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Entrevista do Chico? (sou eu o circo místico)

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Entrevista de Chico Buarque para “O Estado de SP” em 18/04/2005

P – Uma vida rodeado de mulheres?

R – Sim, irmãs, filhas, netas…

P – O que aprendeu com elas?

R – Continuo com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e esta estranha admiração. Sempre me surpreendem e suas opiniões me interessam mais que a dos homens.

P – Você encabeça a lista dos homens mais sexys do Brasil.

R – Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Tenho 60 anos, percebe?

P – Sempre fugiu da fama?

R – Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho. Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que se fala se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há quarenta anos não era assim.

P – Como era?

R – Ficávamos bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas não saía na imprensa. Hoje, alguém vai ver uma partida de futebol e vem o jornalista lhe perguntar como está a partida. Isso não me agrada.

P – Mas é o que vende

R – Tem gente que persegue essa fama que não corresponde a nada. É insólito.

P – Por que teremos chegado a esse ponto?

R – Nunca vi um movimento geral de idiotice como o de agora. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de me tornar idiota…

P – Pense bem…

R – Talvez tenha razão. Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia e poderia dar entrevistas sem escrever livros.

P – ?…

R – Sim, sim, anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando entrevistas. Depois falo do livro que não saiu. E assim passa a vida. Hoje é possível viver de feira literária. Há festivais a cada semana em alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor…

P – Custou-lhe três livros.

R – Sim. Agora já me consideram como tal e posso viver me fazendo de turista literário; certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou hoje sem necessidade de escrever mais livros.

Aqui a entrevista continua, só que na forma de conto:

P – Quando a coisa começou a mudar?

R - O final dos anos setenta fez coincidir alguns questionamentos meus sobre a carreira com o ápice da minha criatividade melódica.

http://www.youtube.com/watch?v=YYydQ0dl9-g

“O que é bom para a Holanda é bom pro Brasil”, sacou?

P – Mas uma coincidência não exige mais de um argumento?

R – Escrevi também uma peça que exigiu músicas em distintos ritmos, uma para cada situação e todas divertidas. Samba, tango, fox, blues, clássica, ópera…

http://www.youtube.com/watch?v=_5iGWfguyY8

P – Mas então a coisa mudou para melhor?

R – Aparentemente sim, mas os questionamentos persistiram após a famosa peça, e não pude evitar o confronto Religião x Palavra, e Ambas x Artista. Era gostoso fazer músicas, mas as palavras das letras também causavam grande interesse por suas histórias e possibilidades outras de organização nas Vitrines do cenário Vida. Até hoje me divirto com a palavra escrita.

http://www.youtube.com/watch?v=rs5WBuszpwQ

http://mpbsapiens.com/as-vitrines-analise-de-texto/

P – Mas o que o fez enveredar para o mundo do circo?

R – Num curto tempo, perdi dois dos meus maiores referenciais nas escritas: um parente e um poeta. Decidi então parar com tudo, mas essa idéia durou até um outro grande músico amigo chegar com um monte de lindas melodias sem letra e assunto para todas. Sem ter de me preocupar com as melodias, ficou muito mais fácil encaixar as letras nos assuntos, todos comuns ao meu estado de espírito da época, ainda questionando uma porrada de aspectos válidos e inválidos da vida artística.

P - Mas você ainda não explicou sobre o mundo do circo…

R – Pôrra cara. Palco e Circo são sinônimos: “Além das cortinas são palcos azúis e infinitas cortinas com palcos atrás”! Lembra do que falei da idiotização? Viu como a coisa pega?

http://www.youtube.com/watch?v=k3lEUZtudms

P- Tá bom, pode bater, mas explica direito!

R – Cada vez que subo num palco, não me sobra muito cenário além do povo que está assistindo. Cantar a música é a parte mais fácil, porque basta “abrir a voz e o tempo canta”. Enquanto canto, aquele povo todo sonha, ri, movimenta os braços, senta, levanta…  À proporção em que as músicas trocam, trocam também os sonhos, os gestos e me sinto o próprio Piloto dos Sonhos, mas, de repente, sei que o show irá acabar, aquela gente toda irá embora e eu terei de abandonar aquele palco dos sonhos para encarar a realidade das ruas, dando de cara com Pivetes, Guris, Muchachas de Copacabana… É aí que bate a tristeza, e dela nasce a composição musical:

Vídeo de marciameneses1960

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Não, não sei se é um truque banal
Se um invisível cordão
Sustenta a vida real
Cordas de uma orquestra
Sombras de um artista
Palcos de um planeta
E as dançarinas no grande final
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Chove tanta flor
Que sem refletir, um ardoroso espectador
Vira colibri
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Qual, não sei se é nova ilusão
Se após o salto mortal
Existe outra encarnação
Membros de um elenco
Malas de um destino
Partes de uma orquestra
Duas meninas num imenso vagão
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Negro refletor, flores de organdi
E o grito do homem voador
Ao cair em si
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Não sei se é vida real
Um invisível cordão
Após o salto mortal

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P – Mas essa música pertence a um musical baseado num poema já existente. Não é um outro assunto?

R – Sim, o poeta pode até usar a sua ”Túnica Inconsútil”, mas a Palavra é como a linha de costura em qualquer texto, costura tanto o assunto do musical quanto o particular. Nada me impediu de tratar da própria vida interpretando um poema alheio. Guardo comigo a costura que mais desejar. Por exemplo, o Fernando Pessoa escreveu Qualquer Música, mas não ficou muito claro e resolvi continuar cerzindo o assunto com Qualquer Canção.

http://www.letraviva.raisites.com/poesia-para-ler/27-qualquer-ma-fernando-pessoa.html

http://www.youtube.com/watch?v=ZfSWJoNxq8s

P – Mas, de alguma forma, os assuntos devem ter algo em comum que os une?

R – Claro. Todo circo tem palhaço, e o que impede o mesmo palhaço da música anterior fingir tristeza ou alegria nesta música?

Vídeo de MsHvilla ?

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Em toda canção
O palhaço é um charlatão
Esparrama tanta gargalhada
Da boca para fora
Dizem que seu coração pintado
Toda tarde de domingo chora
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Abra o coração
Do palhaço da canção
Eis que salta outro farrapo humano
E morre na coxia
Dentro do seu coração de pano
Um palhaço alegre se anuncia
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A nova atração
Tem um jovem coração
Que apertado por estreito laço
Amanhece partido
Dentro dele sai mais um palhaço
Que é um palhaço com um olhar caído
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E esse charlatão
Vai cantar sua canção
Que comove toda a arquibancada
Com tanta agonia
Dentro dele um coração folgado
Cantarola uma outra melodia
a
Em toda canção
O palhaço é um charlatão
E esse charlatão
Vai cantar uma canção

a

P – Então você também escreve sobre o que não está sentindo?

R – Claro que não! Por melhor que seja a encomenda, quem escreve o texto sou eu, ainda que fingindo. Nesse lance de fingir dor, faz tempo que o poeta é um Finge Dor. Aliás, isso já deu pano pra muitas costuras da palavra. Cada poeta é o alfaiate do próprio assunto:

http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/143.php

http://www.youtube.com/watch?v=mU32cxGnNxo

P – Então, quando você enveredou para o circo, na realidade estava enveredando para dentro de si?

R – Tudo o que faço sempre envereda para o mesmo ponto: Eu. Não tem como ser diferente, já que eu é que conto uma história baseado nas minhas impressões sobre o assunto. Acho que é bem óbvia a coisa.

P – Então você só trabalha com o “Eu Lírico”?

R – Tanto faz um como outro, pois são sinônimos nos poemas. Num dos livros até fiz uma brincadeira com o termo ”potencializa”. Vocês da crítica ficam inventando termos novos e sobra pra gente explicar os significados?

P – Pulemos essa parte e voltemos ao assunto principal. Você criou vários personagens nas músicas, mas um tem um significado especial para a maioria da crítica: O maridão otário da mulher enganadora. Como você consegue enxergar essa parte que também é sua?

R – Nem o maridão é otário e nem a esposa é enganadora. Ambos se amam o bastante para se mostrarem honestos um com o outro. Cabe a cada um aceitar ou recusar. Eu apenas descrevo as possibilidades de ambos baseado nas experiências próprias. Como já citei no começo da entrevista, ao ser questionado sobre ser um símbolo sexual, sou um sexagenário famoso e solteiro. Deixo a vida correr, escrevo sobre ela e vocês fazem as fofocas.

Como há pouco tempo tive a sorte de encontrar um antigo parceiro musical, numa das épocas em que o assunto acima surgia, ficou muito fácil escrever um belo samba, porque a ingrata melodia, que tem me deixado órfão há tempos, também se redime quando me premia com tais concidências.

P – Por favor, seja mais claro.

R – Tem sido cada vez mais difícil fazer um show e sair dele com a consciência limpa. Aquilo que me move, que é pilotar os sonhos do auditório, implica numa série de injustiças ao redor. Há todo um pessoal artista que se empenha fundo para que o show seja bem sucedido. Em termos financeiros, creio que recebam bem, caso contrário não estariam por aqui, mas o reconhecimento pelo trabalho bem executado não se resume ao dinheiro. Como há também uma outra parte administrativa nas promoções, que custa muito mais do que a artística, o preço do ingresso vai lá para a cima e o bolso do ouvinte para as picas.

Cito como exemplo uma participação que eu e o Ivan fizemos num show há certo tempo. Todos os refletores voltados para nós, alguma penumbra para os músicos e um significativo cenário imóvel e irreconhecido ao fundo. Nem sei o nome do responsável por tal cenário, mas o cara foi genial, ao conseguir juntar num mesmo quadro todas as informações históricas que nos cercavam. Parte dele retratava a arquitetura dos prostíbulos do Rio nos anos quarenta, o ambiente da ópera, e outra parte, cujo estilo arquitetônico também lembra o do Portão de Bradenburgo, antes do famoso Muro de Berlim ser construído, e uma ponte à direita, como que ligando as épocas ao show e o show à história, tratando tanto da destruição dos livros, numa Alemanha de outrora, quanto do renascimento da cultura, num Brasil de agora.

- Qual é o nome do cara que bolou aquele rico cenário. Você sabe? Quem sabe?

Todas essas injustiças adjacentes da arte você poderá notar naquele show, que marcou tanto o reencontro com um velho parceiro, o Ivan, quanto uma espécie de homenagem ao João, pai do Diogo e também um velho parceiro de ópera, bem como as minhas impressões de sexagenário, já quase hepta mais atual.

http://www.youtube.com/watch?v=D0W3wL7zAJ0&feature=related

P – E agora, como você encara essa nova maratona de shows do novo cd pelo Brasil?

R- http://www.youtube.com/watch?v=1dECgDfO_4o

—x—

Como citado no começo, só pequena parte desta entrevista foi verdadeira. O restante é apenas fruto da minha fantasia associada a algumas coincidências da obra, da qual Chico sempre se assumiu incompetente para falar.

P – Sempre fugiu da fama?

R – Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho. Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento …

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O Falso Brilhante, a Mulher e Uma Época

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Estávamos em junho de 1964. Minhas preocupações maiores se dividiam entre um jogo de futebol contra a Turma do Outro Lado da Linha, e os balões, que tantos problemas causavam com a turma rival, quando caíam em qualquer dos lados da mesma linha.

A Linha divisória das turmas era a dos trens da Central do Brasil, mais precisamente no Tatuapé, em Sampa. Do lado de cá éramos a Turma da Celso Garcia, do lado de lá a Turma do Sampaio Moreira, que tendo mandado “Ofício” para nós, impedia que recusássemos jogar contra, sob pena de sermos taxados por covardes.

Nosso time estava desfalcado e precisávamos de urgentes reforços. Como eu costumava ir jogar pião contra integrantes de uma turma, igualmente rival mas menos hostil, que também ficava aquém da linha, coube a mim a incumbência de tratar das negociações, que acabaram me custando um “Pião Batatinha” favorito, que além de zunir como nenhum outro, era de difícil captura na roda do jogo.

A Turma da Favela do Maranhão contava com ótimos jogadores, nem tanto de pião e mais de futebol, com alguns pertencentes às divisões de base do Corinthians, como o Baitaca, com quem mantive os entendimentos primários.

Conversa veio, conversa foi e acabei indo almoçar na casa dele. Uma humilde residência, mas com rígidos padrões morais ditados pelo patriarca da família. Foi lá que conheci o Waldemar, tio do Baitaca, que, dentre outras ocupações menores, era “Leão de Chácara” no Som de Cristal, uma famosa casa de danças de São Paulo.

Já havia visto o Waldemar na quadra da Acadêmicos do Tatuapé, onde era um Mestre-Sala, que também me conhecia, já que eu vivia dando palpites em letras de samba lá na escola. Foi quando, no meio do almoço, ele disse ao sobrinho:

- Baitaquinha! Leva o seu amiguinho com você lá no Som quarta à noite, que dará para colocá-los pra dentro do salão sem problemas com o Juizado de Menores!

Diante da ótima novidade adulta, é claro que topei aquela odisséia. Como costumava ir a bailes juvenis, desses feitos nas garagens das casas em aniversários, e vez ou outra me arriscava a espiar os Bailes do Marília, time que ficava do outro lado do Rio Tietê; seria uma chance de ouro para aprender a dançar que nem gente mais velha.

Na quarta à noite fomos colocados dentro do Som de Cristal sem qualquer problema. O cenário era exuberante em luzes, lustres, cavalheiros e, principalmente, damas sugestivamente vestidas. A música que imperava nas seleções era o Bolero, onde se observava um misto de exibição e sensualidade nos casais dançantes.

Depois de um tempo, já cansado de ficar andando pra lá e pra cá, observei que uma das mesas era ocupada por uma senhora solitária. Com um misto de timidez e respeito, fui até a mesa e perguntei a ela:

- Posso me sentar aqui também?

Depois de uma breve “medida” em mim, aquela senhora perguntou:

- Quem te colocou aqui dentro, moleque?

Respondi que havia sido o Waldemar, para quem ela olhou por instantes,  concordou com o meu pedido, chamou o garçom e pediu um guaraná pra mim.

Depois de um tempo perguntei a ela:

- A senhora me ensina a dançar?

De imediato, a fisionomia dela enrugou tristemente com a pergunta. Ficou pensativa mas, sorrindo com a minha infantil deselegância, concordou.

Disse a ela que costumava ir só a bailinhos, mas não sabia dançar bonito que nem os outros homens, e ela resolveu, de fato, me ensinar a dançar mais do que Boleros. Meio sem jeito pra segurar a dama, fomos ao salão para as primeiras experiências.

Mary, também conhecida por Maria, era uma bonita dama. Trajava um vestido preto, com acentuados decotes anteriores e posteriores, e cortes nas laterais. Usava um bonito anel de brilhante, com colar, brincos e broche em cor pérola.

Meio quieta, é verdade, mas as primeiras sensações que tive, ao sentir a sua mão no meu pescoço e a minha mão direita sobre aquela pele feminina e macia das suas costas foram marcantes, pois a minha identidade masculina subiu que nem um rojão de muitos tiros no junho em que estávamos.

Como eu estava visivelmente atrapalhado com os passos da dança, Mary puxou a minha cabeça mais para perto da dela e sussurrou:

- Calma querido! Deixa que eu te levo em dois pra lá e dois pra cá!

Dançamos várias seleções de boleros, com cada uma resultando-me sensações próprias, pois Mary, notando a festa junina que se apoderara de mim, começara a colocar as suas pernas entre as minhas na dança, todavia, após cada seleção musical, observava um estranho desconforto nela com a sua sandália esquerda.

Aquele tipo de sandália feminina, com uma fina tira de couro logo acima do calcanhar, era moda na época, e eu já observara o problema na quadra da Acadêmicos, pois costumava machucar as sambistas. Na época, tínhamos um número de mulheres negras bem maior do que o de mulatas no samba, e algumas delas tinham uma excelente solução para o problema: Fita Isolante!

Por ser da cor preta, essa fita, usada mais em eletricidade, servia também para as passistas negras protegerem os calcanhares antes do inevitável estrago que as sandálias causariam após uma noite de samba, e como as mulheres brancas não podiam contar com tal recurso prudente sem dar bandeira, acabavam sofrendo as consequências. Mary era apenas mais uma delas, ao se utilizavar do inevitável Band-Aid, que logo descolava e enrolava com a sujeira.

À partir daquela quarta-feira bendita, estreitei os laços de amizade com o Baitaca, nos jogos de Pião em Dupla, comecei a frequentar o Som de Cristal várias vezes, e a minha anterior literatura do Carlos Zéfiro ganhou moldes mais realistas, ao aprender as muitas artes existentes entre o pré e o pós Bolero:

http://letras.terra.com.br/elis-regina/88460/

 

Sentindo o frio em minha alma
Te convidei prá dançar
A tua voz me acalmava
São dois prá lá dois prá cá…

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Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor…

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Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais…

a

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias…

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No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar…

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Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois prá lá dois prá cá…

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Em várias ocasiões, posteriores àquela primeira, Mary tentou colocar um pouco do seu wisky no meu costumeiro guaraná, mas confesso que nunca gostei daquela mistura, ou mesmo de qualquer outra, pois sofro do fígado desde criança, e poucas foram as ocasiões em que tenha bebido além do aquém da conta.

Embora os compositores, João Bosco e Aldir Blanc, tenham entregue a sua música para Elis Regina cantar e consagrar, o personagem que conta o enredo da letra não é uma mulher, mas, nitidamente, um homem contando das suas impressões, tanto emocionais, como macho, quanto visuais, como poeta retratista. Quem tirava a mulher para dançar era o homem, e quem usava perfume gardênia, colocava a mão no seu pescoço e recebia a mão dele nas costas durante as  danças era a mulher. Era ela quem usava conjunto de brincos e colares nos seus cotidianos. Hoje, com toda essa globalização, não sei, e nem quero saber, como andam tais costumes nos diversos sexos existentes.

Não sei a qual dos compositores pertence a letra da música, mas, seguramente, algum deles passou por experiências semelhantes às citadas anteriormente, tamanha a nitidez da fotografia descrita nos versos, tanto no linguajar quanto no instrumental do bolero. Esse conjunto: Bongô, maracas, “frio em minh´alma” , “coração traiçoeiro”, grandes traições amorosas; pertenceram a uma outra época da MPB, onde o homem costumava ser um cavalheiro e a mulher uma dama.

…Para viver um grande amor
Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
Ser de sua dama por inteiro
Seja lá onde for…     (Vinícius de Moraes)

Caretices que a Porta do Tempo já havia fechado antes mesmo da composição ser escrita.

Tanto é verdade, que a música encerra com um fragmento da primeira estrofe (terceiro e quarto versos) do consagrado bolero La Puerta. Aliás, a letra inteira de La Puerta serve bem para supor o que o poeta estava sentindo após terminar um poema, que virou a letra de um bolero temporão, onde o homem sofria por causa da mulher e não tinha vergonha alguma de admitir. Pelo contrário, cantava o seu sofrimento. Basta conferir:

http://www.paixaoeromance.com.br/o_bolero/la_puerta/la_puerta.htm

 

 

 

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O Filho do Japonês

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Nos anos quarenta, do século passado, uma família japonesa chegou ao Brasil como imigrante.

Como a esposa engravidara ainda no Japão, acabou vindo nos dar à luz um lindo garoto.

Ao ser informado de que deveria ir ao cartório registrar o nascimento da criança, o senhor Hiroshi, lá chegando, e ainda em dúvida quanto ao nome do filho, que nascera num país diferente, educadamente perguntou ao tabelião qual nome ele escolheria para dar a um menino recém-nascido.

Como estavam no dia vinte e três de abril, o religioso tabelião disse:

- Sugiro o nome Jorge!

No que o japonês respondeu:

- Joróge é bonito, mas gostei mais do Sugiro!

 

 

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A Arca de Noé (autor desconhecido)

Absalão era um homem que só se podia conceituar como justo. 
Particularmente era um apaixonado pela organização de forças de combate e 
no uso de armas avançadas, tais como lanças de grande alcance, setas 
orientadas e a última novidade bélica – o lançador de pedras! Era um 
verdadeiro líder.
 
Um dia, andava Absalão pela ravina, quando de repente – PUFF – uma 
nuvem de fumaça apareceu, acompanhada de uma voz tonitruante:
 
 - ABSALÃO!
 
Absalão prostrou-se. Só podia ser o Criador! Em Pessoa!
 
ABSALÃO – tornou a voz – “NÃO ESTOU CONTENTE COM OS 
HOMENS. ESTÃO POLITIZADOS. GUERREIAM ENTRE SI E SÓ 
DEFENDEM OS INTERESSES PRÓPRIOS. O TRINÔMIO ADÃO-
EVA-COBRA DEU NISTO… FAREI CHOVER DURANTE 40 DIAS E 
40 NOITES, ATÉ COBRIR A TERRA DE ÁGUA, O QUE SERÁ 
CONHECIDO COMO ‘O DILÚVIO’. QUERO QUE NASÇA UMA 
NOVA HUMANIDADE, DE HOMENS INTELIGENTES, PRÁTICOS E 
OBJETIVOS. VAI E CONSTRÓI UM BARCO PARA TI E PARA A 
TUA FAMÍLIA E LEVA PARA DENTRO DESTE UM CASAL DE 
CADA SER VIVO. TERÁS CENTO E VINTE DIAS PARA ESTE 
EMPREENDIMENTO. O MEU CONTATO CONTIGO É O ARCANJO 
GABRIEL.”
 
PUFF!… e a nuvem desapareceu.
 
Absalão levantou-se lívido. O Criador o elegera gerador da Nova 
Humanidade!
 
Todas as suas idéias seriam programadas para o futuro! Mas, Absalão não 
conhecia nada de barcos nem de navegação! Quatro meses… era muito 
pouco tempo! Era preciso resolver um problema técnico, construir um barco 
enorme – que objetivo!
 
Absalão rebuscou a memória. Conhecia um engenheiro naval chamado Noé.
Noé poderia construir-lhe o barco. Absalão seria o coordenador do 
empreendimento e Noé seria o elemento técnico. Se depressa o pensou, mais 
depressa o fez. E foi falar com Noé.
 
 -Meu caro, dizia Absalão, quero encomendar-lhe um barco… e dos grandes!
 - Sim, senhor, mas de que tipo, para carga e qual tipo de navegação?…
 
 - Sim, sim, Noé, isto são só detalhes. É um barco para grande carga e águas 
pesadas. Quero fazer uma longa viagem com a família e levarei tudo.
 
 - Está bem, senhor. Temos aqui mesmo, nesta floresta, madeira de boa 
densidade, em quantidade suficiente. Acho que consigo arranjar dez bons 
carpinteiros e dez bons lenhadores e assim conseguirei construir o barco.
 
Mais tarde, Absalão chamou Roboão.
 
 - Roboão, como você já deve saber, vamos construir um grande barco…
 - Sim, chefe, já ouvi dizer qualquer coisa.
 - O que você acha…
 - Deixe comigo, chefe. No recrutamento da última batalha pagamos oito 
dinheiros a valentes combatentes e estes são apenas carpinteiros. Temos 
cinco recrutadores e dez examinadores, para a fase de seleção!
 - E quanto ganharão?
 - O salário desta equipe varia entre oito e dez dinheiros, por serem 
especialistas. Chefe, há um pequeno problema. Não quero responsabilidades 
com o numerário e não sou bom em contas. Não acha melhor termos um 
homem para a gerência financeira do empreendimento?
 - Bem lembrado, Roboão, mas não conheço nenhum e deve ser um homem 
de confiança!
 - Bem, chefe, podemos fazer uma seleção entre candidatos. Vou já tratar 
disso.
 
O empreendimento crescia de vento em popa. As equipes de recrutamento e 
seleção já estavam em plena operação. As finanças já tinham um responsável.
Mas onde colocar este pessoal? Absalão partiu, com o seu habitual 
dinamismo, e depressa adquiriu uma cabana de madeira, contratando de 
imediato pessoal de supervisão e segurança.
 
 - Senhor Presidente – falou timidamente a graciosa recepcionista – está aqui o
Engenheiro Noé com alguns desenhos e…
 - Minha filha, já lhe disse para não me interromper. Diga ao Engenheiro Noé 
que passe por aqui depois do almoço.
 - Pois é, amigo Jacó, preciso cercar-me de gente de confiança para o 
sucesso do meu empreendimento.
 - Certo, chefe! Sabe que pode confiar em mim. Mas o armazenamento da 
madeira necessita de um almoxarifado adequado e de um bom almoxarife. 
Para o controle, necessitarei de arquivos, prateleiras e pessoal de apoio.
 - Justo, Jacó. Encomende as prateleiras na carpintaria da povoação e fale 
com o Roboão para o recrutamento de pessoal necessário.
 
Neste momento entrou Cloé, a secretária do Presidente. Jacó afastou-se 
discretamente.
 
 - Senhor Presidente, o Engenheiro Noé telefonou novamente. Parece aflito 
para a aprovação de alguns desenhos.
 - Ora, este Noé! Sempre querendo me confundir com minúcias sobre 
densidade de madeiras e outras bobagens. Ele sabe que sozinho não posso 
me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Diga-lhe que nomearei 
um Grupo de Trabalho do Barco, o GT-BAR, para me dar o parecer. O 
rapaz é bom em projetos, mas não entende nada de custos, de administração!
 
Passaram-se quinze dias e o organograma proposto já estava na mesa do 
Presidente. Uma Diretoria das Coisas (DC), uma dos Investimentos (DI) e 
uma do Barco (DB).
 
A Diretoria do Barco já tinha montado um laboratório especializado para a 
medida de densidade de madeira e análise de fungos e caruncho.
 
A Administração, em apenas quinze dias, já tinha elaborado as provas de 
seleção para arquivistas de desenho naval, para a seleção do pessoal de 
recrutamento e seleção de pessoal de apoio etc.
 
Naquela noite, Absalão estava cansado, mas não pôde esquivar-se de 
receber Noé na sua residência.
 
 - Senhor Presidente, desculpe-me ter vindo interromper o seu descanso, mas
o projeto está pronto e as pessoas do GT-BAR ainda não foram nomeadas. 
O material já está especificado, porém o laboratório ainda não emitiu o laudo
de aprovação da madeira e não consegui os carpinteiros para o corte… Se o 
senhor pudesse autorizar-me a trazer carpinteiros conhecidos da povoação…
 - Não se preocupe, Noé. Falarei amanhã com a Diretoria do Barco e 
apressarei a contratação do pessoal. Noé, apesar de ser o Presidente, não 
posso mudar as normas da organização, autorizando diretamente os seus 
carpinteiros. Não se preocupe que o empreendimento está nas mãos de 
profissionais – os melhores! Boa noite, Noé…
 
Noé afastou-se sem entender muito bem. Tinha sido convidado para construir
um barco. Agora está às voltas com normas, instruções, seleção etc…
 
Vigésimo quinto dia – manhã linda. Cloé anuncia a chegada de Roboão.
 
 - Entre, meu velho, sente-se. Aceita um leite de cabra?
 - Sim, chefe, obrigado. Por falar nisso, mandei distribuir leite de cabra de
manhã e de tarde, para todos. Mas, para isso, foi necessário adquirir duzentas
cabras, alugar um pasto e contratar cinco pastores.
 - Você é um bicho na administração de pessoal, Roboão! Merece uma
promoção. Afinal, já temos quinhentas pessoas no efetivo e todas 
passaram por você.
 - Roboão, não quero incomodá-lo e nem por sombra desfazer o belíssimo 
trabalho da sua equipe, mas Noé disse-me que ainda não foram contratados 
os carpinteiros para o corte…
 - Ora, chefe, Noé é um sonhador. Só pensa nos seus desenhos. Já lhe
expliquei a complexidade da contratação. Por exemplo, já aumentamos a 
oferta para seis dinheiros, mas todos os carpinteiros foram reprovados no 
primeiro psicotécnico. Se não passam neste exame, imagine nos outros!
 - Realmente, você tem razão, Roboão. Noé desconhece o que é uma boa
organização. Oriente as coisas como achar melhor. Se o contratei é porque 
tenho total confiança no seu trabalho…
 
Quadragésimo dia – finalmente a primeira reunião de Direção. Era o momento
solene das grandes decisões de cúpula do empreendimento. O Presidente,
satisfeito, relatava que o empreendimento era o orgulho da povoação. Havia 
muito trabalho e emprego para todos.
 
O Diretor do Barco ponderou que faltava papel para o desenho e que a 
eficiência dos carpinteiros era baixa. Noé tentava suprir a falta desenhando
em folhas de bananeira e cortando as árvores à noite, após o expediente.
Quando o Diretor do Barco propôs aumentar o salário de Noé para quinze
dinheiros o Diretor das Coisas explodiu, seguido de perto pelo Diretor dos 
Investimentos.
 
 - Estes técnicos não funcionam e ainda querem aumento!
 
 - Sr. Presidente, sou de opinião que devemos aumentar a equipe de 
recrutamento e apertar as provas de seleção.
 - Perdão – retrucou o Diretor do Barco – Acontece que não temos o apoio
necessário. O senhor está desviando recursos para a área de operação do 
barco, recrutando timoneiros, veleiros etc.
 - Mas é lógico – interveio o Presidente – temos que agir com antecedência no
treinamento.
 
Octagésimo dia – Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era 
Presidente de um empreendimento que contava com mil e duzentas pessoas.
As preocupações de Noé eram infundadas. Não passava de um tecnocrata
pessimista. Felizmente já havia o Diretor do Barco para despachar com Noé -
menos um aborrecimento. Subitamente – PUFF – uma nuvem de fumaça!
 
 - O Arcanjo Gabriel! – exclamou Absalão, prostrando-se.
 
“ABSALÃO! PÕE GENTE DE MAIS PESO NO TOPO, CASO
CONTRÁRIO O EMPREENDIMENTO AFUNDARÁ!”. – PUFF!
 
Absalão correu à cabana de Noé.
 
 - Noé, Noé, ponha um convés no alto do mastro. Vou colocar as pessoas 
mais pesadas em cima!
 - Mas, Presidente, isso é impossível!… O convés é sempre em baixo e o 
mastro aponta para cima. Se aumentarmos a massa do topo, o barco vai 
emborcar!
 - Não discuta comigo, Noé. O Arcanjo mandou colocar homens pesados no
topo e é isso que vou fazer… e cumpra as minhas ordens!
 
Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Noé correu à Secretaria 
Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações do barco, que já o 
esperava há duas horas.
 
 - Noé – disse o Comandante – o seu projeto não anda! Vou treinar os meus
homens sem barco? Vou pedir a aprovação do Presidente para adquirir um 
simulador, caso contrário não me responsabilizo.
 
Noé balançou a cabeça e retirou-se. Realmente o que ele conseguira? Uma
meia dúzia de desenhos em folha de bananeira. Isto em oitenta dias. Estava
acabrunhado e sentia-se um incompetente. Mas o que estaria errado?
 
O Presidente entrou furioso desabafando com Cloé.
 
 - Veja só! Faltam apenas quarenta dias e a Divisão de Importação diz que 
há crise de transporte e a madeira só chegará no prazo médio de dez dias!
 - Quero uma reunião de emergência com os diretores. Vou despedir o 
carpinteiro e contratar outro. Se não fosse o Roboão com a equipe de 
recrutamento, não sei o que seria…
 - Mas, Presidente – perguntou Cloé – faltam quarenta dias para quê?
 - Para o dilúvio, minha filha, para o dilúvio! Envie o seguinte fax:
 
De: Absalão
Para: O Senhor
Solicito prorrogação prazo restante 40 dias. Dificuldades intransponíveis. 
Crise internacional de madeira. Prostrações. Absalão
 
O ruído monótono do fax deixava Absalão ansioso, mas a resposta veio 
finalmente:
 
De: Senhor
Para: Absalão
CONCEDIDO PRAZO MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS, 
ELEVAÇÃO DAS ÁGUAS EM ANDAMENTO.
 
Absalão desesperou-se e partiu para a reunião. Cloé, pelo telefone interno, 
espalhou a história do dilúvio.
 
Octagésimo segundo dia.
 
 - Cloé, ligue para Roboão.
 - Roboão? Aqui é o Presidente. Já recrutou os carpinteiros?
 - Infelizmente não passam nos testes, meu chefe. Até já afrouxamos as 
provas, mas o exame de reconhecimento de tipos genéticos de caruncho 
reprova todos!
 - Presidente – interrompeu Cloé – é urgente: há dois pastores na ante-sala e
dizem que há crise de leite nas cabras e não vai haver distribuição aos
funcionários durante uma semana – o suprimento não providenciou erva 
durante a seca do pasto… Qual é a sua decisão?
 
Centésimo dia.
 
 - Sr. Presidente – disse o Diretor dos Investimentos – dentro de uma semana
vencem os nossos empréstimos internacionais, com as povoações vizinhas, e
o caixa não é suficiente. O nosso empreendimento economicamente vai muito
bem, mas financeiramente… estamos em crise. Sugiro uma redução de 
pessoal…
 - Sr. Presidente – tentou timidamente o Diretor do Barco – acho que o 
Diretor dos Investimentos tem razão, mas não prometemos ao CRIADOR 
que o barco estaria pronto em breve?
 - Mas… sem material!
 - Como posso fabricar madeira? – gritou o Diretor das Coisas – o seu
laboratório não acha a madeira local apropriada e há crise de transporte!
 - Os carpinteiros são incompetentes… e esse tal Noé! Que fez ele até agora? 
E ganha dez dinheiros…
 - Senhores! – falou gravemente o Presidente. Todos o olharam esperançosos.
 - A situação do empreendimento é razoável, mas temos que tomar uma 
atitude mais séria quanto ao projeto do barco…
 - Presidente, não quero interromper, mas nos nossos arquivos não constam 
os exames de admissão de Noé e nem sabemos se ele é engenheiro naval!…
 - Sim, a culpa é minha – falou o Presidente – mas quando convidei Noé ainda
não existiam as normas do empreendimento. Sou, portanto, obrigado a 
despedi-lo. Queira providenciar através do Roboão.
 
Noé ficou realmente furioso com a notificação. Estava disposto a sair daquela
terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Foi para a floresta e reuniu a família.
 
 - Vamos cortar estas árvores, mesmo com bicho, construir um barco e sair 
daqui!
 - Mas, Noé, não somos carpinteiros, nem sabemos fazer barcos…
 - Não importa. Eu ensino vocês a cortar a madeira e já tenho os desenhos. 
Faremos um pixurum e construiremos um barco para tentar uma vida melhor 
longe daqui! Levaremos uns animais a bordo para comer na viagem. Só falta 
meter mãos à obra!
 
A madeira começou a ser cortada. As partes mais bichadas eram 
descartadas. Em poucos dias o casco do barco já tomava forma.
 
Centésimo vigésimo quinto dia – O Presidente acordou preocupado. A 
madeira tinha chegado, mas só havia três carpinteiros no setor de carpintaria. 
A sua charrete seguiu o caminho mais rápido para o escritório, para evitar o 
mau tempo. Nuvens pesadas cobriam os céus. Absalão dirigiu-se diretamente
ao fax, mas Cloé só chegava às dez horas. Absalão dirigiu-se ao Centro de 
Processamento de Dados.
 
 - O que se passa aqui? Não começou o expediente? Quem é você?
 - Sou do “telemarketing”, senhor. Já faz dias que não há ninguém. Dizem que,
com esse plano de classificação de cargos e salários e com essa política de
promoções, não fica ninguém… Se for de seu desejo, eu vou estar localizando
a sua secretária…
 
Por um breve momento Absalão esqueceu todos os seus problemas e falou 
consigo mesmo: - Que diabos de dialeto fala essa mulher? “telemarketing… 
vou estar localizando…”? O que ela quer dizer com isso?
 
Mas logo voltou à realidade e disparou para o escritório. No caminho
encontrou Roboão que lhe disse preocupado haver um zum-zum-zum acerca
de um tal Plúvio, que poderia ser um terrorista, mas que a sua equipe… 
Absalão ficou branco e correu em direção ao fax. Cloé já havia chegado, 
finalmente.
 
 - Cloé, rápido:
 
De: Absalão
Para: O Senhor
Dificuldades com projetista atrasam empreendimento. Solicito prorrogação 
do prazo.
 
A resposta foi imediata:
 
De: Senhor
Para: Absalão
PRORROGAÇÃO NEGADA.
 
E começou a chover…
 
Absalão saiu correndo, seguido por Jacó. Derramava água. Ambos corriam 
morro acima, com a água nos calcanhares. Em pouco tempo já estavam com
água pela cintura. Era cada um por si! Quando eles já se debatiam, com água 
pelo pescoço, Jacó ainda teve tempo de gritar para o chefe, apontando para 
a enxurrada:
 
 - Chefe, veja, há um barco vencendo as ondas! Veja na proa… está escrito…
A ARCA DE NOÉ!
 
Conclusão:
 
 ”Quem sabe faz a hora. Não espera o VEJA BEM!”
 

                    .

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Chico, o INSS, a Galinha e Jung

           

…Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra…

Esses versos do Chico, da composição Uma Palavra, servem bem para dar uma idéia do tanto que ele fotografou do cotidiano brasileiro, e independendo das ocasiões em que determinadas composições foram feitas, as situações atuais se explicam pela junção dos seus fragmentos.

Há uns dias atrás fui ao Barbeiro dar um trato na crista. Lá chegando, enquanto aguardava a minha vez de ser atendido, vasculhei um bloco de revistas, já bem antigas, para encontrar alguma que me fizesse companhia na espera.

Todas com muitas fotografias de gente sorridente em reuniões. Algumas com o povo sorrindo na própria foto, outras com mulheres nuas, e o povo da barbearia sorrindo fora da foto. Foi quando encontrei, perdida lá no fundo da caixa, uma revista Seleções, muito antiga e ainda com a famosa pergunta: – Você Sabia?

Na hora lembrei da infância, quando o meu pai me arrastava até a barbearia para cortar o cabelo, e a Seleções era bem comum, dentre algumas revistas semelhantes, com muito mais informações do que fotos.

Junto com isso, já veio a primeira composição dele. Almanaque:

Oh menina vá ver nesse Almanaque como é que isso tudo começou
Diz quem é que marcava o tique-tac e ampulheta do tempo disparou

Não demorou muito chegou a minha vez. Sentei na cadeira e ouvi a pergunta: - O que vai patrão? No que respondi:

- Máquina quatro no geral!

Enquanto o profissional exercia o ofício e eu lia a minha revista, o ambiente apresentava um quase silêncio, aconchegante, alterado levemente pelo som das tesouras e das maquininhas elétricas, quando adentrou no recinto um senhor de pouca idade.

O silêncio foi trocado por uma barulheira de vozes, de alguns dos habitantes até então silenciosos, acolhendo ao recém-chegado com efusivas saudações, e pensei:

- É impressionante como o homem, que em seu estado natural de solidão tende ao silêncio, muda rapidamente para a barulheira quando algum motivo o reúne em grupo.

O assunto, atrás da cadeira, continuou com a seguinte pergunta:

- E aí, conseguiu a aposentadoria? No que veio a resposta:

- Tive de encarar fila por alguns dias,…

Foi quando lembrei da música “Vai Trabalhar Vagabundo”:

Vai trabalhar vagabundo
Vai trabalhar criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura…
…Vai terminar moribundo
Com um pouco de paciência
No fim da fila do fundo
Da Previdência…

… mas depois encontrei um velho conhecido, que me devia alguns favores. Deu ”um jeitinho”  na papelada, para torná-la legal, e ainda…

Foi quando voltei novamente aos tempos de criança e lembrei de uma Galinha, do musical infantil Os Saltimbancos:

…A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias…

…por cima ele conseguiu aumentar o valor do meu Benefício, em troca de dez por cento ao mês por um ano.

Aí a galinha voltou furiosa:

…É esse o meu troco
Por anos de choco
Dei-lhe uma bicada
E fugi chocada
Quero cantar na ronda
Na crista da onda…

O papo continuou animado atrás da cadeira e terminou com a seguinte frase do jovem senhor:

- Recebi o meu primeiro Benefício na semana passada! Todos riram alto, menos a galinha, que resignada cantou:

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
    
Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo…

O barbeiro tinha terminado o serviço, e enquanto me escovava o pescoço pude notar entre os meus pés, postados no apoio inferior da cadeira, o sugestivo nome: 

- FERRANTE !

Terminei de ler rapidamente o artigo da revista, que dizia:

- Você Sabia, que segundo a Sincronicidade de Jung, em algum lugar do planeta uma outra pessoa está tirando conclusões iguais às suas no mesmo momento?

E fui embora cantando:

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional…

 

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