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Uma vez editada a relação das palavras, adequadas pelos sons finais na forma de Rimas, as trajetórias a que me submeti, diante de tal empreitada, fez com que percebesse uma série de enganos cometidos nos textos anteriores.
Quando tive de separar os finais das palavras dos seus inícios, inevitavelmente, me deparei com as suas construções históricas, pois cada palavra teve a sua razão histórica em várias fases:
1- Começou muda, como parte de um desenho simplista na primeira fase de qualquer Escrita: A Pictografia, cujos desenhos diretos sugeriam apenas o Elemento. O desenho de um Boi dizia apenas que aquilo era um boi.
2- Na segunda fase, a Ideográfica, a palavra, ainda muda, começou a aparecer em dois ou mais elementos presentes no mesmo desenho, que deixava de ser elementar para tornar-se uma Idéia. O Boi com um Homem ao lado já poderia querer dizer: Esse boi tem um dono!
3- Na terceira fase das escritas, a palavra Pediu a Palavra e começou a deixar de ficar muda, ao ganhar os primeiros grunidos humanos, já identificando os Elementos das Idéias, vistas na fase anterior. Essa terceira fase ganhou o nome de Silabismo, pelo fato do homem, como ser racional, economizar esforços até então supérfluos.
4- Como apareceram vários desenhistas de idéias, e em locais distintos, os silabismos começaram a encontrar um grave problema: Muita sílaba pronunciada para um número, maior ainda, de desenhos capazes de justificá-las como verdadeiras. A Palavra, que nascera do elementar desenho pictográfico, e ganhara os sons silábicos, voltava a ser escrita, só que de forma bem menos espaçosa. Ao invés de uma parede inteira, era necessária uma pequena placa de barro. Nasciam os Alfabetos e os Escribas.
A partir daí a palavra ganhou uma história, que começou pela estrutura descritiva do evento com sons, posteriormente chamadas de Radicais, e, não contente, o homem sentiu que os radicais ainda não eram suficientes para satisfazerem a sua sêde descritiva. Vieram os Prefixos, que antecedendo os radicais mostravam que poderia haver alguma coisa antes deles, aliás, muita coisa.
Mas não bastava dar aos radicais esses parceiros complementares antecedentes. Muita coisa ainda poderia ser explicada. Como já havia dado ao radical o parceiro complementar antecedente, o homem também deu a ele um outro parceiro, só que suplementar, já que havia complementado, e consequente. O Sufixo.
Durante bom tempo o homem ficou sossegado com a palavra, mas com o passar dos anos começou a ficar insatisfeito com as idades das companheiras, que acabaram recebendo novos tempos na forma de Neologismo.
A partir daí a coisa começou a ficar bem complicada, pois nem todos os radicais das palavras haviam sido premiados com companheiros complementares, suplementares ou ambos. A chegada dos prefixos e sufixos acabou dando ao vocabulário uma espécie de Pirâmide Social do Verbo com quatro camadas evolutivas: Humildes radicais, Pré-fixadas, Pós-fixadas e as gloriosas Pré e Pós-fixadas.
Uma espécie de Pré-Conceito social do verbo foi minimizando cada vez mais o Humilde Radical e os neologismos começaram a inventar novas palavras, que apenas fazendo menção honrosa aos radicais, no fundo, não davam valor algum aos seus originais e nobres significados, extraídos a duras penas à partir das Pictografias Primatas e dos Alfabetos, também primatas naquela altura do Campeonato Verbal.
Os humildes radicais nos premiaram com apenas três idéias do Tempo: Passado, Presente e Futuro.
- Mas como? Não é possível dar ao grandioso Tempo somente essas três humildes possibilidades!
Então surgiu o magistral Ante-Passado, pois certamente deveria haver um tempo antecedente ao Passado.
Levou algum tempo para que os chamados Futuristas percebessem que os Passadistas haviam passado-lhe a perna na promissora evolução do neologismo. Algo urgia ser feito.
Foi quando tiveram a brilhante, e ao mesmo tempo humilde, idéia de que certamente haveria um tempo futuro além daquele simples Futuro ancestral. Nascera então o fulgurante Pós-Futuro.
Entre esses dois turnos do Campeonato Verbal, disputado pelo sistema de Pontos Corroídos, havia trabalhando, na surdina do Presente, um notável grupo de literatos presentistas infiltrando pelo neologismo idéias geniais como Pré-Conceito sem Pós-Conceito, pois alguma coisa deveria anteceder ao simples Conceito, com aquele ultrapassado e ancestral significado de breve idéia sobre qualquer coisa.
Algo deveria anteceder a essa “Breve Idéia” simplista, e isso só poderia chamar Preconceito, pois Pós-Conceito seria algo mais adequado aos futuristas do que aos presentistas. Havia uma ética.
Todavia, não contentes com o Preconceito, havia um outro termo incomodando os neologistas de plantão, já que persistia mesmo depois de terem inventado o preconceito: Era a Suposição, que se houvera mantido intacta com um aviltante significado, que antecedendo à breve idéia do Conceito, ousava ganhar ares de sinônimo do genial Preconceito.
Sem problemas maiores, a singela Suposição ganhou novos ares neológicos com o surgimento do Pré-Suposto, que fazia com que o raciocínio humano antecedesse até à mera suposição.
Eram questões de Princípios, mas havia quem discordasse de tal rótulo questiúnculo argumentando ser muito mais uma questão de Base do que de Princípios. Após acirrados encontros literários, ambas as partes chegaram ao nobre acordo dos Princípios Básicos, que tanto premiam as nossas teses de doutorados vários.
Paralelamente a essa disputa entre os defensores dos Princípios e os da Base, que ocupavam as primeiras colocações do campeonato, havia uma turma nas posições intermediárias, os Estruturais e os Fundamentalistas, disputando, cada qual, a hegemonia do rótulo, pois Princípios Básicos nada mais eram do que Estruturas ou Fundamentos.
Após novas disputas acirradas, os quatro times envolvidos acabaram aquele campeonato nas seguintes posições: Princípios campeão, Base vice, Estruturais em terceito e Fundamentalistas em quarto, sendo todos premiados com a disputa do famoso torneio Libertadores do Verbo, com o nome Princípios Básicos das Estruturas Fundamentais, ou, mais conhecido como “O Grandioso”.
Vários outros campeonatos foram disputados, com o time dos Radicais sendo seguidamente rebaixado para as divisões inferiores, e hoje é apenas convidado para Torneio-Relâmpago do Verbo.
Crescemos muito nesses aspectos verbais, a ponto de, confortavelmente, podermos escrever, com a justa convicção dos sábios, textos como este:
“Apesar da alegria em voltar para a casa, ou mesmo da certeza dos enganos ancestrais, se por ventura houver algum desencontro, resta-nos a felicidade de termos livrado, a duras penas, o Silogismo Verbal, antes escravizado por duas premissas extremas, hoje liberto por uma série de intermediárias”.
Devemos muito disso ao herói Tiradentes, que como Mártir da Literatura um dia Pró-Feriu:
- Libertas que será também!
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