A Psicologia do Matrimônio – Chico Buarque
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A obra musical do Chico Buarque é uma espécie de álbum fotográfico, com cada composição musical se prestando a retrato social dos nossos comportamentos diante do cotidiano.
Com a vida conjugal não foi diferente. Músicas voltadas ao namoro, ao amasiamento, ao homossexualismo etc; mas há uma especial, mais voltada aos nossos padrões comportamentais, ou diante do que a sociedade nos exige no casamento, ou diante do que realmente sentimos e fazemos, enquanto fingimos para ambos os lados: O Casamento Dos Pequenos Burgueses.
Tentarei associar os pensamentos contidos na letra da música, com o nosso comportamento conjugal mais presente nos anos setenta, época em que a composição foi escrita, mais especificamente, para o musical teatral A Ópera do Malandro:
Ele faz o noivo correto E ela faz que quase desmaia Vão viver sob o mesmo teto Até que a casa caia Até que a casa caia a Ele é o empregado discreto E ela engoma o seu colarinho Vão viver sob o mesmo teto Até explodir o ninho Até explodir o ninho a Ele faz o macho irrequieto E ela faz crianças de monte Vão viver sob o mesmo teto Até secar a fonte Até secar a fonte a Ele é o funcionário completo E ela aprende a fazer suspiros Vão viver sob o mesmo teto Até trocarem tiros Até trocarem tiros a Ele tem um caso secreto E ela diz que não sai dos trilhos Vão viver sob o mesmo teto Até casarem os filhos Até casarem os filhos a Ele fala de cianureto E ela sonha com formicida Vão viver sob o mesmo teto Até que alguém decida Até que alguém decida a Ele tem um velho projeto E ela tem um monte de estrias Vão viver sob o mesmo teto Até o fim dos dias Até o fim dos dias a Ele às vezes cede um afeto E ela só se despe no escuro Vão viver sob o mesmo teto Até um breve futuro Até um breve futuro a Ela esquenta a papa do neto E ele quase que fez fortuna Vão viver sob o mesmo teto Até que a morte os una Até que a morte os unaa
Cada uma, das nove estrofes da letra, contém as nossas reações diante de cada situação comum à maioria dos casais formais. Vejamos a primeira:
Ele faz o noivo correto E ela faz que quase desmaia Vão viver sob o mesmo teto Até que a casa caia Até que a casa caia
Embora todo mundo fingisse desconhecer o assunto, era comum ocorrer com o homem, numa data próxima ao casamento, a consagrada Despedida de Solteiro, promovida por amigos do noivo, uma espécie de Clube do Bolinha, só que formado por marmanjos, e normalmente regado a bebida e promiscuidade sexual. “Ele faz o noivo correto”.
Por outro lado, mesmo tendo a quase certeza do que o futuro marido fizera nos dias anteriores ao do casamento, a noiva, tomada pela emoção do altar, costumava ameaçar a desmaiar. “Ela faz que quase desmaia”.
O lance de fingir desmaiar, surgido pela ação das chamadas “carpideiras” nos velórios, migrou rapidamente para os altares em cerimônias nupciais e, suspeito, que ocorra até hoje.
No final dos anos sessenta e começo dos setenta, as igrejas começaram a permitir que as cerimônias de casamento tivessem um fundo musical menos sacro, com músicas mais comuns ao cotidiano social; e em tal época as campeãs de uso foram Paz do Meu Amor (Luiz Vieira) e Io Che Amo Solo Te (Sérgio Endrigo). Cito isso porque era comum as noivas fazerem que quase desmaiavam justamente quando entrassem essas músicas. Uma espécie de ritual.
Claro, que toda aquela encenação dos dois primeiros versos só poderia ser coroada pelo pensamento final da estrofe: “Vão viver sob o mesmo teto até que a casa caia”.
Ele é o empregado discreto E ela engoma o seu colarinho Vão viver sob o mesmo teto Até explodir o ninho Até explodir o ninhoEmbora, nos anos setenta, o trabalho externo da mulher já contribuísse efetivamente na renda familiar, isso não ocorria com a maioria, ainda sujeita à postura servil herdada das décadas anteriores, onde o Patriarcalismo era mais ostensivo.
O homem tinha de ir ganhar o dinheiro e a mulher tinha de ficar em casa. O homem precisava se apresentar alinhado no emprego e, para isso, a esposa era obrigada a dominar a arte das Prendas Domésticas e, dentre elas, lavar passar e engomar a roupa do marido. “Ele é o empregado discreto, e ela engoma o seu colarinho”.
Claro que, mais cedo ou mais tarde, a mulher foi se revoltando com essa situação submissa, o que levou o casal a “Viver sob o mesmo teto até explodir o ninho”, cada vez mais cedo do que mais tarde.
Ele faz o macho irrequieto E ela faz crianças de monte Vão viver sob o mesmo teto Até secar a fonte Até secar a fonteNa época em questão, um dos maiores problemas, ou talvez méritos, da educação masculina na adolescência, era o da multiplicidade de experimentos sexuais com diferentes parceiras. A coisa funcionava como uma espécie de competição de machismo, nas “tantas comidas”.
Quando o homem casava, as obrigações, quer sociais quer religiosas, o obrigavam a abdicar dessa prática e adotar a monogamia. A minoria conhecia os problemas de transar com a esposa nos dias próximos ao décimo quarto após a menstruação, mas a maioria, por desconhecer a essas regras básicas da prudência social de natalidade, e praticando muitas vezes com a esposa, acabava sendo “premiado” com filhos todos os anos: “Ele faz o macho irrequieto e ela faz crianças de monte”.
Quanto mais filhos chegavam à vida do casal, menor era a atenção da mulher destinada ao marido, e creio que o Chico tenha se referido mais a essa ótica no “Até secar a fonte”, porque os desdobramentos dessa secagem serão vistos nas estrofes posteriores.
Ele é o funcionário completo E ela aprende a fazer suspiros Vão viver sob o mesmo teto Até trocarem tiros Até trocarem tirosEnquanto o homem progredia no trabalho, a mulher fazia o mesmo em suas prendas domésticas e um dos ditos mais famosos explica a atenção dela à culinária: “Um homem se agarra pelo estômago”. Nada melhor do que aprender a fazer comida boa, como Suspiros, por exemplo, para segurar o macho em casa.
Ocorre que, nessa época da vida conjugal, as diferenças entre os dois começam a se tornar mais acentuadas, havendo a fatal competição entre eles pela hegemonia da opinião nos destinos do lar. A fase é complexa, porque os filhos já estão meio crescidos e também disputam as preferências dos pais, transformando o lar num campo de batalhas paralelas e escusas, caindo fatalmente em frases do tipo:
Ele: – Você viu o que o SEU filho me aprontou?
Ela: – Mas você vive fora de casa, queria o quê?
Fica nesse jogo de empurra até “trocarem tiros”.
Ele tem um caso secreto E ela diz que não sai dos trilhos Vão viver sob o mesmo teto Até casarem os filhos Até casarem os filhosCom a secagem da fonte, vista anteriormente, só restou àquele “macho irrequieto”, mais quieto mas não morto, ir buscar a atenção sexual com a anterior intensidade fora de casa: “Ele tem um caso secreto”.
Em tal época, muitas das mulheres poderiam até dizer “que não saiam dos trilhos”, mas outras tantas, comprovadamente, juravam de pés juntos mas não cumpriam de pernas abertas.
Tais atitudes, dos dois, acabavam resultando num fingimento cúmplice, ao mesmo tempo em que empurravam para os filhos a responsabilidade por persistirem casados, ainda que em constante conflito: “Vão viver sob o mesmo teto até casarem os filhos”.
Ele fala de cianureto E ela sonha com formicida Vão viver sob o mesmo teto Até que alguém decida Até que alguém decidaTal estado de discórdia no casal, na maioria dos casos, acabava em discussões sobre suicídios, cada qual com o seu veneno preferido. Ele preferindo o nobre cianureto, e ela ficando com o seu caseiro formicida, para se ameaçarem e não cumprirem: “Vão viver sob o mesmo teto até que alguém decida”.
Ele tem um velho projeto E ela tem um monte de estrias Vão viver sob o mesmo teto Até o fim dos dias Até o fim dos diasIndependente da profissão que exerce, a maioria dos homens tem um projeto particular e não atingido. Com a chegada de crianças de monte, o corpo da mulher fica bem diferente da forma apresentada na ocasião em que “fez com que quase desmaiasse”: “Ela tem um monte de estrias”, mas, pelo tanto que já ficaram juntos, começam até a encarar a remota possibilidade de permanecerem juntos ”até o fim dos dias”.
Ele às vezes cede um afeto E ela só se despe no escuro Vão viver sob o mesmo teto Até um breve futuro Até um breve futuroAquele original casal amante, após anos de disputas e desentendimentos, se tornara amigo e com algumas boas lembranças dos tempos idos. Como a coisa não se apresenta tão atraente quanto a original, a mulher não corre riscos à toa e “só se despe no escuro”. Essa fase já é comum ao casal mais idoso, que acabará num “breve futuro”.
Ela esquenta a papa do neto E ele quase que fez fortuna Vão viver sob o mesmo teto Até que a morte os una Até que a morte os unaE aqui, na última estrofe, o casal muda de posição na ordem dos versos, com a mulher vindo antes do homem, provavelmente porque só reste a ele, além do corpo enfraquecido, a doce lembrança de que um dia quase ficou rico, ao mesmo tempo em que ela cuida tanto dos netos quanto do ex-adversário na vida em comum. Ambos lembram de um dia terem escutado do padre:
- Até que a morte os separe!
Mas, passados tantos anos de desencontros sociais, certamente saberão que o mais correto seria:
- Até que a morte os una!
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