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Amarra Teu Arado A Uma Estrela-Conto

Não sei se ocorreu, está ocorrendo ou ocorrerá.

A Estação de trem é a da Mooca. Há uma música saindo daqueles velhos alto-falantes: O Eterno Deus Mú Dança. Surge do nada um enorme trem chamado Expresso Einstein, com a seguinte propaganda:  – Viaje na Luz!

Acho que entro nele, as portas fecham e só abrem novamente horas após. Por sorte,  a marmita está bem guarnecida e posso dar um trato na fome, mas é estranho que as horas sejam tão rápidas quanto a fome súbita que me assola. De repente o trem para e as portas abrem.

A estação tem um nome sinistro: Estação Erech. Desço e vejo que os moradores são bem diferentes, mas sou bem acolhido por um festivo povo. Todos com longas batas e eu com a minha roupa de trabalho: Agasalho de Ed. Física e tênis branco.

Conversam comigo por mímica e, bem perto, vejo o mesmo Deus Mú da estação dançando com o filho Damuzi e a rainha Inanna.

Já é primavera, ou será que já foi, pois quando embarquei há pouco na Mooca era outono. Agora o povo começa a saudar a chegada de um ídolo que viajara, talvez para longe em distância ou tempo.

Pelo que posso entender, seu nome é Gilgamesh. Quase que nem o ídolo que fez a música que escutei lá na Estação Mooca, o Gil.

Parece ser um grande artista, posto que já está todo cercado por repórteres, ávidos pelas narrativas da viagem em que enfrentou um Touro Sagrado de uma deusa chamada Ishtar.

Ele viajou com um amigo, o Enkidú, que o ajudou a fazer o churrasco com a carne do touro. Pelo que gesticula no momento, houve um outro episódio. Um combate onde o companheiro morreu. Agora explica que ouviu conselhos de um velho estaleiro…

Parece que tratou também com o amigo um Pacto dos Olhos, onde um deu ao outro, que estava em guarda, os próprios olhos enquanto dormisse para que tivesse vigilância dobrada.

Com Enkidú já morto, Gilgamesh teve que cruzar um Vale das Trevas e clamou: – Oh Enkidú, Te dei meus olhos pra tomares conta! Agora dai-me os teus! E com mais os dois olhos do amigo conseguiu cruzar o tenebroso vale.

Os repórteres anotam tudo numas placas de barro. Têm um Alfabeto parecido com o nosso, mas placas de barro, ao invés do papel, me confundem a cabeça. Não são repórteres os escreventes. Têm outro nome, Escribas. Será que vim parar no Egito? 

Virou noite de repente. No céu tem uma bola de fogo vindo em nossa direção. Pensei até em me mandar, mas como o povo não está nem aí pra bola, verei o que acontece. Agora a bola ficou mais nítida. É um esquisito carro de fogo, que mais parece um arado puxado por cavalo.

O Gilgamesh está subindo nele todo contente. Outra bola de fogo se aproxima pelo céu. Parece uma pequena estrela, na qual atrelou aquele seu fulgurante arado de passeio. Estão agora subindo aos céus entre cores, brilhos e os Escribas repórteres rabiscando tudo nas tabuletas de barro.

Escrevem a placa, guardam num escritório e voltam. O trem buzinou me chamando e embarco de novo. Dentro do vagão os alto-falantes anunciam: Deixando a Estação Erech. – Próxima estação, Mooca Mais Quarenta!

Desembarco rapidinho e percebo que a estação é a mesma da Mooca. Como a coisa está boa, comprarei alguns sanduíches e embarcarei novamente. Só que desta vez o trem, aumentando a velocidade, anda só alguns segundos e abre as portas.

Está escrito: Estação Iraque.  Está rasurado, pois há um nome por baixo, e é o da mesma Erech, só que mudou muito, o povo não parece tão festivo. De repente começa um bombardeio aéreo e percebo que o alvo é o tal escritório dos Escribas. Corro de volta para o trem e nos mandamos.

Ele anda alguns segundos de ré e volta pra Mooca. Desembarco de novo e ele some. Olho no relógio e vejo que perdi a primeira aula. Embarco novamente num trem normal e vou trabalhar em Santo André.

Estamos no ano da graça de 1989. Na volta pra casa, dos mesmos alto-falantes da Estação Mooca, escuto outra música do Gil, que me faz lembrar do louco episódio vivido um pouco antes de ir dar as minhas aulas em Santo André. Amarra Teu Arado A Uma Estrela, que diz:

Vídeo de JulioRwoger
Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces ou polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor
    
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus”.

Em 1851 o arqueólogo francês, Oppert, fazia escavações próximas a Bagdá, quando de repente gritou: – Suméria!

Quarenta anos depois, no mesmo local, o arqueólogo inglês, Smith, continuou as escavações de Oppert e foi aí que a História soube de uma civilização pré-diluviana, dona de escrita alfabética e ensino superior em Lexicografia Agrimensura e Contabilidade.

As primeiras escavações já resultaram no primeiro épico que a humanidade conhecera até então: A Epopéia de Gilgamesh que, todavia, não tinha epílogo, logo, a Imortalidade que o herói buscava no começo da epopéia, não possuía um fim descrito nas tabuletas de barro onde havia sido registrada.

Para a nossa sorte histórica, o Hamurabi, rei dos primeiros povos semitas a tomarem a Mesopotâmia dos Sumérios, registrou toda a história deles em Escrita Cuneiforme Silábica, feita em tabuletas de barro duplas: Escrita em placa -> cosimento -> nova camada de barro com a mesma escrita – novo cosimento; inventando assim o ancestral Xerox Argiloso.

Todas as placas apresentavam duas escritas dispostas lateralmente. À esquerda, a Escrita Alfabética Sumeriana, e à direita uma tradução dela por uma escrita menos evoluída, a dos Cuneiformes Silábicos Semitas.

Em seguida vieram os povos Assírios, do semita Assur, e dentre eles, para a nossa segunda sorte histórica, o rei Assurbanipal, que reuniu todo o acervo do Hamurabi numa biblioteca construída em Ninive, cidade próxima à atual Bagdá, que ficou conhecida historicamente como a Biblioteca de Assurbanipal.

Como a Mesopotâmia – de Meso Pótamus (entre pântanos) – dos rios Tigre e Eufrates, após ser invadida diversas vezes por povos semitas e camitas inferiores, quando comparados aos ancestrais Sumérios, acabou ganhando uma famosa construção, que é bem um exemplo da inferioridade cultural dos povos invasores. A Torre de Babel.

Construída durante gerações, o principal objetivo dos construtores da Torre de Babel era o de conseguir um menor caminho para chegar a Deus.

Idéia semelhante aos dos nossos ancestrais, semi primatas, que buscando alcançar a Lua subiam  em árvores cada vez mais altas. O fato da região ter recebido a povos bárbaros, com distintas linguagens, acabou mudando a essência filosófica da torre.

Construída originalmente para facilitar o acesso a Deus, a torre acabou se tornando um símbolo do “Desentendimento entre os Homens”, já que cada andar dela pertencia a um grupo de invasores bárbaros, cujas escritas atrasadas e comportamentos retrocederam, progressivamente, o espaço original de um povo pacífico e culto, em várias  e breves tribos  guerreiras e ignorantes.

Babel deu à região o nome de Babilônia, que acabou ganhando o mesmo significado de desentendimento entre os homens. Mais ou menos como ocorre atualmente no Oriente Médio, que por sinal ainda é lá.

A Biblioteca de Assurbanipal ficou sob a tutela do atual Iraque – de Erech (famosa capital da Suméria) – que ao contrário da maioria dos povos árabes e semitas, hoje habitantes da região, representa o último povo derivado dos ancestrais Sumérios, cuja posterior influência camita retrocedeu pela comum forma religiosa.

Do pouco que se sabe acerca da biblioteca, uma das informações diz que Saddam Hussein permitiu a uma equipe de antropólogos alemães que a estudasse e reorganizasse em outra localidade.

Em 1991, cem anos após as primeiras escavações de Smith, tivemos a Guerra do Golfo Pérsico, com intenso bombardeio a Bagdá e arredores, mostrando que o Efeito Babilônia poderia morar em qualquer lugar, pois cruzou continentes, mares e originou novas guerras, via USA.

 Logo em seguida aos bombardeios, Saddam chamou uma nova equipe de antropólogos alemães, que encontrou nas ruínas do que um dia fora a Biblioteca de Assurbanipal, algumas novas tabuletas de barro.

Eram os originais do epílogo da Epopéia de Gilgamesh, contando ter o heroi embarcado num Carro de Fogo com a sua ferramenta de arar e a sua espada, que atrelado a uma estrela partiu para a infinita vida celestial, ou seja: A Imortalidade.

O Pacto dos Olhos – Te dei meus olhos pra tomares conta – tratado entre Gilgamesh e Enkidú, que acabou virando um ditado iraquiano, foi usado por Chico Buarque na composição Eu Te Amo, feita em parceria com Tom Jobim, com possível uso do épico resultante do trabalho de Smith em 1891, já que Sergio Buarque, pai do Chico, era historiador.

As pesquisas históricas mais recentes vieram à tona só em 1993 e, curiosamente, Gilberto Gil gravou Amarra Teu Arado a Uma Estrela em 1989, ou seja, quatro anos antes da História saber como Gilgamesh alcançou a Imortalidade no epílogo da epopéia.

Quanto à minha louca viagem no Expresso Einstein, com todo esse Paradoxo no Tempo, a Equação da Contração do Tempo, do próprio  Einstein, sugere ser o meu sonho, ou o do Gil, bem possíveis:

Quanto mais perto da velocidade da luz for a do trem, maiores serão as diferenças nos tempos, do trem em que estamos, com o da estação em que nele embarcamos.

Por exemplo, se o trem viajar a uma velocidade diferente um micron dos 300 mil km/s da Luz, algumas horas de viagem nele equivalem a próximos, ou distantes, quatro mil anos de espera na estação. Se for menor ainda a diferença, bastam alguns momentos para distar milênios entre o trem e a estação.

Supondo que a nossa Luminescência, conhecida por Alma, conseguindo se livrar do lerdo corpo que a retarda, é bem possível que viaje quase à velocidade da luz. Se é difícil para os humanos normais, certamente é muito mais fácil para os poetas.

- Será que o Ministro Relativista andou pegando um trem esquisito la na Mooca e escutado: – Próxima estação, Suméria Menos Quarenta Séculos?

Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de “Bom Sucesso Pra Depois”…
O trilho é feito um brilho que não tem fim…    (Expresso 2222)

http://mpbsapiens.com/expresso-2222/

         
“De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio…”   (Parabolicamará)

http://mpbsapiens.com/parabolicamara/

Óoooooooooh! Será que não?

Obs. Conto extraído do livro Tapete de Mitos, que escrevi após constatar na MPB muitos casos semelhantes ao deste conto, quando o poeta atira o verso em uma direção, que a sua consciência supõe, e acerta em alvos jamais imaginados, guardados na certeza do seu inconsciente.

O meu “Bom Sucesso” é um trocadilho que fiz com o original Bonsucesso, que é um bairro do Rio de Janeiro.

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O Mestre-Sala Dos Mares-Conto

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Faz muito tempo.

Fui procurar um amigo na Galeria Pajé – SP. Vendo que a sua antiga sala virara um escuro estúdio fotográfico, temeroso adentrei à procura do Ramirez, mas só encontrei um fotógrafo russo com estranhas roupas da década de 40.

Perguntei pelo amigo Ramirez e o estranho fotógrafo pediu-me uma foto dele. Não a tendo, pois ninguém costuma andar com fotos de amigos na carteira, insisti e o russo me mostrou algumas abreugrafias para tentar reconhecê-lo pelos pulmões.

Reparei também que havia sobre a mesa um velho gibi do Tio Patinhas: O Holandês Voador; largando então a simpática chapa dos pulmões e me apossando do gibi.

De súbito, uma câmera disparou um flash vermelho duplo: Um em minha direção e outro na do gibi. O russo pegou o filme e preocupou com o resultado: Eu e o Tio Patinhas dentro do navio Holandês. As últimas palavras que lembro foram dele gritando: – Você antrou no Univerrso Parralelo!

Ao dar por mim, estava no passadiço de um Navio Negreiro, com minha roupa de moto, diante de um velho Comandante dando as suas últimas instruções, em vida, ao seu Imediato, um homem negro.

O navio era uma corveta chamada Dianna, pertencente ao Comandante José Marques de Sant´ Anna. Foi quando o negro virou pra mim e disse: – Innocêncio Marques de Sant´ Anna a seu dispor, e o senhor?

Ainda sem entender o que se passava, tentei um salvador “Veja Bem”, ele balançou a cabeça e mandou que o seguisse. Pendurei o capacete no timão do navio e fui atrás em direção ao tombadilho.

Estávamos num porto e pela quantidade de homens negros com poucas vestimentas suspeitei se tratar da África remota. Entramos num forte chamado São Jorge. Innocêncio conversou algo com um rei chamado Adandozan, saiu junto com dois outros negros trajados com roupas multicoloridas. Depois vim a saber que eram embaixadores; voltamos ao navio já carregado com escravos e zarpamos.

Tudo acontecia muito rápido, já que depois de instantes chegávamos a Salvador, que se encontrava bem agitada por um levante de escravos Malés. Os embaixadores eram conhecidos deles, logo, seriam bem impopulares em terra firme.

Demos um tempo de alguns segundos, anoiteceu subitamente, o porto esvaziou, Innocêncio escondeu-nos na casa da viúva do Comandante José de Sant´Anna, saiu e voltou logo em seguida. Embarcou-nos novamente e zarpamos.

Depois de constatar que o capacete permanecera aonde o deixara, sem que o timão se movesse, subitamente percebi que estávamos adentrando em novo porto. Pelo sotaque dos estranhíssimos transeuntes do cais, suspeitei estarmos em alguma localidade portuguesa.

Em seguida, Innocêncio nos levou a uma espécie de palácio, que depois descobri ser o Palácio Real de Lisboa,  onde só os três conversaram com um rei, cuja fisionomia não me era estranha, mas ainda indecifrável. A dúvida durou até o momento em que Marieta Severo, vestida à carater, passou rapidamente ao meu lado e foi em direção a eles.

Encontrando alguém mais contemporâneo, e carente de maiores informações acerca de tudo aquilo, tentei me aproximar dela na esperança de que se lembrasse da ocasião em que me pagou um sorvete no Festival da Canção de 1966. Infelizmente fui contido por um grupo de polidos eunucos.

Pelas vestimentas de Marieta pude me localizar melhor no espaço e no tempo. Era a Carlota Joaquina no Palácio Real de Lisboa, logo, o rei só poderia ser o D. João VI.

Já um pouco mais aliviado pela descoberta, andei pelos arredores notando que a minha roupa de moto causava grande interesse nos fidalgos transeuntes. Pensei no Ramirez vendendo suas coisas do Paraguai pós guerra numa corte em tempo de pré guerra.

Embora a Pré Guerra fosse em relação à que o Brasil teve com os vizinhos paraguáios, se encaixava também naquele instante, pois Lisboa estava prestes a ser invadida pelas tropas de Napoleão Bonaparte.

Terminada a conversa, D.João carregou alguns barcos com as coisas da esposa Carlota Marieta, pegou o cofre, pôs Innocêncio na Comissão de Frente da esquadra e rapidamente zarpamos todos em direção a algum lugar possível e inimaginável.

Depois de minutos descobri, por um dos dóceis eunucos, que estávamos chegando à Ilha de Cabo Verde, aonde nos separamos. A esquadra do D. João veio para o Brasil e nós fomos com o Dianna para aquele forte aonde tudo começou.

Deixamos os embaixadores por lá, pegamos mais um cento de escravos e notei, pelas características das águas, que seguíamos para Salvador. Ao chegar, Innocêncio ficou bravo, pois D. João já se mandara para a capitania de São Tomé, cujo belo porto chamava Rio de Janeiro, e o combinado não fora bem aquele.

Não deu outra. Conferi a situação do meu capacete e fomos atrás.

Tinha muito tempo que Innocêncio não negociava por lá. Apesar de curta, a viagem foi agradável, pois pude identificar, em algumas encostas, escarpas falésias com várias imagens esculpidas dos meus futuros ídolos de uma MPB que estaria ainda por vir.

Chegando ao porto do Rio de Janeiro, Innocêncio descarregou o seu produto vital na Rua da Alfândega, leiloou, pegou a grana e voltamos para Salvador em nova e agradável viagem, desta feita com um número bem maior de ídolos esculpidos nas falésias.

Lá chegando, fomos até a casa da viúva, que aparentava estar aflita por novas notícias e finanças. Innocêncio tranquilizou-a com boa soma de dinheiro em espécie e jurou-lhe igual fê-lo a José, quando entrei na história.

Comprou mais um barco, que batizou como Dragão, ficando a corveta Dianna a cargo de um outro negro, Manuel Luis, que se tornara imediato da Dianna após a graduação do Innocêncio. Apanhei o capacete,  fomos para o Dragão e pendurei-o no novo timão, confeccionado em marfim e localizado num tombadilho muito mais confortável do que o anterior.

Fizemos viagens à África. Na primeira, a carga foi destinada a São Tomé e depois ficamos um bom tempo descarregando apenas em Salvador. Na última, o forte São Jorge havia mudado de dono. Parece que o rei Adandozan vendera à própria mãe, Ná Agotimé, como escrava. Seu irmão caçula, Guezo, o matara e tomara o poder na região, cujo nome era Daomé, e se tornara proprietário do forte.

Ao voltarmos dessa viagem, o Brasil se tornara independente e já tinha o rei Pedro I. O jovem rei Guezo veio junto conosco e trouxe um presente para o nosso, também jovem, rei. O trono da Dinastia Vodun  Daometana ocupado pelo Adandozan em seus últimos dias como monarca.

Chegando a São Tomé, Innocêncio foi para a Alfândega leiloar, Guezo foi pro palácio formalizar o presente real e eu fiquei no Dragão apreciando o timão de marfim verdadeiro e cuidando do capacete.

Pensava sobre elefantes e já íamos zarpar novamente para Salvador, onde Guezo começaria as suas buscas visando encontrar à rainha Ná Agotimé, sua mãe, mas dei de cara novamente com o fotógrafo russo segurando o gibi do Tio Patinhas, o Ramirez segurando a Abreugrafia e eu, no espelho ao lado, segurando o Capacete.

Estranhei o silêncio que imperava na primeiro andar da Galeria Pajé, normalmente barulhenta. Por um breve instante nos olhamos e subitamente surgiu a voz do João Bosco cantando:

Jeje minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta
Planta flor irmã da bandeira…
                  
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
        
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
         
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos centos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:
         
- Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias!
        
- Glória à farofa
à cachaça, às baleias!
       
Glória
A todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve
O navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
         
 Mas faz muito tempo…
                

Escutamos a composição em silêncio, olhei pro Ramirez e disse:

 - Por falar em pirata, conheci um lugar… ! Depois a gente conversa, tô atrasado, fui…….!

O pior é que os demais personagens, além de mim, existiram, conforme Pierre Verger citou no livro Libertos, Sete Caminhos na Liberdade…; e Robert E. Conrad idem no livro Tumbeiros.

Pelo que pude apurar, o trono de Adandozan andou pela Biblioteca Nacional – RJ.

A rainha Ná Agotimé, esposa do rei Agonglo, foi adquirida como escrava por fazendeiros do Maranhão, sendo mais tarde responsável pelo surgimento, em São Luis, da primeira casa do Candomblé Jeje no Brasil, conhecida como Casa Das Minas, frequentada, originalmente, só por mulheres e posteriormente por ambos os sexos. – Por que será?

Os povos Jejes constituem o que se chamou por Nação Daomé, de Daho Mi (justiça em mim), em homenagem ao primeiro rei da dinastia Vodun, Dadaho, também conhecido por Dadá e por Daho, cujo cetro era um Oxé, símbolo místico atribuido ao orixá Xangô, responsável pela Justiça.

Guezo foi um dos últimos soberanos Voduns, estando o antigo Daomé hoje representado mais fortemente pelos países Nigéria, Gana e Burundi, cujos historiadores se recusaram a me fornecer maiores informações sobre o rei Adandozan, que pelo visto foi apagado das respectivas Histórias.

Ainda sobre Ná Agotimé, a rainha acabou virando enredo de uma escola de samba, Mocidade Independente de Padre Miguel, creio.

No filme Amistad, do Spielberg, pude identificar a alguns cantos fúnebres voduns, além da destruição do forte, descoberto pelo navegador português Diogo Cão, a serviço da França, em 23 de Abril de 1482, sendo batizado por ele como Forte São Jorge D´Ajuda, posteriormente rebatizado como São Jorge das Minas, de onde saiu a maioria das remessas de escravos chegadas ao Brasil.

Há uma outra versão, também histórica, que associa O Mestre-Sala Dos Mares a João Candido no episódio conhecido como Revolta Da Chibata, que por ter ocorrido por volta de 1910 foge um pouco da letra da composição, que contém muito mais de festa com dor presente do que de batalhas imaginárias em guerras ausentes.

Embora conste, nas letras apresentadas pela internet, o texto: Jorravam das costas dos “santos”…; fui informado que o original diz: Jorravam das costas dos “centos” – Centos de Escravos.

Este Conto começou com essa descoberta, pois além de também cantar de forma errada, o termo Santos era totalmente justificado pela rima com o Cantos do verso posterior. O termo Centos levou a interpretação do texto para bem mais longe da simples associação com a imagem de São Sebastião que imaginava até então.

Marieta Severo, dentre outros méritos, ficou famosa como protagonista do filme Carlota Joaquina.

O Levante dos Malés, em Salvador, faz parte da História do Brasil, que também registra o Comerciante de Escravos José Marques de Sant´Anna, cujo sobrenome herdou do ancestral Marquês de Santana, e possuía um fiel escravo chamado Innocêncio, com sobrenome herdado do dono, como era comum ocorrer na ocasião com os escravos após libertos: Fulano “De Tal”. O Manoel Luis também ganhou o sobrenome na ocasião.

Daí o orgulho do Innocêncio ao se apresentar a mim, pois acabara de ganhar o sobrenome naquela hora com a morte do seu dono.

Uma Holografia resulta do envio de único raio laser, que dividido em dois é focalizado em dois pontos: Um para o que se quer holografar e outro para o filme em que ficará impressa.

O Holandês Voador, no gibi do Tio Patinhas, existiu, assim como o Ramirez da Pajé.

Embora haja diversas origens para as Fotografias Espirituais, na década de setenta a revista Planeta trouxe em um dos seus exemplares as experiências de um fotógrafo russo, nos anos 40, que por um engano na montagem da máquina, quando buscava a um flash eletrônico e automático, acabou nas revelações obtendo fotos de pessoas determinadas com outras imagens, bem definidas, de outras pessoas além das fotografadas. Só não lembro do nome do cara.

Curiosamente, a maioria dos sites sobre a obra do Aldir Blanc não trás a letra da composição dentre as tantas feitas por ele. Qual será o motivo?

Neste meu Sonho Holográfico de Ectoplasma, só procurei tornar uma História Verdadeira em algo menos triste, além de comprovar que um poeta pode até mirar a sua letra num alvo fixo, mas a Composição Artística sempre faz com que também acerte em alvos nunca previstos.

Mas faz muito tempo:

 
Apadê
Olonan ê
Mojubá odjixé
Awá-axé awô
Awá-axé awô
Awá-axé awô
Mojubá odjixé…
 
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Chico, a Viúva e as Partituras-Conto

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Estávamos em Março de 1964. Chico, com 19 anos resolveu ir encontrar os amigos num local em que costumavam se ver em Sampa: Esquina das ruas Maria Antônia e Dr. Vila Nova.

Ao chegar por lá observou uma confusão numa casa vizinha à Sapataria do Pepe, com caminhão do exército e tudo. Várias vezes ele tinha parado em frente a ela curioso, por causa de alguns solos de violão vindos do seu interior, porém, nunca se propusera a desvendar o enigma que tanto o cativava.

Havia cinco soldados do exército, uma viúva e três amigos dele a conversar em alto e bom tom.

O finado marido violonista morrera pisoteado numa greve e os soldados estavam lá para comunicar à viúva o falecimento do instrumentista. A viúva, atendendo a um velho desejo do marido, lia a uma espécie de Testamento dele que regia:

-Imediatamente após a minha morte, todas as minhas Partituras de Melodias Inéditas deverão ser entregues aos três primeiros violonistas que se aproximarem, com as seguintes condições:

1 – O primeiro violonista que se aproximar deverá receber, do total das partituras, o mesmo que o som de três cordas representam para o meu violão.

2 – Ao segundo violonista caberá uma quantidade de partituras proporcional aos sons emitidos por duas cordas do mesmo violão.

3 – Por fim, ao terceiro violonista caberá, do total das partituras, o equivalente ao som de duas cordas, do mesmo violão, num total dos sons emitidos por três violões.

A confusão causada pelo Testamento do Violonista era evidente entre a viúva, os violonistas e também os soldados, curiosos pelo desfecho do episódio. Foi quando o Chico pediu licença e interviu:

- O som de três cordas é meio violão. O das duas cordas dele é o mesmo que um dos três violões de vocês. O som das duas cordas de um dos três violões de vocês é o mesmo que um terço de terço, logo: Metade, um terço e um nono!

Determinadas as parcelas da partilha das partituras, Chico perguntou à viúva:

- Quantas são as partituras, minha interessante senhora?

- Setenta e uma! Disse ela.

Nova confusão ficou estabelecida, pois metade das setenta e uma partituras seria trinta e cinco partituras e meia. Um terço delas seria vinte e três partituras e meia mais um Refrão. Um nono das setenta e uma partituras seria sete inteiras, meia partitura, um Refrão e mais uma Quadra.

Chico interviu novamente:

- Tirei ontem à noite num bar esta música inédita, que escrevi neste guardanapo. Não está tão bem escrita quanto nessas partituras, meio amassada e cheirando a cachaça, mas também é inédita e acho que se eu der ela a vocês todos ficaremos felizes!

Ficaram todos sem entender qual era a do Chico, dando uma música inédita de presente para resolver um problema alheio. Tá certo que ele vivia bêbado, mas àquela hora da manhã?

Em seguida, Chico pegou o bloco de partituras, embrulhou num jornal e disse aos amigos:

- Temos agora setenta e duas canções a serem divididas entre vocês três!

- O primeiro, que iria receber trinta e cinco, mais meia partitura, irá receber trinta e seis. Aceita?

- Claro! Respondeu o primeiro.

- Você, segundo, que iria receber vinte e três partituras e meia, mais um Refrão, ficará com vinte e quatro. Ficou bom assim?

- Ótimo! Respondeu o segundo.

- O terceiro, que iria receber sete partituras e meia, mais um Refrão e uma Quadra, irá ganhar oito. Topa isso?

- Claro que topo, Meu Herói! Exclamou o terceiro.

Chico abriu o embrulho de jornal, deu a cada amigo o número de partituras que lhe cabia, fechou rapidinho o embrulho, colocou debaixo do braço e foi embora feliz assobiando um samba antigo.

Os amigos pasmaram com aquela aparente idiotice dele:

- É nisso que dá beber logo cedo. Perde uma música e ainda vai embora feliz!

Nenhum deles percebera que não tinha recebido a música do Chico, escrita num guardanapo amassado. O que teria acontecido naquele episódio ocorrido em Março de 1964?

Chico acabara de ganhar algumas melodias para sonhar com um LP completo, pois todos ficaram tão satisfeitos com as proporções lógicas apresentadas por ele, que não se deram ao trabalho de Somar às quantidades de cada um dos três herdeiros: 36 + 24 + 8 = 68.

Além de ficar com a que tinha escrito, Chico saiu com mais três melodias inéditas no lucro. Esse foi o motivo dele ter fechado rapidamente o embrulho de jornal e saido logo em seguida desbaratinando ao som de um samba antigo assobiado:

…Um pescador me confirmou

Que um passarinho lhe cantou…

Chico não costuma falar sobre as coisas que fez naquele período da vida, mas tem um senhor, chamado João, que vive andando lá pelos arredores da Consolação em Sampa…

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Profecia Palíndroma-Conto

A Busca do Mestre

Buscando encontrar à paz interior, fora dos campos de batalha que o assolavam por aqui, o Mestre, ainda jovem, fez uma peregrinação à Terra Santa do Vaticano tentando encontrar o Sabiá Dourado.

Devidamente alojado nos seus humildes aposentos, o Mestre, a esposa e o fiel escudeiro se submetiam às esperadas penitências, necessárias a qualquer Ressurreição Espiritual, quando, ao ver uma pequena caixa que guardava o seu Jogo de Botões, lembrou de todo o sofrimento que deixara por aqui ao partir, e chorou por sete dias e sete noites.

No oitavo dia, todas as lágrimas secaram, todas as dores se acalmaram, qual prece de caretas. Ele chamou à esposa e ao escudeiro, pois pretendia admoestá-los Sobre Todas As Coisas, e ao final da admoestação proferiu:

- Pelo amor de Deus, preciso de forças para ir!

Temerosos, a esposa e o escudeiro, respeitosamente, interrogaram-no:

- Ir aonde Mestre?

Ele foi à janela, e contemplando o final do infinito, afirmou convicto:

 - À Capela Sistina!

Prontamente, o fiel escudeiro saiu em busca do transporte bastante a levá-los a mais um importante Calvário Redentor, enquanto a prestativa esposa cuidava de toda a roupagem e víveres alimentícios, suficientes a outra exaustiva jornada. Com tudo pronto, e munido do Jogo de Botões, o Mestre disse:

- Agora podemos ir, pois é chegada a hora de não prestar atenção, não gostar, nem dizer que não é inútil!

Depois de muita labuta chegaram no local predestinado ao Grande Encontro dos Mestres: A Sistina!

Ao adentrar no recinto sacro, que se encontrava desprovido de animais, irracionais ou não, o Mestre mirou fixamente ao seu redor, sentindo um conflitante ambiente de sentimentos e falas. Viu amores e escândalos, medos e tragédias, fisionomias pálidas sem choro e socorro.

Olhou o teto em forma de abóbada, elevou humildemente a mão que portava o Jogo de Botões, aguardou a resposta, que veio na forma de um silencioso raio de luz, sorriu e sumiu.

Viajou léguas e léguas por Mares que só Ele sabia, cruzou céus que só Ele futuramente imaginaria e parou sobre a Montanha Prometida, que abrigava o Silêncio Absoluto. Sem qualquer ruido, o seu Jogo de Botões se espalhou docemente sobre um Silencioso Monólito Plano, onde qualquer Reta nunca poderia se admitir como Curva de Raio Infinito, numa superfície mais lisa do que um gelo.

Contemplando simultaneamente o horizonte e os botões, percebeu que o primeiro se enchera de palavras que iam e vinham, sempre iguais e em qualquer direção. Nuvens de Versos em movimento se agrupavam Estróficas, e os botões as obedeciam, com novas estratégias inimagináveis de jogo, qual estrelas percorrendo um firmamento em Carrossel Holandês.

Foi quando sentiu o dedo de Michelângelo no jogo, a mão dele no seu ombro e, contemplando, agora com imensidão, novamente ao horizonte, agora finito, alcançou à eternidade momentânea no firmamento DELE.

De volta ao interior da Sistina, notou que nem a serviçal esposa, nem o fiel escudeiro haviam percebido que viajara durante tanto tempo e, desconfiando do silêncio, austeramente bradou a eles:

- Vou voltar!

Retornando à humilde estalagem que os abrigava, o Mestre se deitou e sonhou por sete dias e sete noites, só que desta feita acordou calmo e sereno. Sabendo que iria voltar para o seu lugar, que era ainda lá, chamou novamente à esposa e ao escudeiro para dizer-lhes algo.

Ambos se surpreenderam com o pouco que lhes foi dito. Sequer sabiam do que ocorreria com as multidões de numerosos povos indo e vindo, qual sonido de muitas águas em inundação, após a curta, mas definitiva, Profecia do Mestre:

“Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta!”

Sambistas do mundo inteiro vararam dias e noites a fio, peregrinando em busca do Samba Prometido, e ele veio como recompensa por toda a entrega do Samba àquela União Penitenciária dos Povos:

Ao Palíndromo do Mestre

    
Alo Bola
Eva asse essa ave
Após a sopa
Assim Marias sairam missa
Anotaram a data da maratona
A torre da derrota
    
Luz azul
A diva em Argel alegra-me a vida
Luza Rocelina, a namorada do Manuel, leu na moda da romana: Anil é cor azul
    
Até o poeta
Oto come mocotó
Roma me tem amor
Saíram Marias
Socorram-me subi no ônibus em Marrocos
Sá da tapas e sapatadas
   
Zé de Lima, rua Laura, mil e dez
Viu o vôo do ovo Uiv
O caso da droga da gorda do saco
Saíram o tio e oito Marias
Com ódio do doido Moc:
Morram após a sopa marrom!
    
A babá baba
A cera causa sua careca
O dedo
O céu sueco
    
Oto:
Ame o poema
O Galo no Lago
A Mala Nada na Lama
    
Amor a Roma
Roma é amor
Aula é a Lua
Reviver
Rir, o breve verbo rir
    
Até Reagan sibarita tira bisnaga ereta!

    
O MITO É ÓTIMO!

    

Nota: Esse samba foi construído em Versos Corrente, cuja disposição  pode ser alterada ao gosto do sentimento usuário, mas não admitem o tratamento pelo nome Elos de Ligação, já que qualquer corrente, por ser ditatorial, impede a qualquer elo de não sê-lo.

Obs. Quanto ao Sabiá Dourado, só Antonio Carlos Jobim soube do seu final, mas qualquer dia, na Montanha Prometida, o Silêncio Desconfiável fale por ele…

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Ulisses O Original-Análise de Texto

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            Extraído da Odisséia de Homero, o conto é uma versão nacional da passagem de Odisseus (Ulisses) na Grécia mitológica, cuja astúcia foi capaz de dar uma dificílima vitória a Atenas sobre os intransponíveis muros de Tróia, graças à construção do famoso cavalo.

            A astúcia de Ulisses precedeu e sucedeu à Odisséia. Para evitar a viagem a Tróia tentou enganar a deusa Atenas fingindo-se de louco. Não conseguindo, foi procurar Aquiles, que informaram estar aposentado e disfarçado de mulher em certo botequim… Ulisses foi até lá, usou o mesmo disfarce e conseguiu localizá-lo com um truque de armas.

            Em seguida roubou o Odre de Eólo (deus dos ventos) para viajar com segurança.

            A obra de Homero trata da viagem de volta de Ulisses à terra natal, Ítaca, que registra uma série de disputas, dentre elas, uma com um Ciclope, que apresentava um só olho no centro da testa, filho de Posseidon e cujo nome era Polífemo.     

            Ulisses é aprisionado por Polífemo em sua caverna e este lhe pergunta o nome, no que Ulisses diz se chamar Ninguém. Em seguida, Polífemo se interessa pelos vinhos que Ulisses carregava em sua sacola. Experimenta, gosta, toma todos e dorme. No que o herói aproveita para furar seu olho único. Quando urra de dor, outros monstros comparsas perguntam quem estava lá dentro com ele, e escutam: Ninguém! Eles o deixam sem perguntar novamente.

            Noutro episódio, os companheiros de Ulisses, suspeitando que o mesmo transportasse ouro naquele estranho e inseparável odre, resolveram xeretar e abriram. Os ventos saíram imediatamente e voltaram ao deus Eólo, que pôde sacanear um pouquinho as rotas da embarcação que voltava a Ítaca, tornando-a errante por 10 anos.           

            Até ai ele já havia enganado os deuses Atenas, Eólo e enfurecido Posseidon com a cegueira de Polífemo. Eólo também vingava por outros deuses sem esquecermos que Posseidon dominava os mares.            

            Para conseguir casar com Penélope, Ulisses já fora obrigado a usar toda uma sorte de estratagemas, ardis e fofocas na luta contra os pretendentes, com os quais pactuou antes da disputa, que o vencedor teria sempre a ajuda dos demais quando solicitada. Foi o que Ulisses fez para viajar a Tróia, pois ao mesmo tempo em que os tinha como tripulantes, não deixava rivais em Ítaca dando em cima da Penélope.     

            Durante a viagem de Ulisses, Penélope ficou tricoteando um manto que seria dado a ele em seu retorno. Quando o manto já tinha alcançado um tamanho bastante a envolver uma tripulação inteira, ela desistiu e submeteu sua mão a novo concurso, que consistia numa competição de arco e flecha usando um complicado arco que Ulisses ganhara anteriormente de Êurito.        

            Dos competidores, só um velho mendigo conseguiu curvar o arco e terminar a tarefa. Apesar da aparência, Penélope foi fiel às regras e aceitou casar com ele. Era o Ulisses em mais um de seus muitos disfarces.      

            Posteriormente, Ulisses e Penélope tiveram um filho chamado Telêmaco. A paz voltou a Ítaca, mas não a Penélope, pois o marido acabou fazendo muitas outras viagens, menos importantes, mas semelhantes.           

            Quando criança, o órfão Ulisses foi tutelado pelo velho sábio Mêntor, de quem adquiriu a Astúcia geral e aprendeu muitos ardis.

             Dá pra perceber qual foi o herói grego no qual Chico baseou muito da sua conduta. Mêntor, por exemplo, era o Vinícius. Os truques e pseudônimos, que virão adiante, nada mais foram do que os mesmos do seu herói de então.

            Suspeito que outra relação Ulisses-Mêntor deva ter ajudado a cabeça de Chico a se engajar no movimento das Diretas Já em 1983, cujo Mentor se chamava Ulisses Guimarães.

           

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