A Mulher Internacional e o “Exducador” Nacional

a

a

Dava aulas de Educação Física numa escola municipal da periferia de São Paulo. Preparava uma equipe de Ginástica de Solo para uma competição regional que, se vencida, nos levaria à final.

Havia uma aluna, negra de cor, cuja habilidade e impulsão, se bem trabalhada, poderia fazer com que evoluísse muito na modalidade. Foi campeã da fase regional, mas na final, por competir com ginastas que disputavam os campeonatos estadual e nacional, só chegou à semifinal.

Era uma promessa tão nítida, que alguns colegas meus, profissionais de clubes, encantados disputavam-na como ginasta deles. Infelizmente, após avaliações das diretorias dos clubes interessados, foi recusada em todos com argumentos do tipo: Estamos com o quadro lotado…

Quase metade do “quadro lotado” já havia sido derrotada por ela na humilde competição municipal. Infelizmente, por mais que doa, a ginástica paulistana era dominada pelos ditos Clubes de Elite, que não suportavam a idéia de uma ginasta negra.

Passaram alguns anos, cansado de ver os fundamentos morais, administrados nas aulas do dia, serem aniquilados pelos telejornais e telenovelas noturnos, larguei a Educação, pois ela já não tinha os propósitos que eu supunha no começo de carreira.

Mudei de estado, de profissão, mas de vez em quando voltava à Paulicéia Desvairada, porém nativa. Foi numa dessas idas, que ao passar novamente pelo bairro em que trabalhava anteriormente, encontrei a mesma aluna, só que envergonhada e grávida aos quinze anos.

Aquele estado dela, confesso, me chocou bastante, pois alguns anos antes eu a tivera sentada no colo pra consolar, e agora a encontrava já grávida. O tempo passa e não nos poupa…

Passados mais alguns anos voltei ao bairro, mas desta feita, ela não estava mais grávida e se tornara uma profissional do sexo. Sinceramente, não pude avaliar se tão hábil, em tal ocupação mais adulta, quanto o era na infantil ginástica. Já não ficava envergonhada.

Estávamos em ano e época de posse presidencial. Ao ver o telejornal noturno deparei com a recém-eleita primeira dama, Ruth Cardoso, pronunciando diversas vezes uma expressão global que era a coqueluche “intelectual” do momento: Exercício de Cidadania.

No dia seguinte, voltando à rua, deparei com uma propaganda eleitoral do marido dela (Sociólogo), remanescente da eleição anterior, meio desbotada, mas que trazia ainda visíveis os seguintes dizeres: 

“Educação. Um Direito do Cidadão e um Dever do Estado”. 

Como o pronunciamento da Dona Ruth foi uma espécie de abertura do jornal, cujo interior, dentre muitos relatos bem vendáveis de crimes e assassinatos, apresentou uma reportagem sobre a migração feminina juvenil para a Espanha.

Creio que, sonhando com melhores dias para aquela aluna criança, mãe e prostituta; num arroubo de otimismo escrevi: 

a

Cidadania Jazz (ou Jaz?)

 a   
Mamãe:
Não preocupa estou por Madrid
Aqui
É uma luta que eu nunca vi
Ganhei
A boneca que nem pedi
Francês
O seu pai batizou Petit
a
Titio
Você sabe como ele é
Abriu
Por aqui mais um cabaré
Mas tem
Tanto homem que já nem sei
Se alguém
Bem me quer como eu sonhei
a
De tanto que me entrego
Pro ofício eu percebi
Que o meu próprio trajeto não fui eu que escolhi
Pensando desse jeito
Eu acho que esqueci
O que era Direito aí na terra onde eu nasci
a
Papai:
Não se zangue estou bem feliz
“Atrás”
O francês sempre diz mercí
Tem vez
Que me batem que nem você
Mas vem
Em seguida um Pe$o ca$hê
a
Talvez
Pe$o aqui pe$e mai$ Real
Que tal
A menina internacional
Já sei
Que se orgulha de eu ser assim
Adeus
Desta muda do teu jardim
a
(O pai canta)
De tanto que se entrega
Pro ofício n´o aprendeu
Quem trança a sua reta é a terra onde nasceu
Criança no seu jeito
Armou a confusão:
– Na dança do Direito, quem balança a Obrigação? 

a

No começo deste século resolvi me dar uma outra chance na tentativa de Educação. Depois de alguns dias lecionando, houve um dia chuvoso. Como sempre fazia antes, pude recolher os alunos numa sala de aula para conhecê-los melhor numa proveitosa conversa.

Várias questões foram abordadas, as que causavam maior interesse eram as sexuais. As coisas tinham mesmo mudado, pois na outra época em que lecionava, as conversas mais interessantes a tal faixa etária eram sobre escalações de times de futebol; mas uma outra foi fundamental para o meu futuro. Discutíamos sobre drogas, quando um aluno de doze ou treze anos concluiu: 

- Se for para mexer com drogas, eu vou ser traficante! Perguntei por que aquilo, e ele disse:

- Tem muito mais otário que cheira do que esperto que vende. Prefiro a grana!

Meio assustado perguntei se ele não tinha medo de ser preso, no que escutei:

- Com o dinheiro eu compro polícia! 

Realmente, o Educador estava ultrapassado e se extinto. Só eu que não percebera que o meu substituto, o Formador de Opinião, estava fazendo jus ao nome a bom tempo: Formando Opiniões na garotada. 

- Será que alguma coisa mudou, na transformação de meninos e meninas em mulheres e homens, desde a extinção deste Educador que quebrou o seu violão?

Enfim, um dia
Sorria, sorria…
Você que passa
Sorria, sorria…
Dia da Graça
Alegria, alegria…
Vem me dar a mão
(Sérgio Ricardo)
 
 
a
  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    jeanete gouvea said,

    março 10, 2009 @ 12:00 am

    Pois é, amigo… Ainda bem que não perdi a capacidade de me indignar diante de tantas aberrações! O caso da sua aluna, desgraçadamente, é um em milhares. A riqueza cada vez mais concentrada na mão de poucos e a maioria cada vez mais abaixo da linha da pobreza, como se diz delicadamente, para constatar a miséria absoluta. E o negro é o mais atingido pela desigualdade. A menina, no caso, tinha uma chance de ter uma vida digna e essa chance lhe foi negada… E o que mais me enfurece é saber que lutamos a vida inteira contra uma burguesia absolutamente hipócrita que dizia ser a prostituição a “profissão mais antiga” do mundo, não exploração, degradação da mulher, e vem as petistas com essa babaquice de “políticamente correto”, dizer que não se pode chamar prostituta de prostituta, pois é humilhante…O certo é…”profissional do sexo”! Era tudo que a burguesia queria! A profissional paga até IR… E tem a quetão da cidadania, de quebra, né? É um deboche chamar de cidadão quem não conhece seus direitos mais elementares! Que cidadania tem uma pessoa sem moradia decente, emprego, saúde, escola??? O simples fato de um intelectual dizer:”Você, cidadão”? Enquanto essas aberrações persistirem, o Educador perde cada vez mais espaço para o Formador de Opinião e, não dá pra desistir! É aquela história do dragão da maldade contra o santo guerreiro…
    Beijos,
    Jan.

  2. 2

    admin said,

    março 10, 2009 @ 10:19 am

    Jan!

    Se formos buscar o significado do verbete – Drama – não escaparemos do sinônimo – Tragicomédia – Acho que é isso.
    Bjs.

Comentário RSS · TrackBack URI

Deixe um comentário