As Rimas – Exemplos

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Jogada no quintal
A enxuta concha guarda o mar
No seu estojo 
 
A Ostra E O Vento (CD: As Cidades – Chico).
 
 - Cadê as Rimas?
 
- Vai lendo que você descobre!
 
Para que as regras da Ciência Poética pudessem ganhar continuidade lógica, 
surgiu a Rima como elemento fundamental na ligação dos itens, tanto no aspecto
Estrofação, quanto nas Construções Poéticas de Forma Fixa, como o Soneto 
Italiano, por exemplo, cujos Tercetos têm que apresentar interligação por igual 
rima, em pelo menos um verso de cada.
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Em linhas gerais, Rima é a semelhança sonora entre duas palavras, mas convém 
lembrar que o termo, semelhança, surgiu no conceito recentemente, pois em 
origem a rima exigia Identidade de sons nas palavras, desde as vogais tônicas.
 
Quando um verso não encontra parentesco sonoro com os demais próximos 
recebe o nome de Verso Branco.
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Chico usa também dele como estratégia de texto. Caso queira negar, ou isolar a
uma idéia num contexto, normalmente o faz tratando de si na primeira pessoa do
singular. Vejam o exemplo em Um Chorinho:
 
…Quem me dera
Ter um choro de-alto porte
Pra cantar co´a voz bem forte-
-E-anunciar a luz do dia
Mas quem sou eu
Pra cantar alto assim na praça
Se vem dia, dia passa-
-E-a praça fica mais vazia…
 
Notem que os dois únicos versos Brancos (1 e 5) são os que se referiram mais 
diretamente a ele, pois os demais estão todos rimados.
 
Chico sempre colocou as suas idéias próprias mais no interior da Construção 
Poética  das composições, embora em 1967, época de Um Chorinho, por estar
no começo ainda as mantinha na interpretação externa e objetiva do texto. 
 
A Semana de Arte Moderna de 1922 em São Paulo consagrou o surgimento 
de algo conhecido por Verso Livre, porém todo cheio de proibições e dentre 
elas o uso da rima, sob o pretexto dela inibir à objetividade dos textos nos 
versos Livres, que “deveriam” encerrar o amplo sentido do texto escorado 
apenas num equilíbrio semântico.
 
No fundo, o que o Modernismo de 22 propunha era um confronto com os 
fundamentos do Parnasianismo Brasileiro, que o antecedera no final do século 
anterior, cuja idéia de Liberdade se voltava ao poeta e não ao verso.
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O poeta poderia escolher com que tipo de versificação iria trabalhar. Regular ou
Irregular,  contanto que o poema apresentasse lucidez métrica e rítmica 
obedecendo, ou não, aos fundamentos da Ciência Poética.
 
Estava mais do que clara a intenção parnasiana de se buscar novas soluções 
para a própria Ciência Poética, mas os modernistas não achavam isso. 
Imaginem comigo:
 
 - Tendo no nosso alfabeto um monte de consoantes e somente cinco vogais, 
indispensáveis à confecção de qualquer vocábulo do idioma, o que seria mais
 limitador do pensamento, evitar as semelhanças sonoras ou permiti-las?
 
Sendo Liberdade e Regra termos antônimos, como imaginar qualquer Lógica 
sensata na proposta modernista, quanto às Rimas?
 
Em tal semana literária se argumentou também que a rima não pode ser tomada 
como fundamento poético, por ter surgido recentemente, em meados do 
Trovadorismo. Chute de primeira.
 
A saber, o Trovadorismo vogou entre os séculos XII e XIII. Então, como 
explicar a estes versos de Ênio, que viveu entre 239 e 169 A.C.?
 
Haec omnia vidi inflamari
Priamo vi vitam evitari
Iovis aram sanguine turpari
  
Caelum nitescere arbores frondescere
Vites laetifiese pampinis pubescere
Rami bacarum ubertate incurvescere
O romano Ênio aprendeu esse truque com os poetas árabes, que já ensaiavam 
rimas desde a época em que eram simplesmente mesopotâmicos, bem antes do 
Maomé com o seu moderníssimo Alcorão oitocentos anos após!
 
Interpretar rimas exige quatro observações fundamentais:
 
1 - Qualidade Sonora das Rimas:
 
a) Rima Consoante ou Perfeita – É a que apresenta identidade de sons. É a rima
original.
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b) Rima Toante ou Imperfeita – Sons semelhantes com identidade nas vogais 
tônicas.
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     Quem é você? Diga logo
     Que eu quero saber o seu jogo
     Que eu quero morrer no seu bloco
     Que eu quero me arder no seu fogo
Versos 2 e 4, Rima Consoante – versos 1 e 3, Rima Toante.
 
2 – Timbre das Rimas: 
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O conceito do Timbre nas Rimas é usado também para qualificar os versos em 
Agudos, Graves ou Dáctílicos; quanto às tonicidades das palavras que os 
findam, independente de rimarem ou não.
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a) Rimas Agudas – Situadas em vocábulos oxítonos:
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Eu vou lhe deixar a Medida do Bon fim
Não me va leu
Mas fico c´o disco do Pixinguinha sim
O resto é seu
b) Rimas Graves – Situadas nos vocábulos paroxítonos:
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Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez for tuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
c) Rimas Dáctílicas ou Rimas Esdrúxulas – Nos vocábulos proparoxítonos:
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Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima…
3 – Quanto à Posição no Verso:
 
Rimas Internas – Pertencentes ao mesmo verso.
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Rima Leonina – Rima Interna que pode envolver início, centro e fim de verso
entre si. Deu origem ao Verso Leonino: 
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Amigo Ciro-eu muito te admiro
Rima De Eco – Rima Interna que envolve a duas tônicas imediatas. Deu origem 
ao Verso Ecóico:
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“Ah eu lhe trouxe-um doce”
b) Rimas Externas – Pertencentes a versos distintos.
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b.1) Rimas de Extremidades – Nas pontas dos versos: 
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Em Final de Verso: Todos os exemplos dados em Rimas Agudas, Graves ou 
Dáctilas.
 
Em Princípio deVerso:
 
Sonhar mais um sonho impossível
Lutar quando é fácil ceder
Rimas Paralelas – Num grupo de quatro, rimam os finais de versos 1 com 2 e 3 
com 4, como no exemplo dado em Rimas Dáctilas.
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Rimas Alternadas – No mesmo grupo, rimam 1 com 3 e 2 com 4, como no 
exemplo dado em Rimas Graves.
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Rimas Opostas – Idem grupo, rimam 1 com 4 e 2 com 3:
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Seus segredos sei decor
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que alí sozinho
Eu vou ficar tanto pior
Rimais Centrais – Os versos rimam pelos centros:
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Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
b3) Rimas Cruzadas: Envolvem finais ou princípios de versos rimando com com
Centro ou Extremidades dos outros.
 
Rima Cruzada Simples – Final de verso anterior com centro do seguinte:
 
A colombina na cruz vermelha
Vai ter centelha na batucada
Rimas Cruzadas de Eco – Final de verso anterior com início do posterior:
 
Vai ter centelha na batucada
Rajada de tamborins 
4 – Quanto às categorias Gramatical e Fônica:
 
Rima Pobre – Envolve palavras de mesma categoria gramatical e que tenham 
sons vulgares.
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Quem não a conhece
Não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece
Não pode reconhecer
Rima Vulgar – Envolve palavras com categorias gramaticais diferentes, mas que 
tenham sons vulgares:
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Tire-os seus olhos do mar
Vem ver……
O sorriso que eu tenho pra lhe dar
Rima Boa – Envolve palavras com mesma categoria gramatical, mas que 
tenham sons não vulgares:
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É a rainha dos detentos
Das loucas, dos lazarentos
Rima Rica – Envolve palavras com categorias gramaticais diferentes e que não
tenham sons vulgares:
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Eu dormi c´o-um protestante
E um católico depois
Mas a mim ninguém garante
Qual é o melhor dos dois
Rima Rara – envolve palavras que tenham sonâncias de raríssimo uso, 
independente das categorias gramaticais. O quilate da rima é proporcional à 
quantidade de letras idênticas que precedam à vogal tônica da sonância:
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O confronto convexo da clarividência
Com o pronto conexo da clara evidência
f) Rimas Especiais – São as combinações raríssimas, ainda que em mesmas 
categorias gramaticais, que se estendem e fundem pela ação conjunta de vogais 
e consoantes ao longo dos versos. Como os dos versos acima ou destes abaixo:
 
Lá vou eu de novo como-um tolo
Procurar o desc onsolo
         
Pois não val es nada
És gina virada
Descartada….
Efeitos Sonoros
 
Os Efeitos Sonoros trabalham coadjuvando as rimas. Enquanto a rima ataca 
pela objetividade do texto, no desenvolvimento dele alguns sons oscilam entre 
as nossas compreensões concreta e abstrata. São eles:
 
Aliteração – É a repetição de mesma consoante ao longo do verso:
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     “Tragar a dor engolir….”
Assonância – É a repetição de mesma vogal ao longo do verso:
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     “Despudorada, dada, danada agrada…”
Anáfora – É a repetição de vocábulos numa mesma posição em distintos versos:
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Que eu quero saber o seu jogo
Que eu quero morrer no seu bloco
Que eu quero me arder no seu fogo
d) Onomatopéia – Visa a imitar o som de algo através de vocábulos:
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Que já vem, que já vem, que já vem… (o som do trem do Pedro Pedreiro 
ta-ta-TA /ta-ta-TA /ta-ta-TA)
Saltemos agora no tempo, indo do primeiro LP (1966), que contém a 
composição Pedro Pedreiro, ao CD Cidades (1999) e vejamos o que ocorreu
com as Rimas do Chico trinta e tres anos após:   
 
Jogada no quintal
A enxuta concha guarda o mar
No seu estoj
Numa leitura rápida do texto, e com a idéia de que a Rima tem de estar 
posicionada nos finais de verso, o conjunto sugere que o Chico não usou o 
seu maior recurso poético, a Rima, para fixar a composição na percepção do 
ouvinte, no entanto os fãs continuaram a manter a letra na cabeça. – Por Que?
 
Na evolução da obra do Chico, a nossa limitada compreensão, tanto das 
mensagens objetivas de texto, quanto dos seus truques poéticos no 
desenvolvimento delas, fê-lo conversar cada vez mais consigo mesmo, e nessas 
conversas interiores, que se tornam paradoxais quando não bem estudadas, 
muita novidade própria do autor colaborou com a Ciência Poética da MPB.
 
Percebam, que no primeiro verso do exemplo acima, Chico trabalhou com só 
uma vogal tônica, o A, buscando uma Assonância. No segundo se percebe uma
jogada conjunta de Aliteração e Assonância em “guar da-o mar”, o mesmo 
ocorrendo no terceiro “No seu es to jo” com um sibilar do S.
 
A jogada mais fina do fragmento da composição está no uso dos sons do X, 
do J e do S em Aliteração, pois além do X e do J resultarem em sons muito 
parecidos, e estarem nos tres versos, possuem uma identidade na observação 
da Natureza:
 
Enquanto o X e o J lembram o som do Mar (XAaaa, ou JAaaa), o Ssss lembra 
os efeitos do Vento na areia de uma praia, quando os grãos tocam em alguma 
coisa mais volumosa que eles, como uma Concha, por exemplo. Basta agora 
observarmos o texto, que desaparecerá qualquer Paradoxo ou Metalinguagem.
 
É a mesma busca da Onomatopéia do Pedro Pedreiro, só que cercado por 
outros quadros de Inspiração,  tanto social quanto ambiental, já que em Sampa não 
tem praias, só trens e enchentes, e a realidade do Pedro, hoje, não é mais a do 
desesperado pelo deslocamento social, mas pela insegurança de decidir se 
adere ou não à criminalidade que bate à sua porta de cidadão.
 
Constantemente lemos textos como este: “Um desenho equivale a milhares de 
palavras”. Se olharmos o fragmento de A Ostra E O Vento, uma série de 
contrastes surgirão, como a Enxuta Concha, do quintal de casa, guardando no 
Estojo da Memória toda a umidade que um dia teve no mar, antes de ser 
lançada na praia, para receber os grãos de areia impusionados pelo Vento e 
resultar no som Ssssssss.
 
Temos que rever o pensamento que relaciona o desenho às palavras, pois da 
Sonância de curtos tres versos de um poema pode-se extrair muitos desenhos. 
Talvez coubesse um vice-versa nele…
 
                

 

  del.icio.us isto!

14 Respostas até o momento »

  1. 1

    adrielle said,

    June 7, 2009 @ 11:46 pm

    adorei essa site era tudo q eu precisava

  2. 2

    admin said,

    June 8, 2009 @ 12:46 am

    Então Bem Vinda adrielle!

    Grato.

  3. 3

    milena de ramos dzierva said,

    April 12, 2010 @ 2:29 pm

    eu adorei as rimas nesta pagina quem escreveu esta de parabens

  4. 4

    admin said,

    April 12, 2010 @ 4:05 pm

    Milena

    A maioria dos exemplos citados foi tirada das músicas do Chico Buarque. Assim sendo, todos os seus parabéns estão muito bem dirigidos e já reconhecidos por grande parte dos ouvintes da MPB há anos.

    Grato pela visita.
    Dalton.

  5. 5

    Rafael said,

    May 17, 2010 @ 6:28 pm

    Blog muito bom
    Os meus parabéns pelo seu trabalho.
    Ajudou-me muito a compreender as rimas continue assim.

  6. 6

    admin said,

    May 18, 2010 @ 7:05 am

    Rafael:

    Grato pela elegância e volte sempre.
    Dalton.

  7. 7

    Mauricio Keller said,

    March 2, 2011 @ 12:01 am

    Parabéns. Estas fazendo um trabalho muito importante. Quero chegar lá, ter consciência completa de um poema.

  8. 8

    admin said,

    March 2, 2011 @ 1:01 am

    Mauricio Keller:

    Grato pelo reconhecimento.

    Um Poema é apenas o texto comum disposto em versos.

    A grosso modo, teríamos como estrofe um período sintático e como versos as orações desse período.

    Feito isso, começa-se então a tentar das às orações as mesmas quantidades de sílabas poéticas, de modo a conseguir uma determinada estética. Ou todos os versos com as mesmas quantidades, ou quantidades variáveis que se apresentam de forma regular. Por exemplo:

    Versos 1, 3 e 5 com 7 sílabas cada, e versos com 2,4 e 6 com 5 sílabas cada numa estrofe.

    Caso queira dar mais charme à construção poética, pode usar as rimas, inicialmente em finais de versos e posteriormente de forma mais arrojada, com assonâncias, aliterações e ecos.

    No cabeçalho da página frontal do site há alguns endereços de índices. Vá até lá e comece a pesquisar sobre Ciência Poética, Glossário Poético… Os exemplos que você pediu de análise poética poderá encontrar nas primeiras análises que fiz das músicas do Chico, cujo índice está sob o título O Livro, também no mesmo cabeçalho.

    Qualquer dúvida, basta perguntar, que terei prazer em ajudá-lo.

    Grato pela confiança e volte sempre.
    Dalton.

  9. 9

    ana said,

    August 23, 2011 @ 8:10 pm

    ee nem entendi nada

  10. 10

    admin said,

    August 23, 2011 @ 11:30 pm

    Ana:

    Talvez fique melhor você perguntar por aqui. Assim posso explicar melhor.

    Grato pela visita e volte.
    Dalton.

  11. 11

    Prestashop Templates said,

    November 2, 2011 @ 10:03 pm

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  13. 13

    João said,

    January 14, 2012 @ 11:01 am

    Faltou a afirmação aí de que o Chico Buarque, aliás um dos meus compositores preferidos, pouca gente comenta, abusou das rimas, talvez pra chamar a atenção pras suas lindas criações. Em suas composições havia overdose delas. Analisem as letras dele. Deus lhe Pague é a mais overdosada delas.

  14. 14

    admin said,

    January 14, 2012 @ 7:59 pm

    João:

    Você tem razão no que diz, mas sobrou o lado bom de termos uma quantidade boa de exemplos.

    Grato pela visita, pelo comentário e volte sempre.
    Dalton.

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