Chico e a Palavra
Palavra boa Não de fazer literatura, palavra! Mas de habitar Fundo O coração do pensamento, palavra!
Uma das coisas que mais me fascinam, no estudo da obra do Chico na MPB, é o compromisso que ele tem com o significado da palavra usada.
Embora sejam raríssimas as ocasiões em que tenha fugido um pouco da responsabilidade gramatical, como o ocorrido em Sem Fantasia e Tatuagem, quando misturou conjugações em Terceira e Segunda Pessoa do Singular, Chico sempre buscou fidelidade integral, ou “entregal” à Etmologia.
Tendo já um texto original, talvez, acima dos fundamentos da construção poética, na hora de lapidar a gema com rimas, ritmos e metragens, sempre busca palavras, preferencialmente populares, pertencentes aos já consagrados históricos dos textos desenvolvidos.
Vejam o zelo com que ele tratou, na obra inteira, o termo Coitada, no feminino. Por originar de Coito, o uso do termo implica em muito mais responsabilidade do que normalmente temos ao utilizá-lo como sinônimo de infeliz, principalmente, se usado no masculino.
Pode haver até uma possibilidade, mínima, de eu estar enganado, mas tal termo só foi usado por ele em quatro ocasiões:
No Masculino, só em uma, em O Malandro nº 2:
O coitado Foi encontrado Mais furado Que Jesus…Chamo a atenção para a fidelidade etmológica dos elementos da rima Coitado-Furado. Por maior que seja a baixaria imaginável, o texto apresentou continuidade bem objetiva.
No Feminino, em três músicas:
Umas e Outras:
Mas toda santa madrugada Quando Uma já sonhou com Deus E a Outra triste namorada Coitada já deitou com os seus…No texto da música, Uma é quase angelical e Outra é prostituta
Geni e o Zepelim:
Mas de fato logo ela Tão coitada, tão singela…No texto da música, Geni “deu-se assim desde menina”.
A Rosa:
E chega nas altas da madrugada Coitada, trabalha de plantonista…Neste caso chamo a atenção para a complicidade textual dos termos Coitada e Plantonista. Não deixa de ser uma qualidade das prostitutas fazer plantão tanto em bordel quanto em ruas e avenidas.
Na música, Com Açucar, Com Afeto, em que a mulher fala das andanças do homem no cotidiano fora de casa, ressalto o fragmento:
Vem a noite, mais um copo Sei que alegre “ma non troppo” Você vai querer cantar…A expressão Allegro Ma Non Troppo, na teoria da Música, designa a um Andamento Musical, que significa um Allegro (outro tipo de Andamento) menos veloz.
Além de lançar mão de um trocadilho, ao transformar o musical Allegro no popular Alegre, o significado da expressão musical italiana está intimamente ligado à ação do personagem da música, que, já à noite, tenta ”moderar” a velocidade da farra para não voltar logo para casa.
Outro caso interessante ocorre na música A Ciranda da Bailarina:
Confessando bem Todo mundo faz pecado Logo assim que a missa termina…Muitas outras formas de gerúndio poderiam ocupar o lugar de “Confessando”, mas o cotidiano religioso do catolicismo não admitiria a troca, pois o “Confessionário”, além de ser normalmente evitado pela maioria dos fiéis, que é pecadora, para a criança, que é quem canta a música, trata-se de uma verdadeira sessão de tortura.
Quando Chico escolhe as palavras que usará nas letras das músicas, o faz com o incomparável zelo que o difere da maioria dos compositores da MPB, portanto, Caetano Veloso se enganou ao escrever, em sua homenagem, a música Festa Imodesta, que diz:
E acima da Razão a Rima…A coisa não é bem assim!


































