Entrevista do Chico? (sou eu o circo místico)
a
Entrevista de Chico Buarque para “O Estado de SP” em 18/04/2005
P – Uma vida rodeado de mulheres?
R – Sim, irmãs, filhas, netas…
P – O que aprendeu com elas?
R – Continuo com a curiosidade intacta, com o mesmo desconhecimento e esta estranha admiração. Sempre me surpreendem e suas opiniões me interessam mais que a dos homens.
P – Você encabeça a lista dos homens mais sexys do Brasil.
R – Isso é ridículo, e essa lista é ridícula. Tenho 60 anos, percebe?
P – Sempre fugiu da fama?
R – Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho. Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento e que se fala se o artista está gordo ou com quem vai para a cama. Há quarenta anos não era assim.
P – Como era?
R – Ficávamos bêbados em Ipanema dizendo coisas absurdas, mas não saía na imprensa. Hoje, alguém vai ver uma partida de futebol e vem o jornalista lhe perguntar como está a partida. Isso não me agrada.
P – Mas é o que vende
R – Tem gente que persegue essa fama que não corresponde a nada. É insólito.
P – Por que teremos chegado a esse ponto?
R – Nunca vi um movimento geral de idiotice como o de agora. Mas em meu país, de 15 anos para cá, vem crescendo perigosamente. A idiotice nos rodeia, eu mesmo tenho medo de me tornar idiota…
P – Pense bem…
R – Talvez tenha razão. Tudo seria mais fácil, nada me surpreenderia e poderia dar entrevistas sem escrever livros.
P – ?…
R – Sim, sim, anuncio que vou escrever um novo livro e passo dois anos dando entrevistas. Depois falo do livro que não saiu. E assim passa a vida. Hoje é possível viver de feira literária. Há festivais a cada semana em alguma parte do mundo. E agora que finalmente sou escritor…
P – Custou-lhe três livros.
R – Sim. Agora já me consideram como tal e posso viver me fazendo de turista literário; certamente conseguiria ser muito mais conhecido como escritor do que sou hoje sem necessidade de escrever mais livros.
Aqui a entrevista continua, só que na forma de conto:
P – Quando a coisa começou a mudar?
R - O final dos anos setenta fez coincidir alguns questionamentos meus sobre a carreira com o ápice da minha criatividade melódica.
http://www.youtube.com/watch?v=YYydQ0dl9-g
“O que é bom para a Holanda é bom pro Brasil”, sacou?
P – Mas uma coincidência não exige mais de um argumento?
R – Escrevi também uma peça que exigiu músicas em distintos ritmos, uma para cada situação e todas divertidas. Samba, tango, fox, blues, clássica, ópera…
http://www.youtube.com/watch?v=_5iGWfguyY8
P – Mas então a coisa mudou para melhor?
R – Aparentemente sim, mas os questionamentos persistiram após a famosa peça, e não pude evitar o confronto Religião x Palavra, e Ambas x Artista. Era gostoso fazer músicas, mas as palavras das letras também causavam grande interesse por suas histórias e possibilidades outras de organização nas Vitrines do cenário Vida. Até hoje me divirto com a palavra escrita.
http://www.youtube.com/watch?v=rs5WBuszpwQ
http://mpbsapiens.com/as-vitrines-analise-de-texto/
P – Mas o que o fez enveredar para o mundo do circo?
R – Num curto tempo, perdi dois dos meus maiores referenciais nas escritas: um parente e um poeta. Decidi então parar com tudo, mas essa idéia durou até um outro grande músico amigo chegar com um monte de lindas melodias sem letra e assunto para todas. Sem ter de me preocupar com as melodias, ficou muito mais fácil encaixar as letras nos assuntos, todos comuns ao meu estado de espírito da época, ainda questionando uma porrada de aspectos válidos e inválidos da vida artística.
P - Mas você ainda não explicou sobre o mundo do circo…
R – Pôrra cara. Palco e Circo são sinônimos: “Além das cortinas são palcos azúis e infinitas cortinas com palcos atrás”! Lembra do que falei da idiotização? Viu como a coisa pega?
http://www.youtube.com/watch?v=k3lEUZtudms
P- Tá bom, pode bater, mas explica direito!
R – Cada vez que subo num palco, não me sobra muito cenário além do povo que está assistindo. Cantar a música é a parte mais fácil, porque basta “abrir a voz e o tempo canta”. Enquanto canto, aquele povo todo sonha, ri, movimenta os braços, senta, levanta… À proporção em que as músicas trocam, trocam também os sonhos, os gestos e me sinto o próprio Piloto dos Sonhos, mas, de repente, sei que o show irá acabar, aquela gente toda irá embora e eu terei de abandonar aquele palco dos sonhos para encarar a realidade das ruas, dando de cara com Pivetes, Guris, Muchachas de Copacabana… É aí que bate a tristeza, e dela nasce a composição musical:
a Não, não sei se é um truque banal Se um invisível cordão Sustenta a vida real Cordas de uma orquestra Sombras de um artista Palcos de um planeta E as dançarinas no grande final a Chove tanta flor Que sem refletir, um ardoroso espectador Vira colibri a Qual, não sei se é nova ilusão Se após o salto mortal Existe outra encarnação Membros de um elenco Malas de um destino Partes de uma orquestra Duas meninas num imenso vagão a Negro refletor, flores de organdi E o grito do homem voador Ao cair em si a Não sei se é vida real Um invisível cordão Após o salto mortala
P – Mas essa música pertence a um musical baseado num poema já existente. Não é um outro assunto?
R – Sim, o poeta pode até usar a sua ”Túnica Inconsútil”, mas a Palavra é como a linha de costura em qualquer texto, costura tanto o assunto do musical quanto o particular. Nada me impediu de tratar da própria vida interpretando um poema alheio. Guardo comigo a costura que mais desejar. Por exemplo, o Fernando Pessoa escreveu Qualquer Música, mas não ficou muito claro e resolvi continuar cerzindo o assunto com Qualquer Canção.
http://www.letraviva.raisites.com/poesia-para-ler/27-qualquer-ma-fernando-pessoa.html
http://www.youtube.com/watch?v=ZfSWJoNxq8s
P – Mas, de alguma forma, os assuntos devem ter algo em comum que os une?
R – Claro. Todo circo tem palhaço, e o que impede o mesmo palhaço da música anterior fingir tristeza ou alegria nesta música?
a Em toda canção O palhaço é um charlatão Esparrama tanta gargalhada Da boca para fora Dizem que seu coração pintado Toda tarde de domingo chora a Abra o coração Do palhaço da canção Eis que salta outro farrapo humano E morre na coxia Dentro do seu coração de pano Um palhaço alegre se anuncia a A nova atração Tem um jovem coração Que apertado por estreito laço Amanhece partido Dentro dele sai mais um palhaço Que é um palhaço com um olhar caído a E esse charlatão Vai cantar sua canção Que comove toda a arquibancada Com tanta agonia Dentro dele um coração folgado Cantarola uma outra melodia a Em toda canção O palhaço é um charlatão E esse charlatão Vai cantar uma cançãoa
P – Então você também escreve sobre o que não está sentindo?
R – Claro que não! Por melhor que seja a encomenda, quem escreve o texto sou eu, ainda que fingindo. Nesse lance de fingir dor, faz tempo que o poeta é um Finge Dor. Aliás, isso já deu pano pra muitas costuras da palavra. Cada poeta é o alfaiate do próprio assunto:
http://www.insite.com.br/art/pessoa/cancioneiro/143.php
http://www.youtube.com/watch?v=mU32cxGnNxo
P – Então, quando você enveredou para o circo, na realidade estava enveredando para dentro de si?
R – Tudo o que faço sempre envereda para o mesmo ponto: Eu. Não tem como ser diferente, já que eu é que conto uma história baseado nas minhas impressões sobre o assunto. Acho que é bem óbvia a coisa.
P – Então você só trabalha com o “Eu Lírico”?
R – Tanto faz um como outro, pois são sinônimos nos poemas. Num dos livros até fiz uma brincadeira com o termo ”potencializa”. Vocês da crítica ficam inventando termos novos e sobra pra gente explicar os significados?
P – Pulemos essa parte e voltemos ao assunto principal. Você criou vários personagens nas músicas, mas um tem um significado especial para a maioria da crítica: O maridão otário da mulher enganadora. Como você consegue enxergar essa parte que também é sua?
R – Nem o maridão é otário e nem a esposa é enganadora. Ambos se amam o bastante para se mostrarem honestos um com o outro. Cabe a cada um aceitar ou recusar. Eu apenas descrevo as possibilidades de ambos baseado nas experiências próprias. Como já citei no começo da entrevista, ao ser questionado sobre ser um símbolo sexual, sou um sexagenário famoso e solteiro. Deixo a vida correr, escrevo sobre ela e vocês fazem as fofocas.
Como há pouco tempo tive a sorte de encontrar um antigo parceiro musical, numa das épocas em que o assunto acima surgia, ficou muito fácil escrever um belo samba, porque a ingrata melodia, que tem me deixado órfão há tempos, também se redime quando me premia com tais concidências.
P – Por favor, seja mais claro.
R – Tem sido cada vez mais difícil fazer um show e sair dele com a consciência limpa. Aquilo que me move, que é pilotar os sonhos do auditório, implica numa série de injustiças ao redor. Há todo um pessoal artista que se empenha fundo para que o show seja bem sucedido. Em termos financeiros, creio que recebam bem, caso contrário não estariam por aqui, mas o reconhecimento pelo trabalho bem executado não se resume ao dinheiro. Como há também uma outra parte administrativa nas promoções, que custa muito mais do que a artística, o preço do ingresso vai lá para a cima e o bolso do ouvinte para as picas.
Cito como exemplo uma participação que eu e o Ivan fizemos num show há certo tempo. Todos os refletores voltados para nós, alguma penumbra para os músicos e um significativo cenário imóvel e irreconhecido ao fundo. Nem sei o nome do responsável por tal cenário, mas o cara foi genial, ao conseguir juntar num mesmo quadro todas as informações históricas que nos cercavam. Parte dele retratava a arquitetura dos prostíbulos do Rio nos anos quarenta, o ambiente da ópera, e outra parte, cujo estilo arquitetônico também lembra o do Portão de Bradenburgo, antes do famoso Muro de Berlim ser construído, e uma ponte à direita, como que ligando as épocas ao show e o show à história, tratando tanto da destruição dos livros, numa Alemanha de outrora, quanto do renascimento da cultura, num Brasil de agora.
- Qual é o nome do cara que bolou aquele rico cenário. Você sabe? Quem sabe?
Todas essas injustiças adjacentes da arte você poderá notar naquele show, que marcou tanto o reencontro com um velho parceiro, o Ivan, quanto uma espécie de homenagem ao João, pai do Diogo e também um velho parceiro de ópera, bem como as minhas impressões de sexagenário, já quase hepta mais atual.
http://www.youtube.com/watch?v=D0W3wL7zAJ0&feature=related
P – E agora, como você encara essa nova maratona de shows do novo cd pelo Brasil?
R- http://www.youtube.com/watch?v=1dECgDfO_4o
—x—
Como citado no começo, só pequena parte desta entrevista foi verdadeira. O restante é apenas fruto da minha fantasia associada a algumas coincidências da obra, da qual Chico sempre se assumiu incompetente para falar.
P – Sempre fugiu da fama?
R – Não, participei de festivais e busquei o reconhecimento para meu trabalho. Mas logo aparece a fama boba, oca, que é a sombra do reconhecimento …
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