Archive for Construção Poética

Construindo O Poema

http://mpbsapiens.com/aprender-a-fazer-poemas/
 
Vida que passa…
Vida que é para ser vivida…
Ser sentida, absolvida.
Era para ser assim, porém!!!
Vida trabalhosa, prazerosa,
Aos olhos dos vizinhos.
 
Esse é um poema, passado a mim num comentário da Priscila, para que ganhe
moldes de Poema Regular ou Irregular, submetido às regras da Ciência
Poética. Analisemos os versos:
 
Vi / da / que / pas / sa
 
Este primeiro verso não tem qualquer outra possibilidade métrica. Tem quatro
sílabas e, pelo jeito, está acentuado nas sílabas 1 e 4.
No segundo verso temos duas possibilidades métricas:
 
Vi / da / que / é / pa / ra / ser / vi / vi / da – 9 sílabas
Vi / da / que-é / pa / ra / ser / vi / vi / da – 8 sílabas
 
No terceiro verso temos três possibilidades métricas por dois motivos:
 
1- Há uma possibilidade de contrair, em Crase, a última sílaba do termo
Sentida, com a primeira do seguinte Absolvida; numa só Sílaba Poética.
2 – O termo Absolvida pode ter duas possibilidades métricas: Ab/sol/vi/da e
A/bi/sol/vi/da; podendo apresentar 4 ou 5 sílabas, o que chama Diérese.
 
Ser / sen / ti / da / ab/ sol / vi / da. – 7 sílabas
Ser / sen / ti / da / a / bi/ sol / vi / da. – 8 sílabas – Diérese
Ser / sen / ti / da-ab/ sol / vi / da.- 6 sílabas – Crase a+a
Ser / sen / ti / da-a / bi / sol / vi / da.- 7 sílabas – Crase + Diérese
 
Nos demais versos não há qualquer possibilidade outra de métrica:
 
E / ra / pa / ra / ser / as / sim, / po / rém!!!  – 9 sílabas
Vi / da / tra / ba / lho / sa, / pra / ze / ro / sa,  – 9 sílabas
Aos / o / lhos / dos / vi / zi / nhos. – 6 sílabas
 
Fazendo alguns ajustes no texto, encontrei essa possibilidade em Versos
Regulares (mesmo comprimento).
 
Es / sa / vi / da-a / li / e / na / da
Que / se / vi / bra-e / a / lu / ci / na
É / / a / vi / da / pas / sa / da
A / lim / po / pra / ser / vi / vi / da
Sen / ti / da-e / a / bi / sol / vi / da
 
Se / e / ra / pra / ser / as / sim
Tra /ba / lho / sa-e / pra / ze / ro / sa
Por / que / há / vi / zi / nho-em / pro / sa
Sem / se / quer / sa / ber / de / mim?
 
Ou, em Versos Irregulares, obtive uma outra possibilidade, que mesclou a
minha primeira estrofe regular, com uma segunda estrofe, irregular, mas que 
apresentou coerência métrica e rítmica , ao combinar versos com 9 e 6 sílabas.
Perde-se um pouco nas Rimas, mas ganha-se em impacto textual:
 
Es / sa / vi / da-a / li / e / na / da
Que / se / vi / bra-e / a / lu / ci / na
É / / a / vi / da / pas / sa / da
A / lim / po / pra / ser / vi / vi / da
Sen / ti / da-e / a / bi / sol / vi / da
 
E / ra / pa / ra / ser / as / sim, / po / rém!!!
Vi / da / tra / ba / lho / sa,/ pra / ze / ro / sa,
Aos / o / lhos / dos / vi /zi /nhos.
 
O segredo está em sempre Escandir o texto original, observar as chances de
se formar Sílabas Poéticas, pelas regras das fusões sonoras das sílabas
gramaticais, apresentar um modelo métrico coerente e, principalmente, ao
ler em voz alta, acentuar corretamente às sílabas tônicas que se escolheu para
determinar o Ritmo Poético, conhecido também por Cadência.
 
Sugiro a vocês um estudo das sílabas poéticas que utilizei na adaptação do
texto original, é sempre bom exercitar escansão e nomenclatura.
 

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Poesia Espanhola – Análise Poética

Por ser tão Latina quanto a italiana, a portuguesa, a francesa, ou mesmo a 
romena, a Poesia Espanhola obedece às mesmas regras de Versificação das
demais. 
 
As sílabas poéticas, embora com sonoridades ligeiramente diferentes das
pronunciadas em Português, obedecem às mesmas regras das fusões
silábicas gramaticais já vistas, com as Métricas determinadas pelas mesmas
quantidades, os Ritmos Poéticos obedecendo aos mesmos compassos dos 
Pés de Verso binario, ternário ou quaternário; o mesmo ocorrendo com as
Rimas, cujo virtuosismo diferencia os poetas tanto aqui quanto nos países 
vizinhos de Língua Espanhola, que deu origem ao chamado Castelhano.
 
Separei uma composição do poeta cubano Silvio Rodrigues, que por ter pele
branca, num país cuja maioria é de pele negra, sofreu alguma segregação
racial, além de ter o pensamento limitado pelo regime de Fidel Castro, como
o próprio texto da composição o sugere em sátira:
 Vídeo de mcmluna
Vivo en un pais libre
Cual solamente puede ser libre
En esta tierra en este instante
Y soy feliz por que soy gigante
Amo a mujer clara
Que a mi me ama
Sin pedir nada
O casi nada
Que no es lo mismo
Pero es igual
 
Y si esto fuera poco
Tengo mis cantos que poco a poco
Muelo y rehago habitando el tiempo
Como le cuadra lo hombre despierto
Soy feliz
Soy un hombre feliz
Y quiero q me perdonen
Por este dia los muertos de mi felicidad
 
 - Como traduzir ao que foi dito no texto escrito?
 
Essa é a grande dúvida, se apenas lermos o texto. Se tentarmos pronunciá-lo
em voz alta perceberemos, pelos sons das sílabas poéticas, que as palavras
ganham um parentesco muito maior com as da língua portuguesa. É isso
mesmo: – A Poesia aproxima às linguagens distanciadas pelos caracteres 
alfabéticos dos textos. Assim:
 Obs. Sílabas tônicas em vermelho
Vivo en un pais libre
Vi / vo-e / num / pa / is / li / bre
A contração de EN + UN, que no português virou NUM, por circunstâncias
locais exige que sejam escritos separadamente. Ocorreu uma formação 
de sílaba poética interessante, pois o termo EN teve o E contraindo com a 
sílaba anterior e o N contraiu com o som da posterior numa espécie de 
Crase Nasal que formou o nosso NUM. Muda pouco para o verso escrito 
em português:
 
Vivo num país livre. Só o V ficou diferente na jogada.
 
Cual solamente puede ser libre
Cual / so / la / men / te / pue / de / ser / li / bre
 
O Cual é o nosso mesmo Qual escrito de outra forma e com o mesmo som.
O Solamente é o nosso Somente estilizado. Tente pronunciar rapidamente o
termo Solamente. O A sumirá e ficará o som de Solmente. Puede é quase
o mesmo som do Pode em português. “Só lamento” se você não conseguir 
entender.
 
Esse verso já apresenta um pouco mais de dificuldade para ser escrito em
português, dentro da mesma métrica (9 sílabas). Para deixá-lo igual é
necessário dar um reforço do tipo:
 
Que-a / qui / so / men / te / po / de ser / li / vre
 
Usei o Que-aqui já de olho no texto do verso seguinte:
 
En esta tierra en este instante
O En tem o mesmo som de EM e quer dizer a mesma coisa. O resto é igual,
mas ficaria melhor assim:
 
Em / es / ta / ter / ra-e / nes / te-ins / tan / te
 
E assim deve ser feito na composição inteira. Sempre lendo em voz alta. Farei
a Escansão dos versos originais e colocarei a versão em Português abaixo.
Perceberão pequenas diferenças nas escritas e grande semelhança nos sons
das palavras:
 
Vi / vo-e / num / pa / is / li / bre
Vivo num país livre
Cual / so / la / men / te / pue / de / ser / li / bre
Que-aqui somente pode ser livre
E / nes / ta / tier / ra-e / nes / te-ins / tan / te
Em esta terra-e neste instante
Y / soy / fe / liz / por / que / soy / gi / gan / te
E sou feliz porque sou gigante
A / mo / a / mu / jer / cla / ra
Amo a mulher clara
Que-a / mi / me / a / ma
Que-a mim me ama
Sin / pe / dir / na / da
Sem pedir nada
O / ca / si / na / da
Ou quase nada
Que / no-es / lo / mis / mo
Que não é-o mesmo
Pe / ro-es / i / gual
Porém é-igual
 
Y / si-es / to / fue / ra / po / co
E se-isto fôra pouco
Ten / go / mis / can / tos / que / po / co-a / po / co
Tenho meus cantos que pouco-a pouco
Mue / lo-y / re / ha / go-ha / bi / tan / do-el / tiem / po
Penso-e reajo-habitando-o tempo
Co / mo / le / cua / dra-e / lom / bre / des / pier / to
Como o-enquadra-o homem desperto
Soy / fe / liz
Sou feliz
Soy / u / nom / bre / fe / liz
Sou um homem feliz
Y / quie / ro / que / me / per / do / nen
E quero que me perdoem
Por / es / te / di / a / los / muer / tos / de / mi / fe / li / ci / dad
Por este dia os mortos em mim, felicidade
 
Notem que poucas dúvidas ficaram entre os sons das pronúncias. O H do
termo Homem tem o mesmo valor do H de cá iniciando palavras. Nenhum.  
No Espanhol, a expressão Un Hombre é dita sempre U Nombre.
 
Outro dado interessante deste estudo surge na expressão Muelo Y Rehago, 
cuja tradução é Penso e Reajo. Pro espanhol, que nem para nós, é comum
chamar o cérebro também por Miolo, já que é o que fica dentro da cabeça.
 
Sendo assim, tanto lá como aqui, quando se quer alertar a alguém sobre um
evento, que embora lógico, ainda não tenha sido notado pela pessoa, é
comum usarmos a expressão:
 
 - Usa o Miolo! Apontando o dedo para a cabeça.
 
Lá, a coisa assumiu ares mais oficiais com o infinitivo Miolar como sinônimo 
de Pensar. Isso pode parecer estranho, mas não é impossível. Algumas
linguagens africanas associam até aos significados de Pensar e Cozinhar, já
que, à dona de casa, que passa horas num fogão, só resta Pensar.
 
Pelos poemas, as diferenças entre as línguas portuguesa e espanhola
praticamente desaparecem pelos sons. O que complica tudo é quando temos
de interpretar ao que foi escrito por caracteres alfabéticos.
 
Quanto aos motivos que levaram o poeta a qualquer sentimento de rejeição
racial ou política, essas diferenças também ficam pequenas diante da Poesia.

  

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Como Fazer Um Verso (lição 3)

Anterior – > http://mpbsapiens.com/como-fazer-um-verso-licao-2/
 
Continuando a idéia de mostrar a construção do poema à partir de um texto
feito em prosa, como aquela fictícia carta que usei na postagem anterior, irei
explicando, por partes, o que o Chico fez:
 
Começou pelo preenchimento do envelope de correspondência, endereçado 
ao destinatário:
 
Ilmo. Sr. Ciro Monteiro Ou Receita Para Virar Casaca De Neném. 
 
Toda carta começava com uma saudação seguida de dois pontos:
 
A / mi / go / Ci / ro:-
 
O destinatário se chamava Ciro, logo, o poema exigiria, no mínimo, alguma 
rima em homenagem a ele
 
 -Eu / mui / to / te-a / d / mi / ro-
 
Como o primeiro verso apresentou a segunda e a quarta sílaba como tônicas, 
o segundo só manteve o Ritmo Poético, pois ganhou tonicidade nas sílabas 
2-4-6, ao mesmo tempo em que o texto explica o apreço do personagem 
pela figura do destinatário.
http://mpbsapiens.com/ritmo-poetico/
 -O / meu / cha / péu / te / ti / ro 
Mui / to-hu / mil / de / men / te
 
Aqui, enquanto o texto mostra o respeito de Chico por Ciro, os versos só
aparentam distintos comprimentos, mas isso não ocorreu, graças a duas 
Anáclases entre os versos 1, 2 e 3, que lidos correntemente ficariam assim:
http://mpbsapiens.com/anaclase/
Amigo Ciro-eu muito te-admiro-o meu chapéu te tiro muito-humildemente.
 
Apenas o primeiro verso foi acentuado nas sílabas 2 e 4. Em seguida tivemos
3 versos Redondilhas Menores acentuados nas sílabas 1-3-5, já que as
Anáclases, por regra, permitem ao poeta roubar a sílaba átona inicial de um 
verso, pela átona final do anterior em sílaba poética, com os versos ganhando
esta conformação:
http://mpbsapiens.com/redondilha-menor/
A / mi / go / Ci / ro-Eu     -  2-4
mui / to / te-a / d / mi / ro-O    1-3-5
meu / cha / péu / te / ti / ro  1-3-5
Mui / to-hu / mil / de / men / te  1-3-5
 
Nos 4 versos seguintes temos só uma Anáclase, mas os Redondilhas Menores
persistiram na cadência 1-3-5:
 
Mi / nhá / pe / ti / z-A     2-4
grá / de / ce-a / ca / mi / sa  1-3-5
Que / lhe / des / te-à / gui / sa  1-3-5
De / gen / til / pre / sen / te  1-3-5
 
Percebam que nessas duas Quadras tivemos oito versos com Pés Binários, já 
que entre elas houve uma grande pausa definindora de término de estrofe.
http://mpbsapiens.com/quadra/
http://mpbsapiens.com/pe-binario/
Agora vejam o que acontece com o Ritmo Poético nos versos seguintes:
 
Mas / ca / ro / / go-Um       2-4
pa / no / ru / bro / ne / gro (pausa)   1-3-5
É / pre / sen / te / de / gre / go (pausa)  1-3-5
Não / de-um / bom / ir / mão  1-3-5
 
Os dois primeiros versos mantêm a cadência 1-3-5, mas, na interpretação
musical, há um breque no fim do segundo verso, que é seguido pelo terceiro
que apresenta esta alteração no ritmo:
 
É / pre /sen /te / de / gre / go
 
Onde há uma forte acentuação nas sílabas 3 e 6, com nova pausa no final do
verso, que, por sinal, é um Heróico Quebrado 3-6. 
http://mpbsapiens.com/heroico-quebrado/
Como se não bastasse a alteração do Ritmo Poético, Chico ainda brincou 
com as rimas dos versos, dando a eles uma rima apenas Toante, em relação 
aos 3 primeiros versos, pois nêgo e grego são Rimas Consoantes entre sí,
ao passo que o “Pano Rubro-Negro” é apenas Rima Toante, como que 
se intrometendo entre os sons perfeitos e consoantes.
http://mpbsapiens.com/rima-consoante-ou-perfeita/
http://mpbsapiens.com/rima-toante-ou-imperfeita/
Cabe aqui uma observação quanto à história dos nascimentos de Flamengo e
Fluminense, que derivaram um do outro, embora eu não possa precisar a qual
de qual, deixando tal interesse para os senhores, mas, embora parentes, o
Chico deixou bem definido quem foi o Intruso Toante.
 
Vejam que a História continua nos 3 versos seguintes, que sugerem às
diferenças nas arquibancadas como meras continuidades históricas:
 
Nós / se / pa / ra / dos    1-4 * Reparem que este tetrassílabo é diferente.
Nas / ar / qui / ban / ca / das   1-3-5
Te / mos / si / do / tão / che / ga / dos  1-3-5-7
Na / de / so / la / ção     1-3-5
 
A segunda parte da letra mostra as mesmas características rítmicas e métricas 
da primeira até o sétimo verso, quando faz surgir um novo Heróico Quebrado
para se referir ao “Sofredor”, jogando novamente com o nome próprio do
verso hexassílabo para reforçar ao texto: Sofredor = Herói Quebrado.
 
A / mi / go / ve / lho:-A     2-4
mei / o / teu / con / se / lho-A   1-3-5
mei / o / teu / ver / me / lho     1-3-5
Que-é / de / tan / to-ar / dor   1-3-5
Mas / quis / o / ver / de      2-4
Que / te / que / ro / ver / de-É  1-3-5-7
bom / pra / quem / vai / ter   1-3-5
De / ser / bom / so / fre / dor   2-4-6
 
Na forma de dito popular, a expressão – Verde, que te quero verde – é um
Anacoluto, que se caracteriza por apresentar erro sintático, só que, pelos
versos, Chico deu corência a ele, já que não houve qualquer erro sintático.
http://mpbsapiens.com/anacoluto/
Para nestes versos finais mostrar que trabalha nobremente com qualquer tipo
de Metro, binário, ternário ou ambos juntos e sem problemas rítmicos no seu
verso predileto, que é o Redondilha Maior.
http://mpbsapiens.com/metro/
http://mpbsapiens.com/redondilha-maior/
http://mpbsapiens.com/pe-ternario/
Pin / tei / de / bran / co-o / teu / pre / to  2-4-7
Fi / can / do / com / ple / to   2-5 
O / jo / go / de / cor     2-5
Vi / rei / lhe-o / lis / tra / do / do / pei / to-E  2-5-8
nás / ceu / des / se / jei / to-U   1-3-5
ma-ou / tra / tri /co / lor     1-3-5
 
Reparem que nesta parte final Chico alterou a métrica, todavia o ritmo, 
também alterado, não mancou a nenhum verso.
http://mpbsapiens.com/verso-manco/
 
Na próxima lição procurarei explicar o porque de ter deixado o poema em só
duas longas estrofes, embora possua pausas de final de estrofe dentro delas;
aproveitando para explicar um pouco mais da estrutura dos Pés de Verso,
ou Metros, componentes de cada verso.
 
Próxima – > http//mpbsapiens.com/
 

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Comentários (2) »

Como Fazer Um Verso (lição 2)

Anterior – > http://mpbsapiens.com/como-fazer-um-verso-licao-1/
 
Embora na lição 1 eu tenha dito que iria começar a estudar o Ritmo Poético
da obra do Vinícius de Moraes, nela vista, resolvi dar um reforço na
construção do Verso à partir de um texto comum e definido como Prosa.
 
Como já citei anteriormente, o poema nasce de um texto simples, que escrito 
num momento de emoção carrega consigo uma sedimentação natural da arte
poética. 
 
Transformando-se ou não num poema, o texto permanecerá texto, e disso 
não podemos nos esquecer.
 
Pelo fato da Ciência Poética ter caído em desuso, nos afastamos da estrutura
poética dos textos normais, mas isso não quer dizer que a anulamos em nosso
cotidiano emotivo. Apenas a adormecemos, e o meu trabalho é apenas fazer
com que vocês despertem à poesia embutida com algumas dicas.
 
Suponhamos que eu seja um carioca, torcedor do Fluminense, que tenha
resolvido escrever uma carta a um velho amigo, também carioca e torcedor 
do Flamengo; que na última vez que esteve em casa foi para presentear à 
minha filha, recém-nascida, com uma camisa do Flamengo.
 
Conheci o amigo há muitos anos, nos idos tempos de infância da década de 
60, quando estudámos dactilografia juntos e aprendemos que todo envelope 
de carta devia conter o nome do destinatário precedido por algum tratamento
respeitoso, do tipo Exmo. Sr. (Excelentíssimo Senhor), em se tratando de 
algum jurista, ou mesmo Ilmo.Sr. (Ilustríssimo), em se tratando de algum 
senhor ilustre.
 
O texto da carta ficaria mais ou menos assim:
 
Amigo X:
 
Saiba que o tenho em grande apreço e igual respeito. Suponho que a
minha filha esteja grata pelo presente, mas as crianças, se iludindo facilmente
com as aparências, costumam não reparar na má fé dos adultos.
 
Ambos sabemos que a camisa, tanto nas cores quanto no brazão, denotam 
um profundo e desrespeitoso engano, embora, atualmente, nossos brazões 
preferidos andam tão mal representados nos gramados, que compartilhamos
tristezas idênticas, ainda que em lados opostos das arquibancadas.
 
Tenho comigo apenas a esperança de mudanças rápidas na decepção do 
quadro que agora me aflige. Esperança que se transformará em certeza, e 
assim que o fizer empresto um pouco do meu verde para substituir a todo
esse seu preto, pois saiba:
 
 - Em casa Tricolor só nascem novos tricolores, sempre dispostos a ajudar
aos mais carentes e necessitados de fé!
 
 - Que o Verde Divino o ilumine!
 
Omos; Atos. & Obros.
 
Família Tricolor.
 
Essa seria uma carta padrão dos anos 60, que embora escrita com errados
termos (dactilografia) e estranhas acentuações (estudámos), eram comuns na
época. O primeiro por digitação normal e o segundo por estilo de escrita.
 
Muitas conjugações apresentam idênticas grafias, mesmo pertencendo a
distintos tempos, como o exemplo, Estudamos, com grafia comum com o 
verbo tanto no Passado quanto no Presente. Naquela época era nobreza de
estilo acentuar a tal tempo no Passado e deixá-lo sem acento no Presente, 
ambos do Indicativo, claro.
 
Essa minha carta fictícia aconteceu como fato na MPB, só que em forma de
composição musical, que nada mais é que um poema provido de melodia.
 
Ilmo. Sr. Ciro Monteiro (ou Receita Para Virar Casaca de Neném) é o nome
da composição, escrita por Chico Buarque em homenagem ao consagrado
sambista Ciro Monteiro, amigo de Sérgio Buarque, pai dele.
 
Ver – > http://mpbsapiens.com/amigo-ciro/analise-de-texto/
 Próxima – >  http://mpbsapiens.com/como-fazer-um-verso-licao-3/

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Sapiens Didático

 
Venho reparando que os senhores, navegadores do Sapiens, têm buscado
em muito maior quantidade nas visitas, tanto no Brasil quanto fora dele, às
noções básicas de Versificação pelos elementos da Ciência Poética.
 
Para um poema ser construído, basta um motivo para tal, o que apelidamos
com o termo Mote, que é uma abreviação de Motivo. Ele pode ser feito em
uma forma mais séria que essa abaixo, quando provido de uma carga 
sentimental própria como Mote, ou simplesmente como um exercício no
trato com as palavras, que busquei colocar em forma didática:
 
Sem
Saber
Se irei
Satisfazer
Somente-ao poema
 
Semeando a pena
Só com amenas palavras
Surrupiados sentimentos
Sapecados e cheios de travas
Saberei ser tão nobre no momento?
 
Supondo nas sílabas tonicidades
Será que posso-enfim saber constituir
Sabiamente nesses versos que não têm idades
Sementes para-à poesia poder reconstruir?
 
Sua-história abalada pelos tempos do-agora
Satisfeitos com as suas limitações fúteis
Soberbamente desprezando-ao que outrora
Serviu como bases poéticas úteis
 
Serenando-essa arte do poeta
Simplesmente munir qualquer verso
Saudável na forma completa
Sonhando com seu reverso
Supondo-o firmamento
 
Ser um carrossel
Só descrevendo-o
Seu corcel
Sorvendo-o
Séu (?)
 
Perceberão que a Construção Poética usou todos os comprimentos de verso.
Do Monossílabo ao Bárbaro e retornou ao primeiro findando o poema.
 
O Verso Bárbaro, que tem 14 sílabas, é considerado o Verso Limítrofe entre
a Poesia e a Prosa, posto que a Ciência Poética determina as 14 Sílabas 
Poéticas como o máximo de um poema.
 
Tanto é verdade que, quanto aos Pés de Verso, temos no máximo o dito
Verso Heptâmetro, que contém 7 Metros.
 
Estando o limite da poesia nas 14 Sílabas Poéticas, e tendo o menor Metro, 
ou Pé de Verso, dois tempos rítmicos, forte e fraco, o Hepta (7) Metro é o
máximo que um verso pode ter, e o Unímetro (1 Metro) o mínimo, mesmo 
tendo este último somente uma Sílaba Poética, pois o seu tempo fraco está na
pausa obrigatória que finda o verso.
 
Vejam a Geometria Poética da construção do poema:
 
1 2 3 4 5 6                  
Sem                            
Sa ber                          
Se i rei                        
Sa tis fa zer                      
So men te-ao po e ma                  
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10          
Se me an do a pe na                
com a me nas pa la vras              
Sur ru pi a dos sen ti men tos            
Sa pe ca dos e che ios de tra vas          
Sa ber rei ser tão no bre no mo men to        
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14  
Su pon do nas la bas to ni ci da des      
Se que-as sim pos so en fim cons ti tu ir      
Sa bia men te nes ses ver sos que não têm i da des  
Se men tes pa ra-à po e si a se re cons tru ir  
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14  
Su a-his ria a ba la da pe los tem pos do-a go ra
Sa tis fei tos com as su as li mi ta ções teis  
So ber ba men te des pre zan do-ao que ou tro ra    
Ser viu co mo ba ses po é ti cas ú teis      
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 12 13 14  
Se re nan do-es sa ar te do po e ta        
Sim ples men te mu nir qual quer ver so          
Sau vel na for ma com ple ta            
So nhan do com seu re ver so              
Su pon do-o fir ma men to                
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10          
Ser um car ros sel                    
des cre ven do-o                    
Seu cor cel                        
Sor ven do-o                        
Céu                            
1 2 3 4 5                    
 
Esse conceito, da Poesia findar na décima quarta sílaba poética, caiu em
desuso à partir do que a Poesia Italiana fez com o desenvolvimento posterior
do Verso Bárbaro, surgindo novas configurações métricas e rítmicas. Aqui
pelo Brasil, vejam o que o Chico fez nos versos de Almanaque:
 
Ô/me/ni/na /vai/ver/nes/se-al/ma/na/que/co/mo-é/que-is/so tu/do/co/me/çou
 
A sílaba tônica de almaNAque é a décima, e no comeÇOU temos a vigésima.
Ocorre que tanto o VER, quanto o TU são a sexta e a décima sexta sílabas
do verso.
 
A Ciência Poética diz que o verso decassílabo, acentuado internamente na
na sexta sílaba, recebe o nome de Heróico; sendo portanto o verso acima
um par de Heróicos em seguida.
 
Aí é que entra a gozação do Chico. Basta ler os textos dos versos, que se
apresentaram com tal comprimento, para constatar:
 
 - Só um Super-Herói poderá responder às questões propostas nos versos.
 
Para se construir um poema, não basta um sentimento como Mote. Tem-se
que gostar do que está fazendo, e as palavras são um divertimento pra lá
de saudável diante do cotidiano atual. Basta desligar a televisão e esquecer
o noticiário, pois aí, ao invés das tristezas dele, se ganha a alegria do próprio
descobrimento verbal.
 
 - Pode crê!
 

      .

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