Archive for dezembro, 2011

A Separação e o Reencontro – Chico Buarque e Gilberto Gil

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Vários são os motivos que levam as pessoas ao casamento e à separação, mas são apenas motivos particulares. Como essas sensações poderiam ser descritas pelos poetas da MPB?

Muitas músicas já foram escritas sobre tais temas, mas resolvi escolher seis delas, quatro do Chico e duas do Gil, para supor com menor possibilidade de engano.

Inicio tratando de um clássico da separação na MPB: Trocando em Miúdos, feita por Chico Buarque em parceria com Francis Hime.

Uma letra de música não se resume a um apanhado de versos dispostos em estrofes, onde cada sílaba é parceira de uma nota musical; mas a uma série de ocorrências pessoais do poeta com dados referenciais que lhe permitam dar continuidade ao tema sempre revisto.

Portanto, para tentar entender a letra é bom procurar a maioria de refenciais possíveis. Nesse caso do Chico convém lembrar que as parcerias dele com Francis Hime iniciaram com a música Atrás da Porta, cuja letra registra nitidamente os sentimentos da mulher inconformada com a separação. http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45113/

Como Retratista Social, Chico costuma dar a chance dos dois envolvidos se manifestarem por músicas. Como a mulher deu o recado dela em Atrás da Porta, supostamente, tempos após o homem respondeu com Trocando em Miúdos. Digo “supostamente” porque embora a mulher tenha ficado bem definida na letra em Atrás da Porta, o mesmo não se pode dizer do homem em Trocando em Miúdos: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45182/

Embora a música tenha ficado consagrada por tratar de uma separação conjugal, a letra dá mostras, a exemplo do ocorrido em Atrás da Porta, de que houve muito mais um rompimento do que uma separação, com ambos saindo feridos.

No caso de Drão, do Gil, percebe-se o poeta tratando da mesma separação, só que num estágio muito mais calmo para os envolvidos, que exige a ambos se separarem tanto como casal como das sobras individuais adquiridas no convívio. Esse estágio da separação permite ao poeta ser muito mais lírico do que retratista social: http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/16133/

Esse mesmo estágio de separação encontrado por Gil em Drão só foi ocorrer muitos anos mais tarde com Chico em Todo Sentimento, cuja letra sugere as duas separações necessárias das sobras, tanto no casal quanto no individual. O pensamento “A gente se livrar da gente” pode ir muito além da idéia do casal e invadir o individual: http://letras.terra.com.br/chico-buarque/45181/

Quanto aos reencontros deles com o amor conjugal, também tivemos duas formas bem distintas. Enquanto Gil continuou descrevendo na essência poética própria, Chico também se manteve lírico, só que muito mais inserido às superficialidades visuais do mundo social que o cercava, sendo portanto duvidosa a idéia de ter alcançado o Reencontro atingido por Gil.

A Linha e o Linho - http://letras.terra.com.br/gilberto-gil/46178/

aaaaaaaaaSou Eu - http://letras.terra.com.br/chico-buarque/1537845/

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Tango de Nancy (original) – Lucinha Lins

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Música – Tango de Nancy (original) – Lucinha Lins

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Quando o Chico Buarque e o Edu Lobo fazem uma parceria musical e decidem entregar a música a determinado cantor, podem até tê-lo feito por ordens superiores, mas convém sempre prestarmos bastante atenção na escolha, já que são os melhores juízes para a causa nascida deles.

Há muitas músicas gravadas por diversos cantores diferentes, mas curiosamente a maioria de nós as prefere em determinadas vozes. Foi o que ocorreu com o Tango de Nancy, que faz parte do musical O Corsário do Rei, de Augusto Boal, cuja trilha sonora ficou à cargo da dupla Chico-Edu.

Embora Lucinha Lins tenha surgido no cenário artístico brasileiro como a esposa de Ivan Lins, cuja consagração ocorreu em um festival com a música O Amor É O Meu País no princípio dos anos setenta; teve a trajetória mais voltada à dramaturgia do que à canção popular por pura vocação, mas isso não quer dizer que não fosse uma boa cantora. Muito pelo contrário, porque além da voz afinada, deu ao tango toda a dramaticidade extraída dos palcos, como convém a qualquer tango que se preze.

Por mais que outras cantoras consagradas tenham tentado cantá-lo, a única que conseguiu fazê-lo com a garra da prostituta real foi a fictícia Lucinha, com a mesma naturalidade com que a consagrada cantora Marlene cantou Viver de Amor no original da peça Ópera do Malandro em 1978. 

 

Quem sou eu para falar de amor
Se o amor me consumiu até a espinha
Dos meus beijos que falar
Dos desejos de queimar
E dos beijos que apagaram os desejos que eu tinha
a
Quem sou eu para falar de amor
Se de tanto me entregar nunca fui minha
O amor jamais foi meu
O amor me conheceu
Se esfregou na minha vida e me deixou assim
a
Homens, eu nem fiz a soma
De quantos rolaram no meu camarim
Bocas chegavam a Roma passando por mim
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Ela de braços abertos
Fazendo promessas
Meus deuses, enfim!
Eles gozando depressa e cheirando a gim
a
Eles querendo na hora
Por dentro, por fora
Por cima e por trás
Juro por Deus, de pés juntos que nunca mais

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Tablados (Chico Buarque e Edu Lobo)

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Música – Tablados (Chico Buarque e Edu Lobo)

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Na minha lembrança a moça arrebatava o chão
Do meu coração, tablado solto no sem-fim
Sim, roçava a franja nos desejos do salão
Não pintava a boca só pra mim
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Lembro da encarnada moça na iluminação
Encarnada num tablado de encarnado igual
A boca pintada de sangrado coração
Sendo a rosa e o fogo, o bem e o mal
Pra sempre minha onde seu corpo for
Descansar, distrair
Para sempre moça quando o meu amor
Precisar e pedir
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Na minha cabeça, moça, a íntima sessão
Sem saia encarnada, nada, num passado assim
Mal iluminado, sua própria encarnação
Fundos de memória, camarim

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Ópera – Chico Buarque (letra e música)

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Música – Ópera

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Intérpretes Protagonistas

Diva Pieranti (Soprano) – Glória Queiroz (Mezzo Soprano)

Alexandre Trick (Tenor) – Paulo Fortes (Barítono)

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Intérpretes Coadjuvantes

Turma do Funil

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Obras originais

Rigoletto (Verdi)

Carmen (Bizet)

Aida (Verdi)

La Traviata (Verdi)

Tannhauser (Wagner)

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JOÃO ALEGRE

Telegrama

Do Alabama

Pro senhor

Max

Overseas

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

TERESINHA

Chegou a confirmação

Da United coisa e tal

Que nos passa a concessão

Para o náilon tropical

 

MAX

Então nós vamos montar

Em São Paulo um fabricão

 

TERESINHA

Depois vamos exportar

Fio de náilon pro Japão

 

MAX

Sei que o náilon tem valor

Mas começa a me enjoar

Tive idéia bem melhor

Nós vamos ramificar

 

TERESINHA

Já ramifiquei, ha ha

Fiz acordo com a Shell

Coca-Cola, RCA

E vai ser sopa no mel

 

CORO

Que beleza

Que riqueza

Tá chovendo

Da matriz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

MAX

Que tal juntarmos

Esses capitais

Abrindo um banco

Em Minas Gerais

 

TERESINHA

Que brilhante idéia, meu amor

Que plano original

Com fundos do exterior

Você fundar

Um banco nacional

 

CAPANGAS

E eu que já fui

Um pobre marginal

Sem documento

E sem moral

Hei de ser um bom profissional

Vou ser quase um doutor

Contínuo da senhora

E do senhor

Bancário ou contador

 

CORO

Que sucesso

O progresso

Corta o mal

Pela raiz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

CHAVES

Irmão

Nem começar eu sei

Receio te inibir

 

MAX

Tua vontade é lei

É falar

É mandar

É exigir

 

CHAVES

É que

Num mundo tão cruel

Cheio de inveja e fel

Não lhe fará mal

Ter à mão

Proteção

Policial

Quer os meus préstimos?

 

MAX

Eu acho ótimo

 

BARRABÁS

Serve um acólito?

 

MAX

Também vou te empregar

 

LÚCIA

Eu não

Tenho com quem deixar

Meu filho que já vem

 

MAX

Barrabás é um par

Exemplar

Quer casar

 

BARRABÁS

E adoro neném

 

CORO

Maravilha

Que família

Dois pombinhos

E um petiz

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

VITÓRIA

Só tenho um único

Breve reparo

A tão preclaro

Genro viril

É o esquecimento

Do sacramento

Afinal

Se casou

Só no civil

Oh oh oh

Oh oh oh

Só no civil

Oh oh oh

Oh oh oh

Só no civil

 

MAX

Mas nesse ínterim

Mudei de crença

Já peço a benção

No santo altar

 

VITÓRIA

Que maravilha

Não perco a filha

E um varão

Bonitão

Eu vou ganhar

Ah ah ah

Ah ah ah

Eu vou ganhar

Ah ah ah

Ah ah ah

Eu vou ganhar

 

DURAN

Minha filha eu desejo pedir teu perdão

 

TERESINHA

Oh, meu pai, isso é bom demais! Finalmente! Até que enfim!

 

DURAN

Não sei como fui pra você tão durão

Tão mandão, tão sem coração, tão malvado assim

 

MAX

Meu sogro, o senhor não sabe quanta alegria

Me dá, ao dizer que já se juntou aos nossos

 

DURAN

Só Deus sabe há quanto tempo eu tanto queria

Poder apertar esses ossos

 

CORO

Que euforia

Quem diria

Como os grandes

São gentis

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

 

DURAN

Não quero ser

Nas suas costas um fardo

Porém

Talvez

Eu necessite um resguardo

 

MAX

Tua instituição

Tão tradicional

Vai ter um padrão

Moderno

Cristão e ocidental

 

PUTAS

Vamos participar

Dessa evolução

Vamos todas entrar

Na linha de produção

Vamos abandonar

O sexo artesanal

Vamos todas amar

Em escala industrial

 

GENI

O sol nasceu

No mar de Copacabana

Pra quem viveu

Só de café e banana

 

TODOS

Tem gilete, Kibon

Lanchonete, Neon

Petróleo

Cinemascope, sapólio

Ban-lon

Shampoo, tevê

Cigarros longos e finos

Blindex fumê

Já tem Napalm e Kolinos

Tem cassete e rai-ban

Camionete e sedan

Que sonho

Corcel, Brasília, plutônio

Shazam

 

TODOS

Que orgia

Que magia

Reina a paz

No meu país

Ai, meu Deus do céu

Me sinto tão feliz

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Black-out; fecha a cortina; orquestra continua

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Ópera do Malandro – Ato II – Cenas 6 e 7

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CENA 6

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Luz geral na cadeia; a alguns passos da cela estão Duran e Chaves, este com a pistola na mão

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DURAN

Que é que está esperando? Três, dois, um, já!

CHAVES

Espera aí, e a passeata?

DURAN

Primeiro executa o teu amigo. Aí a Vitória cuida da passeata.

CHAVES

Eu tenho o maior prazer em executar o meu amigo. Mas tem que desmanchar a passeata antes.

DURAN

Que é isso, Chaves? Não confia em mim?

CHAVES

E tu? Não confia em mim?

DURAN

Não.

CHAVES

Então empatou zero a zero.

DURAN

Assim não dá, Chaves. Alguém tem que agir primeiro.

CHAVES

Eu tô com a arma engatada e na mira, Duran. (Aproxima-se de Max) Tu fica ao meu lado. Na hora exata que esse esporro sossegar, tu me cutuca que eu dou o teco.

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CENA 7

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Entra em cena a passeata, comandada por João Alegre; Vitória caminha em direção à multidão

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VITÓRIA

Muito bem, minha gente, vamos todos pra casa, vamos circular que a passeata está suspensa. Estão me ouvindo? Acabou a passeata! Ei, pessoal! Não tem mais passeata! Não tem…

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A passeata atropela Vitória e segue em frente; Duran tenta socorrer Vitória mas é arrastado; Chaves dá um tiro para o alto em vão, e se esconde; enfim, Vitória levanta-se e vai ao proscênio

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VITÓRIA

Luzes! Eu pedi luzes! Suspende o espetáculo! Luzes na platéia! Ei, vocês aí em cima na técnica! Pára tudo! Acende a platéia!

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Luzes na platéia; passeata pára

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VITÓRIA

Que absurdo! Que palhaçada! Eu não saí de casa pra vir aqui passar vexame! Quem é o responsável por essa bagunça? Eu vou me queixar no Jornal Nacional. Que é que vocês estão pensando? Cadê o produtor?

DURAN/PRODUTOR

Estou aqui, dona Vitória, desculpe. Eu não sei como foi que isso aconteceu. A senhora está bem?

VITÓRIA

Eu estou ótima, e a tua mãe? Exijo satisfações!

DURAN/PRODUTOR

Pois é, essa baderna não estava no roteiro aprovado por todos nós… Ô, “seu” João Alegre, quer dar um pulinho aqui?

VITÓRIA

Seu sem-vergonha! Preto safado! Filho de um cão!

JOÃO ALEGRE

Sabe como é, dona? A senhora entende…

VITÓRIA

Eu não entendo nada!

JOÃO ALEGRE

A gente tá na onda do partido alto. Então, o puxador dá o mote e nego vai tirando o que pintar na mentalidade, sacou? É uma jogada que dá um pé na quadra e eu achei que no teatro ficaria original. Mas não tive a intenção de ofender a madame…

VITÓRIA

Tua intenção era me mandar daqui para o Miguel Couto!

JOÃO ALEGRE

Não, madame, nunca, de jeito nenhum! Foi só um improviso, sem maldade…

DURAN/PRODUTOR

Dona Vitória, eu não sei o que dizer. Talvez fosse melhor a gente esquecer o incidente e recomeçar o final da peça do jeito que tava combinado.

VITÓRIA

Eu, por mim, ía embora imediatamente. Só continuo aqui por respeito a esse público maravilhosos que pagou ingresso… Ô, você! Como é mesmo o nome do crioulo? Vamos fazer um gran finale decente, mas tem que ser igualzinho ao ensaio geral!

JOÃO ALEGRE

Ah, isso não dá, não senhora. O que tá feito, tá feito. Partideiro que se respeita não volta a palavra atrás.

PASSEATA

Viva! Agüenta firme! Boa, João! Salve João Alegre!

VITÓRIA

Que é isso?

DURAN

Tá pensando que é malandro, rapaz?

VITÓRIA

Vai juntar o teu gado e recomeçar o happy end! É pra já!

JOÃO ALEGRE

Vou não senhora.

PASSEATA

Grande, João. É o maior!

JOÃO ALEGRE

Eu também tenho um nome pra zelar.

DURAN/PRODUTOR

Você não pode fazer isso, João. Afinal, teatro é cultura!

JOÃO ALEGRE

Vambora pra rua, pessoal!

PASSEATA

Vamos lá! Apoiado! Viva o João!

DURAN/PRODUTOR

Está certo, João Alegre, você venceu. A carreira é sua e você tem todo o direito de acabar com ela. Mas primeiro tem que me acompanhar ali na administração, que é pra formalizar a rescisão de contrato.

JOÃO ALEGRE

Com todo o prazer, doutor. Pessoal, eu volto já!

DURAN/PRODUTOR

É uma pena. Com um futuro tão promissor…

VITÓRIA

Podia até estourar na Brodway…

DURAN/PRODUTOR

Ia levantar aquela verba na Funarte…

VITÓRIA

Ainda ía ganhar o Oscar! (Saem Duran, Vitória e João Alegre)

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INTERMEZZO

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Luzes gerais no palco e na platéia

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LÚCIA (Entra)

Que é que tá acontecendo, hein?

TERESINHA

O autor se meteu a besta e resolveu embananar o happy end. Daí os figurantes embarcaram na palhaçada…

BEN

Figurante é a mãe! Coadjuvante!

TERESINHA

Vamos, façam alguma coisa aí vocês! Tem que entreter o público!

MAX

Vamos, moçada! The show must go on!

SHIRLEY

Que é que eles tão querendo mais? Tô há quase três horas me esgoelando neste palco!

JUSSARA

Eles tão pensando que são estrela, só porque ganham duas vezes mais que a gente.

MIMI

Mas agora mixou. O João Alegre disse que, em peça dele, fodido é que fala mais alto. Diz que, em letreiro de teatro dele, fodido vai ser estrelo e estrelo vai se foder.

GENERAL

Disse, pois é. Mas quero ver o que é que ele vai dizer agora que estão umedecendo a pata dele.

SHIRLEY

Ele agüenta firme. Pelo João Alegre eu ponho a mão na merda.

PHILLIP

Vou te contar. Enquanto artista depender de autor e produtor, tá ferrado!

DÓRIS

Eu digo mais. A melhor coisa que pode acontecer pra gente, mas a melhor mesmo, coisa de sonho, coisa de shangri-la, é ter um cara da TV Globo na platéia e chamar a gente pra novela das oito.

JOHNNY

Sabe duma? Se fosse atacar de muamba pra valer, tava numa melhor.

FICHINHA

E eu? O que tô ganhando aqui num mês, puta de verdade fatura numa noite, rodando a bolsa na Vieira Souto. Aliás, tô decidida. Vou ser puta no duro! Se alguém aí na platéia se habilita, é só passar no camarim.

GENERAL

Muito me admira é o Barrabás. Como é que é, homem, se bandeou pro lado dos ricos?

BARRABÁS

Te manca, General. Deixa eu me destacar aqui perto dos figurões.

JOHNNY

Belo espírito de solidariedade.

BARRABÁS

Daí eu pago uma lasanha na Fiorentina.

JOHNNY

Ah, bom.

GENI (Entra com duas bolsas grandes de palha)

Olá, todo mundo.

PHILLIP

Ô, Genival, chegue-se aos bons!

GENI

Quem é esse cara mesmo, hein? Ah, Teresinha, Lúcia, que bom encontrar vocês!

PHILLIP

Ô, bichona, eu falei contigo!

GENERAL

Qual é, Geni? Não fala com a gente?

GENI

De onde é que eu conheço esses caras mesmo? É do Retiro dos Artistas ou da TV Educativa? Mas, queridas, olha que barato essas bolsas italianas. Qualquer butique de Ipanema tá vendendo a oitocentos contos! Eu faço por quinhentos…

TERESINHA

Ai, que graça!

GENI

Tem também um soirée bem metido a antigo, ideal pra festa de entrega de prêmio Molière!

LÚCIA

Esse é meu!

GENI

Olha só esses penduricalhos… Bem art-nouveau…

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Entram Duran e Vitória

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EPÍLOGO DITOSO (Ópera)

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VITÓRIA

Música, maestro!

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Orquestra dá acorde seco e introduz a ópera. Do fundo do palco vem surgindo João Alegre, sentado ao volante de um conversível modelo anos 40. De agora em diante, tudo será cantado

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Os artistas cantam a “Ópera”

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