Archive for setembro, 2011

A Psicologia do Matrimônio – Chico Buarque

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A obra musical do Chico Buarque é uma espécie de álbum fotográfico, com cada composição musical se prestando a retrato social dos nossos comportamentos diante do cotidiano.

Com a vida conjugal não foi diferente. Músicas voltadas ao namoro, ao amasiamento, ao homossexualismo etc; mas há uma especial, mais voltada aos nossos padrões comportamentais, ou diante do que a sociedade nos exige no casamento, ou diante do que realmente sentimos e fazemos, enquanto fingimos para ambos os lados: O Casamento Dos Pequenos Burgueses.

Tentarei associar os pensamentos contidos na letra da música, com o nosso comportamento conjugal mais presente nos anos setenta, época em que a composição foi escrita, mais especificamente, para o musical teatral A Ópera do Malandro:

Vídeo de ta161992

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia
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Ele é o empregado discreto
E ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho
a
Ele faz o macho irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte
Até secar a fonte
a
Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros
a
Ele tem um caso secreto
E ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos
a
Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida
a
Ele tem um velho projeto
E ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias
Até o fim dos dias
a
Ele às vezes cede um afeto
E ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro
Até um breve futuro
a
Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez fortuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una

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Cada uma, das nove estrofes da letra, contém as nossas reações diante de cada situação comum à maioria dos casais formais. Vejamos a primeira:

 

Ele faz o noivo correto
E ela faz que quase desmaia
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a casa caia
Até que a casa caia

 

Embora todo mundo fingisse desconhecer o assunto, era comum ocorrer com o homem, numa data próxima ao casamento, a consagrada Despedida de Solteiro, promovida por amigos do noivo, uma espécie de Clube do Bolinha, só que formado por marmanjos, e normalmente regado a bebida e promiscuidade sexual. “Ele faz o noivo correto”.

Por outro lado, mesmo tendo a quase certeza do que o futuro marido fizera nos dias anteriores ao do casamento, a noiva, tomada pela emoção do altar, costumava ameaçar a desmaiar. “Ela faz que quase desmaia”.

O lance de fingir desmaiar, surgido pela ação das chamadas “carpideiras” nos velórios, migrou rapidamente para os altares em cerimônias nupciais e, suspeito, que ocorra até hoje.

No final dos anos sessenta e começo dos setenta, as igrejas começaram a permitir que as cerimônias de casamento tivessem um fundo musical menos sacro, com músicas mais comuns ao cotidiano social; e em tal época as campeãs de uso foram Paz do Meu Amor (Luiz Vieira) e Io Che Amo Solo Te (Sérgio Endrigo). Cito isso porque era comum as noivas fazerem que quase desmaiavam justamente quando entrassem essas músicas. Uma espécie de ritual.

Claro, que toda aquela encenação dos dois primeiros versos só poderia ser coroada pelo pensamento final da estrofe: “Vão viver sob o mesmo teto até que a casa caia”.

Ele é o empregado discreto
E ela engoma o seu colarinho
Vão viver sob o mesmo teto
Até explodir o ninho
Até explodir o ninho

Embora, nos anos setenta, o trabalho externo da mulher já contribuísse efetivamente na renda familiar, isso não ocorria com a maioria, ainda sujeita à postura servil herdada das décadas anteriores, onde o Patriarcalismo era mais ostensivo.

O homem tinha de ir ganhar o dinheiro e a mulher tinha de ficar em casa. O homem precisava se apresentar alinhado no emprego e, para isso, a esposa era obrigada a dominar a arte das Prendas Domésticas e, dentre elas, lavar passar e engomar a roupa do marido. “Ele é o empregado discreto, e ela engoma o seu colarinho”.

Claro que, mais cedo ou mais tarde, a mulher foi se revoltando com essa situação submissa, o que levou o casal a “Viver sob o mesmo teto até explodir o ninho”, cada vez mais cedo do que mais tarde.

Ele faz o macho irrequieto
E ela faz crianças de monte
Vão viver sob o mesmo teto
Até secar a fonte
Até secar a fonte

Na época em questão, um dos maiores problemas, ou talvez méritos, da educação masculina na adolescência, era o da multiplicidade de experimentos sexuais com diferentes parceiras. A coisa funcionava como uma espécie de competição de machismo, nas “tantas comidas”.

Quando o homem casava, as obrigações, quer sociais quer religiosas, o obrigavam a abdicar dessa prática e adotar a monogamia. A minoria conhecia os problemas de transar com a esposa nos dias próximos ao décimo quarto após a menstruação, mas a maioria, por desconhecer a essas regras básicas da prudência social de natalidade, e praticando muitas vezes com a esposa, acabava sendo “premiado” com filhos todos os anos: “Ele faz o macho irrequieto e ela faz crianças de monte”.

Quanto mais filhos chegavam à vida do casal, menor era a atenção da mulher destinada ao marido, e creio que o Chico tenha se referido mais a essa ótica no “Até secar a fonte”, porque os desdobramentos dessa secagem serão vistos nas estrofes posteriores.

Ele é o funcionário completo
E ela aprende a fazer suspiros
Vão viver sob o mesmo teto
Até trocarem tiros
Até trocarem tiros

Enquanto o homem progredia no trabalho, a mulher fazia o mesmo em suas prendas domésticas e um dos ditos mais famosos explica a atenção dela à culinária: “Um homem se agarra pelo estômago”. Nada melhor do que aprender a fazer comida boa, como Suspiros, por exemplo, para segurar o macho em casa.

Ocorre que, nessa época da vida conjugal, as diferenças entre os dois começam a se tornar mais acentuadas, havendo a fatal competição entre eles pela hegemonia da opinião nos destinos do lar. A fase é complexa, porque os filhos já estão meio crescidos e também disputam as preferências dos pais, transformando o lar num campo de batalhas paralelas e escusas, caindo fatalmente em frases do tipo:

Ele: – Você viu o que o SEU filho me aprontou?

Ela: – Mas você vive fora de casa, queria o quê?

Fica nesse jogo de empurra até “trocarem tiros”.

Ele tem um caso secreto
E ela diz que não sai dos trilhos
Vão viver sob o mesmo teto
Até casarem os filhos
Até casarem os filhos

Com a secagem da fonte, vista anteriormente, só restou àquele “macho irrequieto”, mais quieto mas não morto, ir buscar a atenção sexual com a anterior intensidade fora de casa: “Ele tem um caso secreto”.

Em tal época, muitas das mulheres poderiam até dizer “que não saiam dos trilhos”, mas outras tantas, comprovadamente, juravam de pés juntos mas não cumpriam de pernas abertas.

Tais atitudes, dos dois, acabavam resultando num fingimento cúmplice, ao mesmo tempo em que empurravam para os filhos a responsabilidade por persistirem casados, ainda que em constante conflito: “Vão viver sob o mesmo teto até casarem os filhos”.

Ele fala de cianureto
E ela sonha com formicida
Vão viver sob o mesmo teto
Até que alguém decida
Até que alguém decida

Tal estado de discórdia no casal, na maioria dos casos, acabava em discussões sobre suicídios, cada qual com o seu veneno preferido. Ele preferindo o nobre cianureto, e ela ficando com o seu caseiro formicida, para se ameaçarem e não cumprirem: “Vão viver sob o mesmo teto até que alguém decida”.

Ele tem um velho projeto
E ela tem um monte de estrias
Vão viver sob o mesmo teto
Até o fim dos dias
Até o fim dos dias

Independente da profissão que exerce, a maioria dos homens tem um projeto particular e não atingido. Com a chegada de crianças de monte, o corpo da mulher fica bem diferente da forma apresentada na ocasião em que “fez com que quase desmaiasse”: “Ela tem um monte de estrias”, mas, pelo tanto que já ficaram juntos, começam até a encarar a remota possibilidade de permanecerem juntos ”até o fim dos dias”.

Ele às vezes cede um afeto
E ela só se despe no escuro
Vão viver sob o mesmo teto
Até um breve futuro
Até um breve futuro

Aquele original casal amante, após anos de disputas e desentendimentos, se tornara amigo e com algumas boas lembranças dos tempos idos. Como a coisa não se apresenta tão atraente quanto a original, a mulher não corre riscos à toa e “só se despe no escuro”. Essa fase já é comum ao casal mais idoso, que acabará num “breve futuro”.

Ela esquenta a papa do neto
E ele quase que fez fortuna
Vão viver sob o mesmo teto
Até que a morte os una
Até que a morte os una

E aqui, na última estrofe, o casal muda de posição na ordem dos versos, com a mulher vindo antes do homem, provavelmente porque só reste a ele, além do corpo enfraquecido, a doce lembrança de que um dia quase ficou rico, ao mesmo tempo em que ela cuida tanto dos netos quanto do ex-adversário na vida em comum. Ambos lembram de um dia terem escutado do padre:

- Até que a morte os separe!

Mas, passados tantos anos de desencontros sociais, certamente saberão que o mais correto seria:

- Até que a morte os una!

 

 

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O Admirável Gado Novo e a MPB

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Por considerar a música que melhor traduz a postura do brasileiro, diante da idiotização dirigida, e sempre presente, dos veículos de comunicação sobre o nosso comportamento social, haja visto que até foi usada como trilha sonora de uma novela da globo; tentarei formular um jogo de Propostas e Respostas confrontando as primeiras, originais do Zé Ramalho, com as segundas, extraídas da mesma MPB e presentes em músicas de outros compositores que contenham pensamentos, também geniais. Em verde, a letra original, em vermelho, os corolários e, em azul, as músicas e autores dos últimos:

Vocês que fazem parte dessa massa
Que passa nos projetos do futuro
O futuro é uma astronave
Que tentamos pilotar (Aquarela – Vinícius e Toquinho)
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais do que receber
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não (Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores-Geraldo Vandré)
E ter que demonstrar sua coragem
À margem do que possa parecer
A gente vai contra a corrente
Até não poder resistir
Na volta do barco é que sente
O quanto deixou de cumprir (Roda-Viva-Chico Buarque)
E ver que toda essa engrenagem
Já sente a ferrugem lhe comer
Eu Preciso Aprender a Só Ser (Idem verso-Gilberto Gil)

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Ê eô vida de gado
Povo marcado
Povo feliz
Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchamos
Indecisos cordões (Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores-Geraldo Vandré)
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Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Eu quero me esconder
Debaixo dessa sua saia
Pra fugir do mundo (Disritmia-Martinho da Vila)
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
- Quem lê tanta notícia?
Eu vou… (Alegria, Alegria-Caetano Veloso)
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Só encontro
Gente amarga mergulhada no passado
Procurando repartir seu mundo errado
Nessa vida sem amor que eu aprendi (Universo do Teu Corpo-Taiguara)
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou
Mas eu insisto
E quem quiser que me compreenda
Até que alguma luz acenda
Esse meu canto continua(?) (Um Chorinho-Chico Buarque)
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Ê eô vida de gado
Povo marcado
Povo feliz
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular (Mordaça-Paulo Cesar Pinheiro)
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O povo foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
Porque gado a gente marca
Tange, berra, engorda e mata
Mas com gente é diferente (Disparada-Geraldo Vandré)
E sonham com melhores tempos idos
Contemplam essa vida numa cela
Hoje, eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier
Para enfeitar a noite do meu bem (A Noite do Meu Bem-Dolores Duran)
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo se acabar
Um dia surgiu brilhante
Entre as nuvens flutuante
Um enorme Zepelim
Pairou sobre os edifícios
Abriu dois mil orifícios
Com dois mil canhões assim (Geni e o Zepelim-Chico Buarque)
A Arca de Noé, o Dirigível
Não voam, nem se pode flutuar
Da união deles dois
Ficou resolvida a questão
E foi Proclamada a Escravidão (Samba do Crioulo Doido-Stanislaw Ponte Preta)
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Ê eô vida de gado
Povo marcado
Povo feliz
Brasil!
Mostra tua cara
Quero ver quem paga
Pra gente ficar assim
Brasil!
Qual é o teu negócio?
O nome do teu sócio?
Confia em mim… (Brasil-Cazuza)

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Seria injusto não dizer que muitas outras músicas poderiam fazer parte da brincadeira, mas não podemos esquecer que vivemos de sérias Emoções:

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Tudo isso me faz
Otimista demais… (Emoções – Roberto e Erasmo Carlos)

 

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