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A Arca de Noé (autor desconhecido)

Absalão era um homem que só se podia conceituar como justo. 
Particularmente era um apaixonado pela organização de forças de combate e 
no uso de armas avançadas, tais como lanças de grande alcance, setas 
orientadas e a última novidade bélica – o lançador de pedras! Era um 
verdadeiro líder.
 
Um dia, andava Absalão pela ravina, quando de repente – PUFF – uma 
nuvem de fumaça apareceu, acompanhada de uma voz tonitruante:
 
 - ABSALÃO!
 
Absalão prostrou-se. Só podia ser o Criador! Em Pessoa!
 
ABSALÃO – tornou a voz – “NÃO ESTOU CONTENTE COM OS 
HOMENS. ESTÃO POLITIZADOS. GUERREIAM ENTRE SI E SÓ 
DEFENDEM OS INTERESSES PRÓPRIOS. O TRINÔMIO ADÃO-
EVA-COBRA DEU NISTO… FAREI CHOVER DURANTE 40 DIAS E 
40 NOITES, ATÉ COBRIR A TERRA DE ÁGUA, O QUE SERÁ 
CONHECIDO COMO ‘O DILÚVIO’. QUERO QUE NASÇA UMA 
NOVA HUMANIDADE, DE HOMENS INTELIGENTES, PRÁTICOS E 
OBJETIVOS. VAI E CONSTRÓI UM BARCO PARA TI E PARA A 
TUA FAMÍLIA E LEVA PARA DENTRO DESTE UM CASAL DE 
CADA SER VIVO. TERÁS CENTO E VINTE DIAS PARA ESTE 
EMPREENDIMENTO. O MEU CONTATO CONTIGO É O ARCANJO 
GABRIEL.”
 
PUFF!… e a nuvem desapareceu.
 
Absalão levantou-se lívido. O Criador o elegera gerador da Nova 
Humanidade!
 
Todas as suas idéias seriam programadas para o futuro! Mas, Absalão não 
conhecia nada de barcos nem de navegação! Quatro meses… era muito 
pouco tempo! Era preciso resolver um problema técnico, construir um barco 
enorme – que objetivo!
 
Absalão rebuscou a memória. Conhecia um engenheiro naval chamado Noé.
Noé poderia construir-lhe o barco. Absalão seria o coordenador do 
empreendimento e Noé seria o elemento técnico. Se depressa o pensou, mais 
depressa o fez. E foi falar com Noé.
 
 -Meu caro, dizia Absalão, quero encomendar-lhe um barco… e dos grandes!
 - Sim, senhor, mas de que tipo, para carga e qual tipo de navegação?…
 
 - Sim, sim, Noé, isto são só detalhes. É um barco para grande carga e águas 
pesadas. Quero fazer uma longa viagem com a família e levarei tudo.
 
 - Está bem, senhor. Temos aqui mesmo, nesta floresta, madeira de boa 
densidade, em quantidade suficiente. Acho que consigo arranjar dez bons 
carpinteiros e dez bons lenhadores e assim conseguirei construir o barco.
 
Mais tarde, Absalão chamou Roboão.
 
 - Roboão, como você já deve saber, vamos construir um grande barco…
 - Sim, chefe, já ouvi dizer qualquer coisa.
 - O que você acha…
 - Deixe comigo, chefe. No recrutamento da última batalha pagamos oito 
dinheiros a valentes combatentes e estes são apenas carpinteiros. Temos 
cinco recrutadores e dez examinadores, para a fase de seleção!
 - E quanto ganharão?
 - O salário desta equipe varia entre oito e dez dinheiros, por serem 
especialistas. Chefe, há um pequeno problema. Não quero responsabilidades 
com o numerário e não sou bom em contas. Não acha melhor termos um 
homem para a gerência financeira do empreendimento?
 - Bem lembrado, Roboão, mas não conheço nenhum e deve ser um homem 
de confiança!
 - Bem, chefe, podemos fazer uma seleção entre candidatos. Vou já tratar 
disso.
 
O empreendimento crescia de vento em popa. As equipes de recrutamento e 
seleção já estavam em plena operação. As finanças já tinham um responsável.
Mas onde colocar este pessoal? Absalão partiu, com o seu habitual 
dinamismo, e depressa adquiriu uma cabana de madeira, contratando de 
imediato pessoal de supervisão e segurança.
 
 - Senhor Presidente – falou timidamente a graciosa recepcionista – está aqui o
Engenheiro Noé com alguns desenhos e…
 - Minha filha, já lhe disse para não me interromper. Diga ao Engenheiro Noé 
que passe por aqui depois do almoço.
 - Pois é, amigo Jacó, preciso cercar-me de gente de confiança para o 
sucesso do meu empreendimento.
 - Certo, chefe! Sabe que pode confiar em mim. Mas o armazenamento da 
madeira necessita de um almoxarifado adequado e de um bom almoxarife. 
Para o controle, necessitarei de arquivos, prateleiras e pessoal de apoio.
 - Justo, Jacó. Encomende as prateleiras na carpintaria da povoação e fale 
com o Roboão para o recrutamento de pessoal necessário.
 
Neste momento entrou Cloé, a secretária do Presidente. Jacó afastou-se 
discretamente.
 
 - Senhor Presidente, o Engenheiro Noé telefonou novamente. Parece aflito 
para a aprovação de alguns desenhos.
 - Ora, este Noé! Sempre querendo me confundir com minúcias sobre 
densidade de madeiras e outras bobagens. Ele sabe que sozinho não posso 
me responsabilizar pela aprovação desses desenhos. Diga-lhe que nomearei 
um Grupo de Trabalho do Barco, o GT-BAR, para me dar o parecer. O 
rapaz é bom em projetos, mas não entende nada de custos, de administração!
 
Passaram-se quinze dias e o organograma proposto já estava na mesa do 
Presidente. Uma Diretoria das Coisas (DC), uma dos Investimentos (DI) e 
uma do Barco (DB).
 
A Diretoria do Barco já tinha montado um laboratório especializado para a 
medida de densidade de madeira e análise de fungos e caruncho.
 
A Administração, em apenas quinze dias, já tinha elaborado as provas de 
seleção para arquivistas de desenho naval, para a seleção do pessoal de 
recrutamento e seleção de pessoal de apoio etc.
 
Naquela noite, Absalão estava cansado, mas não pôde esquivar-se de 
receber Noé na sua residência.
 
 - Senhor Presidente, desculpe-me ter vindo interromper o seu descanso, mas
o projeto está pronto e as pessoas do GT-BAR ainda não foram nomeadas. 
O material já está especificado, porém o laboratório ainda não emitiu o laudo
de aprovação da madeira e não consegui os carpinteiros para o corte… Se o 
senhor pudesse autorizar-me a trazer carpinteiros conhecidos da povoação…
 - Não se preocupe, Noé. Falarei amanhã com a Diretoria do Barco e 
apressarei a contratação do pessoal. Noé, apesar de ser o Presidente, não 
posso mudar as normas da organização, autorizando diretamente os seus 
carpinteiros. Não se preocupe que o empreendimento está nas mãos de 
profissionais – os melhores! Boa noite, Noé…
 
Noé afastou-se sem entender muito bem. Tinha sido convidado para construir
um barco. Agora está às voltas com normas, instruções, seleção etc…
 
Vigésimo quinto dia – manhã linda. Cloé anuncia a chegada de Roboão.
 
 - Entre, meu velho, sente-se. Aceita um leite de cabra?
 - Sim, chefe, obrigado. Por falar nisso, mandei distribuir leite de cabra de
manhã e de tarde, para todos. Mas, para isso, foi necessário adquirir duzentas
cabras, alugar um pasto e contratar cinco pastores.
 - Você é um bicho na administração de pessoal, Roboão! Merece uma
promoção. Afinal, já temos quinhentas pessoas no efetivo e todas 
passaram por você.
 - Roboão, não quero incomodá-lo e nem por sombra desfazer o belíssimo 
trabalho da sua equipe, mas Noé disse-me que ainda não foram contratados 
os carpinteiros para o corte…
 - Ora, chefe, Noé é um sonhador. Só pensa nos seus desenhos. Já lhe
expliquei a complexidade da contratação. Por exemplo, já aumentamos a 
oferta para seis dinheiros, mas todos os carpinteiros foram reprovados no 
primeiro psicotécnico. Se não passam neste exame, imagine nos outros!
 - Realmente, você tem razão, Roboão. Noé desconhece o que é uma boa
organização. Oriente as coisas como achar melhor. Se o contratei é porque 
tenho total confiança no seu trabalho…
 
Quadragésimo dia – finalmente a primeira reunião de Direção. Era o momento
solene das grandes decisões de cúpula do empreendimento. O Presidente,
satisfeito, relatava que o empreendimento era o orgulho da povoação. Havia 
muito trabalho e emprego para todos.
 
O Diretor do Barco ponderou que faltava papel para o desenho e que a 
eficiência dos carpinteiros era baixa. Noé tentava suprir a falta desenhando
em folhas de bananeira e cortando as árvores à noite, após o expediente.
Quando o Diretor do Barco propôs aumentar o salário de Noé para quinze
dinheiros o Diretor das Coisas explodiu, seguido de perto pelo Diretor dos 
Investimentos.
 
 - Estes técnicos não funcionam e ainda querem aumento!
 
 - Sr. Presidente, sou de opinião que devemos aumentar a equipe de 
recrutamento e apertar as provas de seleção.
 - Perdão – retrucou o Diretor do Barco – Acontece que não temos o apoio
necessário. O senhor está desviando recursos para a área de operação do 
barco, recrutando timoneiros, veleiros etc.
 - Mas é lógico – interveio o Presidente – temos que agir com antecedência no
treinamento.
 
Octagésimo dia – Absalão passeava na ravina. Estava orgulhoso. Era 
Presidente de um empreendimento que contava com mil e duzentas pessoas.
As preocupações de Noé eram infundadas. Não passava de um tecnocrata
pessimista. Felizmente já havia o Diretor do Barco para despachar com Noé -
menos um aborrecimento. Subitamente – PUFF – uma nuvem de fumaça!
 
 - O Arcanjo Gabriel! – exclamou Absalão, prostrando-se.
 
“ABSALÃO! PÕE GENTE DE MAIS PESO NO TOPO, CASO
CONTRÁRIO O EMPREENDIMENTO AFUNDARÁ!”. – PUFF!
 
Absalão correu à cabana de Noé.
 
 - Noé, Noé, ponha um convés no alto do mastro. Vou colocar as pessoas 
mais pesadas em cima!
 - Mas, Presidente, isso é impossível!… O convés é sempre em baixo e o 
mastro aponta para cima. Se aumentarmos a massa do topo, o barco vai 
emborcar!
 - Não discuta comigo, Noé. O Arcanjo mandou colocar homens pesados no
topo e é isso que vou fazer… e cumpra as minhas ordens!
 
Noé não retrucou. O Presidente estava nervoso. Noé correu à Secretaria 
Geral, mas lá encontrou o Comandante de Operações do barco, que já o 
esperava há duas horas.
 
 - Noé – disse o Comandante – o seu projeto não anda! Vou treinar os meus
homens sem barco? Vou pedir a aprovação do Presidente para adquirir um 
simulador, caso contrário não me responsabilizo.
 
Noé balançou a cabeça e retirou-se. Realmente o que ele conseguira? Uma
meia dúzia de desenhos em folha de bananeira. Isto em oitenta dias. Estava
acabrunhado e sentia-se um incompetente. Mas o que estaria errado?
 
O Presidente entrou furioso desabafando com Cloé.
 
 - Veja só! Faltam apenas quarenta dias e a Divisão de Importação diz que 
há crise de transporte e a madeira só chegará no prazo médio de dez dias!
 - Quero uma reunião de emergência com os diretores. Vou despedir o 
carpinteiro e contratar outro. Se não fosse o Roboão com a equipe de 
recrutamento, não sei o que seria…
 - Mas, Presidente – perguntou Cloé – faltam quarenta dias para quê?
 - Para o dilúvio, minha filha, para o dilúvio! Envie o seguinte fax:
 
De: Absalão
Para: O Senhor
Solicito prorrogação prazo restante 40 dias. Dificuldades intransponíveis. 
Crise internacional de madeira. Prostrações. Absalão
 
O ruído monótono do fax deixava Absalão ansioso, mas a resposta veio 
finalmente:
 
De: Senhor
Para: Absalão
CONCEDIDO PRAZO MAIS CINCO DIAS IMPRORROGÁVEIS, 
ELEVAÇÃO DAS ÁGUAS EM ANDAMENTO.
 
Absalão desesperou-se e partiu para a reunião. Cloé, pelo telefone interno, 
espalhou a história do dilúvio.
 
Octagésimo segundo dia.
 
 - Cloé, ligue para Roboão.
 - Roboão? Aqui é o Presidente. Já recrutou os carpinteiros?
 - Infelizmente não passam nos testes, meu chefe. Até já afrouxamos as 
provas, mas o exame de reconhecimento de tipos genéticos de caruncho 
reprova todos!
 - Presidente – interrompeu Cloé – é urgente: há dois pastores na ante-sala e
dizem que há crise de leite nas cabras e não vai haver distribuição aos
funcionários durante uma semana – o suprimento não providenciou erva 
durante a seca do pasto… Qual é a sua decisão?
 
Centésimo dia.
 
 - Sr. Presidente – disse o Diretor dos Investimentos – dentro de uma semana
vencem os nossos empréstimos internacionais, com as povoações vizinhas, e
o caixa não é suficiente. O nosso empreendimento economicamente vai muito
bem, mas financeiramente… estamos em crise. Sugiro uma redução de 
pessoal…
 - Sr. Presidente – tentou timidamente o Diretor do Barco – acho que o 
Diretor dos Investimentos tem razão, mas não prometemos ao CRIADOR 
que o barco estaria pronto em breve?
 - Mas… sem material!
 - Como posso fabricar madeira? – gritou o Diretor das Coisas – o seu
laboratório não acha a madeira local apropriada e há crise de transporte!
 - Os carpinteiros são incompetentes… e esse tal Noé! Que fez ele até agora? 
E ganha dez dinheiros…
 - Senhores! – falou gravemente o Presidente. Todos o olharam esperançosos.
 - A situação do empreendimento é razoável, mas temos que tomar uma 
atitude mais séria quanto ao projeto do barco…
 - Presidente, não quero interromper, mas nos nossos arquivos não constam 
os exames de admissão de Noé e nem sabemos se ele é engenheiro naval!…
 - Sim, a culpa é minha – falou o Presidente – mas quando convidei Noé ainda
não existiam as normas do empreendimento. Sou, portanto, obrigado a 
despedi-lo. Queira providenciar através do Roboão.
 
Noé ficou realmente furioso com a notificação. Estava disposto a sair daquela
terra e o caminho mais fácil era pelo rio. Foi para a floresta e reuniu a família.
 
 - Vamos cortar estas árvores, mesmo com bicho, construir um barco e sair 
daqui!
 - Mas, Noé, não somos carpinteiros, nem sabemos fazer barcos…
 - Não importa. Eu ensino vocês a cortar a madeira e já tenho os desenhos. 
Faremos um pixurum e construiremos um barco para tentar uma vida melhor 
longe daqui! Levaremos uns animais a bordo para comer na viagem. Só falta 
meter mãos à obra!
 
A madeira começou a ser cortada. As partes mais bichadas eram 
descartadas. Em poucos dias o casco do barco já tomava forma.
 
Centésimo vigésimo quinto dia – O Presidente acordou preocupado. A 
madeira tinha chegado, mas só havia três carpinteiros no setor de carpintaria. 
A sua charrete seguiu o caminho mais rápido para o escritório, para evitar o 
mau tempo. Nuvens pesadas cobriam os céus. Absalão dirigiu-se diretamente
ao fax, mas Cloé só chegava às dez horas. Absalão dirigiu-se ao Centro de 
Processamento de Dados.
 
 - O que se passa aqui? Não começou o expediente? Quem é você?
 - Sou do “telemarketing”, senhor. Já faz dias que não há ninguém. Dizem que,
com esse plano de classificação de cargos e salários e com essa política de
promoções, não fica ninguém… Se for de seu desejo, eu vou estar localizando
a sua secretária…
 
Por um breve momento Absalão esqueceu todos os seus problemas e falou 
consigo mesmo: - Que diabos de dialeto fala essa mulher? “telemarketing… 
vou estar localizando…”? O que ela quer dizer com isso?
 
Mas logo voltou à realidade e disparou para o escritório. No caminho
encontrou Roboão que lhe disse preocupado haver um zum-zum-zum acerca
de um tal Plúvio, que poderia ser um terrorista, mas que a sua equipe… 
Absalão ficou branco e correu em direção ao fax. Cloé já havia chegado, 
finalmente.
 
 - Cloé, rápido:
 
De: Absalão
Para: O Senhor
Dificuldades com projetista atrasam empreendimento. Solicito prorrogação 
do prazo.
 
A resposta foi imediata:
 
De: Senhor
Para: Absalão
PRORROGAÇÃO NEGADA.
 
E começou a chover…
 
Absalão saiu correndo, seguido por Jacó. Derramava água. Ambos corriam 
morro acima, com a água nos calcanhares. Em pouco tempo já estavam com
água pela cintura. Era cada um por si! Quando eles já se debatiam, com água 
pelo pescoço, Jacó ainda teve tempo de gritar para o chefe, apontando para 
a enxurrada:
 
 - Chefe, veja, há um barco vencendo as ondas! Veja na proa… está escrito…
A ARCA DE NOÉ!
 
Conclusão:
 
 ”Quem sabe faz a hora. Não espera o VEJA BEM!”
 

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Chico, o INSS, a Galinha e Jung

           

…Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra…

Esses versos do Chico, da composição Uma Palavra, servem bem para dar uma idéia do tanto que ele fotografou do cotidiano brasileiro, e independendo das ocasiões em que determinadas composições foram feitas, as situações atuais se explicam pela junção dos seus fragmentos.

Há uns dias atrás fui ao Barbeiro dar um trato na crista. Lá chegando, enquanto aguardava a minha vez de ser atendido, vasculhei um bloco de revistas, já bem antigas, para encontrar alguma que me fizesse companhia na espera.

Todas com muitas fotografias de gente sorridente em reuniões. Algumas com o povo sorrindo na própria foto, outras com mulheres nuas, e o povo da barbearia sorrindo fora da foto. Foi quando encontrei, perdida lá no fundo da caixa, uma revista Seleções, muito antiga e ainda com a famosa pergunta: – Você Sabia?

Na hora lembrei da infância, quando o meu pai me arrastava até a barbearia para cortar o cabelo, e a Seleções era bem comum, dentre algumas revistas semelhantes, com muito mais informações do que fotos.

Junto com isso, já veio a primeira composição dele. Almanaque:

Oh menina vá ver nesse Almanaque como é que isso tudo começou
Diz quem é que marcava o tique-tac e ampulheta do tempo disparou

Não demorou muito chegou a minha vez. Sentei na cadeira e ouvi a pergunta: - O que vai patrão? No que respondi:

- Máquina quatro no geral!

Enquanto o profissional exercia o ofício e eu lia a minha revista, o ambiente apresentava um quase silêncio, aconchegante, alterado levemente pelo som das tesouras e das maquininhas elétricas, quando adentrou no recinto um senhor de pouca idade.

O silêncio foi trocado por uma barulheira de vozes, de alguns dos habitantes até então silenciosos, acolhendo ao recém-chegado com efusivas saudações, e pensei:

- É impressionante como o homem, que em seu estado natural de solidão tende ao silêncio, muda rapidamente para a barulheira quando algum motivo o reúne em grupo.

O assunto, atrás da cadeira, continuou com a seguinte pergunta:

- E aí, conseguiu a aposentadoria? No que veio a resposta:

- Tive de encarar fila por alguns dias,…

Foi quando lembrei da música “Vai Trabalhar Vagabundo”:

Vai trabalhar vagabundo
Vai trabalhar criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura…
…Vai terminar moribundo
Com um pouco de paciência
No fim da fila do fundo
Da Previdência…

… mas depois encontrei um velho conhecido, que me devia alguns favores. Deu ”um jeitinho”  na papelada, para torná-la legal, e ainda…

Foi quando voltei novamente aos tempos de criança e lembrei de uma Galinha, do musical infantil Os Saltimbancos:

…A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias…

…por cima ele conseguiu aumentar o valor do meu Benefício, em troca de dez por cento ao mês por um ano.

Aí a galinha voltou furiosa:

…É esse o meu troco
Por anos de choco
Dei-lhe uma bicada
E fugi chocada
Quero cantar na ronda
Na crista da onda…

O papo continuou animado atrás da cadeira e terminou com a seguinte frase do jovem senhor:

- Recebi o meu primeiro Benefício na semana passada! Todos riram alto, menos a galinha, que resignada cantou:

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
    
Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo…

O barbeiro tinha terminado o serviço, e enquanto me escovava o pescoço pude notar entre os meus pés, postados no apoio inferior da cadeira, o sugestivo nome: 

- FERRANTE !

Terminei de ler rapidamente o artigo da revista, que dizia:

- Você Sabia, que segundo a Sincronicidade de Jung, em algum lugar do planeta uma outra pessoa está tirando conclusões iguais às suas no mesmo momento?

E fui embora cantando:

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional…

 

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Amarra Teu Arado A Uma Estrela-Conto

Não sei se ocorreu, está ocorrendo ou ocorrerá.

A Estação de trem é a da Mooca. Há uma música saindo daqueles velhos alto-falantes: O Eterno Deus Mú Dança. Surge do nada um enorme trem chamado Expresso Einstein, com a seguinte propaganda:  – Viaje na Luz!

Acho que entro nele, as portas fecham e só abrem novamente horas após. Por sorte,  a marmita está bem guarnecida e posso dar um trato na fome, mas é estranho que as horas sejam tão rápidas quanto a fome súbita que me assola. De repente o trem para e as portas abrem.

A estação tem um nome sinistro: Estação Erech. Desço e vejo que os moradores são bem diferentes, mas sou bem acolhido por um festivo povo. Todos com longas batas e eu com a minha roupa de trabalho: Agasalho de Ed. Física e tênis branco.

Conversam comigo por mímica e, bem perto, vejo o mesmo Deus Mú da estação dançando com o filho Damuzi e a rainha Inanna.

Já é primavera, ou será que já foi, pois quando embarquei há pouco na Mooca era outono. Agora o povo começa a saudar a chegada de um ídolo que viajara, talvez para longe em distância ou tempo.

Pelo que posso entender, seu nome é Gilgamesh. Quase que nem o ídolo que fez a música que escutei lá na Estação Mooca, o Gil.

Parece ser um grande artista, posto que já está todo cercado por repórteres, ávidos pelas narrativas da viagem em que enfrentou um Touro Sagrado de uma deusa chamada Ishtar.

Ele viajou com um amigo, o Enkidú, que o ajudou a fazer o churrasco com a carne do touro. Pelo que gesticula no momento, houve um outro episódio. Um combate onde o companheiro morreu. Agora explica que ouviu conselhos de um velho estaleiro…

Parece que tratou também com o amigo um Pacto dos Olhos, onde um deu ao outro, que estava em guarda, os próprios olhos enquanto dormisse para que tivesse vigilância dobrada.

Com Enkidú já morto, Gilgamesh teve que cruzar um Vale das Trevas e clamou: – Oh Enkidú, Te dei meus olhos pra tomares conta! Agora dai-me os teus! E com mais os dois olhos do amigo conseguiu cruzar o tenebroso vale.

Os repórteres anotam tudo numas placas de barro. Têm um Alfabeto parecido com o nosso, mas placas de barro, ao invés do papel, me confundem a cabeça. Não são repórteres os escreventes. Têm outro nome, Escribas. Será que vim parar no Egito? 

Virou noite de repente. No céu tem uma bola de fogo vindo em nossa direção. Pensei até em me mandar, mas como o povo não está nem aí pra bola, verei o que acontece. Agora a bola ficou mais nítida. É um esquisito carro de fogo, que mais parece um arado puxado por cavalo.

O Gilgamesh está subindo nele todo contente. Outra bola de fogo se aproxima pelo céu. Parece uma pequena estrela, na qual atrelou aquele seu fulgurante arado de passeio. Estão agora subindo aos céus entre cores, brilhos e os Escribas repórteres rabiscando tudo nas tabuletas de barro.

Escrevem a placa, guardam num escritório e voltam. O trem buzinou me chamando e embarco de novo. Dentro do vagão os alto-falantes anunciam: Deixando a Estação Erech. – Próxima estação, Mooca Mais Quarenta!

Desembarco rapidinho e percebo que a estação é a mesma da Mooca. Como a coisa está boa, comprarei alguns sanduíches e embarcarei novamente. Só que desta vez o trem, aumentando a velocidade, anda só alguns segundos e abre as portas.

Está escrito: Estação Iraque.  Está rasurado, pois há um nome por baixo, e é o da mesma Erech, só que mudou muito, o povo não parece tão festivo. De repente começa um bombardeio aéreo e percebo que o alvo é o tal escritório dos Escribas. Corro de volta para o trem e nos mandamos.

Ele anda alguns segundos de ré e volta pra Mooca. Desembarco de novo e ele some. Olho no relógio e vejo que perdi a primeira aula. Embarco novamente num trem normal e vou trabalhar em Santo André.

Estamos no ano da graça de 1989. Na volta pra casa, dos mesmos alto-falantes da Estação Mooca, escuto outra música do Gil, que me faz lembrar do louco episódio vivido um pouco antes de ir dar as minhas aulas em Santo André. Amarra Teu Arado A Uma Estrela, que diz:

Vídeo de JulioRwoger
Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces ou polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor
    
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus”.

Em 1851 o arqueólogo francês, Oppert, fazia escavações próximas a Bagdá, quando de repente gritou: – Suméria!

Quarenta anos depois, no mesmo local, o arqueólogo inglês, Smith, continuou as escavações de Oppert e foi aí que a História soube de uma civilização pré-diluviana, dona de escrita alfabética e ensino superior em Lexicografia Agrimensura e Contabilidade.

As primeiras escavações já resultaram no primeiro épico que a humanidade conhecera até então: A Epopéia de Gilgamesh que, todavia, não tinha epílogo, logo, a Imortalidade que o herói buscava no começo da epopéia, não possuía um fim descrito nas tabuletas de barro onde havia sido registrada.

Para a nossa sorte histórica, o Hamurabi, rei dos primeiros povos semitas a tomarem a Mesopotâmia dos Sumérios, registrou toda a história deles em Escrita Cuneiforme Silábica, feita em tabuletas de barro duplas: Escrita em placa -> cosimento -> nova camada de barro com a mesma escrita – novo cosimento; inventando assim o ancestral Xerox Argiloso.

Todas as placas apresentavam duas escritas dispostas lateralmente. À esquerda, a Escrita Alfabética Sumeriana, e à direita uma tradução dela por uma escrita menos evoluída, a dos Cuneiformes Silábicos Semitas.

Em seguida vieram os povos Assírios, do semita Assur, e dentre eles, para a nossa segunda sorte histórica, o rei Assurbanipal, que reuniu todo o acervo do Hamurabi numa biblioteca construída em Ninive, cidade próxima à atual Bagdá, que ficou conhecida historicamente como a Biblioteca de Assurbanipal.

Como a Mesopotâmia – de Meso Pótamus (entre pântanos) – dos rios Tigre e Eufrates, após ser invadida diversas vezes por povos semitas e camitas inferiores, quando comparados aos ancestrais Sumérios, acabou ganhando uma famosa construção, que é bem um exemplo da inferioridade cultural dos povos invasores. A Torre de Babel.

Construída durante gerações, o principal objetivo dos construtores da Torre de Babel era o de conseguir um menor caminho para chegar a Deus.

Idéia semelhante aos dos nossos ancestrais, semi primatas, que buscando alcançar a Lua subiam  em árvores cada vez mais altas. O fato da região ter recebido a povos bárbaros, com distintas linguagens, acabou mudando a essência filosófica da torre.

Construída originalmente para facilitar o acesso a Deus, a torre acabou se tornando um símbolo do “Desentendimento entre os Homens”, já que cada andar dela pertencia a um grupo de invasores bárbaros, cujas escritas atrasadas e comportamentos retrocederam, progressivamente, o espaço original de um povo pacífico e culto, em várias  e breves tribos  guerreiras e ignorantes.

Babel deu à região o nome de Babilônia, que acabou ganhando o mesmo significado de desentendimento entre os homens. Mais ou menos como ocorre atualmente no Oriente Médio, que por sinal ainda é lá.

A Biblioteca de Assurbanipal ficou sob a tutela do atual Iraque – de Erech (famosa capital da Suméria) – que ao contrário da maioria dos povos árabes e semitas, hoje habitantes da região, representa o último povo derivado dos ancestrais Sumérios, cuja posterior influência camita retrocedeu pela comum forma religiosa.

Do pouco que se sabe acerca da biblioteca, uma das informações diz que Saddam Hussein permitiu a uma equipe de antropólogos alemães que a estudasse e reorganizasse em outra localidade.

Em 1991, cem anos após as primeiras escavações de Smith, tivemos a Guerra do Golfo Pérsico, com intenso bombardeio a Bagdá e arredores, mostrando que o Efeito Babilônia poderia morar em qualquer lugar, pois cruzou continentes, mares e originou novas guerras, via USA.

 Logo em seguida aos bombardeios, Saddam chamou uma nova equipe de antropólogos alemães, que encontrou nas ruínas do que um dia fora a Biblioteca de Assurbanipal, algumas novas tabuletas de barro.

Eram os originais do epílogo da Epopéia de Gilgamesh, contando ter o heroi embarcado num Carro de Fogo com a sua ferramenta de arar e a sua espada, que atrelado a uma estrela partiu para a infinita vida celestial, ou seja: A Imortalidade.

O Pacto dos Olhos – Te dei meus olhos pra tomares conta – tratado entre Gilgamesh e Enkidú, que acabou virando um ditado iraquiano, foi usado por Chico Buarque na composição Eu Te Amo, feita em parceria com Tom Jobim, com possível uso do épico resultante do trabalho de Smith em 1891, já que Sergio Buarque, pai do Chico, era historiador.

As pesquisas históricas mais recentes vieram à tona só em 1993 e, curiosamente, Gilberto Gil gravou Amarra Teu Arado a Uma Estrela em 1989, ou seja, quatro anos antes da História saber como Gilgamesh alcançou a Imortalidade no epílogo da epopéia.

Quanto à minha louca viagem no Expresso Einstein, com todo esse Paradoxo no Tempo, a Equação da Contração do Tempo, do próprio  Einstein, sugere ser o meu sonho, ou o do Gil, bem possíveis:

Quanto mais perto da velocidade da luz for a do trem, maiores serão as diferenças nos tempos, do trem em que estamos, com o da estação em que nele embarcamos.

Por exemplo, se o trem viajar a uma velocidade diferente um micron dos 300 mil km/s da Luz, algumas horas de viagem nele equivalem a próximos, ou distantes, quatro mil anos de espera na estação. Se for menor ainda a diferença, bastam alguns momentos para distar milênios entre o trem e a estação.

Supondo que a nossa Luminescência, conhecida por Alma, conseguindo se livrar do lerdo corpo que a retarda, é bem possível que viaje quase à velocidade da luz. Se é difícil para os humanos normais, certamente é muito mais fácil para os poetas.

- Será que o Ministro Relativista andou pegando um trem esquisito la na Mooca e escutado: – Próxima estação, Suméria Menos Quarenta Séculos?

Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de “Bom Sucesso Pra Depois”…
O trilho é feito um brilho que não tem fim…    (Expresso 2222)
         
“De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio…”   (Parabolicamará)

Óoooooooooh! Será que não?

Obs. Conto extraído do livro Tapete de Mitos, que escrevi após constatar na MPB muitos casos semelhantes ao deste conto, quando o poeta atira o verso em uma direção, que a sua consciência supõe, e acerta em alvos jamais imaginados, guardados na certeza do seu inconsciente.
O meu “Bom Sucesso” é um trocadilho que fiz com o original Bonsucesso, que é um bairro do Rio de Janeiro.
    

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O Mestre-Sala Dos Mares-Conto

Faz muito tempo.

Fui procurar um amigo na Galeria Pajé – SP. Vendo que a sua antiga sala virara um escuro estúdio fotográfico, temeroso adentrei à procura do Ramirez, mas só encontrei um fotógrafo russo com estranhas roupas da década de 40.

Perguntei pelo amigo Ramirez e o estranho fotógrafo pediu-me uma foto dele. Não a tendo, pois ninguém costuma andar com fotos de amigos na carteira, insisti e o russo me mostrou algumas abreugrafias para tentar reconhecê-lo pelos pulmões.

Reparei também que havia sobre a mesa um velho gibi do Tio Patinhas: O Holandês Voador; largando então a simpática chapa dos pulmões e me apossando do gibi.

De súbito, uma câmera disparou um flash vermelho duplo: Um em minha direção e outro na do gibi. O russo pegou o filme e preocupou com o resultado: Eu e o Tio Patinhas dentro do navio Holandês. As últimas palavras que lembro foram dele gritando: – Você antrou no Univerrso Parralelo!

Ao dar por mim, estava no passadiço de um Navio Negreiro, com minha roupa de moto, diante de um velho Comandante dando as suas últimas instruções, em vida, ao seu Imediato, um homem negro.

O navio era uma corveta chamada Dianna, pertencente ao Comandante José Marques de Sant´ Anna. Foi quando o negro virou pra mim e disse: – Innocêncio Marques de Sant´ Anna a seu dispor, e o senhor?

Ainda sem entender o que se passava, tentei um salvador “Veja Bem”, ele balançou a cabeça e mandou que o seguisse. Pendurei o capacete no timão do navio e fui atrás em direção ao tombadilho.

Estávamos num porto e pela quantidade de homens negros com poucas vestimentas suspeitei se tratar da África remota. Entramos num forte chamado São Jorge. Innocêncio conversou algo com um rei chamado Adandozan, saiu junto com dois outros negros trajados com roupas multicoloridas. Depois vim a saber que eram embaixadores; voltamos ao navio já carregado com escravos e zarpamos.

Tudo acontecia muito rápido, já que depois de instantes chegávamos a Salvador, que se encontrava bem agitada por um levante de escravos Malés. Os embaixadores eram conhecidos deles, logo, seriam bem impopulares em terra firme.

Demos um tempo de alguns segundos, anoiteceu subitamente, o porto esvaziou, Innocêncio escondeu-nos na casa da viúva do Comandante José de Sant´Anna, saiu e voltou logo em seguida. Embarcou-nos novamente e zarpamos.

Depois de constatar que o capacete permanecera aonde o deixara, sem que o timão se movesse, subitamente percebi que estávamos adentrando em novo porto. Pelo sotaque dos estranhíssimos transeuntes do cais, suspeitei estarmos em alguma localidade portuguesa.

Em seguida, Innocêncio nos levou a uma espécie de palácio, que depois descobri ser o Palácio Real de Lisboa,  onde só os três conversaram com um rei, cuja fisionomia não me era estranha, mas ainda indecifrável. A dúvida durou até o momento em que Marieta Severo, vestida à carater, passou rapidamente ao meu lado e foi em direção a eles.

Encontrando alguém mais contemporâneo, e carente de maiores informações acerca de tudo aquilo, tentei me aproximar dela na esperança de que se lembrasse da ocasião em que me pagou um sorvete no Festival da Canção de 1966. Infelizmente fui contido por um grupo de polidos eunucos.

Pelas vestimentas de Marieta pude me localizar melhor no espaço e no tempo. Era a Carlota Joaquina no Palácio Real de Lisboa, logo, o rei só poderia ser o D. João VI.

Já um pouco mais aliviado pela descoberta, andei pelos arredores notando que a minha roupa de moto causava grande interesse nos fidalgos transeuntes. Pensei no Ramirez vendendo suas coisas do Paraguai pós guerra numa corte em tempo de pré guerra.

Embora a Pré Guerra fosse em relação à que o Brasil teve com os vizinhos paraguáios, se encaixava também naquele instante, pois Lisboa estava prestes a ser invadida pelas tropas de Napoleão Bonaparte.

Terminada a conversa, D.João carregou alguns barcos com as coisas da esposa Carlota Marieta, pegou o cofre, pôs Innocêncio na Comissão de Frente da esquadra e rapidamente zarpamos todos em direção a algum lugar possível e inimaginável.

Depois de minutos descobri, por um dos dóceis eunucos, que estávamos chegando à Ilha de Cabo Verde, aonde nos separamos. A esquadra do D. João veio para o Brasil e nós fomos com o Dianna para aquele forte aonde tudo começou.

Deixamos os embaixadores por lá, pegamos mais um cento de escravos e notei, pelas características das águas, que seguíamos para Salvador. Ao chegar, Innocêncio ficou bravo, pois D. João já se mandara para a capitania de São Tomé, cujo belo porto chamava Rio de Janeiro, e o combinado não fora bem aquele.

Não deu outra. Conferi a situação do meu capacete e fomos atrás.

Tinha muito tempo que Innocêncio não negociava por lá. Apesar de curta, a viagem foi agradável, pois pude identificar, em algumas encostas, escarpas falésias com várias imagens esculpidas dos meus futuros ídolos de uma MPB que estaria ainda por vir.

Chegando ao porto do Rio de Janeiro, Innocêncio descarregou o seu produto vital na Rua da Alfândega, leiloou, pegou a grana e voltamos para Salvador em nova e agradável viagem, desta feita com um número bem maior de ídolos esculpidos nas falésias.

Lá chegando, fomos até a casa da viúva, que aparentava estar aflita por novas notícias e finanças. Innocêncio tranquilizou-a com boa soma de dinheiro em espécie e jurou-lhe igual fê-lo a José, quando entrei na história.

Comprou mais um barco, que batizou como Dragão, ficando a corveta Dianna a cargo de um outro negro, Manuel Luis, que se tornara imediato da Dianna após a graduação do Innocêncio. Apanhei o capacete,  fomos para o Dragão e pendurei-o no novo timão, confeccionado em marfim e localizado num tombadilho muito mais confortável do que o anterior.

Fizemos viagens à África. Na primeira, a carga foi destinada a São Tomé e depois ficamos um bom tempo descarregando apenas em Salvador. Na última, o forte São Jorge havia mudado de dono. Parece que o rei Adandozan vendera à própria mãe, Ná Agotimé, como escrava. Seu irmão caçula, Guezo, o matara e tomara o poder na região, cujo nome era Daomé, e se tornara proprietário do forte.

Ao voltarmos dessa viagem, o Brasil se tornara independente e já tinha o rei Pedro I. O jovem rei Guezo veio junto conosco e trouxe um presente para o nosso, também jovem, rei. O trono da Dinastia Vodun  Daometana ocupado pelo Adandozan em seus últimos dias como monarca.

Chegando a São Tomé, Innocêncio foi para a Alfândega leiloar, Guezo foi pro palácio formalizar o presente real e eu fiquei no Dragão apreciando o timão de marfim verdadeiro e cuidando do capacete.

Pensava sobre elefantes e já íamos zarpar novamente para Salvador, onde Guezo começaria as suas buscas visando encontrar à rainha Ná Agotimé, sua mãe, mas dei de cara novamente com o fotógrafo russo segurando o gibi do Tio Patinhas, o Ramirez segurando a Abreugrafia e eu, no espelho ao lado, segurando o Capacete.

Estranhei o silêncio que imperava na primeiro andar da Galeria Pajé, normalmente barulhenta. Por um breve instante nos olhamos e subitamente surgiu a voz do João Bosco cantando:

Jeje minha sede é dos rios
A minha cor é o arco-íris
Minha fome é tanta
Planta flor irmã da bandeira…
                  
Há muito tempo nas águas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu
        
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre-sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas
         
Rubras cascatas
Jorravam das costas dos centos
Entre cantos e chibatas
Inundando o coração
Do pessoal do porão
Que, a exemplo do feiticeiro, gritava então:
         
- Glória aos piratas
Às mulatas, às sereias!
        
- Glória à farofa
à cachaça, às baleias!
       
Glória
A todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais
Salve
O navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais
         
 Mas faz muito tempo…
                

Escutamos a composição em silêncio, olhei pro Ramirez e disse:

 - Por falar em pirata, conheci um lugar… ! Depois a gente conversa, tô atrasado, fui…….!

O pior é que os demais personagens, além de mim, existiram, conforme Pierre Verger citou no livro Libertos, Sete Caminhos na Liberdade…; e Robert E. Conrad idem no livro Tumbeiros.

Pelo que pude apurar, o trono de Adandozan andou pela Biblioteca Nacional – RJ.

A rainha Ná Agotimé, esposa do rei Agonglo, foi adquirida como escrava por fazendeiros do Maranhão, sendo mais tarde responsável pelo surgimento, em São Luis, da primeira casa do Candomblé Jeje no Brasil, conhecida como Casa Das Minas, frequentada, originalmente, só por mulheres e posteriormente por ambos os sexos. – Por que será?

Os povos Jejes constituem o que se chamou por Nação Daomé, de Daho Mi (justiça em mim), em homenagem ao primeiro rei da dinastia Vodun, Dadaho, também conhecido por Dadá e por Daho, cujo cetro era um Oxé, símbolo místico atribuido ao orixá Xangô, responsável pela Justiça.

Guezo foi um dos últimos soberanos Voduns, estando o antigo Daomé hoje representado mais fortemente pelos países Nigéria, Gana e Burundi, cujos historiadores se recusaram a me fornecer maiores informações sobre o rei Adandozan, que pelo visto foi apagado das respectivas Histórias.

Ainda sobre Ná Agotimé, a rainha acabou virando enredo de uma escola de samba, Mocidade Independente de Padre Miguel, creio.

No filme Amistad, do Spielberg, pude identificar a alguns cantos fúnebres voduns, além da destruição do forte, descoberto pelo navegador português Diogo Cão, a serviço da França, em 23 de Abril de 1482, sendo batizado por ele como Forte São Jorge D´Ajuda, posteriormente rebatizado como São Jorge das Minas, de onde saiu a maioria das remessas de escravos chegadas ao Brasil.

Há uma outra versão, também histórica, que associa O Mestre-Sala Dos Mares a João Candido no episódio conhecido como Revolta Da Chibata, que por ter ocorrido por volta de 1910 foge um pouco da letra da composição, que contém muito mais de festa com dor presente do que de batalhas imaginárias em guerras ausentes.

Embora conste, nas letras apresentadas pela internet, o texto: Jorravam das costas dos “santos”…; fui informado que o original diz: Jorravam das costas dos “centos” – Centos de Escravos.

Este Conto começou com essa descoberta, pois além de também cantar de forma errada, o termo Santos era totalmente justificado pela rima com o Cantos do verso posterior. O termo Centos levou a interpretação do texto para bem mais longe da simples associação com a imagem de São Sebastião que imaginava até então.

Marieta Severo, dentre outros méritos, ficou famosa como protagonista do filme Carlota Joaquina.

O Levante dos Malés, em Salvador, faz parte da História do Brasil, que também registra o Comerciante de Escravos José Marques de Sant´Anna, cujo sobrenome herdou do ancestral Marquês de Santana, e possuía um fiel escravo chamado Innocêncio, com sobrenome herdado do dono, como era comum ocorrer na ocasião com os escravos após libertos: Fulano “De Tal”. O Manoel Luis também ganhou o sobrenome na ocasião.

Daí o orgulho do Innocêncio ao se apresentar a mim, pois acabara de ganhar o sobrenome naquela hora com a morte do seu dono.

Uma Holografia resulta do envio de único raio laser, que dividido em dois é focalizado em dois pontos: Um para o que se quer holografar e outro para o filme em que ficará impressa.

O Holandês Voador, no gibi do Tio Patinhas, existiu, assim como o Ramirez da Pajé.

Embora haja diversas origens para as Fotografias Espirituais, na década de setenta a revista Planeta trouxe em um dos seus exemplares as experiências de um fotógrafo russo, nos anos 40, que por um engano na montagem da máquina, quando buscava a um flash eletrônico e automático, acabou nas revelações obtendo fotos de pessoas determinadas com outras imagens, bem definidas, de outras pessoas além das fotografadas. Só não lembro do nome do cara.

Curiosamente, a maioria dos sites sobre a obra do Aldir Blanc não trás a letra da composição dentre as tantas feitas por ele. Qual será o motivo?

Neste meu Sonho Holográfico de Ectoplasma, só procurei tornar uma História Verdadeira em algo menos triste, além de comprovar que um poeta pode até mirar a sua letra num alvo fixo, mas a Composição Artística sempre faz com que também acerte em alvos nunca previstos.

Mas faz muito tempo:

 
Apadê
Olonan ê
Mojubá odjixé
Awá-axé awô
Awá-axé awô
Awá-axé awô
Mojubá odjixé…

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Chico, a Viúva e as Partituras-Conto

Estávamos em Março de 1964. Chico, com 19 anos resolveu ir encontrar os amigos num local em que costumavam se ver em Sampa: Esquina das ruas Maria Antônia e Dr. Vila Nova.

Ao chegar por lá observou uma confusão numa casa vizinha à Sapataria do Pepe, com caminhão do exército e tudo. Várias vezes ele tinha parado em frente a ela curioso, por causa de alguns solos de violão vindos do seu interior, porém, nunca se propusera a desvendar o enigma que tanto o cativava.

Havia cinco soldados do exército, uma viúva e três amigos dele a conversar em alto e bom tom.

O finado marido violonista morrera pisoteado numa greve e os soldados estavam lá para comunicar à viúva o falecimento do instrumentista. A viúva, atendendo a um velho desejo do marido, lia a uma espécie de Testamento dele que regia:

-Imediatamente após a minha morte, todas as minhas Partituras de Melodias Inéditas deverão ser entregues aos três primeiros violonistas que se aproximarem, com as seguintes condições:

1 – O primeiro violonista que se aproximar deverá receber, do total das partituras, o mesmo que o som de três cordas representam para o meu violão.

2 – Ao segundo violonista caberá uma quantidade de partituras proporcional aos sons emitidos por duas cordas do mesmo violão.

3 – Por fim, ao terceiro violonista caberá, do total das partituras, o equivalente ao som de duas cordas, do mesmo violão, num total dos sons emitidos por três violões.

A confusão causada pelo Testamento do Violonista era evidente entre a viúva, os violonistas e também os soldados, curiosos pelo desfecho do episódio. Foi quando o Chico pediu licença e interviu:

- O som de três cordas é meio violão. O das duas cordas dele é o mesmo que um dos três violões de vocês. O som das duas cordas de um dos três violões de vocês é o mesmo que um violão, caso cada um de vocês todos tivesse um violão: Metade, um terço e um nono!

Determinadas as parcelas da partilha das partituras, Chico perguntou à viúva:

- Quantas são as partituras, minha senhora?

- Setenta e uma! Disse ela.

Nova confusão ficou estabelecida, pois metade das setenta e uma partituras seria trinta e cinco partituras e meia. Um terço delas seria vinte e três partituras e meia mais um Refrão. Um nono das setenta e uma partituras seria sete inteiras, meia partitura, um Refrão e mais uma Quadra.

Chico interviu novamente:

- Tirei ontem à noite num bar esta música inédita, que escrevi neste guardanapo. Não está tão bem escrita quanto nessas partituras, meio amassada e cheirando a cachaça, mas também é inédita e acho que se eu der ela a vocês todos ficaremos felizes!

Ficaram todos sem entender qual era a do Chico, dando uma música inédita de presente para resolver um problema alheio. Tá certo que ele vivia bêbado, mas àquela hora da manhã?

Em seguida, Chico pegou o bloco de partituras, embrulhou num jornal e disse aos amigos:

- Temos agora setenta e duas canções a serem divididas entre vocês três!

- O primeiro, que iria receber trinta e cinco, mais meia partitura, irá receber trinta e seis. Aceita?

- Claro! Respondeu o primeiro.

- Você, segundo, que iria receber vinte e três partituras e meia, mais um Refrão, ficará com vinte e quatro. Ficou bom assim?

- Ótimo! Respondeu o segundo.

- O terceiro, que iria receber sete partituras e meia, mais um Refrão e uma Quadra, irá ganhar oito. Topa isso?

- Claro que topo, Meu Herói! Exclamou o terceiro.

Chico abriu o embrulho de jornal, deu a cada amigo o número de partituras que lhe cabia, fechou rapidinho o embrulho, colocou debaixo do braço e foi embora feliz assobiando um samba antigo.

Os amigos pasmaram com aquela aparente idiotice dele:

- É nisso que dá beber logo cedo. Perde uma música e ainda vai embora feliz!

Nenhum deles percebera que não tinha recebido a música do Chico, escrita num guardanapo amassado. O que teria acontecido naquele episódio ocorrido em Março de 1964?

Chico acabara de ganhar algumas melodias para sonhar com um LP completo, pois todos ficaram tão satisfeitos com as proporções lógicas apresentadas por ele, que não se deram ao trabalho de Somar às quantidades de cada um dos três herdeiros: 36 + 24 + 8 = 68.

Além de ficar com a que tinha escrito, Chico saiu com mais três melodias inéditas no lucro. Esse foi o motivo dele ter fechado rapidamente o embrulho de jornal e saido logo em seguida desbaratinando ao som de um samba antigo assobiado:

…Um pescador me confirmou

Que um passarinho lhe cantou…

Chico não costuma falar sobre as coisas que fez naquele período da vida, mas tem um senhor, chamado João, que vive andando lá pelos arredores da Consolação em Sampa…

     a

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