Amarra Teu Arado A Uma Estrela-Conto

Não sei se ocorreu, está ocorrendo ou ocorrerá.

A Estação de trem é a da Mooca. Há uma música saindo daqueles velhos alto-falantes: O Eterno Deus Mú Dança. Surge do nada um enorme trem chamado Expresso Einstein, com a seguinte propaganda:  – Viaje na Luz!

Acho que entro nele, as portas fecham e só abrem novamente horas após. Por sorte,  a marmita está bem guarnecida e posso dar um trato na fome, mas é estranho que as horas sejam tão rápidas quanto a fome súbita que me assola. De repente o trem para e as portas abrem.

A estação tem um nome sinistro: Estação Erech. Desço e vejo que os moradores são bem diferentes, mas sou bem acolhido por um festivo povo. Todos com longas batas e eu com a minha roupa de trabalho: Agasalho de Ed. Física e tênis branco.

Conversam comigo por mímica e, bem perto, vejo o mesmo Deus Mú da estação dançando com o filho Damuzi e a rainha Inanna.

Já é primavera, ou será que já foi, pois quando embarquei há pouco na Mooca era outono. Agora o povo começa a saudar a chegada de um ídolo que viajara, talvez para longe em distância ou tempo.

Pelo que posso entender, seu nome é Gilgamesh. Quase que nem o ídolo que fez a música que escutei lá na Estação Mooca, o Gil.

Parece ser um grande artista, posto que já está todo cercado por repórteres, ávidos pelas narrativas da viagem em que enfrentou um Touro Sagrado de uma deusa chamada Ishtar.

Ele viajou com um amigo, o Enkidú, que o ajudou a fazer o churrasco com a carne do touro. Pelo que gesticula no momento, houve um outro episódio. Um combate onde o companheiro morreu. Agora explica que ouviu conselhos de um velho estaleiro…

Parece que tratou também com o amigo um Pacto dos Olhos, onde um deu ao outro, que estava em guarda, os próprios olhos enquanto dormisse para que tivesse vigilância dobrada.

Com Enkidú já morto, Gilgamesh teve que cruzar um Vale das Trevas e clamou: – Oh Enkidú, Te dei meus olhos pra tomares conta! Agora dai-me os teus! E com mais os dois olhos do amigo conseguiu cruzar o tenebroso vale.

Os repórteres anotam tudo numas placas de barro. Têm um Alfabeto parecido com o nosso, mas placas de barro, ao invés do papel, me confundem a cabeça. Não são repórteres os escreventes. Têm outro nome, Escribas. Será que vim parar no Egito? 

Virou noite de repente. No céu tem uma bola de fogo vindo em nossa direção. Pensei até em me mandar, mas como o povo não está nem aí pra bola, verei o que acontece. Agora a bola ficou mais nítida. É um esquisito carro de fogo, que mais parece um arado puxado por cavalo.

O Gilgamesh está subindo nele todo contente. Outra bola de fogo se aproxima pelo céu. Parece uma pequena estrela, na qual atrelou aquele seu fulgurante arado de passeio. Estão agora subindo aos céus entre cores, brilhos e os Escribas repórteres rabiscando tudo nas tabuletas de barro.

Escrevem a placa, guardam num escritório e voltam. O trem buzinou me chamando e embarco de novo. Dentro do vagão os alto-falantes anunciam: Deixando a Estação Erech. – Próxima estação, Mooca Mais Quarenta!

Desembarco rapidinho e percebo que a estação é a mesma da Mooca. Como a coisa está boa, comprarei alguns sanduíches e embarcarei novamente. Só que desta vez o trem, aumentando a velocidade, anda só alguns segundos e abre as portas.

Está escrito: Estação Iraque.  Está rasurado, pois há um nome por baixo, e é o da mesma Erech, só que mudou muito, o povo não parece tão festivo. De repente começa um bombardeio aéreo e percebo que o alvo é o tal escritório dos Escribas. Corro de volta para o trem e nos mandamos.

Ele anda alguns segundos de ré e volta pra Mooca. Desembarco de novo e ele some. Olho no relógio e vejo que perdi a primeira aula. Embarco novamente num trem normal e vou trabalhar em Santo André.

Estamos no ano da graça de 1989. Na volta pra casa, dos mesmos alto-falantes da Estação Mooca, escuto outra música do Gil, que me faz lembrar do louco episódio vivido um pouco antes de ir dar as minhas aulas em Santo André. Amarra Teu Arado A Uma Estrela, que diz:

Vídeo de JulioRwoger
Se os frutos produzidos pela terra
Ainda não são
Tão doces ou polpudos quanto as peras
Da tua ilusão
Amarra o teu arado a uma estrela
E os tempos darão
Safras e safras de sonhos
Quilos e quilos de amor
Noutros planetas risonhos
Outras espécies de dor
    
Se os campos cultivados neste mundo
São duros demais
E os solos assolados pela guerra
Não produzem a paz
Amarra teu arado a uma estrela
E aí tu serás
O lavrador louco dos astros
O camponês solto nos céus
E quanto mais longe da terra
Tanto mais longe de Deus”.

Em 1851 o arqueólogo francês, Oppert, fazia escavações próximas a Bagdá, quando de repente gritou: – Suméria!

Quarenta anos depois, no mesmo local, o arqueólogo inglês, Smith, continuou as escavações de Oppert e foi aí que a História soube de uma civilização pré-diluviana, dona de escrita alfabética e ensino superior em Lexicografia Agrimensura e Contabilidade.

As primeiras escavações já resultaram no primeiro épico que a humanidade conhecera até então: A Epopéia de Gilgamesh que, todavia, não tinha epílogo, logo, a Imortalidade que o herói buscava no começo da epopéia, não possuía um fim descrito nas tabuletas de barro onde havia sido registrada.

Para a nossa sorte histórica, o Hamurabi, rei dos primeiros povos semitas a tomarem a Mesopotâmia dos Sumérios, registrou toda a história deles em Escrita Cuneiforme Silábica, feita em tabuletas de barro duplas: Escrita em placa -> cosimento -> nova camada de barro com a mesma escrita – novo cosimento; inventando assim o ancestral Xerox Argiloso.

Todas as placas apresentavam duas escritas dispostas lateralmente. À esquerda, a Escrita Alfabética Sumeriana, e à direita uma tradução dela por uma escrita menos evoluída, a dos Cuneiformes Silábicos Semitas.

Em seguida vieram os povos Assírios, do semita Assur, e dentre eles, para a nossa segunda sorte histórica, o rei Assurbanipal, que reuniu todo o acervo do Hamurabi numa biblioteca construída em Ninive, cidade próxima à atual Bagdá, que ficou conhecida historicamente como a Biblioteca de Assurbanipal.

Como a Mesopotâmia – de Meso Pótamus (entre pântanos) – dos rios Tigre e Eufrates, após ser invadida diversas vezes por povos semitas e camitas inferiores, quando comparados aos ancestrais Sumérios, acabou ganhando uma famosa construção, que é bem um exemplo da inferioridade cultural dos povos invasores. A Torre de Babel.

Construída durante gerações, o principal objetivo dos construtores da Torre de Babel era o de conseguir um menor caminho para chegar a Deus.

Idéia semelhante aos dos nossos ancestrais, semi primatas, que buscando alcançar a Lua subiam  em árvores cada vez mais altas. O fato da região ter recebido a povos bárbaros, com distintas linguagens, acabou mudando a essência filosófica da torre.

Construída originalmente para facilitar o acesso a Deus, a torre acabou se tornando um símbolo do “Desentendimento entre os Homens”, já que cada andar dela pertencia a um grupo de invasores bárbaros, cujas escritas atrasadas e comportamentos retrocederam, progressivamente, o espaço original de um povo pacífico e culto, em várias  e breves tribos  guerreiras e ignorantes.

Babel deu à região o nome de Babilônia, que acabou ganhando o mesmo significado de desentendimento entre os homens. Mais ou menos como ocorre atualmente no Oriente Médio, que por sinal ainda é lá.

A Biblioteca de Assurbanipal ficou sob a tutela do atual Iraque – de Erech (famosa capital da Suméria) – que ao contrário da maioria dos povos árabes e semitas, hoje habitantes da região, representa o último povo derivado dos ancestrais Sumérios, cuja posterior influência camita retrocedeu pela comum forma religiosa.

Do pouco que se sabe acerca da biblioteca, uma das informações diz que Saddam Hussein permitiu a uma equipe de antropólogos alemães que a estudasse e reorganizasse em outra localidade.

Em 1991, cem anos após as primeiras escavações de Smith, tivemos a Guerra do Golfo Pérsico, com intenso bombardeio a Bagdá e arredores, mostrando que o Efeito Babilônia poderia morar em qualquer lugar, pois cruzou continentes, mares e originou novas guerras, via USA.

 Logo em seguida aos bombardeios, Saddam chamou uma nova equipe de antropólogos alemães, que encontrou nas ruínas do que um dia fora a Biblioteca de Assurbanipal, algumas novas tabuletas de barro.

Eram os originais do epílogo da Epopéia de Gilgamesh, contando ter o heroi embarcado num Carro de Fogo com a sua ferramenta de arar e a sua espada, que atrelado a uma estrela partiu para a infinita vida celestial, ou seja: A Imortalidade.

O Pacto dos Olhos – Te dei meus olhos pra tomares conta – tratado entre Gilgamesh e Enkidú, que acabou virando um ditado iraquiano, foi usado por Chico Buarque na composição Eu Te Amo, feita em parceria com Tom Jobim, com possível uso do épico resultante do trabalho de Smith em 1891, já que Sergio Buarque, pai do Chico, era historiador.

As pesquisas históricas mais recentes vieram à tona só em 1993 e, curiosamente, Gilberto Gil gravou Amarra Teu Arado a Uma Estrela em 1989, ou seja, quatro anos antes da História saber como Gilgamesh alcançou a Imortalidade no epílogo da epopéia.

Quanto à minha louca viagem no Expresso Einstein, com todo esse Paradoxo no Tempo, a Equação da Contração do Tempo, do próprio  Einstein, sugere ser o meu sonho, ou o do Gil, bem possíveis:

Quanto mais perto da velocidade da luz for a do trem, maiores serão as diferenças nos tempos, do trem em que estamos, com o da estação em que nele embarcamos.

Por exemplo, se o trem viajar a uma velocidade diferente um micron dos 300 mil km/s da Luz, algumas horas de viagem nele equivalem a próximos, ou distantes, quatro mil anos de espera na estação. Se for menor ainda a diferença, bastam alguns momentos para distar milênios entre o trem e a estação.

Supondo que a nossa Luminescência, conhecida por Alma, conseguindo se livrar do lerdo corpo que a retarda, é bem possível que viaje quase à velocidade da luz. Se é difícil para os humanos normais, certamente é muito mais fácil para os poetas.

- Será que o Ministro Relativista andou pegando um trem esquisito la na Mooca e escutado: – Próxima estação, Suméria Menos Quarenta Séculos?

Começou a circular o Expresso 2222
Que parte direto de “Bom Sucesso Pra Depois”…
O trilho é feito um brilho que não tem fim…    (Expresso 2222)

http://mpbsapiens.com/expresso-2222/

         
“De jangada leva uma eternidade
De saveiro leva uma encarnação
De avião o tempo de uma saudade
Pela onda luminosa
Leva o tempo de um raio…”   (Parabolicamará)

http://mpbsapiens.com/parabolicamara/

Óoooooooooh! Será que não?

Obs. Conto extraído do livro Tapete de Mitos, que escrevi após constatar na MPB muitos casos semelhantes ao deste conto, quando o poeta atira o verso em uma direção, que a sua consciência supõe, e acerta em alvos jamais imaginados, guardados na certeza do seu inconsciente.

O meu “Bom Sucesso” é um trocadilho que fiz com o original Bonsucesso, que é um bairro do Rio de Janeiro.

     a
  del.icio.us isto!

3 Respostas até o momento »

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