Archive for outubro, 2011

O Falso Brilhante, a Mulher e Uma Época

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Estávamos em junho de 1964. Minhas preocupações maiores se dividiam entre um jogo de futebol contra a Turma do Outro Lado da Linha, e os balões, que tantos problemas causavam com a turma rival, quando caíam em qualquer dos lados da mesma linha.

A Linha divisória das turmas era a dos trens da Central do Brasil, mais precisamente no Tatuapé, em Sampa. Do lado de cá éramos a Turma da Celso Garcia, do lado de lá a Turma do Sampaio Moreira, que tendo mandado “Ofício” para nós, impedia que recusássemos jogar contra, sob pena de sermos taxados por covardes.

Nosso time estava desfalcado e precisávamos de urgentes reforços. Como eu costumava ir jogar pião contra integrantes de uma turma, igualmente rival mas menos hostil, que também ficava aquém da linha, coube a mim a incumbência de tratar das negociações, que acabaram me custando um “Pião Batatinha” favorito, que além de zunir como nenhum outro, era de difícil captura na roda do jogo.

A Turma da Favela do Maranhão contava com ótimos jogadores, nem tanto de pião e mais de futebol, com alguns pertencentes às divisões de base do Corinthians, como o Baitaca, com quem mantive os entendimentos primários.

Conversa veio, conversa foi e acabei indo almoçar na casa dele. Uma humilde residência, mas com rígidos padrões morais ditados pelo patriarca da família. Foi lá que conheci o Waldemar, tio do Baitaca, que, dentre outras ocupações menores, era “Leão de Chácara” no Som de Cristal, uma famosa casa de danças de São Paulo.

Já havia visto o Waldemar na quadra da Acadêmicos do Tatuapé, onde era um Mestre-Sala, que também me conhecia, já que eu vivia dando palpites em letras de samba lá na escola. Foi quando, no meio do almoço, ele disse ao sobrinho:

- Baitaquinha! Leva o seu amiguinho com você lá no Som quarta à noite, que dará para colocá-los pra dentro do salão sem problemas com o Juizado de Menores!

Diante da ótima novidade adulta, é claro que topei aquela odisséia. Como costumava ir a bailes juvenis, desses feitos nas garagens das casas em aniversários, e vez ou outra me arriscava a espiar os Bailes do Marília, time que ficava do outro lado do Rio Tietê; seria uma chance de ouro para aprender a dançar que nem gente mais velha.

Na quarta à noite fomos colocados dentro do Som de Cristal sem qualquer problema. O cenário era exuberante em luzes, lustres, cavalheiros e, principalmente, damas sugestivamente vestidas. A música que imperava nas seleções era o Bolero, onde se observava um misto de exibição e sensualidade nos casais dançantes.

Depois de um tempo, já cansado de ficar andando pra lá e pra cá, observei que uma das mesas era ocupada por uma senhora solitária. Com um misto de timidez e respeito, fui até a mesa e perguntei a ela:

- Posso me sentar aqui também?

Depois de uma breve “medida” em mim, aquela senhora perguntou:

- Quem te colocou aqui dentro, moleque?

Respondi que havia sido o Waldemar, para quem ela olhou por instantes,  concordou com o meu pedido, chamou o garçom e pediu um guaraná pra mim.

Depois de um tempo perguntei a ela:

- A senhora me ensina a dançar?

De imediato, a fisionomia dela enrugou tristemente com a pergunta. Ficou pensativa mas, sorrindo com a minha infantil deselegância, concordou.

Disse a ela que costumava ir só a bailinhos, mas não sabia dançar bonito que nem os outros homens, e ela resolveu, de fato, me ensinar a dançar mais do que Boleros. Meio sem jeito pra segurar a dama, fomos ao salão para as primeiras experiências.

Mary, também conhecida por Maria, era uma bonita dama. Trajava um vestido preto, com acentuados decotes anteriores e posteriores, e cortes nas laterais. Usava um bonito anel de brilhante, com colar, brincos e broche em cor pérola.

Meio quieta, é verdade, mas as primeiras sensações que tive, ao sentir a sua mão no meu pescoço e a minha mão direita sobre aquela pele feminina e macia das suas costas foram marcantes, pois a minha identidade masculina subiu que nem um rojão de muitos tiros no junho em que estávamos.

Como eu estava visivelmente atrapalhado com os passos da dança, Mary puxou a minha cabeça mais para perto da dela e sussurrou:

- Calma querido! Deixa que eu te levo em dois pra lá e dois pra cá!

Dançamos várias seleções de boleros, com cada uma resultando-me sensações próprias, pois Mary, notando a festa junina que se apoderara de mim, começara a colocar as suas pernas entre as minhas na dança, todavia, após cada seleção musical, observava um estranho desconforto nela com a sua sandália esquerda.

Aquele tipo de sandália feminina, com uma fina tira de couro logo acima do calcanhar, era moda na época, e eu já observara o problema na quadra da Acadêmicos, pois costumava machucar as sambistas. Na época, tínhamos um número de mulheres negras bem maior do que o de mulatas no samba, e algumas delas tinham uma excelente solução para o problema: Fita Isolante!

Por ser da cor preta, essa fita, usada mais em eletricidade, servia também para as passistas negras protegerem os calcanhares antes do inevitável estrago que as sandálias causariam após uma noite de samba, e como as mulheres brancas não podiam contar com tal recurso prudente sem dar bandeira, acabavam sofrendo as consequências. Mary era apenas mais uma delas, ao se utilizavar do inevitável Band-Aid, que logo descolava e enrolava com a sujeira.

À partir daquela quarta-feira bendita, estreitei os laços de amizade com o Baitaca, nos jogos de Pião em Dupla, comecei a frequentar o Som de Cristal várias vezes, e a minha anterior literatura do Carlos Zéfiro ganhou moldes mais realistas, ao aprender as muitas artes existentes entre o pré e o pós Bolero:

http://letras.terra.com.br/elis-regina/88460/

 

Sentindo o frio em minha alma
Te convidei prá dançar
A tua voz me acalmava
São dois prá lá dois prá cá…

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Meu coração traiçoeiro
Batia mais que o bongô
Tremia mais que as maracas
Descompassado de amor…

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Minha cabeça rodando
Rodava mais que os casais
O teu perfume gardênia
E não me perguntes mais…

a

A tua mão no pescoço
As tuas costas macias
Por quanto tempo rondaram
As minhas noites vazias…

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No dedo um falso brilhante
Brincos iguais ao colar
E a ponta de um torturante
Band-aid no calcanhar…

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Eu hoje, me embriagando
De wisky com guaraná
Ouvi tua voz murmurando
São dois prá lá dois prá cá…

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Em várias ocasiões, posteriores àquela primeira, Mary tentou colocar um pouco do seu wisky no meu costumeiro guaraná, mas confesso que nunca gostei daquela mistura, ou mesmo de qualquer outra, pois sofro do fígado desde criança, e poucas foram as ocasiões em que tenha bebido além do aquém da conta.

Embora os compositores, João Bosco e Aldir Blanc, tenham entregue a sua música para Elis Regina cantar e consagrar, o personagem que conta o enredo da letra não é uma mulher, mas, nitidamente, um homem contando das suas impressões, tanto emocionais, como macho, quanto visuais, como poeta retratista. Quem tirava a mulher para dançar era o homem, e quem usava perfume gardênia, colocava a mão no seu pescoço e recebia a mão dele nas costas durante as  danças era a mulher. Era ela quem usava conjunto de brincos e colares nos seus cotidianos. Hoje, com toda essa globalização, não sei, e nem quero saber, como andam tais costumes nos diversos sexos existentes.

Não sei a qual dos compositores pertence a letra da música, mas, seguramente, algum deles passou por experiências semelhantes às citadas anteriormente, tamanha a nitidez da fotografia descrita nos versos, tanto no linguajar quanto no instrumental do bolero. Esse conjunto: Bongô, maracas, “frio em minh´alma” , “coração traiçoeiro”, grandes traições amorosas; pertenceram a uma outra época da MPB, onde o homem costumava ser um cavalheiro e a mulher uma dama.

…Para viver um grande amor
Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro
Ser de sua dama por inteiro
Seja lá onde for…     (Vinícius de Moraes)

Caretices que a Porta do Tempo já havia fechado antes mesmo da composição ser escrita.

Tanto é verdade, que a música encerra com um fragmento da primeira estrofe (terceiro e quarto versos) do consagrado bolero La Puerta. Aliás, a letra inteira de La Puerta serve bem para supor o que o poeta estava sentindo após terminar um poema, que virou a letra de um bolero temporão, onde o homem sofria por causa da mulher e não tinha vergonha alguma de admitir. Pelo contrário, cantava o seu sofrimento. Basta conferir:

http://www.paixaoeromance.com.br/o_bolero/la_puerta/la_puerta.htm

 

 

 

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MPB & Jazz, Um Lindo Romance.

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Embora eu já tenha escrito algo semelhante há anos, toda vez que me deparo com alguns vídeos antigos o assunto fica me incomodando, devido à grande perda na qualidade musical do cenário artístico brasileiro, bem como o descaso histórico que tais iniciativas degradantes costumam carregar consigo.

Não sei se o mesmo acontece com o Jazz nos Estados Unidos, mas por aqui é muito difícil observar a perda, ainda que documentada pelo youtube e não valorizada por quem deveria fazê-lo:

- Nós, os brasileiros!

Não havia música mais ou menos importante ou bonita. Havia sim um grande interesse dos músicos nos aprendizados, pois, independente dos seus respectivos status, diante das novidades musicais todos viravam aprendizes com prazer.

É o caso deste feliz encontro entre Tom Jobim e Gerry Mulligan no final dos anos 50, quando a Bossa-Nova ainda engatinhava na sua curta trajetória dentro da MPB.

Tom Jobim, fazendo as vezes de Embaixador da MPB, herdado de Dick Farney, sem qualquer constrangimento se prestou a professor de um já consagrado saxofonista do jazz americano, Gerry Mulligan, no clássico Samba de Uma Nota Só:

Vídeo de valeriabdiniz

Tal encontro serviu como semente para uma posterior enxurrada de eventos envolvendo Jazz & Bossa-Nova nos USA, pois no começo dos anos 60 tivemos o Festival de Jazz de Monterrey, onde o violonista Laurindo Almeida, que já acompanhava o The Modern Jazz Quartet desde a época em que o pianista John Lewis deixara a orquestra de Dizzy Gillespie para montar o conjunto, com o vibrafonista Milt Jackson, o contrabaixista Percy Heath e o baterista Kenny Clarke, trocado posteriormente por Connie Kay; usou a mesma música do encontro-embrião entre Jobim e Mulligan:

Vídeo de zecalouro

Depois do Festival de Monterrey, Laurindo e o MJQ fizeram uma bem sucedida turnê pela Europa, cujo ápice ocorreu em Madrid, com o Concerto para Aranjuez, e o vídeo, infelizmente, não consegui encontrar.

Ainda em 1963, o saxofonista Stan Getz, querendo apresentar uma novidade na abertura dos seus shows, foi aconselhado pelo colega Gerry Mulligan a procurar o Tom Jobim que, formando às pressas uma banda com músicos brasileiros, começou a acompanhá-lo em tal show.

Stan Getz gostou tanto do resultado, que logo em seguida entrou em entendimentos com Jobim para um trabalho em conjunto. E foi desse entendimento primário que surgiram os primeiros encontros que resultou, não se sabe por quais cargas d´águas, no LP Getz-Gilberto, já que João Gilberto era um mero integrante da banda formada pelo Jobim:

Vídeo de khunkobfa

Acho que esse episódio tenha muito a ver com o rompimento de relações entre Jobim e Gilberto por muitos anos, mas isso é só suposição fofoqueira de bastidores.

Não contente com essa experiência única com Jobim, Stan Getz foi procurar o Laurindo Almeida, que já se consagrara no jazz com o trabalho junto com o The Modern Jazz Quartet, e dessa nova união, outras vertentes da MPB foram tentadas. Uma das mais interessantes foi a execução de um samba consagrado na voz de Miltinho. Comparem as diferenças:

http://letras.kboing.com.br/#!/miltinho/menina-moca/

Vídeo de nibbio2468

Anos após aquele primeiro encontro entre Jobim e Mulligan, 1993, Gerry , tentando mostrar ao parceiro que aprendera a lição, convidou uma jovem cantora brasileira, Jane Duboc, para fazer um disco, que dentre as músicas havia uma do Jobim, Wave, e uma outra, com melodia do próprio Mulligan, cujo nome era Theme For Jobim.

http://www.youtube.com/watch?v=4jhmWKWT9wg

Gerry Mulligan deve ter adorado poder ter feito tudo o que o sax-tenor do Getz não pôde fazer acompanhando o João Gilberto em sua experiência primeira com a MPB, pois, ao contrário do ocorrido em 1963, pode-se perceber um bonito diálogo entre a voz da cantora e o gostoso tempero do sax-barítono do Mulligan nos solos vocais da Jane.

Esse tipo de diálogo musical entre sax e voz já fôra visto no Brasil em O Último Blues, com Gal Costa e o Paulo Moura, num sax-tenor:

Vídeo de pattymusasci

Após a morte de Jobim, em 1994, nada mais justo do que o parceiro americano, já bem mais velho, homenageá-lo, em reconhecimento ao aprendizado mútuo, que tantos frutos gerara nas realidades musicais de ambos os países numa universal linguagem dos instrumentos musicais que só eles conheciam.

Como havia homenageado o amigo no ano anterior, Gerry Mulligan calou o seu Sax, calou qualquer voz que ousasse colocar um texto naquele sentimento melódico que o parceiro lhe inspirara, sentou no piano de Tom Jobim, e despediu-se dele na forma de Jazz, com o pranto por conta do velho trombone, que chora igual em qualquer lugar. A MPB perdera um dos seus maiores referenciais, e o Jazz acusara o golpe:

Vídeo de calafrico1

 

 

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Sinhá e a Luta Chico x Francisco Buarque

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Pelo fato de estar, no momento, muito mais envolvido com as Palavras do Vocabulário do que com a MPB, só dou alguma atenção à segunda esporadicamente.

Foi o que aconteceu no sábado, quando a minha esposa estava escutando a música Sinhá, do último CD do Chico, cuja melodia, de imediato, me fez lembrar do Xote da Navegação, embora com um andamento musical que lembra alguma coisa como Samba Canção com andamento ”Triste Ma Non Troppo” que, por sinal, tendo acompanhado o Chico nos últimos tempos, está presente em outras músicas desse CD.

Certa vez, na música Até Pensei, ao sacar que havia plagiado um fragmento da melodia de Retrato em Branco e Preto, que pertence ao Tom Jobim, Chico até tentou corrigir a coisa com uma estrofe extra:

Vídeo de eumeodeio1

Vídeo de NoemiaHime

…Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que, de tolo
Até Pensei que fosse minha

Como em O Xote da Navegação Chico também teve um parceiro músico, o Dominguinhos, sinto que ficou faltando alguma coisa mais ética também na letra de Sinhá.

Não foram poucos os momentos da obra em que Chico, se sentindo pobre em melodias, tenha usado desses recursos mais complementares. Em O Que Será?, por ter sentido a necessidade de escrever muito mais do que o fizera na composição original, escreveu outra letra usando a mesma melodia: A Flor da Pele, e rebatizou a primeira com o nome A Flor da Terra.

Vídeo de thebirdandbaby

Vídeo de bossanovero

Algo semelhante ocorreu com a original melodia de Edu Lobo, em Casa de João de Rosa, do musical A Dança da Meia Lua; com a posterior música Uma Canção Inédita, do musical Cambaio, onde usou grande parte da melodia original em andamento de Valsa.

http://www.radio.uol.com.br/#/letras-e-musicas/edu-lobo-e-chico-buarque/casa-de-joao-de-rosa/2348296

Vídeo de marcelfukuwara

Tirando esses aspectos mais melódicos da composição, a letra de Sinhá é a soma de uma disputa travada entre o poeta Chico Buarque e o cidadão Francisco Buarque, já vista anteriormente nas formas respectivas de Ser e Parecer, ambas descritas por Drummond na obra Um Claro Enigma.

Faz tempo que o Chico discute com o Francisco nas músicas. Penso que desde Umas e Outras, ou mesmo, Cara a Cara, ambas escritas no final dos anos sessenta:

Vídeo de daniel colodzeiskisil

Se uma nunca tem sorriso
É pra melhor se reservar
E diz que espera o paraíso
E a hora de desabafar…
a
…Se a Outra não tem paraíso
Não dá muita importância, não
Pois já forjou o seu sorriso
E fez do mesmo profissão…
a
…Mas toda a santa madrugada
Quando Uma já sonhou com Deus
A Outra, triste namorada
Coitada, já deitou com os seus
O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se co´a mesma dor…

Já em Cara a Cara temos o Chico escrevendo sobre o Francisco:

Vídeo de fadochico

…Tenho um metro quadrado
Um olho vidrado
E a televisão
Tenho um sorriso comprado
A prestação…
a
…Tenho o passo marcado
O rumo traçado sem discussão
Tenho um encontro marcado
C´o a solidão…
a
…Vou correndo, vou-me embora
Faço um bota-fora
Pega um lenço agita e chora
Cumpre o seu dever
Bota força nessa coisa
Que se a coisa pára
A gente fica cara a cara
Cara a cara cara a cara
Com o que não quer ver

No começo da carreira, Chico já estabelecera saudáveis diálogos entre o Homem e a Mulher, como o confronto do juvenil poeta de Logo Eu? com a experiente esposa de Com Açucar, Com Afeto, mas anos mais tarde começou a denegrir a essência masculina com músicas que valorizavam mais o lado feminino, por dois motivos: Um, bem claro, que era atingir a uma faixa ainda não usada no mercado da música, a Mulher. Outro, mais interior, que promovia a quebra da essência masculina com o chamado Homem Otário, conforme conta a música A Rosa:

Vídeo de brucoxa

Algo semelhante ao ocorrido em Cara a Cara surgiu cerca de dez anos após, com Vida, mas, no inverso de Cara a Cara, pois só o Ser Chico cantou. Em duas ocasiões duvidando da felicidade e em uma com a certeza dela, ao tocar na ferida dos poderosos. Todas muito bem complementadas pelo refrão, em que mostra o ilusório mundo artístico que a mídia fornece ao artista:

Vídeo de striblich

Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Deixei a fatia mais doce da vida
Na mesa dos homens de vida vazia
Mas Vida, ali, quem sabe, eu fui feliz…
a
…Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Verti minha vida
Nos cantos, na pia
Na casa dos homens
De vida vadia
Mas, Vida, ali, quem sabe, eu fui feliz…
a
…Vida, minha vida
Olha o que é que eu fiz
Toquei na ferida
Nos nervos, nos fios
Nos olhos dos homens
De olhos sombrios
Mas, vida, ali, eu sei que fui feliz…
a
…Luz, quero luz,
Sei que além das cortinas
São palcos azuis
E infinitas cortinas
Com palcos atrás…

Como faltou dizer muita coisa ainda, a própria música Vida sugeriu que ele quisesse dizer “Mais, quero mais”. E isso aconteceu pouco tempo depois, no LP Almanaque, com duas músicas: Tanto Amar - A Voz do Dono e o Dono da Voz. O fragmento mais significativo da primeira, que trata dos dois, em relação à MPB, diz:

Vídeo de acetilcolinerase

…É na soma do seu olhar
Que eu vou me conhecer inteiro
Se nasci pra enfrentar o mar
Ou faroleiro…

Já, na segunda, pelo confronto entre o Chico e o Francisco se mostrar mais amigável e sarcástico, não posso furtar nada da letra, mesmo porque está associada a uma peça teatral anterior, na qual o Chico, por conta das atitudes do Francisco, acabou se sentindo até uma espécie de traidor para conosco. Foi em Calabar (1972-73), cuja melodia inteira da musica final é idêntica à do último verso de A Voz do Dono e o Dono da Voz:

Vídeo de CanalCaioB

Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós
De entrega e de abandono
De guerra e paz
Contras e prós
a
Fizeram bodas de acetato – de fato
Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz
A voz resulta um prato (disco LP)
Que gira para todos nós
a
O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes
Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó
a
Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
a
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E rouca a regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes
a
Enfim a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar
Queria ser um prato
Girar e se esquecer veloz
a
Foi revelada na assembléia – atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel
Trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha – que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: – Minha voz,
Se vós não sereis minha,
Vós não sereis de mais ninguém!
a
O que é bom para o dono é bom para a voz…
O que é bom para a Holanda é bom pro Brasil (O Elogio da Traição-Calabar)

A Voz do Dono e o Dono da Voz traz muito da essência ancestral da peça Roda-Viva, que denunciou as estratégias dos poderosos da mídia na fabricação, ou manipulação, dos ídolos populares, pois foi nessa peça que o Chico começou a separar-se do Francisco, ao tentar mostrar como as suas essências, a do poeta popular e a do peão do jogo de xadrez artístico, que nos cerca até hoje com imensa superioridade atual.

Como, tanto o destino da Voz do Dono quanto o do Dono da Voz, logo adiante, estariam num intenso e marcante combate interior com os patrões externos, e teriam de dizer que a “Coisa Idealística” da anterior Roda-Viva mudara de ares e estratégias, ambos (Chico e Francisco)  trataram de tentar se redimir conosco, fiéis ouvintes pensadores, que eram muitos; pouco tempo depois no LP O Corsário do Rei, onde a maioria das letras indica tal finalidade de ambos. Destas, feitas em parceria com Edu Lobo, separei a composição Meia-Noite, pois é a que melhor ilustra a confusão interior entre a dupla de outrora com a da época mais próxima do agora:

Vídeo de N2010R

Se a noite não tem fundo
O mar perde o valor
Opaco é o fim do mundo
Pra qualquer navegador
Que perde o oriente
E entra em espirais
E topa pela frente
Um contingente
Que ele já deixou pra trás
a
Os soluços dobram tão iguais
Seus rivais, seus irmãos
Seu navio carregado de ideais
Que foram escorrendo feito grãos
As estrelas que não voltam nunca mais
E um oceano pra lavar as mãos

Próximo à data do lançamento do LP O Corsário do Rei, a globo colocou no ar, aos sábados, o programa Chico & Caetano. Foi uma ducha de água fria em todos nós, ouvintes pensantes, diante de tudo que nos fora visto e insinuado anteriormente, desde Roda-Viva. Não éramos poucos e o Chico sabia, pois nos rotulou como “Um Contingente que ele já deixou pra trás”.

Embora decepcionados, ou mesmo, putos da vida por termos sido enganados durante anos, restava-nos o consolo de acreditar que o mesmo cara, capaz de nos apresentar ideais, forjados, polidos e assimilados nas letras das composições anteriores; fora obrigado a se sujeitar às situações contratuais para que pudesse continuar mostrando o seu trabalho, mas como cada membro, do contingente deixado pra trás, teve razões próprias nos julgamentos, pude observar, após uma breve recuperação idealística em esparsas composições, uma queda meteórica na qualidade nas músicas, alternadas em LPs distintos.

Sugestões comerciais devem ter sido dadas a ele, como coisas do tipo: – Já que você façou do Guri e do Pivete, por que não abordar o problema social também pelo lado feminino?

Isso é apenas uma suposição minha para justificar aquela fraqueza musical, cujo nome nem sei, presente no LP Francisco, que diz algo assim:

Uma menina igual a mil
Do Morro do Tuiuti…

Havia ainda um consolo extra, porque Chico perdera, num curto espaço de tempo, os seus maiores referenciais, tanto na vida familiar como na musical: Morreram o seu pai, Vinícius de Moraes e Tom Jobim.

Como ninguém desaprende porque fica triste, e às vezes até melhora em homenagem aos que se foram, continuávamos acreditando que a coisa melhoraria. Aí veio o primeiro romance, O Estorvo, que além de mostrar-nos uma faceta de conformista, ou talvez de “dominado”, pelas características do personagem central, nos levava de volta às ancestrais questões do plágio, pois quem o admirava, pelo que escrevia nas músicas, tinha também o péssimo hábito de ler outros autores, e muitos já conheciam o romance O Estrangeiro, de Albert Camus, com a os seus mesmos estilo de escrita, Fictus e Pugilistas do Estorvo…

Voltando às músicas, Chico começou a anunciar os comportamentos posteriores, alternando lindas composições com más e medíocres. Uma ótima composição que mostrava essa tendência é O Velho Francisco, do LP Francisco, pois foi ela que o Chico usou para iniciar o livro Leite Derramado, cujos ares literários formataram a base da letra de Sinhá. O Francisco envelhecera, sabia disso, mas o Chico não. Apenas adormece e ressurge esporadicamente:

Vídeo de Tauil

Já gozei de boa vida
Tinha até meu bangalô
Cobertor, comida
Roupa lavada
Vida veio e me levou
a
Fui eu mesmo alforriado
Pela mão do Imperador
Tive terra, arado
Cavalo e brida
Vida veio e me levou
a
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor
a
Quem me vê, vê nem bagaço
Do que viu quem me enfrentou
Campeão do mundo
Em queda de braço
Vida veio e me levou
a
Li jornal, bula e prefácio
Que aprendi sem professor
Freqüentei palácio
Sem fazer feio
Vida veio e me levou
a
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Ela vem toda de brinco
Vem todo domingo
Tem cheiro de flor
a
Eu gerei dezoito filhas
Me tornei navegador
Vice-rei das ilhas
Da Caraíba
Vida veio e me levou
a
Fechei negócio da China
Desbravei o interior
Possuí mina
De prata, jazida
Vida veio e me levou
a
Hoje é dia de visita
Vem aí meu grande amor
Hoje não deram almoço, né
Acho que o moço até
Nem me lavou
a
Acho que fui deputado
Acho que tudo acabou
Quase que
Já não me lembro de nada
Vida veio e me levou

Do pouco que escutei deste último CD, dei maior atenção ao samba Sou Eu, onde, independente das trapalhadas do Francisco, Chico mostrou que apenas adormece e ressurge com a mesma genialidade de outrora, ainda que menosprezando o lado masculino, em algo já postado por mim aqui mesmo há algumas semanas, ou meses, o mesmo samba Sou Eu está intimamente ligado a Sinhá, pois é o Samba, lado afro e original do Chico, conversando com o europeu e posterior do Francisco de olhos azuis, conforme conta a letra da música, que, sem exageros, sugere um Chico conversando com o Francisco por intermédio de um espelho, com cobranças fortíssimas, que, aliás, já se insinuaram em O Xote da Navegação com a melodia já citada no início:

Eu vejo aquele rio a deslizar
E o tempo a atravessar meu vilarejo
Às vezes largo o afazer
Me ponho em sonho a navegar…

Quem tem afazeres é só o Francisco. O Chico tem sonhos, mas de vez em quando a dupla sofre um “Efeito Macunaíma” e o poeta se libera.

http://mpbsapiens.com/rosa-nascimento/

Vídeo de marcelfukuwara

Vídeo de adrianopcamp

Se a dona se banhou
Eu não estava lá
Por Deus Nosso Senhor
Eu não olhei Sinhá
Estava lá na roça
Sou de olhar ninguém
Não tenho mais cobiça
Nem enxergo bem
a
Para que me pôr no tronco
Para que me aleijar
Eu juro a vosmecê
Que nunca vi Sinhá
Por que me faz tão mal
Com olhos tão azuis
Me benzo com o sinal
Da santa cruz
a
Eu só cheguei no açude
Atrás da sabiá
Olhava o arvoredo
Eu não olhei Sinhá
Se a dona se despiu
Eu já andava além
Estava na moenda
Estava para Xerém
a
Por que talhar meu corpo
Eu não olhei Sinhá
Para que que vosmincê
Meus olhos vai furar
Eu choro em iorubá
Mas oro por Jesus
Para que que vassuncê
Me tira a luz
a
E assim vai se encerrar
O conto de um cantor
Com voz do pelourinho
E ares de senhor
Cantor atormentado
Herdeiro sarará
Do nome e do renome
De um feroz senhor de engenho
E das mandingas de um escravo
Que no engenho enfeitiçou Sinhá

Nota: Já postei uma análise sobre O Xote da Navegação, mas com a ótica voltada para um assunto, que embora apresente valores textuais mais voltados para a Física Relativista, não deixa de ilustrar a toda essa novela das lutas propostas, ou melhor, supostas por mim nesta viagem paradoxal dos tempos de Chico e Francisco, onde num mesmo tempo “a flor que desabrocha se desfaz”:

http://mpbsapiens.com/o-xote-da-navegacao-analise-de-texto/

Como é de praxe, toda vez que o Francisco resolve promover a obra do Chico, acaba expondo mais a vida particular às fofocas de jornais e revistas, que contam ter ele se envolvido emocionalmente com uma jovem cantora paranaense.

Posso afirmar, com certeza, que é um excelente passo para sexagenários explícitos como ele ou eu, desde que se faça a mescla ponderada dos hábitos de ambos, pois temos muito mais a adicionar do que ser adicionado. Não podemos nos cegar com o aprendizado dos novos costumes e linguagens, todavia, também não podemos nos entregar totalmente a eles sem que haja prejuízos para ambos. No caso dele, do Chico, ele tem muito mais a perder do que ela, caso renuncie á forma que o consagrou por décadas e passe a viver num mundo estranho, e cada vez mais feroz, dos tempos atuais.

Por mais que os tempos mudem, e caiam por terra todos machismos, nunca podemos esquecer que, em certa Noite Ilustrada, o seu mestre do Bexiga, Paulo Vanzolini já disse:

Vídeo de Cinegrava

Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher
Lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá a volta por cima

Ilmo. Cara:

Era para ser uma simples postagem e acabou virando uma carta, mas, sinceramente, é o que eu e muitos, ainda vivos, esperamos. Portanto, sem mais:

Omos. Atos. & Obros.

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Rima do Poeta e do Charlatão

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A palavra do Poeta
Encarde um coração com puros versos
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Como um tônico cardina
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O Charlatão da Palavra
Encarde uma razão com sujos verbos
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Como um cômico sem rima

 

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O Filho do Japonês

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Nos anos quarenta, do século passado, uma família japonesa chegou ao Brasil como imigrante.

Como a esposa engravidara ainda no Japão, acabou vindo nos dar à luz um lindo garoto.

Ao ser informado de que deveria ir ao cartório registrar o nascimento da criança, o senhor Hiroshi, lá chegando, e ainda em dúvida quanto ao nome do filho, que nascera num país diferente, educadamente perguntou ao tabelião qual nome ele escolheria para dar a um menino recém-nascido.

Como estavam no dia vinte e três de abril, o religioso tabelião disse:

- Sugiro o nome Jorge!

No que o japonês respondeu:

- Joróge é bonito, mas gostei mais do Sugiro!

 

 

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