Caetano e as Janelas Abertas do Simbolismo
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Continuando com o assunto, Simbolismo na MPB, em cuja postagem anterior citei a música, Janelas Abertas 2, de Caetano Veloso, procurarei mostrar como o poema da música atendeu às especificações do pensamento simbolista original.
http://mpbsapiens.com/simbolismo/
Essa composição foi escrita por Caetano numa época em que o mesmo recebia todo um assédio dos chamados poetas concretistas, derivados dos ancestrais Imagismo e Simbolismo, e liderados por alguns articulistas de um jornal de São Paulo.
Inclusive, tais jornalistas já haviam conseguido, pela oficial fofoca cotidiana de que dispunham, colocar o Tropicalismo de Caetano como adversário da postura tradicional do Chico Buarque, tanto quanto à Versificação como às bases melódicas dos versos.
Tal mal estar entre os artistas durou pouco tempo, tanto foi, que quem canta a composição do Caetano, no vídeo, é o próprio “rival”, o Chico, num show que fizeram juntos na Bahia, em 1973, creio.
Como levar a sério tudo aquilo vindo da “turminha da folha”?
Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentroPercorrer, correndo, corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto fêmea, língua gelada
Língua gelada como nada Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insetos
Tentarei mostrar como a letra da composição atendeu, ou não, às características filosóficas elementares do Simbolismo:
- o som natural do verso como música própria
- busca da Poesia Pura pela subjetividade de conceito e lógica
Qualquer desses dois primeiros elementos seria impossível de se notar, já que o poema não é declamado, mas construído sobre uma melodia na forma de composição musical.
- uso formal de aliteração e assonância nas palavras do verso
Em termos de Aliteração, o som que imperou na letra inteira foi o da consoante R, que, por sinal, talvez seja a mais utilizada por poetas que busquem a tal efeito nas sonâncias dos versos.
Quanto à Assonância, Caetano usou muito o som nasal das vogais acompanhadas de N e M, com predominância do conjunto En.
Este elemento foi atingido por Caetano.
- negar qualquer lógica decorrente da aplicação do Racionalismo na realidade.
Creio que o Raciocínio acompanhe o Homem desde o seu surgimento, portanto, tudo o que nos cerca tem tal atributo, bom ou mau, à partir da própria Palavra Escrita, resultante da sedimentação de raciocínios vários durante milênios. Tem como fugir do Raciocínio, ou das marcas dele estampadas no cotidiano social?
Este elemento pode ser conseguido por qualquer um de nós, desde que não conte pra ninguém, na forma de texto ou de fala, logo, ao escrever e cantar o poema, Caetano não atendeu tal exigência.
- a metáfora e o símbolo norteando a razão
A letra inteira da composição é Metáfora, cujo significado implica numa organização própria, exclusiva e esdrúxula dos Símbolos comuns, logo, Caetano atendeu a tal quesito elementar.
- valorizar o subjetivismo do poeta
Idem anterior, já que todo Subjetivismo é Metafórico e vice-versa.
- mostrar a vida pelo seu lado degradante
Como a letra da composição é subjetiva e tendente à Morte, sobrou pouco para tratar da Vida, ainda que degradante. Talvez, receber um “beijo de deusa morta, com língua gelada” seja algo que, embora improvável, tenha lá o seu tanto de degradável, ou mesmo, desagradável.
Acho que Caetano conseguiu mais um ponto neste quesito.
- sonho e loucura acima da razão
Neste quesito, Caetano atingiu parcialmente o exigido, pois se o Poema foi um sucesso no tema, a Melodia, jogando contra, mostrou-se lógica e agradável.
- valorização do Eu sobre o Você, inexistindo o Nós
Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobíliaEm cada um matar um membro da família
Aqui, Caetano matou a família toda. Algo muito coerente, já que, na época em que foi escrita a composição, havia um grande interesse pelas religiões orientais, onde destaco um diálogo entre Krishna (Deus) e Arjuna (mortal). Arjuna conta a Krishna que se vê numa batalha, cujos inimigos são os seus familiares, e Krishna, “sentadinho no muro”, responde a ele que todo homem só cresce quando se livra das raízes. (Bhagavad Gitá).
- sendo o corpo uma espécie de prisão da alma, vale mais a morte
Até que a plenitude e a morte coincidissem um diaO que aconteceria de qualquer jeito
Mais um quesito alcançado pelo Caetano, ao coincidir Plenitude e Morte como consequência natural da vida.
Mas eu prefiro abrir as janelasPra que entrem todos os insetos
Esses versos finais creio terem sido reservados àquele povo jornalista que tanto lhe enchia o saco com Simbolismos e Concretismos:
Os insetos que cercavam a sua essência poética.
Muitos anos mais tarde, Chico descreveu a essa “abertura de janelas”, do Caetano, com a composição, A Bela e a Fera, do Grande Circo Místico, onde a Bela é a MPB e, a Fera, aqueles mesmos insetos querendo invadir os espaços dela, da Bela MPB:
…No bucho do analfabeto Letras de macarrão Letras de macarrão Fazem Poema Concreto… …Recebe o teu poeta, oh Bela Abre o teu coração Abre o teu coração Ou eu arrombo a Janela.Na próxima postagem tentarei mostrar como o Chico se virou para fazer os seus poemas simbolistas.
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