Archive for fevereiro, 2011

Rima do Milagre Brasileiro

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O Lula era um metalúrgico
Que decidiu virar taumatúrgico

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Aquela Mulher Sob Medida

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Não é de hoje que muitos compositores usam músicas mais antigas, ou mesmo pensamentos de outros autores para desenvolverem novas composições musicais. Por exemplo, há um consagrado pensamento de Fernando Pessoa:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente

Agora vejam a introdução que Chico Buarque colocou na sua música Fantasia:

E se de repente
A gente não sentisse
A dor que a gente finge
E sente…

A mesma coisa ocorreu em várias outras músicas, mas a minha idéia é a de mostrar somente um dos casos: O da Mulher Safada.

Ao longo da obra, Chico traduziu o comportamento social feminino de muitas maneiras, mas, suspeito, teve predileção por uma especial: A Rosa, que fez, e ainda faz, o que bem entende com o seu companheiro otário.

A Rosa, propriamente dita, foi apenas uma evolução de vários outros personagens arquétipos dispersos nas músicas, já editadas ou ainda por editar.

Não é à toa, que depois da parca qualidade das músicas do seu último CD, o Carioca, Chico tenha lançado mão da sua Mulher Sob Medida para escrever um outro samba digno das suas criatividades musical e poética: Sou Eu. Vejam o histórico.

Vídeo de TOFAZENDOAMINHAPARTE

Na minha mão
O coração balança
Quando ela se lança
No salão
Pra esse ela bamboleia
Pra aquele ela roda a saia
Com outro ela se desfaz
Da sandália
            
Porém depois
Que essa mulher espalha
Seu fogo de palha
No salão
Pra quem que ela arrasta a asa
Quem vai lhe apagar a brasa
Quem é que carrega a moça
Pra casa
Sou eu
Só quem sabe dela sou eu
Quem dá o baralho sou eu
Quem manda no samba sou eu
         
O coração
Na minha mão suspira
Quando ela se atira
No salão
Pra esse ela pisca um olho
Pra aquele ela quebra um galho
Com outro ela quase cai
Na gandaia
             
Porém depois
Que essa mulher espalha
Seu fogo de palha
No salão
Pra quem que ela arrasta a asa
Quem vai lhe apagar a brasa
Quem é que carrega a moça
Pra casa
Sou eu
Só quem sabe dela sou eu
Quem dá o baralho sou eu
Quem dança com ela sou eu
Quem leva este samba sou eu…

Em 1964, Chico frequentava os salões de dança de Sampa, como Som de Cristal, por exemplo, e neles escutou este bolero de Alvaro Carrillo: La Mentira:

Vídeo de santiaguina1986

Se te olvidas
Que me queres apesar do que me dizes
Pois trazemos semelhantes cicatrizes
Impossíveis de apagar
     
Se te olvidas
Que te posso fazer mal se me decido
Pois teu amor eu tenho bem comprometido
Mas à força não será
     
E hoje resulta
Que não sou da estatura da sua vida
E ao deixar-me quase quase que te olvidas
Que há um pacto entre nós dois
       
Por minha parte
Te devolvo tuas promessas de adorar-me
Nem se queira sinta pena por deixar-me
Que esse pacto não é com Deus.

Creio que esse bolero tenha ficado na memória do Chico por anos até que um dia, semelhante ao ocorrido com Fernando Pessoa na composição Fantasia, Chico resolveu dar uma resposta ao La Mentira, do Carrillo , com um outro bolero, cujo personagem principal é a Mulher.

Ao fazer isso, Chico deu uma espécie de invertida no padrão das letras dos boleros, normalmente cantados por personagens homens contando das suas dores para com as mulheres.

Além do La Mentira terminar contando de um pacto não reconhecido por Deus, a música Sob Medida inicia com o mesmo argumento religioso, porém apresenta uma letra que procura mostrar o outro lado das propostas originais e românticas do Carrillo, com um deboche típico de outra Mulher que estava nascendo na sua obra: A Rosa. Vejam o que ela cantou:

Vídeo de simonepedacos

Se você crê em Deus
Erga as mão para os céus
E agradeça
Quando me cobiçou
Sem querer acertou
Na cabeça
Eu sou sua alma gêmea
Sou sua fêmea
Seu par, sua irmã
Eu sou seu incesto
Sou perfeita porque
Sou igual a você
Eu não presto
Eu não presto
      
Traiçoeira e vulgar
Sou sem nome e sem lar
Sou aquela
Eu sou filha da rua
Eu sou cria da sua
Costela
Sou bandida
Sou solta na vida
E sob medida
Pros carinhos seus
Meu amigo
Se ajeite comigo
E dê graças a Deus
       
Se você crê em Deus
Encaminhe pros céus
Uma prece
E agraceça ao Senhor
Você tem o amor
Que merece

Pela época em que foi composta, suspeito até que Sob Medida fosse uma das composições que faria parte do musical Gota D´Água, pois tem bastante daquela essência da peça, na relação Cafetão-Prostituta; bem como poderia tranquilamente pertencer à Ópera do Malandro, mas o Chico resolveu tornar Terezinha mais venenosa ainda, ao sugerir que Max Overseas fosse o Terceiro, digno de todos os elogios dos sonhos femininos:

…O terceiro me chegou
Como quem chega do nada
Ele não me trouxe nada
Também nada perguntou
Não sei como ele se chama
Mas entendo o que ele quer
Se deitou na minha cama
E me chama de mulher
Foi chegando sorrateiro
E antes que eu dissesse não
Se instalou feito um posseiro
Dentro do meu coração

         

Sob Medida foi um marco na obra do Chico, pois tudo leva a crer que a posterior Rosa tenha nascido nessa música, e tenha seguramente sido o personagem principal em Aquela Mulher, do filme A Ópera do Malandro. 

 Temos muitas músicas com o mesmo título: Aquela Mulher, mas me detenho em apenas três. A primeira, escrita por Cícero Nunes, é um samba-canção, gravado por Nelson Gonçalves nos anos 50, e feita pelo autor numa fase posterior à da humorística, quando tratava da mesma mulher com músicas do tipo - Ela Não Dorme Sem Apanhar.

Vídeo de N2010R

Entre as mulheres que conheço
Há uma que não esqueço
E para esquecê-la me esforço
O nome dela não digo
Não quero ter inimigo
Nem quero sentir remorso
           
E por mais que eu me ausente
Ela não me sai da mente
Eu gosto daquela mulher
E pra aumentar meu castigo
O rapaz é meu amigo
E ela também me quer
           
Não querendo cometer um desatino
Vou partir sem ter destino
Pra uma cidade qualquer
           
E neste samba eu digo
Tudo que sinto
Juro por Deus que não minto
Eu gosto daquela mulher
          
E neste samba eu digo
Tudo que sinto
Juro por Deus que não minto
Eu gosto daquela mulher

 

Cícero Nunes morreu em 1990, mas deixou com a música, para o Chico, um arquétipo do Homem Ingênuo, presente em várias músicas, tais como Deixe a Menina, que mostra o parceiro arredio sendo domado por ela numa roda de samba:

Atrás de um homem triste
Há sempre uma mulher feliz
E atrás dessa mulher mil homens
Sempre tão gentis
Por isso para o seu bem
Ou tire ela da cabeça
Ou mereça a moça que você tem.

 Tivemos uma segunda Aquela Mulher, escrita por Ary Lobo, um compositor voltado à música nordestina, e falecido em 1980, cuja letra mostra o mesmo otário de Sou Eu, A Rosa, Aquela Mulher 1, e Deixe a Menina, preocupado com o comportamento da companheira:

 Quanta dor de cabeça
Aquela mulher me deu
Pra quebrar o encanto
Sabendo que sou mais eu
         
Ela foi a Bahia
Levar o meu nome para o candomblé
Levou meu lenço branco
E mais meu retrato embaixo do pé
     
Disse a todo mundo
Que tem um enterro daqui a três dias
E se não me fechasse
Deixava de ser Maria
      
Foi na minha escola querer derrubar a minha posição
Falou mal de mim pra mulher do amigo, mais isso não
Quebrou meu tamborim, quebrou meu violão
E também meu pandeiro
Mas o bom do feitiço
E voltar para o feiticeiro

Não podemos esquecer de um dos pensamentos do personagem que canta A Rosa:

…A Rosa garante que é sempre minha
Quietinha, saiu pra comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do Norte
Que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente…

E foi desse misto todo que resultou a música Aquela Mulher do Chico:

 Vídeo de hermanorenato

Se você quer mesmo saber
Por que que ela ficou comigo
Eu digo que não sei
Se ela ainda tem seu endereço
Ou se lembra de você
Confesso que não perguntei
         
As nossas noites são
Feito oração na catedral
Não cuidamos do mundo
Um segundo sequer
Que noites de alucinação
Passo dentro daquela mulher
Com outros homens, ela só me diz
Que sempre se exibiu
E até fingiu sentir prazer
Mas nunca soube, antes de mim
Que o amor vai longe assim
Não foi você quem quis saber?

 Lembram do enredo descrito pelo Cícero Nunes?

Entre as mulheres que conheço
Há uma que não esqueço
E para esquecê-la me esforço
O nome dela não digo
Não quero ter inimigo
Nem quero sentir remorso…

Diante de um possível reencontro entre os dois amigos envolvidos pela ação de Aquela Mulher 1, nada mais óbvio do que um deles dizer isto:

 

Se você quer mesmo saber
Por que que ela ficou comigo
Eu digo que não sei
Se ela ainda tem seu endereço
Ou se lembra de você
Confesso que não perguntei…
 

           

…Só quem sabe dela sou eu
Quem dá o baralho sou eu
Quem dança com ela sou eu
Quem leva este samba sou eu…

  

…E eu te farei as vontades
Direi meias verdades
Sempre à meia-luz
E te farei vaidoso supor
Que és o maior
E que me possuis…

         

Arrasa o meu projeto de vida…

       

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Rima do Motoqueiro

    a

O motoqueiro é um normal semoto
Que detesta ficar sem moto

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Rima da Dança dos Pássaros

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Era que nem uma gavota de gaivotas

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Rima do Imodesto Apressado

        a

Já que tá-ansioso por sua novela
O jactancioso se revela

    a

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