O Falso Brilhante, a Mulher e Uma Época
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Estávamos em junho de 1964. Minhas preocupações maiores se dividiam entre um jogo de futebol contra a Turma do Outro Lado da Linha, e os balões, que tantos problemas causavam com a turma rival, quando caíam em qualquer dos lados da mesma linha.
A Linha divisória das turmas era a dos trens da Central do Brasil, mais precisamente no Tatuapé, em Sampa. Do lado de cá éramos a Turma da Celso Garcia, do lado de lá a Turma do Sampaio Moreira, que tendo mandado “Ofício” para nós, impedia que recusássemos jogar contra, sob pena de sermos taxados por covardes.
Nosso time estava desfalcado e precisávamos de urgentes reforços. Como eu costumava ir jogar pião contra integrantes de uma turma, igualmente rival mas menos hostil, que também ficava aquém da linha, coube a mim a incumbência de tratar das negociações, que acabaram me custando um “Pião Batatinha” favorito, que além de zunir como nenhum outro, era de difícil captura na roda do jogo.
A Turma da Favela do Maranhão contava com ótimos jogadores, nem tanto de pião e mais de futebol, com alguns pertencentes às divisões de base do Corinthians, como o Baitaca, com quem mantive os entendimentos primários.
Conversa veio, conversa foi e acabei indo almoçar na casa dele. Uma humilde residência, mas com rígidos padrões morais ditados pelo patriarca da família. Foi lá que conheci o Waldemar, tio do Baitaca, que, dentre outras ocupações menores, era “Leão de Chácara” no Som de Cristal, uma famosa casa de danças de São Paulo.
Já havia visto o Waldemar na quadra da Acadêmicos do Tatuapé, onde era um Mestre-Sala, que também me conhecia, já que eu vivia dando palpites em letras de samba lá na escola. Foi quando, no meio do almoço, ele disse ao sobrinho:
- Baitaquinha! Leva o seu amiguinho com você lá no Som quarta à noite, que dará para colocá-los pra dentro do salão sem problemas com o Juizado de Menores!
Diante da ótima novidade adulta, é claro que topei aquela odisséia. Como costumava ir a bailes juvenis, desses feitos nas garagens das casas em aniversários, e vez ou outra me arriscava a espiar os Bailes do Marília, time que ficava do outro lado do Rio Tietê; seria uma chance de ouro para aprender a dançar que nem gente mais velha.
Na quarta à noite fomos colocados dentro do Som de Cristal sem qualquer problema. O cenário era exuberante em luzes, lustres, cavalheiros e, principalmente, damas sugestivamente vestidas. A música que imperava nas seleções era o Bolero, onde se observava um misto de exibição e sensualidade nos casais dançantes.
Depois de um tempo, já cansado de ficar andando pra lá e pra cá, observei que uma das mesas era ocupada por uma senhora solitária. Com um misto de timidez e respeito, fui até a mesa e perguntei a ela:
- Posso me sentar aqui também?
Depois de uma breve “medida” em mim, aquela senhora perguntou:
- Quem te colocou aqui dentro, moleque?
Respondi que havia sido o Waldemar, para quem ela olhou por instantes, concordou com o meu pedido, chamou o garçom e pediu um guaraná pra mim.
Depois de um tempo perguntei a ela:
- A senhora me ensina a dançar?
De imediato, a fisionomia dela enrugou tristemente com a pergunta. Ficou pensativa mas, sorrindo com a minha infantil deselegância, concordou.
Disse a ela que costumava ir só a bailinhos, mas não sabia dançar bonito que nem os outros homens, e ela resolveu, de fato, me ensinar a dançar mais do que Boleros. Meio sem jeito pra segurar a dama, fomos ao salão para as primeiras experiências.
Mary, também conhecida por Maria, era uma bonita dama. Trajava um vestido preto, com acentuados decotes anteriores e posteriores, e cortes nas laterais. Usava um bonito anel de brilhante, com colar, brincos e broche em cor pérola.
Meio quieta, é verdade, mas as primeiras sensações que tive, ao sentir a sua mão no meu pescoço e a minha mão direita sobre aquela pele feminina e macia das suas costas foram marcantes, pois a minha identidade masculina subiu que nem um rojão de muitos tiros no junho em que estávamos.
Como eu estava visivelmente atrapalhado com os passos da dança, Mary puxou a minha cabeça mais para perto da dela e sussurrou:
- Calma querido! Deixa que eu te levo em dois pra lá e dois pra cá!
Dançamos várias seleções de boleros, com cada uma resultando-me sensações próprias, pois Mary, notando a festa junina que se apoderara de mim, começara a colocar as suas pernas entre as minhas na dança, todavia, após cada seleção musical, observava um estranho desconforto nela com a sua sandália esquerda.
Aquele tipo de sandália feminina, com uma fina tira de couro logo acima do calcanhar, era moda na época, e eu já observara o problema na quadra da Acadêmicos, pois costumava machucar as sambistas. Na época, tínhamos um número de mulheres negras bem maior do que o de mulatas no samba, e algumas delas tinham uma excelente solução para o problema: Fita Isolante!
Por ser da cor preta, essa fita, usada mais em eletricidade, servia também para as passistas negras protegerem os calcanhares antes do inevitável estrago que as sandálias causariam após uma noite de samba, e como as mulheres brancas não podiam contar com tal recurso prudente sem dar bandeira, acabavam sofrendo as consequências. Mary era apenas mais uma delas, ao se utilizavar do inevitável Band-Aid, que logo descolava e enrolava com a sujeira.
À partir daquela quarta-feira bendita, estreitei os laços de amizade com o Baitaca, nos jogos de Pião em Dupla, comecei a frequentar o Som de Cristal várias vezes, e a minha anterior literatura do Carlos Zéfiro ganhou moldes mais realistas, ao aprender as muitas artes existentes entre o pré e o pós Bolero:
http://letras.terra.com.br/elis-regina/88460/
Sentindo o frio em minha alma Te convidei prá dançar A tua voz me acalmava São dois prá lá dois prá cá…
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Meu coração traiçoeiro Batia mais que o bongô Tremia mais que as maracas Descompassado de amor…a
Minha cabeça rodando Rodava mais que os casais O teu perfume gardênia E não me perguntes mais…a
A tua mão no pescoço As tuas costas macias Por quanto tempo rondaram As minhas noites vazias…a
No dedo um falso brilhante Brincos iguais ao colar E a ponta de um torturante Band-aid no calcanhar…a
Eu hoje, me embriagando De wisky com guaraná Ouvi tua voz murmurando São dois prá lá dois prá cá…a
Em várias ocasiões, posteriores àquela primeira, Mary tentou colocar um pouco do seu wisky no meu costumeiro guaraná, mas confesso que nunca gostei daquela mistura, ou mesmo de qualquer outra, pois sofro do fígado desde criança, e poucas foram as ocasiões em que tenha bebido além do aquém da conta.
Embora os compositores, João Bosco e Aldir Blanc, tenham entregue a sua música para Elis Regina cantar e consagrar, o personagem que conta o enredo da letra não é uma mulher, mas, nitidamente, um homem contando das suas impressões, tanto emocionais, como macho, quanto visuais, como poeta retratista. Quem tirava a mulher para dançar era o homem, e quem usava perfume gardênia, colocava a mão no seu pescoço e recebia a mão dele nas costas durante as danças era a mulher. Era ela quem usava conjunto de brincos e colares nos seus cotidianos. Hoje, com toda essa globalização, não sei, e nem quero saber, como andam tais costumes nos diversos sexos existentes.
Não sei a qual dos compositores pertence a letra da música, mas, seguramente, algum deles passou por experiências semelhantes às citadas anteriormente, tamanha a nitidez da fotografia descrita nos versos, tanto no linguajar quanto no instrumental do bolero. Esse conjunto: Bongô, maracas, “frio em minh´alma” , “coração traiçoeiro”, grandes traições amorosas; pertenceram a uma outra época da MPB, onde o homem costumava ser um cavalheiro e a mulher uma dama.
…Para viver um grande amor Primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro Ser de sua dama por inteiro Seja lá onde for… (Vinícius de Moraes)Caretices que a Porta do Tempo já havia fechado antes mesmo da composição ser escrita.
Tanto é verdade, que a música encerra com um fragmento da primeira estrofe (terceiro e quarto versos) do consagrado bolero La Puerta. Aliás, a letra inteira de La Puerta serve bem para supor o que o poeta estava sentindo após terminar um poema, que virou a letra de um bolero temporão, onde o homem sofria por causa da mulher e não tinha vergonha alguma de admitir. Pelo contrário, cantava o seu sofrimento. Basta conferir:
http://www.paixaoeromance.com.br/o_bolero/la_puerta/la_puerta.htm
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