Ano Novo-Análise de Texto

 

 

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                                   Os Desencontros Da Censura

Escrita em 1967 e fazendo parte do segundo Lp, a composição Ano Novo foi uma espécie de apôio do Chico ao texto dado por Vandré à Disparada do ano anterior.

O festival de 1966 só terminou com as duas composições empatadas porque Chico se recusou a cantar como vencedor, pois os jurados haviam dado a vitória à Banda.

A situação ficou constrangedora pois a mensagem do Vandré nunca poderia ser encarada num plano secundário, e Chico sabia muito bem disso.

Numa das raras ocasiões em que demonstrou a coragem, bastante pra dizer não àquela armação toda da mídia, talvez pela pouca idade, Chico não fugiu da briga e só deixou uma possibilidade aos jurados: Empate. Eu estava lá por perto e presenciei tudo.

A exemplo da vindoura Apesar De Você, Ano Novo foi gravada em compacto simples e tocada nas rádios. Depois de algum tempo foi censurada nos veículos de opinião sem que estendessem a censura às lojas de disco. Ficou gozado:

- As rádios não tocavam, mas as lojas vendiam.        

O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
Que é pra tocar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Tava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo.
            
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
                         
A minha nega
Me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que n´o está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo
Que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha o seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
                         
E quem for cego
Veja de repente
Todo o azul da vida
Quem tiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo.

Dessa composição o autor tirou um personagem de Fazenda Modelo chamado Ladislao, conhecido pela alcunha: “Do Patrão”.

Pouca gente entendeu na época porque a Censura cismou com a composição. Deve ter recebido ordem para brecar e tentou fazê-lo de alguma forma, embora tardiamente. O que teria ocorrido com os militares para implicarem com ela?

Não chamava o povo à luta, não incitava à revolta. Era, quando muito, sarcástica quanto à situação social do brasileiro em geral.

Em Disparada Vandré já havia citado o “Reino que não tinha Rei”, e agora Chico voltava a falar nele, O Rei, em nítido tom de provocação e revolta. Mas que Rei era aquele de que tanto falavam?

A imprensa procurava associar o texto da composição a Roberto Carlos, tentando despistar acerca de qual Soberano Chico e Vandré falavam.

Tentava de todas as maneiras pregar rótulos de Nacionalista, Unanimidade Nacional com A Banda no Chico e Socialista, avesso ao Nacionalismo dos militares, no Vandré.

Obrigatoriamente, ambos tinham que pertencer a lados opostos, mas insistiam em usar a mesma linguagem.

Chico, por vir de uma família com tendências Socialistas, poderia até justificar algum parentesco com tal rótulo, mas não com o inverso dele, como a mídia fez com A Banda. O que dizer do Socialista Vandré escrevendo coisas deste tipo:

Prepare o seu coração
Prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar
                   
Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar            
E a morte, o destino, tudo
Estava fora de lugar
Eu vivo pra consertar
                       
Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que quisesse, ou que pudesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu
                         
Boiadeiro muito tempo
Laço firme, braço forte
Muito gado, muita gente  
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
Em que boiadeiro era o rei
                        
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E no sonho que fui sonhando
As visões se clareando
Até que um dia acordei
                   
Então não pude seguir
Valente, lugar-tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, berra, engorda e mata
Mas com gente é diferente
                          
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar…
                           
…Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte
Num reino que não tem Rei.

Ao contrário de recrutar o povo à luta, quer pelo Nacionalismo, e muito menos pelo Socialismo, Vandré estava apenas denunciando que não se associaria a qualquer extrema ao dizer que pegaria a sua viola, as deixaria de lado e iria cantar noutro lugar, pois dependia apenas de sí mesmo neste “reino” efetivado pela mídia, associada à Elite Financeira Internacional à qual pertencia.

No fundo, era uma convocação ao Individualismo Consciente.

Nenhum dos dois estava se referindo a militar algum, mas falando da História recente de um Brasil anterior a 31 de Março de 1964.        

O “Vaqueiro que morreu” na Disparada era o Getúlio Vargas, que havia pago à nossa primeira dívida externa contraida junto ao sionismo britânico.

Quando o sucessor, JK,  subiu ao poder, logo em seguida pediu vultuosos empréstimos ao sionismo americano, ou seja, o Brasil ficou Independente nas mãos do Getúlio e tornou a ficar dependente logo após pelas mãos do Kubitscheck. Por olhar a encrenca e pular fora, Jânio nem será citado, ainda.

Além de ter a Meta religiosa de escravizar os povos cristãos, o Sionismo, que detém o domínio da Imprensa e do grande Capital Mundial, perdeu a unidade e se dividiu em dois polos: Europeu e Americano, que vivem em disputa por esta “praça comercial” chamada Brasil, no entanto, ambos os polos acreditam religiosamente na chegada do seu Soberano Universal, e é desse “Rei” que Vandré e Chico trataram em suas obras.

A peça Roda Viva, nascida na cabeça do Chico com os desdobramentos de A Banda no ano anterior, estava começando a ganhar mais corpo ainda num Ano Novo (1967) para nascer um ano após (1968).

A Peça, pois a composição que deu o nome a ela nasceu em 1967 mesmo, conforme veremos mais à frente.       

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  del.icio.us isto!

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