comercial Fenício, com as Bençãos de Zeus.
A partir daí inventaram a Moeda, e o alfabeto é o seu fiel servo até hoje, pois, bem trabalhado, é capaz até de convencer o cliente da velocidade em Quilômetros por Segundo ser muito maior do que a de Jardas por Quinzena, independente dos números.
Foi sobre esse Tripé Mágico – Comércio, Alfabeto e Moeda – que se fundamentou o Racionalismo para criar o, sempre novo, mundo das Ciências, Religiões e, infelizmente, Artes.
Será? Mas teria a Arte se entregue assim ao comércio sem resistir?
Não! Apenas permanece intacta por detrás do Alfabeto, que veio do Silabismo, que veio das Artes Plásticas antes da Língua entrar na jogada. Não podemos esquecer que o Alfabeto teve avós e bisavós Artistas e, se reparem bem, muito bisneto lembra tanto ao avô, ou àlgum bisavô…
Ela ainda pulsa forte e subliminarmente por detrás de cada sílaba que pronunciamos, descrita pelos caracteres, independente de Faustões ou Gugús promovendo os desgastados instrumentos do Tripé Mágico, aos domingos, nas “Máquinas de Ensinar”.
Por que será que as emissoras de televisão procuram colocar cores diferentes nas letras das suas chamadas? Será que é apenas para deixá-las mais simpáticas?
Como diria Zé Ramalho:
E eô vida de gado
Povo marcado
Povo feliz…
(Admirável Gado Novo)
março 12, 2008
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1954 – O Brasil ganha melhoria nos transportes ferroviário e hidroviário, Estação da Luz próxima ao porto da Ponte Grande, no rio Tietê, ganha a Eletrobrás, ganha a Petrobrás, ganha salário mínimo, perde a dívida externa e Getúlio se suicida.
Embora a tendência da minha obra seja a de obedecer à cronologia de edição das composições na forma de disco, uma vez ou outra elas serão encaixadas em momentos históricos para melhor compreensão das ações sociais como reagentes literários.
O samba-enredo Dr. Getúlio, parceria com Edu Lobo, surgiu em 1983 para a peça Dr. Getúlio, de Dias Gomes, e segundo o próprio Chico serviu de mote para Vai Passar.
Embora a tendência pejorativa, que o ano de 1983 nos sugeria pela transição democrática das Diretas Já, onde os militares devolveram aos civis a opção da escolha política, para fazer a letra Chico tinha que se basear em algo histórico contado. Não poderia lembrar, pois na época do Gegê o mais que fazia era escrever sensatos bilhetinhos, e o máximo que conseguiu foi:
Foi o chefe mais amado da nação
Desde o sucesso da revolução
Liderando os liberais
Foi o pai dos mais humildes brasileiros
Lutando contra grupos financeiros
E altos interesses internacionais
Deu início a um tempo de transformações
Guiado pelo anseio de justiça
E de liberdade social
E depois de compelido a se afastar
Voltou pelos braços do povo
Em campanha triunfal
Abram alas que Gegê vai passar
Olha a evolução da história
Abram alas pra Gegê desfilar
Na memória popular.
Foi o chefe mais amado da nação
A nós ele entregou seu coração
E não largaremos mais
Não, pois nossos corações hão de ser nossos
A terra, o nosso sangue, os nossos poços
O petróleo é nosso, os nossos carnavais
Sim, puniu os traidores com perdão
E encheu de brios todo o nosso povo
Povo que a ninguém será servil
E partindo nos deixou uma lição
A pátria afinal ficar livre
Ou morrer pelo Brasil…
Em 1983 voltarei a tocar no assunto, pois a exemplo dessa obra, um aflito Chico também comporia Pelas Tabelas, onde temia pelos, então futuros, mensalões e sanguessugas atuais.
A ocasião, 83, também ficaria marcada por esta bomba do Pelé: – O povo brasileiro não sabe votar! -Pegou na veia e botou no ângulo ou deu de canela e mandou lá pra Concha Acústica do Pacaembu?
- Escolha com cuidado e tecle o que quiser!
1956 – JK sobe ao poder, troca os nossos extintos credores britânicos, fiéis desde D.Pedro I, pelos renovados e corrosivos americanos, para construir uma cidade central mais perto de Belo Horizonte. Pede mais dinheiro para construir estradas de rodagens, trás as multinacionais da indústria automobilística para encherem as estradas, vê o nascimento da Bossa-Nova, ajuda o Concretismo de Ezra Loomis Pound, ex-ministro da cultura de Mussolini etc.
1959 – A família Buarque de Hollanda volta ao Brasil e a S.Paulo.
1960 – JK transfere a nossa capital para a tal cidade, que anos após Chico batizaria, em Fazenda Modelo, como “Juvenópolis”, e em Vai Passar como “Estranha Catedral”; assume a nova casa, começa a despachar o contingente de Pedros Pedreiros para S.Paulo, envia num Douglas DC-10 os concretistas para a crítica literária da mesma cidade e entrega ao sucessor Jânio Quadros uma capital novinha, um país endividado e sem seu patrimônio monazítico, trocado com os americanos por sobras de trigo.
1961 – Jânio agradece o presente, assume, lembra do Getúlio e renuncia pelo mesmo motivo. Ninguém sabe.
1964 – O general Humberto de Alencar Castelo Branco sobe ao poder em 31 de Março. Juram as más línguas que foi em Primeiro de Abril. Começa outra ditadura.
1964 – Chico compõe Tem Mais Samba!
A Alvorada Das Letras
março 12, 2008
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1944 – O Brasil estava no período histórico do penúltimo ano da ditadura Vargas caracterizada por guerras internas, criação da nossa primeira constituição, capital no Rio de Janeiro, segunda guerra mundial no fim, sistema ferroviário bem evoluído graças a investidores ingleses, criação de sindicatos, dívida externa caindo, força política do Integralismo no governo, imprensa incentivando o americanismo e malhando o Getúlio.
Embora tivéssemos um regime de extrema direita, havia uma elite socialista barulhenta e atuante, que por agir nas classes trabalhadoras, acabou por conseguir a criação dos sindicatos, anunciando o salário mínimo como meta. Tendo o recém fundado PTB como situação, deduz-se que o PT estava nascendo por aí como oposição socialista.
Era esse o nosso quadro histórico quando, no Rio de Janeiro, nasceu Francisco.
1945 – A esquerda fica mais barulhenta ainda pela imprensa, os americanos viram um outro tipo de heróis em Hiroshima, a ditadura cai e Getúlio cai junto.
1946 – Sérgio Buarque de Hollanda muda para S.Paulo.
1950 – Getúlio volta à presidência pelo voto popular com grande maioria nas urnas.
1950 – Sérgio Buarque de Holanda muda para Roma e seu filho Francisco deixa o seguinte bilhete para a avó:
“- Querida vovó. Estamos mudando para a Itália. Quando voltarmos provavelmente a senhora já terá morrido. Eu vou me tornar um cantor famoso e se a senhora sentir saudades é só ligar o radinho lá no céu que me ouvirá.”
Pelo que fui informado essa foi a primeira obra do autor.
A Missão do Artista
março 12, 2008
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A grande dúvida: – Como é que começo a escrever sobre a minha obra? Pesquisar Chico era muito mais fácil do que escrever sobre ele. Tal problema persistiu até o dia em encontrei, nas prateleiras de um sebo, um livro bem velho e com o seguinte título: “Despertemos a Nação”.
Intrigado com a caretice do título folheei, e folheando encontrei:
A Missão do Artista
O artista é o homem que nasceu para dizer alguma cousa. É uma espécie de orador official de uma série de avós que foram mudos. A palavra afflorou, aqui ou ali, num tataravô que foi meio poeta, num tio-avô que era meio maluco; o espírito humano andava querendo dizer ao infinito as suas impressões pela bocca daquella família. Balbuciava, resmungava e as gerações se succediam, até que afinal, porque o atavismo levou accesa a labareda do desejo de dizer, sahiu um homem para falar: e falou. E viu-se, então, que toda a sua necessidade era exprimir-se de qualquer geito mais á mão. Elle tinha certas cousas para as quaes precisava procurar certas palavras, certas phrases, certos rythmos. Creou muito, é verdade, mas plasmando o material encontrado e querendo, antes de tudo, ser entendido. Entendido por todos, até pelas pedras. Esse é o artista. Elle não veio para impor um idioma, mas para crear um estylo e expor uma interpretação do mundo.
O belo pensamento era quase exato para justificar a minha obra, baseada na de um artista, pois trazia tudo o que suspeitara de Chico até então. Ligava obra a autor, autor a cidadão, cidadão ao mundo que o gerou, e tal mundo ao Atavismo das gerações familiares que o justificavam por sedimentação histórica.
O “quase exato” foi pelo fato do sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pai do Chico, não ter sido tão mudo assim, como sugeriu o texto acima.
Infelizmente a coisa não era tão simples quanto supunha, pois comprei e li o livro. O próprio título me exigia prudência, pois Chico já era um socialista assumido, e o autor do livro, editado em 1937, se chamava Plínio Salgado, o pai do Integralismo, movimento de extrema nacionalista surgido na famosa Semana de Arte Moderna de 1922.
Assim como em tal semana surgiram termos do tipo “Nacionalismo Espontâneo e Manifestações Integrais”, a União Soviética engatinhava a largas joelhadas no cenário filosófico mundial. Ora, se Chico era um socialista assumido é porque a sua formação educacional lhe sugerira, logo, Sérgio e Plínio jogavam em times opostos numa ocasião em que tinham vinte e vinte e sete anos respectivamente.
O primeiro com a Razão e o segundo com a Espontaneidade (criança não usa dividir seu brinquedo com outra). Um racional e outro nacional. Sérgio gerando e moldando Chico. Plínio explicando o resultado. Plínio traduzindo Sérgio. O poder da arte forjando ligas difíceis, mas não impossíveis.
Optei por manter o pensamento, usei minha velha máquina de escrever para tornar legíveis alguns rascunhos e entreguei à Ana.
Depois de alguns meses voltei a S.Paulo e ao encontrá-la me contou que havia entregue o material a ele. Lavei as mãos.
Quanto à Missão do Artista creio ter sido bem absorvida, pois alguns anos mais tarde nasceram estes versos: “O meu pai era paulista / Meu avô pernambucano / O meu bisavô mineiro / Meu tataravô baiano/…. / To na estrada há muitos anos / Sou um artista brasileiro”.
A Arte havia superado qualquer Pré ou Pós Conceito social.
Esse breve relato histórico de alguns efeitos poéticos observados na obra, ao mesmo tempo em que davam a ela maior grandeza, por serem compreendidos somente pelo próprio autor, o levavam a uma frustração bastante a extrair da grande trama de personagens, vindos da interligação da obra musical, qualidades comuns aos centrais dos livros Estorvo, Benjamim e Budapeste; pouco diferentes do narrador de Fazenda Modelo.
Inocentes, alienados e surrealistas prudentes embutidos num sociológico exterior misterioso. Algo tão absurdo quanto um surrealista Salvador D’Alí interpretando Descartes, pai do racionalismo.
Algo tão difícil quanto Sérgio e Plínio jogando juntos.
– Será uma luta do tipo Ted Boy Marino X “Fantomas” da Ópera! Muitas emoções e participações de técnicos gregos discutindo com árbitros mesopotâmicos, diante de uma ostensiva platéia bíblica! Pancadaria pura que terá até plágios italianos e angolanos abaixo da linha da cintura! Inesquecíveis quatro assaltos: Fundamental, Poético, Místico e Resto.
Na voz inconfundível do DJ Enzo de Almeida Passos e sua Vitrola Mágica.
– Que soe o gongo, ou baixe a agulha!
Ciências x Fantasias
março 12, 2008
· Arquivado na categoria Introdução
Citando Beatriz, para se entender uma composição do Chico é necessário ter em mãos um dicionário e, se possível, uma enciclopédia, pois a composição começa pelo nome, que pode ser um simples verbete ou um referencial histórico. Vejam o ocorrido.
Além de ser um venenoso peixe de fundo do mar, cuja natural camuflagem o assemelha a uma pedra, quando Beatriz abre as nadadeiras surge um verdadeiro arco-íris, lindo; mas convém não levar nenhuma ferroada desse peixe Scorpinídeo, pois o estrago é bem grande e exige um cuidado urgente.
Mas será que só um peixe seria o bastante para inspirar uma composição tão linda? Não. Beatricce Portinari foi a musa inspiradora de Dante Alighieri na Divina Comédia, que o levou do Inferno ao Paraíso.
“Sim me leva para sempre Beatriz / Me ensina a não andar c’os pés no chão”. A melodia despenca 12 notas se contrapondo ao texto em que o personagem pede para ser alçado, elevado.
Sem considerar os mesmos efeitos melódicos de Beatriz, cito a composição Angélica (1977), como uma das mais significativas no aspecto da relação texto / título, pois trata da jornalista Zuzú Angel que teve um filho, supostamente, torturado e morto pelos militares em 68.
Na contracapa do LP Almanaque, aparece ao lado da letra da composição um alaúde antigo. Esse era um dos significados do termo Angélica que observei no dicionário. Também descobri que o termo significa a fixação de certa harmonia na execução da música. Isso explicava os versos: “Quem é essa mulher / Que canta sempre o mesmo arranjo”.
Ao passar um dia pela igreja São Bento, em São Paulo, escutei um bonito canto e fui pesquisar. Eram monges Marianos entoando seus cantos litúrgicos do Círio Pascal.
Estávamos nele, e os Marianos, numa espécie de cortesia, cantavam para os irmãos Beneditinos. Conversando com um deles, fui informado que tal canto era conhecido por Angélica e representava uma peregrinação anual dos Marianos em tal data religiosa.
Achei bonito, curioso pelo nome e fui embora. A ficha só foi cair à noite: – Marianos são adeptos de Maria que teve um famoso filho torturado e morto, a exemplo do que se supos ter ocorrido com o de Zuzú Angel.
Posteriormente vim a conhecer Ana Buarque, irmã do Chico, que desconhecia esse terceiro significado muito mais adequado que os anteriores, enquanto Chico só conhecia os outros dois, segundo ela. Desconfiei, pois na composição a mulher cantava também “como dobra um sino”; mas fiquei na minha.
Ana pediu que lhe escrevesse um resumo das análises.