A Banda-Análise de Texto
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Virando Unanimidade Nacional : A Banda.
Estava à toa na vida O meu amor me chamou Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor A minha gente sofrida Despediu-se da dor Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor O homem sério que contava dinheiro, parou O faroleiro que contava vantagens, parou A namorada que contava as estrelas, parou Para ver ouvir e dar passagem A moça triste que vivia calada, sorriu A rosa triste que vivia fechada, se abriu E a meninada toda se assanhou Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor Repete a primeira estrofe O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou Que inda era moço pra sair no terraço e dançou A moça feia debruçou na janela Pensando que a banda tocava pra ela A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu A lua cheia que vivia escondida, surgiu Minha cidade toda se enfeitou Pra ver a banda passar Cantando coisas de amor Mas para meu desencanto O que era doce acabou Tudo tomou seu lugar Depois que a banda passou E cada qual no seu canto E em cada canto uma dor Depois da banda passar Cantando coisas de amorObs. No manuscrito os dois últimos versos estão num só por simples questão de aproveitamento de folha.
Para a composição se mostrar lírica bastaria terminar todas as estrofes com mesma rima. Chico usou dois versos nas três primeiras estrofes com pequena alteração no penúltimo da quarta.
Na época em que foi composta era comum ver-se bandas nas ruas de S.Paulo. Chico descreveu as sensações comuns aos ouvintes. O quadro social era bem assim definido: Depois que ela passava a alegria durava alguns momentos e era trocada pela seriedade comum ao cotidiano de uma ainda metrópole. Dois retratos: um antes e um depois.
Homens sérios se distinguiam de faroleiros mesmo quando ambos se tornavam velhos fracos. Namoradas conseguiam enxergar estrelas e moças feias ainda se atreviam a debruçar em janelas.
Hoje não conseguimos separar os personagens. O homem sério pode muito bem ser uma namorada que se oculta atrás de uma janela fechada e com grades. Banda, só em desfile militar tocando Cisne Branco.
Pode-se reparar que as rimas ganharam uma postura mais flexível que as padronizadas em finais de verso. Por exemplo: sério-dinheiro-faroleiro.
Outro exemplo: moça triste que vivia calada sorriu – rosa triste que vivia fechada se-abriu. Identidade de vogais tônicas ao longo do verso, fim com meio, alguns ecos…
A Banda ganhou o festival de 66 empatada com Disparada. Um ano depois lá estavam os amigos Chico e Vandré empatando na preferência popular.
Foi o momento mais sério que a MPB enfrentou em sua história, um governo nacionalista censurando a uma imprensa, cuja razão existencial está para Gutemberg e a Prensa, assim como a guerra está para Santos Dumont e o avião.
Povo dividindo preferências entre duas linguagens musicais que tratavam juntas do mesmo problema embutido: A Manipulação dos sentimentos do mesmo!
Chico alternando Vida à toa, Alegria e Tristeza; e Vandré dizendo: - Num sonho que fui sonhando / As visões se clareando / Até que-um dia-acordei / Então não pude seguir / Valente lugar-tenente / E dono de gado-e gente / Pôrque gado-a gente marca / Tange, ferra,-engorda-e mata / Mas com gente-é diferente!
Chico mostrando os dois retratos: um das visões de Vandré antes de acordar e outro da constatação pós-sonho.
Um, quando Vandré era um simples “boi à toa na vida da boiada” que anunciou luz em Porta-Estandarte, outro com o mesmo, cobrando em Disparada a escuridão persistente. Chico Sonhou com Carnaval e nos fotografou vendo a Banda.
“Era-uma canção, um só cordão, uma vontade de tomar a mão de cada-irmão pela cidade“. Uma cidade que por instantes igualou personagens ao “parar para vê-la passar cantando coisas de amor”.
Como qualquer pai coruja, um ano depois Vandré dividia o palco com o rapaz em quem acreditara no ano anterior, ao cantar um sonho alegre seu que, convém lembrar, baixava o pano na quarta feira.
Não dá para saber quem copiou quem, pois Disparada também apresentou uma jogada poética de texto. Após 7 primeiros versos com sete sílabas, o oitavo, com oito sílabas, diz: “Estava fora de lugar“, para depois retomar métrica e ritmo:”Eu vivo pra consertar”.
Aliás, Fazenda Modelo, terceira experiência literária de Chico, já que a primeira fora um bilhete para a avó e a segunda virá no fim do manuscrito, continuou a tratar do gado de Vandré de forma muito mais específica.
Esse assunto voltou a ser visto bem mais tarde por Zé Ramalho – Ê, eô vida de gado / Povo marcado / Povo feliz! (Admirável Gado Novo), que deu bois ao nomes do Admirável Mundo Novo, escrito por Audous Huxley em1931, que virou uma espécie de Profecia Sócio-Educacional para as décadas posteriores, ao anunciar as futuras “Máquinas de Ensinar”. No fundo, estava prevendo apenas a Televisão.
Uma outra malandragem caracterizou o festival de 66 e Chico levou vantagem sobre Vandré. Disparada era apresentada por Jair Rodrigues e outros homens igualmente respeitosos e feiosos.
Já A Banda era cantada sempre duas vezes seguidas: Uma por Nara Leão e outra pelo Chico. Não sei sob qual argumento a organização permitiu. O único cabível é o de que Nara, não conseguindo expressar a poesia da letra, tornava a composição apenas graciosa como ela.
O fato é que além da Banda ser melhor absorvida por todos, Nara possuía os joelhos mais cobiçados da TV na época, capazes de levar adultadas e meninadas a um assanhamento natural maior que o musical da Banda.
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