Carolina-Análise de Texto

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Vinícius uma vez disse: Quando se está longe de casa não se faz bossa nova.  Lembra-se mesmo do samba tradicional, de raiz ou de lamento, mas samba!
Acho que essa idéia deva ter levado Chico, ainda que aqui, porém auto-exilado da realidade, a rever os seus conceitos de Samba-Canção, lembrar de Almir Ribeiro, Agostinho dos Santos etc.; e dentro do seu Exílio Interior, suposto por mim, construído a composição Carolina, inscrita num festival de menor envergadura. 
Carolina
      
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
      
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
      
Lá fora amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
     
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela: – Ói que lindo!
Mas Carolina não viu
      
Carolina
      
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
      
Eu bem que avisei: – Vai acabar!
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
      
Lá fora amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
      
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
E só Carolina não viu 
As estrofes de verso único se prestam a chamar a atenção para o pensamento que virá a seguir. A exemplo de Retrato em Branco e Preto, a composição tem duas partes, e também a exemplo dele, se retirarmos o chamamento Carolina, temos dois Sonetos. A disposição dos versos confirma, mas a inexistência de rimas interligando os negam, contudo, reparem nos textos dos tercetos dos dois Sonetos Adaptados.
Tentava ele uma nova forma de vincular os tercetos, em sonetos duplos, pela relação de textos?
O primeiro terceto de cada parte tem o texto vinculado aos Olhos de Carolina, e os segundos vinculados às janelas que os mesmos olhos não viram.
Nas duas partes de Carolina, e a exemplo do que fez na composição Roda Viva, Chico usou os chamados pés Espondeus na construção de alguns versos, ao dar a eles um ritmo poético que apresentava duas sílabas tônicas seguidas:
Eu BEM que-a vi SEI VAI a ca BAR
O histórico da composição, no song book da cia. das letras, conta que Carolina foi feita às pressas e sob encomenda para algum dos festivais de 68, no qual alcançou o terceiro lugar, no que Chico mostrou-se surpreso e desgostoso, pois além de achá-la péssima, segundo o song book, agradou muito ao General Costa e Silva, nosso segundo presidente militar. 
Fato muito usado pelos concretistas da folha de S.Paulo para agitarem com um:
Extra! – Quando se agrada aos chatos, deve-se desconfiar da chatice própria! (o texto foi algo assim).
Tudo endossado por Caetano e Gil, deslumbrados com toda a atenção que os articulistas lhes davam, a ponto de tentarem enfear à própria obra com uma espécie de movimento artístico de resistência chamado Tropicalismo.
Essa oficial palhaçada jornalística corria solta, com o Chico quieto, só na dele, percebendo que o silêncio lhe rendia muito mais que a palavra, para, na hora certa, finalmente, e num infalível estilo Jânio Quadros, declarar:
 - Nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha!
Essa declaração causou um grande alvoroço entre os críticos da folha. Se analisarmos o que foi dito pelo Chico, chegaremos a uma conclusão: – Supôs muito e não afirmou algo!
Foi aí que ele descobriu o grande segredo pra “Domar Capeta” (imprensa em Roda Viva)
- Palavras bonitas num texto que nada conclua ou comprometa!
Isso foi o bastante para mantê-lo no mesmo degrau de fama acima dos Tropicalistas.
Por mais que os baianos tentassem, segundo Caetano, fazer propositalmente algo feio, não conseguiam destruir toda uma sedimentação artística que os concebera: 
Estou aqui de passagem
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudade e soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços de uma mulher…
(Gilberto Gil)
Por sua vez, Caetano escrevia coisas “feias” como a Tropicália, já vista em no post Roda Viva Comparada – Interpretando Textos.
Por mais agressivos que fossem os textos, a resistência maior era a da Arte, que teimava em resultar lindas rimas por Gil e um retrato denúncia, por Caetano, contra os próprios críticos, que os iludia.
Assim como em 22 não se deveria ter chegado ao contra senso de regrar um Verso Livre, cabe agora a necessidade de isentar poetas do quilate de um Ferreira Gullar de qualquer parentesco com o grupo concretista da folha.               
Aquele risco, que citei nos primeiros posts, de se tentar conciliar biografias de Arte e Autor, mostrou em Carolina todo o potencial desagregador do Parecer do Francisco sobre o Ser do Chico. Para proteger o segundo, o primeiro até se divertia de forma inescrupulosa. Carolina foi um grande sucesso de vendas. Todo o Brasil sabia, mas o cidadão gozador, fingindo inocência, não dando o valor merecido a ela, se divertia ao mesmo tempo em que constatava: 
- Qualquer merda que eu disser esses otários da crítica acreditam!    
Como já citei acima, nem todos os poetas concretistas brasileiros poderiam ter seus poemas comparados a imbecilidades, que se diziam poéticas, do tipo:
terrrrrra
aaaterr
aaaterr
rrrrterra
Ou algo assim, como um poema.
Na mesma época um termo começou a vagar na realidade cultural brasileira, todavia sem o menor cabimento lógico para alguns poetas desse mesmo grupo concretista: Vanguarda!
A Vanguarda era válida e a Retaguarda proibida. Não precisa ser nenhum grande Relativista, que aliás também era moda filosófica na época, final dos anos 60; para entender que um termo só é explicável na presença do outro. Como imaginar o significado de um sem se falar do outro?
Essas idéias costumavam cair de paraquedas nos nossos olhos, pelas folhas dos jornais, sem que ousássemos questionar os absurdos para não sermos taxados de Reacionários, outro termo bastante usado pela turminha de “sábios” poetas. O que fazer com o conceito de que “A toda Ação corresponde uma Reação”?
Voltando à normalidade, sintam a forma enxuta, e por que não dizer Concreta?; com que Ferreira Gullar simplificou os conceitos de Ser e Parecer, do Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, dos quais tanto venho me utilizando nos últimos posts:
TRADUZIR-SE
    
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
    
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
    
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
    
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
    
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
    
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte;
linguagem.
    
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?  

 

Percebe-se que a construção poética do Gullar foge muito do que venho tratando na Ciência Poética Histórica. É própria em Métrica, Ritmo, Rima, Sintaxe e Semântica; mas nem por isso é ilógica, como os demais concretistas da folha insinuaram naquilo, ou bem parecido com aquilo, que ousaram  chamar de poema.
Pela História, o que se imaginou como Verso Livre não teve o nascimento na Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922, mas no século anterior, mais especificamente no Parnasianismo Brasileiro, que associou a liberdade do verso à Vontade do Poeta. O poeta sim, passava a ser Livre para optar na construção do poema: Seguir ou não seguir os fundamentos da Ciência Poética era a Questão Livre.
Claro que essa definição de bases praticamente impediria o poeta de se permitir pertencer a novos movimentos literários. Claro que não ocorreu, mas para isso bastaria se esquecer que um dia houve o Parnasianismo Brasileiro. Foi o que se tentou fazer, mas esse não é o nosso caso, pois o poeta morre, mas a Lira fica.
Depois do nosso Parnasianismo tivemos, tanto pela Europa, quanto pelas Américas, o Imagismo, que dentre as figuras medianas apresentou o poeta judeu Ezra Loomis Pound, responsável pelos primeiros conceitos do que posteriormente, bem posteriormente,  ficou conhecido como Concretismo, e que caiu também de paraquedas no Brasil na troca de credores vista em Fazenda Modelo.
Dessa forma, como em Traduzir-se Gullar optou pelo verso com Ciência Própria, ele foi, antes de concretista, um Poeta Parnasiano Brasileiro. Se preferiu chamá-lo de Poema Concreto, a própria liberdade que o nosso Parnasianismo deu ao Poeta permitiu que assim o definisse.
Muitos anos mais tarde, como parte do Grande Circo Místico, Chico escreveu A Bela E A Fera, que apresenta este fragmento:
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Fazem Poema Concreto
Não podia mesmo incluir Ferreira Gullar no pensamento, tanto não o fez, que anos após cantou com Fagner a composição “Será Arte”, na qual homenageia o grande Poeta, talvez uma rara Ilha Concreta no oceano de águas imbecis que caracterizou o concretismo no Brasil, infelizmente.
                 

 

 

   
   
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  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    jeanete gouvea said,

    março 9, 2009 @ 11:07 pm

    Puxa, Dalton! Quanto mais conheço a música do Chico, a sua estrutura, mais gosto…Odiei Carolina “para sempre”, recusava-me a ouvi-la, exatamente por conta disso: “Se o ditador de plantão gosta, eu odeio!”
    Você lembra que essa música foi feita sob encomenda para algum festival… Segundo o Gilberto Gil, Calice também. Ele estava na casa do Chico, olhando pra Lagoa, quando lhe veio “ver emergir o monstro da lagoa.” Não sei se é lenda, também, quem sabe!
    Bjs.

  2. 2

    admin said,

    março 10, 2009 @ 10:28 am

    Jan!

    Em se tratando de poeta, não existe lenda cronologicamente definida, pois ele a cria, ou recria, dia a dia.
    A Fase Relativista, que encerrava Chico e Gil na ocasião, diante do “Monstro da Lagoa”, dizia também:

    Talvez o mundo não seja pequeno
    Nem seja a vida um fato consumado
    Quero inventar o meu próprio pecado
    Quero morrer domeu próprio veneno

    Era a Essência Anarquista do Ser Poético tentando resistir à escravidão que o Parecer Social exigia dos artistas.

    Bjs.

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