Caetano, Adoniram e Vanzolini-Análise de Texto

Ver: http://mpbsapiens.com/breve-glossario-poetico/

A Década de sessenta mostrou o cotidiano social da cidade de São Paulo recebendo uma forte imigração do norte e nordeste brasileiros. Moradores paulistanos, como Chico Buarque, traduziram àquela migração popular, conhecida jocosamente por Migração “Nórtica”, em músicas como Pedro Pedreiro.

Essa mesma migração ocorreu também na MPB, com a vinda de compositores como Gilberto Gil e Caetano Veloso, que passaram a fazer parte da cultura paulistana de então, frequentando os pontos aonde os compositores musicais locais usavam se reunir.

São Paulo apresentava muitos pontos de reunião, e dentre eles os bares da rua Treze de Maio, no popular Bexiga, localizado no bairro Bela Vista. Foi lá que o Caetano observou gente como Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini conversando. Também foi lá que o jovem compositor baiano pôde ter contato com músicas como Saudosa Maloca, Trem Das Onze, Ronda, Volta Por Cima etc.

Como fotógrafo natural dos cotidianos sociais, o poeta usa Reagir em versos às Ações, recebidas em conjunto, do que ouve e do que vê ao seu redor. Foi o que aconteceu com Caetano na composição Sampa.

Um Samba-Canção, tradicional do Bexiga, cuja letra é um misto da realidade enfrentada no cotidiano por seus conterrâneos migrantes, somada às visões de muitas demolições de casas históricas, retratadas por Adoniran em Saudosa Maloca, com uma forçada intervenção Concretista na Poesia Brasileira, comparada à tristeza estampada por Vanzolini em Ronda.

Em Ronda, Vanzolini encerra com este texto:

…E nesse dia então
Vai dar na Primeira Edição:
– Cenas de sangue num bar da Avenida São João!

Creio até que o Mote da composição Alegria, Alegria tenha ocorrido nessa época, pois em São Paulo havia enormes bancas de jornais no cruzamento das avenidas Ipiranga e São João; e ficado alojado no inconsciente poético à espera do Quadro Inspirador como Arte Final, que exigiria do poeta uma Tradução por versos:

…O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em Cardinales bonitas, eu vou
Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigite Bardot
O sol nas bancas de revista…

Era igual a qualquer banca de revista atual, só que Enormes e com outras personalidades, ou revistas, hoje extintas, como Claudia Cardinale e Brigite Bardot, uma italiana e outra francesa, ambas do cinema. Muitos sorrisos estampados, mas as pernas eram melhor notadas na Rua Aurora, já que as revistas pornô eram inexistentes oficialmente. Quando muito um “Catecismo” do Carlos Zéfiro.

Em Saudosa Maloca, Adoniram diz:

Se o senhor não está lembrado
Dá liceça de contar
Ali onde agora está
Aquele adifício arto
Era uma casa velha
Um palacete assobradado
Foi aqui seu moço
Que eu, o Mato Grosso e o Joca
Construímos nossa maloca
Mas um dia
Nós nem pode se alembrá
Veio os ôme das ferramenta
Que o dono Mandou Derrubá…

Imaginem um jovem poeta escutando isso no Bexiga, pela música do Adoniram, vendo o sofrimento do seu povo se espremendo nos Cortiços e testemunhando à demolição de um Patrimônio Histórico, trocado por suntuosos edifícios comerciais. Tudo isso coube neste fragmento de Sampa:

…Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas…

Toda essa tristeza, descrita pelo Caetano nessa parte de Sampa, convém lembrar, veio na carona do verso final da Ronda do Vanzolini, pois Sampa inicia pelos versos:

Alguma coisa acontece no meu coração
E só quando cruzo a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando cheguei por aqui eu nada entendi…

Caetano até mostra o seu reconhecimento à colaboração que teve de Adoniran Barbosa e Paulo Vanzolini neste fragmento de Sampa:

…Eu vejo surgir teus poetas em campos e espaços
Tuas oficinas de florestas…

Pois lá no Bexiga, em meio àquela gritaria toda de clientes, mesas, garçons, pedintes etc; havia um espaço onde podia respirar o mesmo “Ar Puro”, que lhe era comum em Salvador: O da Poesia.

Essas impressões dos anos sessenta devem ter ficado bem estampadas no Inconsciente Poético do Caetano, a ponto dele, anos mais tarde, voltar ao assunto sem saber, quando construiu uma composição para o Chico Buarque iniciar o seu LP Sinal Fechado, diretamente homenageando à amizade reatada com o amigo, conhecido em Sampa mas, segura e indiretamente também a Adoniram e, principalmente, Paulo Vanzolini.

Digo isso, porque Caetano também escutou, lá pelo mesmo Bexiga e na mesma época, um Noite Ilustrada cantando isto:

Chorei
Não procurei entender
Todos viram, fingiram
Pena de mim não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão

Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

Quem conheceu o Paulo Vanzolini, nas noites paulistanas do Bexiga, jamais poderia imaginá-lo como Machista, dado à elegância com que se referia às mulheres, em qualquer classe que se mostrassem. Conhecendo-o desta forma, como imaginá-lo dono do pensamento descrito na segunda estrofe do samba Volta Por Cima?

Acima de qualquer adjetivo social, Vanzolini era poeta e prezava muito às Rimas Internas de verso, procurando novas estéticas de Costrução Poética. Talvez, foi observando a obra dele é que Caetano tenha desenvolvido à sua busca obstinada pelas Rimas Internas de Eco, mas essa informação, mesmo lhe tendo passado despercebida, com certeza voltou de forma objetiva na composição Festa Imodesta, supostamente feita para um, mas trazendo, além do Chico, todo um contingente de poetas observados na sua fase paulistana dos anos sessenta:

Minha gente
Era triste amargurada
E inventou a batucada
Pra deixar de padecer
Salve o prazer
Salve o prazer
Numa festa imodesta como esta
Vamos homenagear
Todo aquele que nos empresta a sua testa
Construindo coisas pra se cantar
Tudo aquilo que o malandro pronuncia
E o otário silência
Tuda a festa que se dá ou não se dá
Passa pela fresta da cesta e resta a vida. Ah!
Acima do coração
Que sofre com razão
A razão que volta do coração
E acima da razão a rima
E acima da rima a nota da canção
Bemol natural sustenida no ar
Viva aquele que se presta a esta ocupação
Salve o compositor popular.

A composição possui as mesmas duas partes, em Oitavas, apresentadas em Volta Por Cima, com a diferença de que Caetano usou Oitavas Líricas e Vanzolini não. Ao optar pelas Oitavas Líricas, Caetano tratou mais de si. Vanzolini não: “Acima da Razão, a Rima”.

Não posso precisar se a introdução de Festa Imodesta foi construída pelo Caetano ou pelo Chico, mas colabora nitidamente para descrever o enredo, misto de Amarga Tristeza e Doce Lembrança que acompanhou, e talvez ainda o faça, o Caetano no posterior desenvolvimento da sua obra.

Pode ser que eu tenha sido um dos poucos, senão o único, a seguir essa trilha filosófica. Talvez nenhum dos compositores envolvidos no texto tivesse se dado conta do evento. Isso é a MPB, que possui um espaço comum aos Inconscientes Artísticos.

Espaço esse que deveria obrigatoriamente ter sido trabalhado pela Crítica Literária e, infelizmente, não o foi por pura Incompetência Analítica, acomodada convenientemente no termo Metalinguagem à partir da mesma década de sessenta.

Essa Irresponsabilidade Coletiva dos críticos informantes só poderia resultar nos comportamentos vistos num recente comercial de televisão, onde, ao constatar uma letra de sua autoria sendo cantada de forma errada, por uma pessoa no carro ao lado, o próprio autor, Fabio Jr; tentando corrigir o erro, escuta o seguinte:

- Quem é você pra ficar me corrigindo???

Alguém muito mal explicado para o ouvinte, ou leitor, ou espectador; seja lá qual for o Veículo de Irresponsabilidade transmissor da informação. Isto sim é Triste:

Recebe o teu poeta, oh Bela
Abre o teu coração
Abre o teu coração
Ou eu arrombo a janela

  del.icio.us isto!

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