Archive for dezembro, 2010

Caetano e as Janelas Abertas do Simbolismo

   a

Continuando com o assunto, Simbolismo na MPB, em cuja postagem anterior citei a música, Janelas Abertas 2, de Caetano Veloso, procurarei mostrar como o poema da música atendeu às especificações do pensamento simbolista original.

 http://mpbsapiens.com/simbolismo/

 Essa composição foi escrita por Caetano numa época em que o mesmo recebia todo um assédio dos chamados poetas concretistas, derivados dos ancestrais Imagismo e Simbolismo, e liderados por alguns articulistas de um jornal de São Paulo.

Inclusive, tais jornalistas já haviam conseguido, pela oficial fofoca cotidiana de que dispunham, colocar o Tropicalismo de Caetano como adversário da postura tradicional do Chico Buarque, tanto quanto à Versificação como às bases melódicas dos versos.

Tal mal estar entre os artistas durou pouco tempo, tanto foi, que quem canta a composição do Caetano, no vídeo, é o próprio “rival”, o Chico, num show que fizeram juntos na Bahia, em 1973, creio.

Como levar a sério tudo aquilo vindo da “turminha da folha”?

Vídeo de sergiorodrigo

Sim, eu poderia abrir as portas que dão pra dentro
Percorrer, correndo, corredores em silêncio
Perder as paredes aparentes do edifício
Penetrar no labirinto
O labirinto de labirintos
Dentro do apartamento
        
Sim, eu poderia procurar por dentro a casa
Cruzar uma por uma as sete portas, as sete moradas
Na sala receber o beijo frio em minha boca
Beijo de uma deusa morta
Deus morto fêmea, língua gelada
Língua gelada como nada
        
Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família
Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito
          
Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insetos

Tentarei mostrar como a letra da composição atendeu, ou não, às características filosóficas elementares do Simbolismo:

- o som natural do verso como música própria

- busca da Poesia Pura pela subjetividade de conceito e lógica

Qualquer desses dois primeiros elementos seria impossível de se notar, já que o poema não é declamado, mas construído sobre uma melodia na forma de composição musical. 

- uso formal de aliteração e assonância nas palavras do verso

Em termos de Aliteração, o som que imperou na letra inteira foi o da consoante R, que, por sinal, talvez seja a mais utilizada por poetas que busquem a tal efeito nas sonâncias dos versos.

Quanto à Assonância, Caetano usou muito o som nasal das vogais acompanhadas de N e M, com predominância do conjunto En.

Este elemento foi atingido por Caetano.

- negar qualquer lógica decorrente da aplicação do Racionalismo na realidade.

Creio que o Raciocínio acompanhe o Homem desde o seu surgimento, portanto, tudo o que nos cerca tem tal atributo, bom ou mau, à partir da própria Palavra Escrita, resultante da sedimentação de raciocínios vários durante milênios. Tem como fugir do Raciocínio, ou das marcas dele estampadas no cotidiano social?

Este elemento pode ser conseguido por qualquer um de nós, desde que não conte pra ninguém, na forma de texto ou de fala, logo, ao escrever e cantar o poema, Caetano não atendeu tal exigência.

- a metáfora e o símbolo norteando a razão

A letra inteira da composição é Metáfora, cujo significado implica numa organização própria, exclusiva e esdrúxula dos Símbolos comuns, logo, Caetano atendeu a tal quesito elementar.

- valorizar o subjetivismo do poeta

Idem anterior, já que todo Subjetivismo é Metafórico e vice-versa.

- mostrar a vida pelo seu lado degradante 

Como a letra da composição é subjetiva e tendente à Morte, sobrou pouco para tratar da Vida, ainda que degradante. Talvez, receber um “beijo de deusa morta, com língua gelada” seja algo que, embora improvável, tenha lá o seu tanto de degradável, ou mesmo, desagradável.

Acho que Caetano conseguiu mais um ponto neste quesito.

-  sonho e loucura acima da razão

Neste quesito, Caetano atingiu parcialmente o exigido, pois se o Poema foi um sucesso no tema, a Melodia, jogando contra, mostrou-se lógica e agradável.

- valorização do Eu sobre o Você, inexistindo o Nós

Sim, eu poderia em cada quarto rever a mobília
Em cada um matar um membro da família

Aqui, Caetano matou a família toda. Algo muito coerente, já que, na época em que foi escrita a composição, havia um grande interesse pelas religiões orientais, onde destaco um diálogo entre Krishna (Deus) e Arjuna (mortal). Arjuna conta a Krishna que se vê numa batalha, cujos inimigos são os seus familiares, e Krishna, “sentadinho no muro”, responde a ele que todo homem só cresce quando se livra das raízes. (Bhagavad Gitá).

-  sendo o corpo uma espécie de prisão da alma, vale mais a morte

Até que a plenitude e a morte coincidissem um dia
O que aconteceria de qualquer jeito

Mais um quesito alcançado pelo Caetano, ao coincidir Plenitude e Morte como consequência natural da vida.

Mas eu prefiro abrir as janelas
Pra que entrem todos os insetos 

 Esses versos finais creio terem sido reservados àquele povo jornalista que tanto lhe enchia o saco com Simbolismos e Concretismos:

Os insetos que cercavam a sua essência poética.

Muitos anos mais tarde, Chico descreveu a essa “abertura de janelas”, do Caetano, com a composição, A Bela e a Fera, do Grande Circo Místico, onde a Bela é a MPB e, a Fera, aqueles mesmos insetos querendo invadir os espaços dela, da Bela MPB:

…No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Letras de macarrão
Fazem Poema Concreto…
      
…Recebe o teu poeta, oh Bela
Abre o teu coração
Abre o teu coração
Ou eu arrombo a Janela.

Na próxima postagem tentarei mostrar como o Chico se virou para fazer os seus poemas simbolistas. 

 

 

a

 

Comentários (20) »

O Judeu e o Fariseu

  a

Caros Leitores:

Vários dos senhores têm-se mostrado indignados com o teor de algumas postagens deste site, e fazem uso do meu email para acusar-me de ter algum preconceito contra os Judeus e, por vezes, indo além disso, me rotulando como Anti-Semita.

Observemos a trajetória da História:

Noé teve três filhos: Cam, Sem e Jafé; que deram origem aos respectivos povos Camitas, Semitas e Jafeítas.

Tais povos se dividiram em vários outros. Dentre os semitas tivemos o Elamita que deu origem ao casal Abrão e Sarai, que depois de uma viagem ao Egito teve os nomes mudados para Abraão e Sara.

O casal teve o filho Isaac, que se casou com Rebeca e teve dois filhos: Esaú e Jacó, que receberam os respectivos apelidos de Edom e Israel, e que deram origem aos povos Idumeus e Israelitas, respectivamente.

Os últimos acabaram recebendo o nome de Judeus, que se distinguiam dos demais semitas por terem obedecido a uma tal Santa Aliança, religiosa, que consistia na circuncisão do pênis.

Os judeus tiveram uma trajetória milenar como povos unidos, mas o tempo se encarregou de dividí-los em duas classes: Ricos e Muito Ricos.

Os primeiros, mais humildes, apenas interpretavam as suas leis religiosas e tinham uma vida normal, como a de qualquer povo comerciante.

Os segundos, que habitavam as luxuosas residências no Monte Sião, usando uma interpretação diferente para as mesmas leis religiosas dos primeiros, se aclamaram representantes do “Soberano Universal” e se imaginaram Proprietários do Mundo onde, para tal, deveriam reter todo o Ouro existente em suas mãos.

Foi bem antes de Cristo que os israelitas se dividiram nos Judeus mais humildes e nos Fariseus ambiciosos, que se usando de toda a sorte de falcatruas do comércio se tornaram muito mais ricos que os primeiros e, com isso, passaram a usá-los como uma espécie de escudo,sob o argumento de obedecerem à mesma religião.

Essas duas correntes filosóficas do judaísmo seguiram cada qual o seu curso histórico até o surgimento de Jesus Cristo.

À primeira vista, pensaram os judeus, Cristo talvez fosse um esperado Messias. Chegaram à conclusão de que não era. Atiraram pedras, crucificaram e os cambáu. Ganharam um Mártir com aquela jogada toda.

Já, os fariseus, ficaram profundamente decepcionados com o fato de Jesus não ser o tão esperado Messias e passaram, à partir de então, ter como meta, além do ouro, a destruição da imagem de Cristo, cuja passagem deu origem aos povos Cristãos.

E ambos, judeus e fariseus, migrando pelos continentes, acabaram por olhar para a Europa com maior carinho, e se assentaram em grande número por lá. Acontece que outros povos, tanto camitas como semitas, já haviam se mandado pra lá bem antes deles.

E foi na Europa que estabeleceram uma cumplicidade maior, já que os judeus, para poderem se estabilizar nos países, precisavam da ajuda dos ricos fariseus dominadores para controlarem os demais semitas.

Essa cumplicidade durou até, suponho, o século XV, quando os povos europeus começaram as suas viagens de navegação, que resultaram nas descobertas e posteriores colonizações dos continentes americanos.

Já meio cansados daquela cumplicidade toda, os judeus começaram a sair da Europa em busca de terras menos poluídas, tanto pela cumplicidade ancestral com os fariseus, quanto pela perseguição dos cristãos, que fez surgir um novo tipo de judeu: o Novo Cristão.

Essa atitude dos judeus, de migrarem para os continentes descobertos, tanto na forma de judeus como na de novos cristãos, causou uma ruptura na cumplicidade e os fariseus não gostaram nem um pouco do lance.

No século XVII, judeus e fariseus predominavam na Holanda. Parte dos judeus veio para o Brasil nas chamadas Invasões Holandesas, ocorridas em duas fases:

As primeiras, bem sucedidas, permitiram que desembarcassem e se estabelecessem em Pernambuco e adjacências.

As segundas já não tiveram o mesmo sucesso e esses povos foram expulsos pelos portugueses. Isso deixou-os numa sinuca de bico:

Não poderiam voltar para a Holanda, onde seriam perseguidos pelos fariseus, nem podiam ficar no Brasil, já que seriam perseguidos pelos cristãos portugueses.

Voltaram para os navios e acabaram indo parar em Manhatan, dando origem a uma nova relação de cumplicidade, cujos resultados, que se afiguravam como promissores, se tornaram uma realidade rica e próspera para os dois lados da religião.

Os fariseus europeus, de natureza agiota, emprestavam dinheiro aos países para se livrarem dos reinos colonizadores a que pertenciam. O Brasil foi um exemplo disso, quando Dom Pedro I proclamou a nossa independência sem conferir o quanto o pai, D. João VI, deixara de grana no cofre antes de voltar para Portugal.

Precisou pedir grana emprestada para sustentar a autonomia de estado, e ficamos escravos dos agiotas fariseus ingleses por mais de um século.

 Voltando às Invasões Holandesas, aquele grupo migrante para Manhatan acabou criando o Fariseu Americano, que descontente por poder agir em  uma só praça comercial, a América do Norte, clamava por uma soberania mundial de dominação financeira nos países pobres ou recém-nascidos.

Como essa disputa entre os fariseus, europeu e americano, criou muita confusão ao longo dos anos, havia a necessidade de um entendimento entre eles para não se por a perder todo um trabalho de dominação anterior.

Tal entendimento deles ocorreu na ancestral Basiléia onde, em comum acordo, estabeleceram uma espécie de Cartilha Administrativa, que ficou conhecida pelo nome “Os Protocolos Dos Sábios Do Sião”, cujos procedimentos e metas foram distribuídos em 24 atas ou capítulos.

O nome Sionismo passou a ser usado para designar os ancestrais Fariseus.

É um livro medonho, justamente por ser uma previsão do que realmente aconteceu com a História Universal à partir de tal encontro, ocorrido no final do século retrasado.

Aqui, pelo Brasil, houve uma troca de comando do Sionismo Europeu pelo Americano. Getúlio pagou a dívida contraída por D. Pedro I junto aos britânicos, mas logo em seguida o presidente JK foi pedir empréstimos aos americanos, contraindo uma nova dívida externa que, talvez, ainda estejamos pagando.

Após aquela reunião da Basiléia, o sionismo mostrou duas formas de ação nos países em que atuavam, ou dominavam:

Os europeus se mantiveram apenas agiotas.

Os americanos, além de agiotas, criaram uma espécie de máquina de destruição das raízes culturais dos povos dominados. Aqui, a globo é o melhor exemplo da ação americana.

Pela sua imprensa fazem todo esse estrago nos países em que agem, mas, curiosamente, tenho notado algumas ações conflitantes por aqui, pois o sionismo americano, que era dono das camisas vestidas no Cabide Brasíla, parece não ter simpatizado com o avental metalúrgico colocado lá recentemente, e que tem-se mostrado muito mais simpático aos metais de terras da européias.

Estariam os fariseus europeus retomando o Brasil como Praça Comercial deles?

Se essas suspeitas estiverem certas, podemos sonhar com a retomada das nossas raízes culturais, incentivadas anteriormente pelos europeus, mas quase totalmente destruídas pelos americanos posteriores.

Ser descendente de portugueses já dá a mim uma boa possibilidade de ter ancestralidade semita, portanto, ser Anti-Semita seria também uma chance de negar à própria origem. Não é muito lógico isso.

O Judeu é um povo como outro qualquer, provido de genialidades, ignorâncias e manias religiosas próprias.

Sou sim um Anti-Fariseu, que apenas simpatiza, levemente, com o Sionismo Europeu, já que ambos, americano e europeu, sendo fatos muito presentes no nosso cotidiano social, só nos dão a chance de escolher o dominador.

Portando, cada vez que lerem alguma citação minha referente aos Protocolos, encontrarão também o endereço desta postagem em anexo.

 

    a

Comentário (1) »

O Xote da Navegação – Chico & Einstein

    a

Não poderia começar a postagem sem pedir perdão ao Dominguinhos, dono da melodia na parceria com o Chico, pelo título do tema. Embora ela tenha sido de fundamental importância para a música, esta análise de texto é voltada mais ao diálogo que o Chico costuma ter com outros pensadores nas letras das composições, conforme citado na postagem abaixo:

http://mpbsapiens.com/einstein-mpb/

A Música:

Vídeo de Aghata40

A Letra:

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo o afazer
Me pego em sonho a navegar
    
Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação
    
Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não
     
Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz
      
Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão
     
Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás
      
No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais

 

A letra da música sugere o Chico rebobinando um dos filmes da sua vida.

Algo mais voltado às lembranças contidas em um Lenço, como única referência concreta do seu vôo abstrato. Desses que ocorrem usualmente com os poetas, um pouco antes de traduzirem o observado no vôo em versos de um poema que virará letra de música. O que é vulgarmente conhecido por Inspiração.

Nesses vôos da inspiração não cabe o corpo do poeta, só a sua Alma Poética. Uma espécie de Luminescência da Arte, que o configura em espírito, e trás com ele as informações anteriores vividas por seus sentimentos.

A grande dificuldade da crítica literária é tentar imaginar, de forma mais compreensível, como se comporta o poeta diante de tal fenômeno Metafísico. O Meta, acho impossível tentar explicar, mas o Físico, acho que Einstein colaborou muito conosco na tentativa de tradução:

Eu vejo aquele rio a deslizar
O tempo a atravessar meu vilarejo
E às vezes largo o afazer
Me pego em sonho a navegar

Uma breve descrição do momento precedente à viagem da inspiração, que é assumida no último verso.

Com o nome Paciência
Vai a minha embarcação
Pendulando como o tempo
E tendo igual destinação

Nesta estrofe Chico começa a descrever a sua nave de viagem que, pela comum movimentação de um barco nas águas, se inclina constantemente à direita e à esquerda, como se fosse o pêndulo de um relógio antigo que, como todo relógio, serve para medir um Tempo que se afigura com destino infinito.

Pra quem anda na barcaça
Tudo, tudo passa
Só o tempo não

 Aqui Chico descreve o que ocorre com o poeta navegante no relativo tempo em que dura o sonho, ou viagem, ou vôo espiritual…

Nos seus estutos, Einstein chamou um deles de O Paradoxo do Tempo, que é a explicação matemática do que posterior, ou anteriormente ficou conhecido como A Equação do Tempo de Einstein, que trata, basicamente, dos diferentes tempos de um viajante numa nave, com velocidade própria, em relação ao de um outro expectador na Terra.

Em síntese, quanto mais próxima da Velocidade da Luz estiver viajando tal nave, maior será a diferença nos tempos do viajante e do terrestre, podendo haver diferenças assombrosas, como um segundo do viajante equivaler a séculos no tempo da Terra.

Imaginando a Alma como Luminescente, podemos supô-la como essa nave viajando a alguns microns de diferença dos 300 mil km/seg. que é a da Velocidade da Luz.

É mais ou menos isso que ocorre conosco quando nos perguntamos:

- Estranho, mas parece que eu já passei por essa mesma situação com os mesmos personagens, detalhes e diálogos!

Isso, que ocorre com muitos de nós no cotidiano, pode resultar de algum sonho que tivemos durante a noite e não lembremos, ou mesmo, nesses breves “Brancos” que temos na consciência durante o dia.

De alguma forma desligamos do corpo, viajamos com a luminescência por curtíssimo tempo e retornamos à vida consciente. Essa viagem de alguns segundos é suficiente para nos levar anos adiante ou atrás, fotografarmos a cena do futuro ou do passado; e retornarmos ao corpo, para que algum tempo depois passemos pela estranha sensação de já ter vivido aquele momento.

Com os poetas isso ocorre muitas vezes e com duração cada vez maior. Alguns passam a vida inteira sem pensar no assunto, ou mesmo, com medo dele, evitam comentá-lo; mas todos têm as mesmas dificuldades para traduzir, aos Quadros da Inspiração observados, pelo usual código verbal, pois, por mais recursos semânticos que possua o poeta, os quadros sempre ficam com algumas manchas, porque o Alfabeto é muito mais comércio do que arte.

Mas temos também outros tipos de poeta que, ao contrário dos primeiros, exercitam esse dom, ou vôo, que resultam em composições cada vez mais bonitas e bem escritas, embora se assemelhem aos primeiros nas questões de não falarem sobre o assunto, escrevem algumas coisas.

Por exemplo, vejam este pensamento de Vinícius de Moraes:

..E da paixão fez-se o pré-sentimento
E do Momento Imóvel fez-se o drama…
(Soneto da Separação)

Pelo amor, o poeta desligou do corpo, viajou adiante, fotografou o Momento Imóvel, voltou e descreveu a coisa na forma de drama.

Vejam agora este outro pensamento pertencente ao Chico:

…Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito
(Tempo e Artista)

Voltando ao Xote, a equação do Einstein explica o motivo de tudo passar pela barcaça do poeta, só o tempo não.

Passam paisagens furta-cor
Passa e repassa o mesmo cais
Num mesmo instante eu vejo a flor
Que desabrocha e se desfaz

Nesta estrofe a nave do poeta mostra alguns contrastes quanto à velocidade pois, a altíssimas velocidades, em se tratando de cor, só se enxerga o branco, que já surge nas baixas velocidades de um Disco de Newton logo após ele tornar-se furta-cor. O que contrasta com o desabrochar e desfazer da mesma flor, que só é possível numa altíssima velocidade, embora a descrição do Chico dê uma boa idéia dos tempos relativos com o passar e repassar do mesmo cais.

Essa é a tua música
É tua respiração
Mas eu tenho só teu lenço
Em minha mão

Aqui fica a dúvida: – Com quem o poeta está conversando, já que confessou ter-lhe restado apenas um Lenço como referência anterior à viagem?

- Qual seria o personagem capaz de dar ao poeta todo aquele referencial? 

    
Olhando meu navio
O impaciente capataz
Grita da ribanceira
Que navega pra trás

Nesta estrofe entramos na relatividade visual das coisas observadas por distintos pontos. Quando estamos num veículo, que só sabemos estar em movimento porque ligamos e dirigimos, para nós, tudo o que se passa fora dele é que se move, enquanto, para tudo que se encontrar fora, é o veículo nosso quem se move. Isso explica o porquê da “ribanceira que navega pra trás”, já que há uma dupla visão do movimento:

A do capataz gritando para o navio, que se move à frente, e a do ocupante do navio, que observa a ribanceira se movendo para trás.

Numa composição anterior, Morro Dois Irmãos, Chico já ensaiara alguma coisa de tal relativismo neste pensamento:

É assim como se o ritmo do nada
Fosse sim todos os ritmos por dentro
Ou então como uma música parada
Sobre uma montanha em movimento

       
Continuando com o Xote:

No convés, eu vou sombrio
Cabeleira de rapaz
Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais

Nesta estrofe, Chico encerra sugerindo ter viajado num movimento anti-horário, já que a cabeleira do poeta navegante pertenceu a ele nas épocas  anteriores à atual da viagem, quando era apenas um rapaz preocupado com o futuro próprio, e ainda aprendiz das viagens que, já bem mais velho, um dia escreveria isto:

No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito.
(Tempo e Artista)
     
…Pela água do rio
Que é sem fim
E é nunca mais…

Se, para o Chico, o silêncio em entrevistas sempre foi um grande aliado, imaginem o quanto ele gostaria de falar sobre o assunto?

Sua obra é recheada de músicas, cujos assuntos sempre se completam por outras posteriores. A relação entre O Xote da Navegação e Tempo e Artista é apenas um dos casos, já que todo poeta, nunca estando satisfeito com o que acabou de escrever, para a nossa sorte continua tentando se explicar, ainda que apenas consigo mesmo.

       a

Comentários (3) »

O Simbolismo e a Poesia

    a

“O Simbolismo está para a Poesia assim como o Rap está para a MPB, o Rock, o Jazz…”

Por menos que se goste de admitir, qualquer Presente é um resultado da sedimentação do Passado, onde o suposto Futuro será apenas as novas trajetórias que o Homem dará às interpretações do que já fez.

Assim ocorreu com a Versificação, também conhecida por Ciência Poética, que teve como base organizada o Classicismo. Esse foi o grande Movimento Literário, já que as demais manifestações posteriores foram apenas sub-movimentos, que concordando ou discordando dos parâmetros da base ancestral, se tornaram apenas rótulos de costumes em épocas distintas.

Qualquer descrição, escrita ou falada,  é apenas um resultado próprio das interpretações que tenhamos sobre qualquer coisa. O estudo dessas descrições resultou tanto nas bases da Versificação quanto nas da Gramática.

Ambas, que originalmente apenas serviram para explicar o que fazíamos com as nossas descrições, ao longo dos anos foram adotadas como Código de Regras, mas não podemos nos esquecer que surgiram apenas como consequências, assim como qualquer Filosofia nasce de semelhantes idéias que um grupo social tenha sobre algo. São meros Resultados.

Desses sub-movimentos, dois foram mais significativos para a trajetória dos poemas, por terem resultado de entendimentos entre Poetas e Gramáticos: Trovadorismo e Parnasianismo.

Por terem ganho tal importância dentro da literatura, acabaram por se tornar bases semelhantes ao Classicismo, gerando novas interpretações concordantes e discordantes nos posteriores sub-sub-movimentos.

A proposta européia original do Parnasianismo era a do chamado Verso Livre, mas aqui no Brasil a idéia foi prudentemente mais ampla ainda, pois fez surgir o Poeta Livre, que podia fazer com o seu poema o que bem entendesse nos versos.

Embora os termos Prudência e Liberdade se afigurem como contrastantes, por aqui foi a forma mais sábia, vinda de novos entendimentos entre poetas e gramáticos regionais, bastantes a dividir os nossos poetas em dois tipos:

1- O poeta era livre para escrever o seu poema sem qualquer regra de Versificação ou Gramática.

2- O poeta era livre para construir o seu poema baseado em todas as regras negadas pelo primeiro tipo.

Essa prudência nos entendimentos foi a grande responsável pela continuidade do que a Ciência Poética observara no verso desde o seu surgimento, e com isso a nossa MPB pôde seguir o seu caminho mais próximo do entendimento popular ao fundir sensibilidade e objetividade nos poemas das músicas.

Todavia, o primeiro tipo de poetas persistiu, numa época em que o mundo começava a sofrer a manipulação artística, por conta da ação do sionismo nas divulgações da sua imprensa, o que resultou num novo sub-sub-movimento, só que desta vez pré-meditado, chamado Imagismo.

Esses novos Poetas Imagistas foram os responsáveis pelos posteriores caminhos do verso no Simbolismo, norteado, ou desnorteado, por algumas atitudes sugeridas, já que o termo Regra era proibitivo:

 - negar qualquer lógica decorrente da aplicação do Racionalismo na realidade.

- valorizar o subjetivismo do poeta

- valorização do Eu sobre o Você, inexistindo o Nós

- o homem valendo mais pelo espírito do que pela existência física.

-  sonho e loucura acima da razão

-  evolução espiritual encontrada fora do planeta

-  sendo o corpo uma espécie de prisão da alma, vale mais a morte

- a metáfora e o símbolo norteando a razão

-* uso formal de aliteração e assonância nas palavras do verso

-* o som natural do verso como música própria

- busca da Poesia Pura pela subjetividade de conceito e lógica

- mostrar a vida pelo seu lado degradante

-* - Aliteração e Assonância são truques sonoros usados pelos poetas desde antes de Cristo, portanto não era novidade alguma o seu uso.

-* - o Som Natural do Verso existe desde o dia em que o deus grego Apolo, numa das declamações dos seus poemas narcisistas, escutou um ouvinte batendo os pés de forma fraca ou forte, em comcordância com as sílabas átonas e tônicas das palavras declamadas, o que deu origem tanto ao Ritmo Poético quanto aos Pés de Verso nas bases Classicismo.

Só coloquei alguns dos elementos apenas supostos pelo sub-sub-movimento, no qual se percebe nitidamente a busca pela perda da razão responsável pela manutenção do Homem na forma de sociedade.

Embora tudo isso pareça loucura de bêbado, as razões para querer se dar à Poesia, que resulta em raíz cultural de qualquer povo, tais caminhos distantes da lógica social e cotidiana, por ter vindo de manipulação pré-meditada, acabou transformando, à partir do Simbolismo, todas as demais tentativas posteriores como sub-sub-sub-movimentos. Vejam porque:

A fim de destruir todas as forças coletivas, exceto as nossas, supriremos as universidades, primeira etapa do coletivismo, e fundaremos outras com um novo espírito. Seus reitores e professores serão preparados secretamente para a sua tarefa por meio de programas de ação secretos e minuciosos, dos quais se não poderão afastar uma linha. Serão nomeados com uma prudência muito especial e serão inteiramente dependentes do governo.

Excluimos do ensino o direito cívico, assim como tudo o que concerne às questões políticas. Essas matérias serão ensinadas a algumas dezenas de pessoas, escolhidas por suas faculdades eminentes. As universidades não devem deixar sair de seus muros fedelhos que formem projetos de constituição, como se compusessem comédias ou tragédias, e que se ocupem de questões políticas que os seus próprios pais nunca entenderam.

 O mau conhecimento que a maioria dos homens têm das questões políticas faz deles utopistas e maus cidadãos; podeis verificar pessoalmente o que sua educação geral fez deles. Foi preciso que introduzíssemos em sua educação todos os princípios que tão brilhantemente enfraqueceram sua ordem social. Mas, quando estivermos no poder, afastaremos da educação todas as matérias de ensino que possam causar perturbação e faremos da mocidade crianças obedientes às autoridades, amando quem os governa, como um apoio e uma esperança de tranqüilidade e paz.

Substituiremos o CLASSICISMO, assim como todo o estudo da história antiga, que apresenta mais maus exemplos do que bons, pelo estudo do programa do futuro.

Riscaremos das memórias dos homens todos os fatos dos séculos passados que não forem agradáveis, somente conservando entre eles os que pintem os erros dos governos …

…Em uma palavra, sabendo, pela experiência de muitos séculos que os homens vivem e se dirigem pelas idéias, que essas idéias somente são inculcadas aos homens pela educação, ministrada com êxito igual em todas as idades por processos diferentes, bem entendido, absorveremos e adotaremos em nosso proveito, os derradeiros clarões da independência de pensamento, que de há muito já dirigimos para as matérias e idéias de que carecemos. O sistema de repressão do pensamento já está em vigor no método denominado do ensino pela IMAGEM, que deve transformar os homens em animais dóceis, que não pensam e esperam a representação das cousas e IMAGENS, a fim de compreendê-las… “.

 

Ver também: http://mpbsapiens.com/o-judeu-e-o-fariseu/

Esse texto foi escrito, por volta de 1898, numa reunião ocorrida entre dois lados conflitantes do sionismo internacional: Europeu e Americano; num documento com 24 atas chamado Os Protocolos dos Sábios do Sião, cuja parte que destaquei consta na ata, ou capítulo XVI, especificado acima com os nomes:

As universidades tornadas inofensivas - O classicismo substituído - A independência do pensamento. O ensino pela imagem“.

Esse povo, ou polvo, dócil que escreveu isso é o atual proprietário das agências internacionais de notícias, que possui tentáculos próprios em cada país em que atuam.

A manifestação literária, ocorrida no Brasil após essa do confronto entre o Parnasianismo e o Simbolismo, cujas origens suponho agora terem ficado mais claras, como derivação do Imagismo Programado; foi a da Semana Literária de 1922, efetuada em São Paulo, que recebeu também o apelido de Semana Modernista de 22.

Nela tivemos a presença de poetas já consagrados e ainda por se consagrar, dentre os quais destaco Manoel Bandeira, cujas obras anteriores já haviam mostrado uma realidade pré parnasiana; abraçando, sabe-se lá por quais motivos, às causas mais Imagistas para os caminhos do verso; noutro sub-sub-sub movimento literário chamado Modernismo.

Como, graças a Einstein, tudo é relativo, aquela reunião de literatos, quase todos portadores de “auto-estima com nervo exposto”, resultou também em poetas modernistas com valores inquestionáveis e benéficos para a nossa literatura posterior, onde Carlos Drummond de Andrade que, por sinal, nem participou pessoalmente daquela festa toda, é o melhor exemplo, conforme justificaria, posteriormente, na obra Claro Enigma; onde dividiu o poeta em Ser e Parecer, com o primeiro se referindo à essência poética do artista, e o segundo ao mesmo artista tendo que se virar para manter a obra viva.

http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-um-claro-enigma/

Após essa Semana de 22 só voltamos a ter uma nova variação imagista na década de 50 do século passado, com a chegada do Concretismo, cujo nome mais forte era o de Ezra Loomis Pound, um remanescente da ancestral batalha Parnasianismo x Simbolismo, ou Imagismo, fica ao gosto do leitor.

Uma nova onda de “sabedoria poética” assolou os nossos meios literários até o final dos anos 60 do mesmo século. Na verdade, aquela sabedoria toda se resumia mais à ação do tablóide a folha de São Paulo, mas, como tudo ainda era relativo, o Concretismo foi capaz de inspirar um e, na minha visão, somente um, nome de real valor para a nossa literatura: Ferreira Gullar; mais especificamente na obra Traduzir-se.

http://mpbsapiens.com/traduzir-se/

Portanto, caros estudantes de Letras, esse é um outro lado desse Simbolismo sobre o qual têm me perguntado bastante nos últimos dias.

Como todas as regras da Versificação foram abolidas por ele, inclusive a das catorze sílabas poéticas como o limite entre a Poesia e a Prosa, se vocês estudarem um pouquinho de Aliteração, Assonância e Rimas na hora em que estiverem construindo o poema, esqueçam de Métrica, Ritmo Poético, Estrofação…

http://mpbsapiens.com/aliteraçao/
http://mpbsapiens.com/assonancia/
http://mpbsapiens.com/as-rimas/

 

Se, por ventura, alguns de vocês gostarem de exemplos aproximados do Simbolismo na MPB, pesquisem as músicas Não Sonho Mais, Morro Dois Irmãos, A Ostra e o Vento, Sonhos, Sonhos São, todas do Chico Buarque, e Janelas Abertas 2, do Caetano Veloso; essas sim, compostas por poetas de reconhecido valor na literatura brasileira.

http://mpbsapiens.com/caetano-janelas-abertas/ 

 

Boa Sorte.  PLIM – PLIM!

     a

Nenhum comentário »