A Homeopatia Ancestral Africana

    a

Convivo com a MPB desde a infância. Parte pelos discos do meu pai nos anos 50, e de forma própria à partir dos anos 60, todavia, ainda nos anos 50, próximo a minha casa, no Tatuapé, em Sampa, havia uma Roça de Candomblé.

Para a família, que gostava de samba, aquele som vindo da Roça causava um misto de  admiração e preconceito, pois é impossível tentar qualquer conceito sobre algo sem que o experimente. Preconceito pelo fato da Roça ser uma espécie de Re-Senzala pós-Abolição, e admiração pelo som vindo da mesma nos rituais.

Para mim, moleque, tudo não passava de coisa de adultos, já que jogava bola com os moleques de lá e não havia qualquer problema, além da cor diferente, mas as comidas e a simplicidade dos familiares da molecada me cativava.

Posteriormente, já menos criança e mais estudioso da Versificação básica das letras da MPB, resolvi voltar a conviver com aquela realidade de outrora, já que, para falar confortavelmente sobre o Samba, me era imperativo conhecer as suas raízes.

Muita história rolou à partir de então, mas isso não vem ao caso no momento, pois hoje acordei com um canto africano na cabeça, dentre as dezenas de Sassanhas que escutei e traduzi para o Português, no entanto, para facilitar, colocarei somente os sons:

Puêre egum latoni ô
Euê
Puêre egum latoni ô
Puêre egum latoni ô
Euê
Puêre egum latoni ô
       
Puêre egum latoni
Babá Leuê
Puêre egum latoni
Babá Leuê

Esse é um canto consagrado ao orixá das folhas, ou das ervas (Ewê): Ossain.

É usado para muitos fins, já que trata dos mortos (Egum), mas, antes da morte, vem a vida, e as roças mais antigas usavam esse canto para saudar o trabalho de um importante homem da casa: O Babalewê.

Embora ambos lidem com os Búzios, cujo representante maior é o Babalawô (Babá=pai – Awô=culto); o Babalewê é necessário à casa como uma espécie de médico, chamado jocosamente de curandeiro.

Quem já consultou com algum médico homeopata deve ter percebido que qualquer tratamento só é possível após uma longa e prudente entrevista, em que o mesmo faz anotações próprias de acordo com as características comportamentais do cliente, para só depois ministrar ao chamado Remédio de Fundo.

O que faz esse médico? Cada característica apresenta uma grande quantidade de produtos que constam num livro, se não me engano, chamado O Livro de Hahnemann. Observadas todas as possibilidades de produto, esse médico observará um, ou mais, que se mostrou comum à maioria das características do cliente, e será de um, ou poucos mais produtos comuns que será elaborado o Remédio de Fundo para o início de tratamento.

O que faz um Babalewê diante do seu cliente, mais conhecido por Consulente? A mesma coisa que o homeopata, só diferindo no uso do Livro, trocado pelo Búzio. A cada característica do consulente, o Babá joga os búzios, cujo desenho de Verdadeiro ou Falso determina a direção de uma erva específica. Depois de várias jogadas e desenhos das posições, o Babá terá três atitudes:

1- Manda o consulente fazer um Ebó (ritual de oferenda) especifico para determinado orixá.

2- Manda a pessoa ir procurar determinada erva e lhe entregar.

3- Consagra a erva em ritual específico e orienta a pessoa no uso para que não se transforme em mais um Egum.

Tanto o Médico Homeopata quanto o Babalewê enfrentam o mesmo problema:

O cliente, ou consulente, mentir nas respostas.

A diferença entre eles, nesse aspecto, é que o Babá, antes de cada pergunta, oculta nas mãos uma pedra lisa e um búzio, preferencialmente com o mesmo tamanho, e manda a pessoa escolher uma delas. Se for a do búzio, estará falando a verdade. Se for a da pedra, estará mentindo.

Caso a pessoa seja verdadeira, a consulta continua. Caso comece a mentir, o Babá encerra no ato e manda voltar outro dia, com um pouco mais de honestidade.

A diferença entre o Médico e o Babá, é que o primeiro receberá a grana de qualquer jeito, já o Babá não usa ousar tanto.

Atenção senhores Médicos Homeopatas:

- Ofereço búzios e pedras lisas, micrometricamente congruentes, a preços módicos!

       a

  del.icio.us isto!

2 Respostas até o momento »

  1. 1

    Ribeiro-Santos said,

    março 25, 2011 @ 9:45 am

    Senhor blogueiro,

    “não havia qualquer problema, além da cor diferente”?

    Cuidado!

  2. 2

    admin said,

    março 25, 2011 @ 10:15 am

    Ribeiro-Santos:

    O maior problema da questão racial, em qualquer parte do mundo, não está no sentimento que cada um de nós nutre pelas diferenças das cores de pele, mas nas palavras ditas honesta ou desonestamente.

    Como estou, no momento, trabalhando num dicionário de rimas, aqui vai uma fresquinha:

    Mas vale um hussitismo convicto
    A um jornalismo ficto

    Acho que vou até colocá-la no site.

    Grato pela visita, pelo alerta, pelo Mote e volte sempre.

Comentário RSS · TrackBack URI

Deixe um comentário