Admirável Gado Novo – Análise de Texto

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Como já citei na postagem anterior, Disparada funcionou como um Protótipo
que inspirou a futuras posturas filosóficas dos demais compositores da MPB.
Quer contemporâneos como o Chico Buarque, quer vindouros como o Zé
Ramalho, que embora meio contemporâneo do Vandré, só foi usar a idéia de
comparar-nos aos rebanhos de gado bem mais adiante, com esta composição.
Apesar de, tanto em título quanto em texto, demonstrar claramente se tratar de
uma forma subjetiva, sintética e poética; de traduzir à essência filosófica de
Audous Huxley em 1931, quando escreveu o livro Admirável Mundo Novo, a
composição foi usada pela globo numa novela chamada O Rei do Gado.
Só há duas justificativas para o Zé Ramalho ter concordado com esse uso da
composição por uma emissora de televisão: Propaganda e Grana!
Digo isso porque qualquer pessoa sensata, que tenha lido o Mundo Novo de
Huxley, consegue identificar a Televisão como a futura e perversa “Máquina de
Ensinar”, profetizada por ele numa época em que só as Rádios Difusoras e os
Jornais imperavam nas Comunicações.
Imaginar que o Zé não tenha percebido isso é o mesmo que invalidar ao texto
da composição, que demonstra ter ele entendido bem à Profecia de Huxley:
Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber…
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer…
Refrão
Êeeeeh! Oh! Oh!
Vida de gado
Povo marcado, Êh!
Povo feliz!..
Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal…
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou…
Refrão
O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela…
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
A Arca de Noé, o dirigível
Não voam nem se pode flutuar…
Refrão
A composição foi feita com três estrofes Oitavas e uma Quadra-Refrão
repetida entre elas, que a definiram como Balada. O texto do Refrão, que nos
sugere como gado marcado, mostra a nossa acomodação diante da rotina social
a que nos permitimos submeter sem questionamentos.
Cada uma das Oitavas trás interpretações de fragmentos das previsões de
Huxley para a nossa sociedade, submetida a uma Educação Programada, que
nos tornaria limitados, nas Reações formais e dedutivas, diante das Ações
informais, mas educativas.
Essa primeira estrofe trás também, nos últimos quatro versos, a posição
contrária e submissa do Educador diante do quadro social que se mostrava
presente e sugeria um futuro óbvio de automação submissa.
A segunda estrofe longa sugere mostrar o trânsito da informação ancestral, via
radiodifusão e imprensa escrita, estampadas na velhice à beira da estrada da
vida, pesando pelo hoje, as qualidades do ontem diante das incertezas do
amanhã, baseadas no quadro descrito na primeira estrofe.
A última estrofe já é a narrativa do comportamento social contemporâneo e
consequente, previsto nas anteriores, onde o jovem, buscando se entender no
Presente com tais características, reconhece como melhores as gerações
passadas, assumindo finalmente à insegurança dos próprios passos, conforme
desejava a Educação prevista na primeira estrofe.
Ainda nessa última estrofe, o Zé contribuiu com algumas observações menos
proféticas, como o ser social aprisionado em seu próprio lar pela criminalidade
externa, numa idéia provavelmente capturada da composição O Hino da
Repressão (segundo turno), da Ópera do Malandro (o filme), Chico Buarque,
que diz:
A lei tem motivos
Pra te confinar
Nas grades do teu próprio lar
A criminalidade externa a que me refiro não é essa que observamos no cotidiano
de balas perdidas etc; mas, talvez, à que seguirá abaixo, que consta num
apócrifo editado pela primeira vez 25 anos antes do Admirável Mundo Novo:
“Um espírito equilibrado poderá esperar guiar com êxito as multidões por meio
de exortações sensatas e pela persuasão, quando o campo está aberto à
contradição, mesmo desarrazoada, mas que parece sedutora ao povo, que tudo
compreende superficialmente? Os homens, quer sejam ou não da plebe, guiam-
se exclusivamente por suas paixões mesquinhas, suas superstições, seus
costumes, suas tradições e teorias sentimentais; são escravos da divisão dos
partidos que se opõem a qualquer harmonia razoável. Toda decisão da multidão
depende de uma maioria ocasional ou, pelo menos superficial; na sua ignorância
dos segredos políticos, a multidão toma resoluções absurdas; e uma espécie de
anarquia arruína o governo.
A política nada tem de comum com a moral. O governo que se deixa guiar pela
moral não é político e, portanto, seu poder é frágil. Aquele que quer reinar deve
recorrer à astúcia e à hipocrisia. As grandes qualidades populares – fraqueza e
honestidade – são vícios na política, porque derrubam mais os reis dos tronos
que o mais poderoso inimigo.
Nosso fim é possuir a força. A palavra “direito” é uma idéia abstrata que nada
justifica. Essa palavra significa simplesmente isto: “Dê o que eu quero para eu
provar que valho mais que você!”. Onde começa ou acaba o direito?
Num estado em que o poder está mal organizado, em que as leis e o governo se
tornam impessoais por causa dos inúmeros direitos que o liberalismo criou, veio
um novo direito, o de me lançar, de acordo com a lei do mais forte, contra
todas as regras e ordens estabelecidas, derrubando-as; o de por a mão nas leis,
remodelando as instituições e tornando-me senhor daqueles que abandonaram
os direitos que lhes davam força, renunciando a eles, voluntariamente,
liberalmente…”
Os Protocolos Dos Sábios do Sião ( capítulo I ).
Interrompi esta postagem para buscar a minha esposa, que é professora de uma
creche municipal, e deparei com a seguinte cena:
Uma criança de dois anos sendo colocada à força num veículo do Conselho
Tutelar, pelo fato da mãe, envolvida com uso e tráfico de drogas, não se
mostrar adequada à educação da mesma.
Caro Irmão Bovino:
- A Arca de Noé e o Dirigível não voam!
- Nem se pode flutuar a respeito!
Cordiais Mugidos…
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a
  del.icio.us isto!

19 Respostas até o momento »

  1. 1

    Pedro Luz said,

    junho 29, 2010 @ 3:02 am

    Genial, reflete totalmente o pensamento marxista de dominação das classes. Essa letra é uma jóia pouco apreciada

  2. 2

    admin said,

    junho 29, 2010 @ 8:11 am

    Pedro:

    Eu iria além. Essa música do Zé Ramalho deveria ser de obrigatória consulta, como Literatura Contemporânea, aos estudantes de Filosofia.

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  3. 3

    Lucas Feat said,

    julho 9, 2010 @ 3:35 pm

    “O contexto crítico e ideológico da música “Admirável Gado Novo”, de Zé Ramalho, apresenta diversos aspectos do pensamento de Marxista sobre a sociedade; tais como a exploração do homem pelo homem, a alienação e a as lutas de classes. Além disso, existem diversos elementos de crítica ao regime ditatorial do período composto pelo autor. Entretanto, essa crítica transcende o contexto histórico e chega ao Universalismo por atacar também o sistema capitalista. O pensamento de Zé Ramalho é explícito e contemporâneo, uma obra rica e de densidade social muito forte”.

  4. 4

    admin said,

    julho 9, 2010 @ 6:28 pm

    Lucas:

    E esses motivos observados por você só contribuem para que essa obra ganhe maior densidade na interpretação.

    Agradeço a visita, o comentário e volte sempre.
    Dalton.

  5. 5

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    dezembro 14, 2010 @ 10:14 pm

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    dezembro 20, 2010 @ 5:50 am

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    admin said,

    dezembro 20, 2010 @ 7:38 am

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    Marcos said,

    março 19, 2011 @ 1:52 am

    Uso em minhas aulas de gegrafia, mas ainda de forma muito supreficial. O texto vai colaborar muito com o aprofundamento das discussoes em sala.
    Obrigado

  10. 10

    admin said,

    março 19, 2011 @ 6:20 am

    Marcos:

    Fico muito feliz pelo aproveitamento da postagem por um professor de Geografia, que a discutirá em sala de aula com os jovens, nas primeiras idéias da Geodinâmica do Poder Econômico.

    Devo lembrar que Admirável Gado Novo foi apenas uma releitura atualizada, que o Zé Ramalho fez do Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, editado em 1931.

    Sugiro a leitura dele para melhor tradução na Educação.

    Grato pela notícia, pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  11. 11

    nilton said,

    junho 6, 2011 @ 7:31 pm

    musica de cunho existencialista, independente do sistema politico, as pessoas optam por viver de convenções do que afirmar a sua individualidade e assumir responsabilidades pela propria criação de suas vidas. Tem medo de assumirem o fato de serem solitarias em suas decisões, de se angustiarem perante as incertezas do futuro a culpa pelos erros, e a dinamica da coexistencia; sendo assim preferem ter uma existencia inautentica se escondendo nas massas. Segundo Sartre, elas usam da má-fé.

  12. 12

    admin said,

    junho 6, 2011 @ 8:03 pm

    Nilton:

    Jean Paul Sartre era incrível. Todo elegante para dizer que preferimos empurrar a sujeira própria pra debaixo do tapete, rapido o bastante para repararmos na do vizinho desavisado e colocarmos a culpa nele.

    Rima Existencialista de Newton:

    A todo Ser, real ou imaginário
    Deve haver um Não Ser igual e contrário

    Corolário:

    - Procurando com afinco, sempre se acha alguma coisa que é ou não é!

    Grato pela visita e volte sempre.
    Dalton.

  13. 13

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