Alegria, Alegria (Caetano Veloso)-Análise de Texto

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Festival de 1967
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Ver também -  http://mpbsapiens.com/ditadura-mpb/
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Dando continuidade ao post anterior, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma, aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas, no Festival da Record de 1967; convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência artística contida em cada poeta, e o Parecer, que é a postura social da fama do mesmo, que muitas vezes exige dele algumas tolerâncias filosóficas, comuns ao nosso cotidiano, mas contrastante com o Ser poético dele.
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Tratarei inicialmente da quarta colocada, Alegria, Alegria; de Caetano Veloso:
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Caminhando contra o vento
Sem lenço e sem documento
No sol de quase dezembro
Eu vou…
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O sol se reparte em crimes
Espaçonaves, guerrilhas
Em cardinales bonitas
Eu vou…
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Em caras de presidentes
Em grandes beijos de amor
Em dentes, pernas, bandeiras
Bomba e Brigitte Bardot…
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O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
Eu vou…
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Por entre fotos e nomes
Os olhos cheios de cores
O peito cheio de amores vãos
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Eu vou
Por que não, por que não…
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Ela pensa em casamento
E eu nunca mais fui à escola
Sem lenço e sem documento,
Eu vou…
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Eu tomo uma coca-cola
Ela pensa em casamento
E uma canção me consola
Eu vou…
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Por entre fotos e nomes
Sem livros e sem fuzil
Sem fome, sem telefone
No coração do Brasil…
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Ela nem sabe até pensei
Em cantar na televisão
O sol é tão bonito
Eu vou…
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Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo, amor
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Eu vou…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
Por que não, por que não…
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Na primeira estrofe o Ser do Caetano, desprovido de qualquer identidade (sem documento) descreve o quadro que o assola, provavelmente em Sampa.
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Na segunda e na terceira estrofes ele começa a dar uma idéia figurativa para a imprensa, como Sol, responsável pela “Luz da Informação” que molda o Parecer de cada um, poeta ou não.
Na quarta estrofe o Ser se revolta, com aquela calma característica dos baianos: Quem lê tanta notícia?
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Na quinta ele volta a descrever o cotidiano do Parecer, cercado de notícias, comparadas às futilidades dos “amores vãos”, mas insiste em ir levando a farsa.
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Na sexta e na sétima o Ser retoma a frente e se descreve no contraste Casamento x Escola e Coca-Cola; desiste e se refugia na canção que o consola daquele quadro deprimente.
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Na oitava estrofe o Ser se mostra imperativo, na busca da não identidade, do não engajamento social, já que, na época, a imprensa cobrava dos artistas uma postura mais guerreira, que protestasse contra o domínio dos militares: Sem livros e sem fuzil (não quero saber da história disso tudo e tampouco pego em armas). Mais uma vez sugere estar observando o quadro em Sampa (coração do Brasil).
ver observação no rodapé
Na nona o Ser se mostra preocupado com um seu sentimento de amor em conflito com todas as tentações oferecidas pelo Sol do Parecer, mais propriamente os “Anjos e Capetas”, vistos por Chico na peça Roda Viva.
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Na décima, o Ser chuta de vez essa disputa toda com o Parecer pra escanteio, se aloja novamente no comodismo da perda de identidade e segue adiante: Por que não?
No festival, Caetano Veloso contou com a colaboração do conjunto Beat Boys, um conjunto de rock “hermano” cujo lider era Toni Ozanah, que posteriormente fundou outro conjunto chamado Raízes de América. Teve até argentino no lance, mas com o fino toque da escola portenha.
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A grande jogada, talvez ensaiada, do Caetano, e do grupo, foi a estampa do solista de órgão do conjunto, o Toyo, cuja figura lembrava, em muito, a imagem de Jesus Cristo, talvez, aproveitando o embalo do sucesso que a peça Jesus Christ Superstar fazia nos USA na ocasião, e tinha muita propaganda da imprensa no Brasil.
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Tanto é verdade, que na gravação original a música começa por um solo de órgão. Basta juntar a estampa do instrumentista ao instrumento que ele tocava, muito mais comum às igrejas que aos palcos, e o resultado será o Infalível Superstar.
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É só conferir no vídeo!
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- Por que não?

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Obs. A título de informação, O jornal ” O Sol” existiu. Foi criado em 1967 por estudantes, no Rio de Janeiro. Seu Idealizador foi o jornalista, Reynaldo Jardim.
Este jornal tinha até um caderno chamado Poder Jovem, que por sua vez, era dirigido aos jovens da época que não se conformavam com a realidade que viviam.
Grande abraço

Att: Willian Souto

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  del.icio.us isto!

33 Respostas até o momento »

  1. 1

    Antônio said,

    June 11, 2009 @ 5:45 pm

    Eu nunca li tanta besteira em tão pouco tempo. Sugestão:

    PAIANO, Enor. Tropicalismo: bananas ao vento no coração do Brasil. São Paulo: Scipione, 1996.

  2. 2

    admin said,

    June 11, 2009 @ 5:53 pm

    Obrigado Antonio!
    Procurarei fazer melhor na próxima. Enquanto isso, gaste os seus preciosos tempo e elegância em outros espaços. Não seria mais lógico?

  3. 3

    Denilson Muniz said,

    September 10, 2009 @ 1:02 pm

    Acho que os estrofes com os comentários estão de acordo com o conflito da época da Ditadura e repressão.. e este sujeito, que trouxe o LIXO do Comentário dele, precisa só de ser brasileiro.. Bom, Tudo bem, Afinal LIXO trazem e Quando não são úteis, O LIXO Volta para o Dono que o Trouxe.. abçs

  4. 4

    admin said,

    September 10, 2009 @ 2:41 pm

    Caro Denilson:

    O Lixo do Ontem pode ser a energia do Amanhã. Veja o petróleo, por exemplo.

    Grato pela participação e abçs.

  5. 5

    Aline Guerra said,

    September 11, 2009 @ 1:04 pm

    Adorei tudo isso…
    consegui fazer meu trabalho pra minha equipe
    na sala de aula
    não copiei mas tirei idéias desta já prontas

    é que estudo no Sesi de Apucarana
    daí a gente deve ser empreendedor….

    beijos

  6. 6

    admin said,

    September 11, 2009 @ 5:00 pm

    Pois É Aline:

    Fico muito feliz de tê-la ajudado com o trabalho escolar, que suponho ter ficado bom, já que você não copiou, mas entendeu e reescreveu à sua maneira.

    Volte quando precisar, porque este espaço cultural se destina ao estudante interessado assim. que nem você.

    Boa sorte e Beijos.

  7. 7

    nildy said,

    October 28, 2009 @ 10:48 am

    gostei da analise, foi muito interessante e útil. poderia ter aprofundado mais. Se tivesse dado mais enfase retratando a ditadura militar e os conflitos da epoca, teria enriquecido mais, pareceu resumida, mas nada que exiba de forma negativa.

  8. 8

    admin said,

    October 28, 2009 @ 11:21 am

    Nildy:

    Você tem razão no que diz, mas preferi realçar à leve baianidade descompromissada do Caetano da época, num festival onde a composição foi cercada por três outras muito fortes e menos poéticas, pois tanto Roda-Viva, quanto Domingo no Parque, quanto Ponteio se prestaram muito mais às denúncias do que às possíveis soluções, enquanto Alegria, Alegria era um claro recrutamento ao descompromisso, apesar de rodeada de todos os engajamentos obrigatórios da época.

    Grato Pelo Comentário.
    Dalton.

  9. 9

    Laleska said,

    November 17, 2009 @ 8:46 pm

    Poisé, isto me serviu muito, pq eu realmente estava precisando interpretar essa música, e isso me ajudou MUUITO .

    Valêu aê .

  10. 10

    admin said,

    November 17, 2009 @ 9:19 pm

    Volte Sempre Laleska.

    VLW.
    Dalton

  11. 11

    Lucas said,

    November 20, 2009 @ 6:35 pm

    Cuidado com o que diz sobre assuntos que não compreende direito…..entendi a sua intenção de ver a obra de Caetano de outra forma….mas você não deve se esquecer que toda obra de arte depende do seu contexto histórico….então não banalize artista que vc não tem condições de entender.

  12. 12

    admin said,

    November 20, 2009 @ 7:19 pm

    Lucas:

    Muitos artistas mereceriam a minha atenção, que injustamente não dou. Os poucos artistas a que me disponho a analisar é porque me agradam o bastante a fazê-lo.

    Se você está se referindo à leveza da baianidade com que defini Caetano, saiba que foi um elogio, pois afinal, a imprensa serve para o que, além de nutrir à nossa ânsia de fofocas. – Quem lê tanta notícia?

    Acerca do contexto histórico da obra do Caetano, sempre respeitei, tanto que citei, em Roda Viva Comparada – Interpretanto Textos; à importância do texto de Tropicália no momento social em que vivíamos.

    Há uma outra postagem, Caetano, Adoniran e Vanzolini; em que enalteço o seu poder de tradução da realidade de uma terra que nem era a dele.

    Se você não leu essas postagens, sugiro que o faça antes de pré conceber idéias a meu respeito. Ou mesmo nem leia e não perca mais o seu tempo com este espaço, que você supõe ignorante.

    Pesquise mais o índice, Alfabética, antes de opinar, ok?
    Dalton.

  13. 13

    Victor Duba said,

    May 9, 2010 @ 3:23 am

    “Na segunda e na terceira estrofes ele começa a dar uma idéia figurativa para a imprensa, como Sol, responsável pela “Luz da Informação” que molda o Parecer de cada um, poeta ou não”

    O Sol não era um jornal socialista?

  14. 14

    admin said,

    May 9, 2010 @ 7:28 am

    Victor Duba:

    Não lembro de ter visto um jornal com esse nome, logo, tampouco poderia saber das tendências dos seus artigos, mas creio que, na época, a ditadura não o permitiria nas bancas, principalmente nas localizadas em avenidas importantes como Ipiranga e São João, comumente frequentadas por Caetano nos anos 60.

    Mas essa sua informação merece novas buscas minhas. Obrigado pela dica.
    Dalton.

  15. 15

    Willian Souto said,

    July 3, 2010 @ 9:29 pm

    Meu caro. Tudo bem?
    A título de informação, O jornal ” O Sol” existiu.Foi criado em 1967 por estudantes, no Rio de Janeiro.Seu Idealizador foi o jornalista, Reynaldo Jardim.
    Este jornal tinha até um caderno chamado Poder Jovem, que por sua vez, era dirigido aos jovens da época que não se conformavam com a realidade que viviam.
    Grande abraço
    Att: Willian Souto

  16. 16

    admin said,

    July 4, 2010 @ 6:58 am

    Willian:

    Obrigado pela informação, vou inserí-la de imediato na postagem.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  17. 17

    Manntega said,

    February 1, 2011 @ 11:37 am

    “O Sol” era um jornal pequeno da década de 60.

  18. 18

    admin said,

    February 1, 2011 @ 3:31 pm

    Manntega:

    O Sol era também isso.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  19. 19

    Duda e Tavinho said,

    February 27, 2011 @ 10:56 pm

    AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH, muito muito muito muito bom. Conseguimos fazer um trabalho que há muito tempo estavamos tentando fazer. Obrigada. s2

  20. 20

    admin said,

    February 28, 2011 @ 6:56 am

    Duda e Tavinho:

    Fico feliz por tê-los ajudado, pois o meu propósito é esse mesmo.

    Grato pelo elogio e voltem sempre.
    Dalton.

  21. 21

    Orleans Branco said,

    August 25, 2011 @ 1:33 pm

    É muito interessante sua análise quando se refere ao momento conturbado da política brasileira ligando o descompromisso do autor. Mas eu vou mais longe, aliás, vou no inusitado, flutuante, delirante… Por que não? Não há conecções explícitas na letra sensacional de Caetano. O que há na verdade é um estado de alucinação do mestre baihano. Lembra de Beatles “Lucy in the Sky with Diamonds” LSD e a tropicália Lenço e Sem Documentos LSD. Repare na letra o relato do que o autor vê quando está em outra dimensão.

    Um abraço, Branco.

  22. 22

    admin said,

    August 25, 2011 @ 1:54 pm

    Branco:

    De fato, lembra bastante o universo paralelo dos Beatles com suas “árvores de tangerinas e céus de marmelada”. Há ainda a coincidência da época em que foram escritas as músicas, com a popularidade do “ácido” entre os usuários artísticos. Só não sei se, por aqui, a coisa era tão facilmente encontrada quanto na Inglaterra, ou mesmo em Woodstock.

    Grato pela observação e volte sempre.
    Dalton.

  23. 23

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    Alguém já disse que o Sol se referia ao jornal britânico The Sun.Caetano já disse que o sol ao qual ele se refere é simplesmente o astro rei refletido nas bancas.Na verdade os próprios letristas falam que suas obras não tem uma concepção fechada,cada qual faz a leitura que quiser.

  33. 33

    admin said,

    August 1, 2013 @ 10:18 pm

    Ademar amancio:

    Houve também, na época em que a música foi feita, um jornal brasileiro chamado Sol. Mas nada impede do Caetano ter tira a idéia da música “Here Comes The Sun”, dos Beatles, lançada um pouco antes de 1967.

    http://letras.mus.br/the-beatles/179/

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