Benvinda – Análise de Texto

 

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Essa fase do auto-exílio, ainda no Brasil, que se caracterizou pela alienação defensiva do poeta contra o cotidiano social opressor, acabou tirando do Chico a sua maior fonte de inspiração, que era a de fotografar às nossas reações no cotidiano, para depois revelá-las na forma de composições musicais.

Se por um lado ele tentava evitar o assédio dos abutres da imprensa com o auto-exílio, por outro ele perdia os quadros que usava fotografar para compor.

Essa situação deve tê-lo deixado confuso o bastante a se preocupar com a falta de assunto. Creio que, numa fase de plena ascensão poética, bastariam alguns dias sem compor algo para gerar a toda essa preocupação suposta.

Basta ler o texto de Benvinda para notar que foi composta aos pedaços, talvez semelhante ao ocorrido em Retrato em Branco e Preto, que entendi ter começado antes e terminado depois de Desencontro.

Mas tal estado de espírito creio ter durado pouco tempo, pois a falta de inspiração foi o mote da nova composição, inscrita em outro festival de 68.

No festival, Benvinda foi vaiada por um grupo grande de jovens, dentre os quais estava Gilberto Gil, logo procurado pelo pessoal da imprensa para fomentar ainda mais à discórdia Chico x Tropicalistas.

Embora eu tenha escutado, pessoalmente, a uma das entrevistas do Gil na ocasião, na qual ele argumentou que não estava lá vaiando, mas tentando convencer o povo a não fazê-lo, não consegui ler a entrevista em nenhum dos jornais nos dias seguintes ao ocorrido, ficando este como mais um infeliz dado de tal época: O dia em que Gil vaiou Chico!

Seja lá como for, ou não for:       

Dono do abandono e da tristeza
Comunico oficialmente
Que há lugar na minha mesa
Pode ser que você venha por mero favor
Ou venha coberta de amor
Seja lá como for
Venha sorrindo ai.
      
Benvinda, benvinda, benvinda
Que o luar está chamando
Que os jardins estão florindo
Que eu estou sozinho
     
Cheio de anseios e esperança
Comunico a toda gente
Que há lugar na minha dança
Pode ser que você venha morar por aqui
Ou venha pra se despedir
Não faz mal pode vir
Até mentindo, ai
     
Benvinda, benvinda, benvinda
Que o meu pinho está chorando
Que o meu samba está pedindo
Que eu estou sozinho
     
Venha iluminar meu quarto escuro
Venha entrando como o ar puro
Todo novo da manhã
Venha minha estrela madrugada
Venha minha namorada
Venha amada
Venha urgente
Venha irmã
     
Benvinda, benvinda, benvinda
Que esta aurora está custando
Que a cidade está dormindo
Que eu estou sozinho
     
Certo de estar perto da alegria
Comunico finalmente
Que há lugar na poesia                           
Pode ser que você tenha um carinho pra dar
Ou venha pra se consolar
Mesmo assim pode entrar
Que é tempo ainda ai
     
Benvinda, benvinda, benvinda
Benvinda, benvinda no meu coração 

Inicialmente chamo a atenção para a jogada com Rimas de Eco, ou Ecóicas, nos primeiros versos das estrofes longas:

Dono do abandono

Cheio de anseios

Certo de estar perto

Chico estava ganhando intimidade com um elemento poético que seria fundamental para o posterior sucesso das composições musicais, cujos textos apresentaram facilidade de memorização, que auxiliou na nossa compreensão objetiva do descrito: O Som interno dos versos, tanto na repetição das vogais tônicas nas palavras, quanto na da repetição do som resultante de alguma consoante, como ocorreu no último exemplo com a consoante R.

Embora tenhamos uma composição importante da obra do Chico, cuja análise mereceria atenções outras, fica difícil não detectar no texto de Benvinda a cumplicidade adolescente. Qualquer moleque que tenha vivido nos finais dos anos 50 e 60 percebe isso, com a repetição constante do seguinte pensamento: 

“Que eu estou sozinho” (vamos aproveitar para…)

Pode bem ser uma frase que Chico costumasse dizer a uma das irmãs, ao contar algum segredo pequeno, já que vivia cercado por elas, aproveitando que os pais não estavam por perto, mas se fosse necessária a ausência dos demais familiares, o caso já seria de um segredo “importantíssimo”.

Todo moleque tinha dois esconderijos: Um individual e um grupal.

O individual só ele conhecia, quando muito, dividia a informação só com o melhor amigo. Nele se guardavam bolinhas de gude, piões, estilingues… Dependendo da época, recebia até balões bem dobrados.

O grupal servia mais como uma espécie de “Clube do Bolinha”, onde se disputavam vários jogos sadios como: Mijo, ou Cuspe, em Distância  e Altura (normalmente em muros porque poste era fino), Comprimento de Pinto, Punheta Coletiva, inspirada em musa comum (irmã ou mãe de algum membro era proibido), e ocasionalmente um troca-troca…. Sempre tinha um, cujo pai era dono de venda, que levava cigarros sem filtro: Continental, Hollywood, Lincoln, Luiz XV…

A frase: -Pode vir que eu estou sozinho! -Vamos lá que a gente tá sozinho. – Não tem nem cachorro, dá pra pular o muro, pegar o balão antes de cair e fugir antes de acenderem as luzes… Curiosamente, quando se chegava ao balão, no quintal da casa, já tinha um monte de moleque dentro dele.

O impulso de, quando adulto, ameaçar correr, repentinamente, aparentemente do nada; normalmente era causado por um balão caindo, e muito difícil de evitar. Até hoje, embora estejam em extinção, ainda contemplo um balão para tentar definir aonde irá cair, mas desbaratino logo pra não ficar chato.

A rua em que Chico morava, quando adolescente em Sampa, Rua Burí, além de ser vizinha do Estádio do Pacaembú, era cercada por muitos bosques, que certamente abrigaram vários “Clubes do Bolinha”, esconderijos individuais, também conhecidos por “Truques”, diversos em tamanho, forma e conteúdo, só confirmando o que ele mesmo disse em Até Pensei: 

Junto a minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia… 

Creio que o nível de cumplicidade do Chico com as composições chegava sim a esse ponto, e por que não, já que contava com meros 24 anos na época?…

Só não dá para definir qual das duas, Poesia ou Melodia, ou mesmo o conjunto delas, a composição; era a musa à qual suplicava a chegada como cúmplice e agradecia com “Benvinda minha Inspiração”.

             
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  del.icio.us isto!

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