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Conto x Obra

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           Enumerei alguns itens do conto para comentar os futuros desdobramentos, bem como mostrar as primárias técnicas de redação do Chico, que posteriormente deram origem aos livros mais consagrados, que carregaram o mesmo humor por décadas.

          Vários itens dizem respeito a pensamentos de personagens das composições musicais futuras ou contemporâneas ao conto.

1 – Ulisses chama Penélope de Princesa, mas o primeiro homem da Terezinha (Ópera do Malandro) a chamará de Rainha.

2 – Esse texto, “Ela e seu tricô” é idêntico a um dos versos da composição Ela e Sua Janela.

3 – Aqui houve um certo humor no pensamento, pois tentar abrir as janelas e elas não deixarem por estarem tão emperradas quanto o rosto de Penélope é umas das características de Chico em descrever de forma humorada a alguns dos seus retratos cotidianos.

4 – Aqui o Ulisses cobra da Penélope umas posturas conformistas, iguais à da mulher que virá como personagem da composição Com Açúcar Com Afeto.

5 – Aqui outro figurativo de humor: “Cadeira rangendo de impaciência”.

6 – Olha o primeiro homem de Terezinha novamente: “Me mostrou o seu relógio”.

7 – Ulisses vendia peças de reposição para automóveis, e em Com Açúcar Com Afeto temos os seguintes versos: “Qual o que / No caminho da oficina”.

8 – Todos aqueles feitos heróicos inventados por Ulisses nos sonhos nada mais foram do que os versos: “Vem saber quantas vitórias, morena / Por mares que só eu sei”, da composição, já vista, Morena Dos Olhos D´Água.

9- “Deslocar Montanhas” é coisa de bêbado mesmo, ou talvez, de alguém sóbrio, mas paradoxal: “É assim como uma música parada / Sobre uma montanha em movimento”. Agora ficou a dúvida: – Chico ainda bebia quando escreveu Morro Dois Irmãos?

10 – Os personagens que homenagearam ao Ulisses, em seu sonho, são os mesmos que voltarão à obra para implorar à Gení que os salve do comandante do Zepelim.

11 – Nove anos depois do Manuscrito, Chico escreveu a peça Gota D´Água, baseada numa outra tragédia grega, os Argonautas, enquanto Ulisses é o herói da Odisséia, o entanto, em Gota D´Água, o “Bem-Querer” do Ulisses acaba virando título de uma das composições da peça. Claro que com um enfoque inverso, pois no último caso é cantado por Joana, nome dado por Chico, na adaptação da tragédia para a realidade brasileira, à original Medéia, a feiticeira.

          

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Ulisses – O Conto

 

 

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            O primeiro passo do tal “caminho incerto”, visto na introdução, se chama Ulisses, que colocarei na íntegra.

            Ulisses chega de galochas, barba por fazer, embrulho fôfo, paletó triste… Mas Ulisses chega de braços enormes e eufóricos:  

                                                                             

—Penélope, ô Penélope! Abre os olhos e as janelas! Abre o peito, minha princesa, que teu rei chegou! (1) 

            

            Do rosto cinzento, Ulisses descobre um sorriso mágico. E do chapéu marrom cansado, ei-lo agora e desenterrar coelhos. E bandeirolas, bibelôs, bonecos, mil cartões postais!

            

—Eh, Penélope, quanta viagem, quanta luta… Mas veja só! 

                

           E mais retratos, fantasias, óculos novo, sabonete, barbante e outros encantos menorzinhos. Mas o ato chega ao fim, o chapéu sem mágica e Penélope em branca estátua, ela e seu tricô. (2)

            

—Mas como, Penélope, você não escuta?

                     

            Ulisses quer abrir as janelas, as janelas não deixam. O rosto de Penélope também está emperrado. (3)

            

—Penélope, cadê seu sorriso? Suas saudades, seus braços, seus amores, cadê? Mas qual, você não larga êsse tricô. Ora, mulher, seu Ulisses chegou e pronto! Cadê meu jantar, cadê meu jornal, cadê? (4)

                   

            Agora parece que Ulisses se irritou. Sentado de costas para a mulher, decide-se pelo silêncio absoluto, sinal de protesto. Só se ouve o treque-traque-treque-traque, que é a cadeira rangendo de impaciência (5). Depois Ulisses se levanta e põe-se a marchar de parede a parede, no mesmo silêncio zangado. Fora o ploque-ti-ploque, que é o passo molhado da galocha. Enfim, a tosse de Ulisses, o pigarro, o estalar da língua, o pontapé na cadeira e o sôco na mesa.

            

—Chega! Penélope acorda!

            

            Parece mesmo adormecida. Ou morta, tão pálida e imóvel. Mas os dedos milagrosos continuam trazendo a lã, que vai criando formas, que desmaiam pelo chão. A perplexidade de Ulisses:     

            

—Penélope, você está louca! Parece que andou sonhando, flutuando por outros mundos, as lendas, as luas, não sei… Parece que espera outra pessoa, outro Ulisses, um fantasma… Seu Ulisses sou eu, olha, sou gente, sou duro, sou quente, tenho relógio (6) e tenho emprego, óculos e guarda chuva, nariz e paletó… Um Ulisses meio desajeitado, um pouco balôfo, está certo. Mas sempre o seu Ulisses, queira ou não!      

            

            Mas que nada, nada com nada. Uma Penélope impassível e um inútil Ulisses. Duas cortinas bem desanimadas e uma natureza morta. Quatro paredes sem côr, surdas, mudas e uma mulher feita parede.

            

—Talvez você espere contos fantásticos, passagens inéditas e empolgantes. Mas não, Penélope, não ouvi o canto das sereias. Certo que viajei, viagem a negócios… Sei lá de sereia nenhuma! Lido com rolamentos e virabrequins, você bem sabe, peças de automóveis (7). Quem dera fazer você sorrir, vibrar, ficar toda sacudida de ouvir aventuras ricas de emoção! Mas revendo agora… Sinto muito, não me ocorre nada mais alegre. Havia uma piada, mas me esqueci. E depois, não tinha graça nenhuma essa piada. O homem que contou, contou por despeito. Coisa dêle mesmo, acho, negócio de mulher, negócio mal feito… Outras pessoas que conheci nada me disseram de novo. Quem tratou comigo, tratou mesmo de negócios. Quanto ao resto, não me ocorreu perguntar, a gente não dá importância. É bem como se a vida fosse um mal negócio.

            

            Sentado no chão, Ulisses está coçando a cabeça sem mais idéias.

            

—A não ser que você queira ouvir meus sonhos. Porque sonhar, a gente sempre sonha, mesmo quem viaja a negócios. Entre credor e devedor, às vezes fui mais que caixeiro viajante. Fui inclusive, se isso, se isso lhe impressiona, o príncipe encantado dos seus sonhos. Intrépido cavaleiro a desafiar abismos inventados… Ah, monstros tão monstros inventei que mesmo em sonho tive medo! Gigante de um olho só! Êsse aí trazia consigo todas as desgraças, a miséria, o câncer e a própria bomba atômica… Imagina, Penélope! Só de fingir que você estava lá me assistindo, enchi o peito e fui à guerra. – Ulisses vai matar o monstro! que murmuravam das arquibancadas. – Ulisses vai salvar o mundo, que ainda ouvi (8). Encarei enfim o animal terrível. Gritei um nome feio, não ouvi. Atirei uma pedra, mas que pedrinha besta… Resolví então usar da astúcia. Puxei do bolso traseiro uma garrafa de aguardente, dessas de estourar peito, deslocar montanhas…(9) Foram duas, três garrafas, o monstro era duro na queda! Do mesmo gargalo bebemos quase fraternalmente… O monstro era um legítimo alcoólatra! Virou seis litro dum gole só, contou pornografias… Rimos muito, cantamos junto! E quando a festa acabou, quem estava bêbado era eu, rolando pelo chão, vomitando asneiras… E o monstro ali de pé, num ar austero de contrabaixo, olhou-me com desprezo. E pra encurtar a história, esmagou sem dó minha carcaça inútil, e saiu por aí chutando coisas. Quanto a mim, fui enterrado com honras de herói nacional. Vieram beatas e políticos, prantos e discursos, corôa de flôres…(10) Finalmente, virei busto em praça pública, mato crescendo e cachorro regando em redor da minha posteridade. Gostou?

             

            Ulisses procura e procura dentro dos olhos da amiga. Mas qual, nem siquer um desprezinho. É, Ulisses pode chorar todas as lágrimas, que Penélope estará impermeável. Ulisses pode pular, berrar, bater…inútil! Só lhe resta um longo bocejo sem desespêro. E examinar o próprio corpo com algum desgôsto. A barriga mole de guardar cerveja, os dedos finos de contar dinheiro, as unhas sujas, as pernas bambas… E contudo é preciso não desanimar, está ali o mesmo que partiu, a mesma casa que deixou e uma Penélope que lhe foi fiel. Faltam flôres, quem sabe… Ou talvez falte uma Penélope corada e atenta, correndo de porta a porta, sorrindo, saltitando, cantando hinos, dançando valsas e abrindo vinhos pela volta de Ulisses.   

            

—Penélope, pela última vez, se você abrisse as janelas… Essa luzinha elétrica e bêsta, êsse diabo de tricô… Penélope, você vai cansar a vista. Vai usar óculos, vai ficar velha e vesga, varizes, reumatismo, tuberculose, chi, Penélope… Além do mais, êsse tricô vai ficar muito grande para o meu corpo. Meus ombros não são tão largos, meu peito é metade disso. Creia, Penélope, o Ulisses que você inventou não lhe serve. Ele sabe matar monstros, varar tempestades, enganar os deuses… Mas eu sei truques de bem-querer (11). Você tem queixas de mim, sim, já sei. Mas agora sou um novo Ulisses! Se você quizer, os sinos hão de cantar, hei de compor poemas, promover festanças, virar criança, fazer pirueta, soltar balão! Prometo não beber na rua, consertar o cano da pia, comprar a tal televisão. Vou deixar crescer o bigode e você vai ficar toda orgulhosa! E enfim vamos fazer o nosso filho, um meninão rechonchudo, a cara do pai, hein? 

            

            Mas não, Penélope não vai acordar. Ulisses esgotou o repertório, perdeu o fôlego, relaxou os músculos… Afinal, amanhã é preciso trabalhar. Outra viagem, quem sabe, novas aventuras…Ulisses estica as pernas, acomoda os ossos, boceja mais uma vez…E adormece ali mesmo, de galochas.

              

 

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