A Missão do Artista

 

 

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A grande dúvida: – Como é que começo a escrever sobre a minha obra? Pesquisar Chico era muito mais fácil do que escrever sobre ele. Tal problema persistiu até o dia em encontrei, nas prateleiras de um sebo, um livro bem velho e com o seguinte título: “Despertemos a Nação”.

Intrigado com a caretice do título folheei, e folheando encontrei:

A Missão do Artista                  

O artista é o homem que nasceu para dizer alguma cousa. É uma espécie de orador official de uma série de avós que foram mudos. A palavra afflorou, aqui ou ali, num tataravô que foi meio poeta, num tio-avô que era meio maluco; o espírito humano andava querendo dizer ao infinito as suas impressões pela bocca daquella família. Balbuciava, resmungava e as gerações se succediam, até que afinal, porque o atavismo levou accesa a labareda do desejo de dizer, sahiu um homem para falar: e falou. E viu-se, então, que toda a sua necessidade era exprimir-se de qualquer geito mais á mão. Elle tinha certas cousas para as quaes precisava procurar certas palavras, certas phrases, certos rythmos. Creou muito, é verdade, mas plasmando o material encontrado e querendo, antes de tudo, ser entendido. Entendido por todos, até pelas pedras. Esse é o artista. Elle não veio para impor um idioma, mas para crear um estylo e expor uma interpretação do mundo.        

O belo pensamento era quase exato para justificar a minha obra, baseada na de um artista, pois trazia tudo o que suspeitara de Chico até então. Ligava obra a autor, autor a cidadão, cidadão ao mundo que o gerou, e tal mundo ao Atavismo das gerações familiares que o justificavam por sedimentação histórica.   

O “quase exato” foi pelo fato do sociólogo Sérgio Buarque de Hollanda, pai do Chico, não ter sido tão mudo assim, como sugeriu o texto acima.

Infelizmente a coisa não era tão simples quanto supunha, pois comprei e li o livro. O próprio título me exigia prudência, pois Chico já era um socialista assumido, e o autor do livro, editado em 1937, se chamava Plínio Salgado, o pai do Integralismo, movimento de extrema nacionalista surgido na famosa Semana de Arte Moderna de 1922.

Assim como em tal semana surgiram termos do tipo “Nacionalismo Espontâneo e Manifestações Integrais”, a União Soviética engatinhava a largas joelhadas no cenário filosófico mundial. Ora, se Chico era um socialista assumido é porque a sua formação educacional lhe sugerira, logo, Sérgio e Plínio jogavam em times opostos numa ocasião em que tinham vinte e vinte e sete anos respectivamente.

O primeiro com a Razão e o segundo com a Espontaneidade (criança não usa dividir seu brinquedo com outra). Um racional e outro nacional. Sérgio gerando e moldando Chico. Plínio explicando o resultado. Plínio traduzindo Sérgio. O poder da arte forjando ligas difíceis, mas não impossíveis.            

Optei por manter o pensamento, usei minha velha máquina de escrever para tornar legíveis alguns rascunhos e entreguei à Ana.

Depois de alguns meses voltei a S.Paulo e ao encontrá-la me contou que havia entregue o material a ele. Lavei as mãos.                        

Quanto à Missão do Artista creio ter sido bem absorvida, pois alguns anos mais tarde nasceram estes versos: “O meu pai era paulista / Meu avô pernambucano / O meu bisavô mineiro / Meu tataravô baiano/…. / To na estrada há muitos anos / Sou um artista brasileiro”.

A Arte havia superado qualquer Pré ou Pós Conceito social.

Esse breve relato histórico de alguns efeitos poéticos observados na obra, ao mesmo tempo em que davam a ela maior grandeza, por serem compreendidos somente pelo próprio autor, o levavam a uma frustração bastante a extrair da grande trama de personagens, vindos da interligação da obra musical, qualidades comuns aos centrais dos livros Estorvo, Benjamim e Budapeste; pouco diferentes do narrador de Fazenda Modelo.                            

Inocentes, alienados e surrealistas prudentes embutidos num sociológico exterior misterioso. Algo tão absurdo quanto um surrealista Salvador D’Alí interpretando Descartes, pai do racionalismo.         

Algo tão difícil quanto Sérgio e Plínio jogando juntos.

                       

– Será uma luta do tipo Ted Boy Marino X “Fantomas” da Ópera!  Muitas emoções e participações de técnicos gregos discutindo com árbitros mesopotâmicos, diante de uma ostensiva platéia bíblica! Pancadaria pura que terá até plágios italianos e angolanos abaixo da linha da cintura! Inesquecíveis quatro assaltos: Fundamental, Poético, Místico e Resto.                                           

Na voz inconfundível do DJ Enzo de Almeida Passos e sua Vitrola Mágica.

– Que soe o gongo, ou baixe a agulha!

         

 

 

 



 

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  del.icio.us isto!

3 Respostas até o momento »

  1. 1

    Fábio said,

    dezembro 1, 2011 @ 9:49 pm

    Mas que história incrível, Dalton!!

    E o cara usou em “Paratodos”!! Bah, me lembro bem quando ele lançou essa música, lembro do clipe e de ter pensado na época: “que música diferente e criativa”. Acho que foi no início da década de 90, né??
    Muito legal, mesmo!!

    Fico pensando como o Chico foi “ensinado, moldado”, conforme tu falou acima. Também, com o pai “cabeção” que ele tinha e cercados dos “craques” da música e literatura, só podia sair gênio!

    Abraços
    Fábio

  2. 2

    admin said,

    dezembro 1, 2011 @ 9:59 pm

    Fábio:

    Um dos melhores amigos do pai, Sérgio Buarque de Hollanda, era Vinícius de Moraes, e quando criança o Chico ficava escutando a conversa dos dois pela fresta da porta. Não é à toa que aprendeu a fazer rimas como poucos. Veja esta aula do Vinícius:

    A rosa com cirrose a anti-rosa atômica

    Rosa de Hiroxima. É mole?

  3. 3

    admin said,

    dezembro 1, 2011 @ 10:01 pm

    Se não me engano, a Ana entregou o material pra ele em 1990.

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