Breve História

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O cidadão Francisco Buarque de Hollanda nasceu, teve família anterior, gerou o compositor e teve família posterior. O compositor somou todo o cotidiano observado pelo cidadão, que traduzido em composições musicais, formou uma outra família de personagens chamada Obra. Ela é o que mais interessa, embora apresente algumas passagens em que terei de tratar da sua ancestralidade para justificar as suas reações.

Tanto Francisco como Chico é gozador mordaz. Driblam até na área do campo de defesa.

Numa das suas crônicas, Mario Prata conta que num certo show dos anos 70, a multidão pedia a Chico que cantasse Apesar de Você, uma espécie de samba-resposta à repressão. Ele se negava até que dona Maria Amélia, sua mãe, bradou: – Seja mais corajoso filho. Cante!

Ele não cantou, mas mesmo assim, após o show, foi preso e levado para interrogatório, onde se fingiu oprimido pela mãe desde criança, o que gerava nele tal comportamento polêmico, que jurava estar tentando se livrar, mas não conseguia, pois ela o perseguia até nas apresentações.

Noutra crônica, Prata conta que tentavam compor um musical. Precisavam de tranqüilidade e acharam um pequeno bar quase vazio. Depois de um tempo conversando, Francisco comentou alguma coisa muito óbvia e Mario retrucou cantando uns parabéns a você. O humilde dono da birosca, que fingira não conhecê-los até aquela hora, não se contendo gritou:

- Uma rodada de cerveja para todos, pois Chico Buarque, nosso velho cliente, faz anos!

Embora estivessem em Fevereiro e Francisco só fizesse anos em Junho, ele, “comovido”, pediu licença para usar o telefone e chamou Marieta Severo, então sua esposa, para a festa.

- Esse é Francisco! Ou será o Chico?                         

Tão sério quanto Gregório Matos Guerra (séc.17) compondo poemas para uma cozinheira, ou um Nelson Rodrigues dissertando sobre os tipos de surra preferidos pelas mulheres nas classes sociais, ou mesmo o sério Voltaire postulando: – Só os charlatões afirmam as coisas, com certeza!

Se a biografia da obra me exigiu até agora 30 anos de prudência, a do cidadão exigiria só umas semanas, talvez um mês, e ele seriamente sugeriria um prêmio Nobel para o meu trabalho.

Um dos sinônimos do acervo que constitui a obra de um artista é Lira, logo, a obra de Chico é também sua Lira.                      

Na mitologia grega, as composições de Apolo sempre tratavam dos próprios feitos. Apolo tinha um rebanho de imaculadas reses brancas e, num dia chuvoso, uma delas acabou presa numa caverna que já abrigava a uma criança chamada Hermes. Como a chuva persistiu por dias, Hermes usou da Biodiversidade local e fez churrasco.

Achando muito interessantes as tripas da rês, que sonorizavam quando estendidas e vibradas, pegou um galho úmido, secou e amarrando-as nele construiu um brinquedo sonoro chamado Lira.

Quando a chuva finalmente passou, Apolo saiu em busca da rês perdida. Ao vê-la morta na caverna, junto a Hermes, preparou a bordoada, mas o moleque mostrou o brinquedinho. Ele tomou o brinquedo do moleque e nunca mais devolveu, pois passou a ser seu inseparável parceiro nos recitais em que desenvolvia a auto-estima.

Como Apolo era um poeta que só falava de si e sempre usava a Lira do Hermes, foi o precursor dos Poetas Líricos, portanto algo lírico é, acima de tudo, pessoal. Embora seja um autor lírico, Chico raramente usa autobiografar o Francisco.

Apolo continuou com as suas apresentações até o dia em que os ouvintes começaram a marcar o ritmo com os pés. Ele gostou do lance, que dava um balanço poético às sílabas tônicas e átonas, e baixou o decreto: – Tônicas em batidas fortes. Átonas em fracas!    

Nascia a relação Poesia / Melodia das composições musicais, com os primeiros conceitos de Ciência Poética e coreografia tribal num pré-Classicismo. Se a história grega nunca disse isso é porque se esqueceu.                                                                               

               Mesmo porque as notas eram surdas                        
               Quando um deus sonso e ladrão                    
               Fez das tripas a primeira Lira                         
               Que animou todos os sons                    
               E dai nasceram as baladas                     
               E os arroubos de bandidos como eu                       
               Cantando assim:…                        
             …Mesmo porque-estou falando grego                     
               Com sua imaginação…  

                                        (Choro Bandido-1985)

                                      

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  del.icio.us isto!

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