A Banda – Análise Poética

               
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Sílabas nicas em Vermelho A+  Anáclase – sílaba do verso posterior para o anterior
Sequência numérica à direita = Ritmo Poético
Letras A, G ou D = Timbres de Verso: Agudo, Grave ou Dáctilo
A-  Anáclase – sílaba do verso anterior para o posterior
C -Cavalgamento
         
Es / ta / va-à / to / a / na / vi / da-  A-     2-4-7 A
-O / meu / a / mor / me / cha / mou     2-4-7 A
Pra / ver / a / ban / da / pas / sar     2-4-7 A
Can / tan / do / coi / sas / de-a / mor     2-4-7 A
A / mi / nha / gen / te / so / fri / da     2-4-7 G     
Des / pe / diu / se / da / dor    1-3-6 A
Pra / ver / a / ban / da / pas / sar     2-4-7 A
Can / tan / do / coi / sas / de-a / mor      2-4-7 A
                                 
O /ho/mem //rio /que/ con/ta/va /di/nhei/ro /pa/rou     2-4-6-8-11-14 A
O /fa/ro/lei/ro /que/ con/ta/va /van/ta/gens /pa/rou     2-4-6-8-11-14 A
A /na/mo/ra/da /que /con/ta/va-as /es/tre/las/ C /Pa/rou     2-4-6-8-11 G
pa / ra / ver / ou / vir / e / dar / pas / sa / gem     2-5-7-9-11 G
A /mo/ça /tris/ te /que /vi /vi/ a /ca /la/ da  /sor /riu     2-4-6-8-11-14 A
A /ro/ sa /tris/ te /que/ vi /vi/ a /fe /cha/ da/  se-a /briu     2-4-6-8-11-14 A
E-a /me/ ni /na/ da /to/ da /se-as/ sa /nhou     2-4-6-8-10 A
Pra / ver / a / ban / da / pas / sar     2-4-7 A
Can / tan / do / coi / sas / de-a / mor      2-4-7 A

    

Repete a primeira estrofe
                        
O /ve/lho /fra/co/se-es/que/ceu/ do /can/sa/ço-e/ pen/sou 2-4-6-8-11-14 A
Que-in/da-e/ra /mo/ço /pra/ sa/ir/ no/ ter/ra/ço-e/dan/çou   2-4-6-8-11-14 A
A / mo / ça / fe / ia / de / bru / çou / na / ja / ne / la     2-4-6-8-11 G
Pen / san / do / que-a / ban / da / to / ca / va / pra / e / la     2-5-8-11 G
A/mar/chaa/le/gre/sees/pa/lhou/naa/ve/ni/da-e-in/sis/tiu 2-4-6-8-11-14 A
A /lu/ a /che/ ia /que/ vi /vi/ a-es/ con /di/ da/ sur /giu     2-4-6-8-11-14 A
Mi / nhá / ci / da / de / to / da / se-en / fei / tou     2-4-6-8-10 A
Pra / ver / a / ban / da / pas / sar     2-4-7 A
Can / tan / do / coi / sas / de-a / mor     2-4-7 A                                 
    
Mas / pa / ra / meu / de / sen / can / to-   A-     2-4-7 A
-O / que-e / ra / do / ce-a / ca / bou     2-4-7 A
Tu /  / to / mou / seu / lu / gar     2-4-7 A
De / pois / que-a / ban / da / pas / sou     2-4-7 A
E / ca / da / qual / no / seu / can / to-  A-   2-4-7 A
-E-em / Ca / da / can / to-u / ma / dor     2-4-7 A
De / pois / da / ban / da / pas / sar     2-4-7 A
Can / tan / do / coi / sas / de-a / mor      2-4-7 A

Começarei a análise poética da composição observando as Rimas. Quanto às colocações nos finais dos versos, a grande maioria delas apresenta Sons Vulgares, porém, com algumas se apresentando conjugadas ao longo dos versos inteiros, numa clara intenção de Rima Paralela nos versos inteiros, assim:

 A moça triste que vivia calada sorriu 
A rosa triste que vivia fechada  se-abriu 
    

Reparem que foi uma quase repetição de versos, com sonâncias Vulgares e colocadas em palavras de Mesma Categoria Gramatical, o que define às Rimas Pobres, só que ocorrendo ao longo do verso inteiro.

Quando um poeta busca um maior Quilate nas rimas, fatalmente foge da vulgaridade nas sonâncias. Quanto menos Vulgar é a Rima, menos Popular ela se torna. Quanto menos popular a rima, menor a possibilidade de fixação do texto na memória do ouvinte. Quanto menos decorado é o texto, menor é o sucesso popular da composição.

Esse conceito acima, das Rimas, não é invenção minha, justamente por não ser nenhuma novidade no meio poético, mas sempre é bom ser lembrado, principalmente para justificar ao imenso encaixe da Banda em nossos ouvidos.

Outro tipo de rima usado por Chico na composição foi a Leonina:

O homem sério que contava dinheiro parou 
O faroleiro que contava vantagens parou
A namorada que contava as estrelas 

Nas Rimas Internas, embora tenhamos algumas apenas Toantes, as sonoridades e as categorias gramaticais já ficaram bem diferentes, dando a elas um Quilate maior que as Externas nas Extremidades, levando o Chico à seguinte constatação:

- Quando colocadas nos finais de verso, As Rimas Vulgares, ou mesmo as Pobres, permitem melhor assimilação do texto por parte do ouvinte, por outro lado, para manter a construção poética no alto nível que espero, posso trabalhar com Rimas Internas de maior Quilate, que além de melhor educar o ouvinte, não afeta à assimilação de texto conseguida com as Vulgares finais!

Chico pode nem ter pensado nisso que escrevi acima, mas as suas construções poéticas futuras, sem dúvidas, mostraram a constatação.

A composição foi feita em quatro estrofes, formando dois pares de idênticas: A primeira e a quarta foram Oitavas. A segunda e a terceira foram Nonas. O fato de todas terminarem em mesma sonância no último verso tornou A Banda uma composição Lírica, sendo tal aspecto poético reforçado pelo fato do verso – Cantando coisas de amor – ter sido o último em cada uma delas.

Quanto à Métrica dos versos, a predominância dos Redondilhas Maiores só dá continuidade à idéia da busca do Popular, vista nas Rimas, já que tais versos são os mais populares na Poesia Brasileira.

Houve também uma grande presença de Versos Bárbaros, cuja regra básica exigiria simples acentuação na sétima sílaba, porém, dando a eles a cadência 2-4-6-8-11-14; Chico conseguiu uma interessante e agradável sequência de quatro Pés Jambos seguidos de dois Anapestos, todos em Timbre Agudo, tornando tais versos limítrofes entre a Poesia e a Prosa, o que ocorre nas catorze sílabas poéticas.

O terceiro verso da segunda estrofe, que insinou fazer parte do grupo Bárbaro, fê-lo somente em estética de estrofe, pois Chico usou um Cavalgamento sintático do verso posterior para o anterior, cuja contagem silábica, obrigatoriamene iniciada na primeira sílaba da parte cavalgada, deu a ambos os versos as mesmas onze sílabas dos seus correspondentes na idêntica terceira estrofe.

O Cavalgamento é um Recurso Poético de alto risco, pois ao menor descuido do poeta o poema ganha um verso Manco, pela série de exigências métricas e rítmicas que cercam o seu uso, sendo a principal delas a necessidade de uma pausa interior, de um tempo rítmico poético, antes da primeira sílaba do fragmento sintático cavalgado para o verso anterior:

A namorada que contava-as estrelas /pausa/ Parou
para ver, ouvir e dar passagem

Ainda por cima, Chico brinca com o assunto da Pausa, usando o significado do termo Parou

Como já foi visto nas análises de composições anteriores, Chico usa brincar, consigo mesmo, enquanto constrói o poema a ser alojado na melodia e se tornar composição musical. Vejam o que ele fez com o sexto verso da composição.

Interrompeu a uma sequência de cinco Redondilhas Maiores e enfiou no meio deles um verso com seis sílabas.  Manteve o Ritmo Poético, mas perdeu a Regularidade Métrica da estrofe.

Basta reparar na última estrofe para perceber como ficaria a Regularidade da primeira se ele não tivesse cismado de colocar o Sexto verso com Seis sílabas

Apesar da alta nobreza conseguida pelo poeta que o utiliza, o Cavalgamento não deve ser feito muitas vezes num só poema, porque, curiosamente, costuma torná-lo desagradável ao ouvido.

Usarei este espaço de Análise Poética para um assunto, mais literário, que envolveu o jovem poeta de vinte e dois anos, que era ele na época em que escreveu A Banda, e dois outros, já mais velhos, renomados poetas da Literatura Brasileira.

Antes de Chico surgir no cenário artístico nacional com Sonho De Um Carnaval, em 1965, já presenciara, desde a infância, outros renomados poetas que usavam visitar seu pai, o historiador Sérgio Buarque de Hollanda.

Os mais frequentes eram Vinícius de Moraes e Manuel Bandeira. Por ter atingido à maturidade poética bem depois do Bandeira, Vinícius era mais contemporâneo, pois já enveredara pela MPB na década de quarenta.

Ao contrário dele, Bandeira se mantivera fiel aos conceitos Modernistas do Verso Livre sacramentados na Semana Literária de 1922, também conhecida pelo nome de Semana de Arte Moderna de 22; que determinou aos poetas certas regras tais como:

1- A não utilização da Rima nas construções poéticas.

2- A proibição de uso  do Enjambement, importado da Poesia Francesa e rebatizado por aqui com o nome de Cavalgamento.

Argumentaram na época, que por ter vindo de uma outra realidade gramatical, embora também latina, o Cavalgamento não atendia às nossas necessidades poéticas, quer em beleza poética, quer em correção gramatical.

Quando Chico escreveu A Banda, com todo um jogo contrastante de Rimas Vulgares nos finas de versos e de grande quilate nos interiores dos mesmos, já fora contra a primeira regra dos Modernistas de 22.

Ao usar com grande êxito o recurso Cavalgamento foi de encontro à segunda regra do mesmo movimento literário, ao qual Bandeira ainda pertencia orgulhosamente.

Pelas regras do “Velho Poeta”, a composição do Chico tinha todos os ingredientes para não ser bem sucedida. Só que ocorreu o inverso, com um sucesso bastante a rotulá-lo como Unanimidade Nacional.

Chico não era mais um jovem poeta aprendiz, mas representava  um movimento literário amordaçado pelo Modernismo de 1922: O Parnasianismo Brasileiro, que permitia, inclusive, liberdade ao poeta para fazer o que Chico fez em A Banda com tamanho sucesso.

Era apenas uma luta de um poeta velho, insatisfeito com o sucesso alcançado por um poeta novo, que encontrou num Movimento Avô as soluções que o Movimento Pai não fôra capaz de encontrar ao amordaçá-lo. Exatamente o que o Modernismo de 22 fez com o Parnasianismo Brasileiro.

Foi a partir dessa cobrança, do Bandeira pra cima do Chico, que a peça Roda Viva começou a ser construída, portanto, A Banda, também, foi responsável direta pelo nascimento de outra obra bem sucedida.

Correndo por fora da Questão Literária particular, na mesma época um outro modernista, Carlos Drummond de Andrade, escreveu uma crônica onde enxergava com bons olhos o nascimento da nova tendência poética A Banda, mostrando mais uma vez que o verso só é Livre quando o poeta também é.

Drummond era mais o Verso Próprio do que um movimento que o justificasse. Bandeira o inverso.

Achei errado algumas atitudes da assessoria do Chico em relação a esse episódio, contado na peça Roda Viva, num poema sobre o Velho Poeta, que buscou preservar a imagem do Manuel Bandeira, mesmo após a deflagrada tentativa de colocar mordaça no Chico, com a cobrança do súbito sucesso da Banda.

Essa “preservação” de imagem literária ocorreu no Manuscrito A Banda, em cuja introdução Chico diz:

“Correndo atrás da poesia, espero pelos meus 25 anos. Creio porém que por hoje, as “incovenências da aurora” são superadas nos versos do samba, pela espontaneidade da linguagem popular, que não tem idade…”.

O Manuscrito deve ter sido bem original mesmo, caso contrário o erro de Português, destacado em vermelho, não teria ido adiante em edição, mas penso que o texto seja bem claro, com relação ao que venho tratando.

As “inconveniências da aurora” nada mais foram do que uma justificativa a um “entardecer temeroso” , pelas naturais Trevas Posteriores, tentando levar consigo  uma Luz que se anunciava Nova, justamente por buscar a uma Linguagem Popular…

Partindo de dados oficiais temos: Chico nasceu em 1944. A Banda concorreu no Festival da Canção de 1966, logo, Chico estaria esperando, quando muito, pelos seus 23 anos.

- Por qual motivo estaria ele esperando pelos seus 25 anos em 1966?

Esse tipo de atitude das assessorias é que entorta o curso verídico da História, tornando a Óbvia Verdade refém de interesses comerciais, e carente de Investigação para ser reconhecida oficialmente.

Um dos motivos que me levam a tentar a Biografia da Obra do Chico, e não a do Artista Francisco, é esse tipo de permissão, dada pelo segundo, para que o trabalho do primeiro sofra toda essa sorte de “conveniências de aurora” que o cercam e amordaçam.

Cabe sempre o seguinte fragmento de A Missão do Artista:

“Até que então, porque o Atavismo manteve acesa a labareda do desejo de dizer, nasceu um homem para falar. E falou. Viu-se então que toda a sua necessidade era a de exprimir-se de qualquer jeito mais à mão. Ele tinha certas coisas para as quais necessitava encontrar certas palavras, certas frases, certos ritmos. Criou muito, é verdade, mas plasmando o material encontrado e querendo, antes de tudo, ser entendido. Entendido por todos. Até pelas pedras.

Esse é o Artista. Ele não veio para impor um idioma, mas para criar um estilo e expor uma interpretação do mundo” .

Os 34 versos da composição foram nestes tipos:

Heróico Quebrado Agudo – 1

Redondilhas Maiores Agudos – 18

Redondilhas Maiores Graves – 1

Heróicos Agudos – 2

Hendecassílabos Graves – 4

Bárbaros Agudos – 8

 

        a

  del.icio.us isto!

1 Resposta até o momento »

  1. 1

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    November 7, 2011 @ 5:36 am

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