Ilmo. Sr. Ciro Monteiro – Análise de Texto

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Com a volta de Chico e Marieta ao Brasil, velhos companheiros foram visitar 
ao casal, que ganhara uma filha. Um dos visitantes levou, como lembrança à 
recém-nascida, uma camisa do Flamengo, no que Chico, tricolor assumido, 
agradeceu ao ilustre sambista, Ciro Monteiro, amigo do pai, com:
 Vídeo de fadochico
Ilmo. Sr. Ciro Monteiro Ou Receita Para Virar Casaca De Neném: 
 
Amigo Ciro
Eu muito te admiro
O meu chapéu te tiro
Muito humildemente
Minha petiz
Agradece a camisa
Que lhe deste à guisa
De gentil presente
Mas caro nêgo
Um pano rubro negro
É presente de grego
Não de um bom irmão
Nós separados 
Nas arquibancadas
Temos sido tão chegados
Na desolação
 
Amigo velho:
Amei o teu conselho
Amei o teu vermelho
Que é de tanto ardor
Mas quis o verde
Que te quero verde
É bom pra quem vai ter
De ser bom sofredor
Pintei de branco o teu preto
Ficando completo 
O jogo de cor
Virei-lhe o listrado do peito
E nasceu desse jeito
Uma outra tricolor
 
Essa transformação de camisa do Flamengo numa do Fluminense é o tipo de
 música que Chico gosta de fazer. É tão apaixonado pelo Fluminense quanto
o falecido sambista Ciro Monteiro o era pelo Flamengo.
 
As Rimas de Eco, usadas em grande escala na fase italiana, onde trabalhou 
com o mestre Vinícius, se mostraram de forma interessante na letra: petiz + a,
dá o som de petiza, que ecoa com camisa, que vai encontrar à guisa no
centro do verso seguinte.
 
Observa-se também a um trabalho simultâneo de Aliteração e Assonância. 
Basta verificar a quantidade de vezes em que a sílaba ER surge na estrofe. 
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http://mpbsapiens.com/assonancia/
Outra curiosidade diz respeito ao ritmo poético da primeira estrofe. A poesia 
musical latina trabalha muito melhor com pés binários num poema estrutural,
musical latina trabalha muito melhor com pés binários num poema estrutural,
enquanto a grega clássica usava bem tanto os binários quanto os ternários.
http://mpbsapiens.com/ritmo-poetico/
http://mpbsapiens.com/pe-binario/
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Reparem que os primeiros versos da primeira estrofe ocorrem com a regular
sequência átona-tônica-átona-tônica…; que é subitamente alterada no 
décimo verso que diz: “É presente de grego”. Para no verso seguinte retomar 
o compasso binário anterior e novamente aparecer um ternário em “Nós 
separados nas arquibancadas”; evitando o surgimento de um Verso Manco.
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Não foi a primeira composição que Chico usou duas átonas entre tônicas, 
nem foi a primeira em que usou tal recurso para chamar a atenção mexendo 
com o nosso ritmo interno e, de quebra, colocou um “grego” na letra. 
 
Aí é que mora o truque da Arte em nossa percepção, e poetas dotados pela 
deusa Harmonia, como Chico, conseguem penetrar em nossos sentidos de 
uma forma que não conseguimos traduzir. 
 
Basta associar o nosso natural ritmo poético-cardíaco às emoções 
cotidianas descritas em poema, para a composição entrar e se acomodar
no nosso mundo particular do inconsciente. 
 
Mais ou menos como ocorre num trecho de O Corcunda de Notre Dame - 
Vitor Hugo – onde um chefe de ciganos diz a um poeta:
 
 - Vocês, artistas, são piores que os políticos, pois fazem dos seus sonhos as
nossas realidades, que nos transformam em escravos dos Ideais, dos quais
não conseguimos nos livrar, embora nem vocês, nem os políticos, coloquem
pães em nossas mesas!
 
Talvez, para colaborar ainda mais com o texto da composição musical, que 
mostra a ambos desolados nas arquibancadas de 1970, tanto Fluminense 
quanto Flamengo estavam horríveis. 
 
Quem mandava no futebol carioca eram o Botafogo e o Vasco, responsáveis 
por bom número de jogadores no excepcional escrete de 1970, que ganhou, 
em definivo, à cobiçada Taça Jules Rimet em campo, para posteriormente ser
perdida por aqui na forma de roubo trivial.
 
Próxima
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          .

  del.icio.us isto!

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