Archive for fevereiro, 2010

Vai Passar e o Chico Político

 

Muito já se comentou que parte da obra do Chico estivesse relacionada à 
política. É preciso ter em vista que Chico foi filho de um consagrado 
Historiador Social, Sergio Buarque de Hollanda, quando sabemos que a 
maioria de nós, em alguma fase da vida, buscou dar continuidade às atitudes 
dos nossos pais, logo, creio que certas músicas dela não estivessem próximas 
do significado de Política, mas mais adequadas ao de Sociologia, posto que as
letras do Chico sempre tenderam à tradução dos nossos comportamentos 
pessoal e social.
 
Duas das composições mais consagradas por tal engano conceitual foram 
Apesar de Você e Vai Passar. Segundo a imprensa, e sabe-se lá quem mais, 
Apesar de Você foi uma espécie de homenagem ao ex-presidente Médici nos 
anos 70, mas, segundo uma crônica do Mário Prata, jornalista e amigo do 
Chico, houve este episódio:
 http://mpbsapiens.com/apesar-de-voce-analise-de-texto/
No princípio dos anos 70, em algum show não específico do Chico, a multidão
insistia que ele cantasse Apesar de Você e ele se recusava. Em dado momento
houve um silêncio na platéia. Foi quando uma senhora, posicionada numa 
fileira próxima ao palco, bradou a Chico:
 
- Seja corajoso meu filho, cante!
 
Tal senhora era ninguém menos do que Dona Maria Amélia, mãe dele. Apesar
Dela, Chico preferiu não cantar a música, mas, mesmo não cantando, após o 
show foi detido e levado para interrogatório em algum distrito adjacente.
 
Em tal interrogatório perguntou:
 
 - Vocês entendem agora o porque da letra? Emendando em seguida:
 
 - Ela sempre foi assim, desde que eu era criança, e desconfio até que muito 
do que escrevo hoje em dia se deve à influência repressiva dela na minha 
educação!
 
Comovidos com a situação familiar do Chico, os interlocutores encerraram o 
interrogatório por ali mesmo e ele pode seguir o caminho sossegado.
 
Além de escrever bem como poucos, Chico sempre foi um gozador nato, e o 
episódio acima, descrito por Prata, foi apenas mais um exemplo da sua 
agilidade mental na criação das histórias musicais que povoaram as nossas 
cabeças por anos.
 
Existe um pensamento do jogador, Robinho, que se encaixa muito bem ao 
comportamento do Chico como compositor musical:
 
 - Voltei a atuar no Brasil para recuperar a alegria de jogar futebol!
 
Chico é com a Palavra o mesmo que Robinho é com a Bola de Futebol: 
Precisa da Alegria para traduzir pelas palavras às nossas emoções 
comportamentais. Suponho até que escreva sorrindo um drama 
comportamental cujo normal resultado em nós seja o choro.
 
Com a filosofia, resultante em nós, Chico tem a mesma responsabilidade do 
Robinho, cujo drible resulte ou não em gol comemorado:
 
Ambos fazem as suas partes, independente do que sintamos, pois basta 
estarem felizes com o que fazem para que nós sejamos os premiados.
 
Quanto ao Vai Passar foi um samba enredo gravado pelo Chico muitos anos 
depois de feita a melodia que, segundo o parceiro Francis Hime, começou a 
ser elaborada nos primeiros ensaios das parcerias dele com o Chico, em 1972 
com a composição Atrás da Porta.
 
Não se pode precisar a época em que a letra foi escrita.  De 72 a 84, 
conforme consta oficialmente no songbook da cia. das letras, que é muito 
suspeito pela série de adequações dadas à cronologia da obra. Cabe qualquer 
época, inclusive aquela em que o Chico escreveu o seu primeiro livro oficial: 
Fazenda Modelo – uma novela pecuária.
 http://mpbsapiens.com/fazenda-modelo-novela-pecuaria/
A letra de Vai Passar é uma espécie de enredo sobre a História sócio 
econômica do Brasil nos anos 50, conforme o próprio Chico sugeriu em 
entrevista, ao associá-la à letra de Dr. Getúlio, cuja melodia, pertencente a 
Edu Lobo, também lhe foi entregue  bem antes do samba ser oficialmente 
gravado.
 
O final dos anos 60 e começo dos 70 foi um período muito conturbado. 
Qualquer coisa que se gravasse, na época, ao invés de ser associada à 
essência do que Chico tentou transmitir na peça Roda Viva, era 
automaticamente voltada contra os militares pelas conveniências da imprensa.
 http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/
Esse foi o motivo pelo qual, acredito, tanto Vai Passar quanto Dr. Getúlio 
terem ficado tanto tempo à espera da gravação oficial.
 
Podem reparar que Vai Passar só apareceu no mesmo LP que continha Pelas 
Tabelas, essa sim, com alguma aparência política, por ser baseada no 
movimento Diretas Já, em que a letra mostra Chico com todas as suas 
indecisões: “Claro que ninguém se toca com minha aflição”. Apoiar ou não 
àquela folia democrática, elaborada pela Turma Invisível e propagada pela 
Turma Visível, ambas da globo?
 http://mpbsapiens.com/pelas-tabelas-analise-de-texto/
Qualquer um que se disponha a estudar um pouco da História Econômica do 
Brasil verá que a nossa primeira dívida externa foi contraída por Pedro I junto
à casa britânica dos Rotschild. Verá que essa dívida só foi paga integralmente 
pelo Getúlio 130 anos após, ficando o Brasil, por pouco tempo, livre da 
agiotagem dos credores internacionais.
 
Essa liberdade econômica, que nos permitiu até emprestar dinheiro aos demais
países sul americanos na época, teve vida breve, pois ao assumir o poder, JK 
contraiu novas dívidas, com credores americanos, tanto para a construção de 
Brasília quanto para justificar a abertura das portas do país para a entrada da 
multinacional indústria automobilística, cujos carros necessitavam de asfalto.
 
Não tínhamos uma realidade automobilística notável. Nossos veículos eram 
todos importados, accessíveis somente às classes média e alta da sociedade. 
Por outro lado, tínhamos dois outros sistemas de transporte em franca 
evolução: Ferroviário e Hidroviário. Não precisa ser muito velho para lembrar. 
Eu mesmo tinha o hábito de brincar de nadar, no rio Tietê, ao redor das 
embarcações, cargueiras ou de passageiros, que passavam atrás do clube
Corinthians e iam descarregar no porto da Ponte Grande, junto ao Clube de 
Regatas Tietê.
 
A ferroviária Estação da Luz ficava, e ainda fica, logo ao lado, prontinha para 
receber cargas ou passageiros dos barcos e remetê-los aos respectivos 
destinos: Tanto ao interior quanto ao Porto de Santos, quer para embarcarem 
como exportações, quer para gozarem férias no litoral.
 
Poderíamos até demorar um pouco mais do que os paises mais “civilizados” para 
enveredarmos pelas trilhas da Indústria Automobilística, mas o faríamos com a 
direção do país nas próprias mãos, e nunca à mercê dos grandes agiotas 
internacionais que nos manipulam a Cultura e a História até hoje por seus 
veículos de comunicação.
 
Chico, alguns anos mais velho do que eu, certamente testemunhou a tudo isso 
ocorrendo em São Paulo. Tanto o fez, que a composição, que o mesmo 
reconheceu como primeira do seu estilo contestador foi Pedro Pedreiro, que 
retrata parcialmente os resultados daquela arrazoada migração do norte e 
nordeste para São Paulo no princípio dos anos 60.
 
Em síntese, Fazenda Modelo conta a história de Juvenal, o Bom Boi, que 
resolveu construir no plano alto central da fazenda a sede dos seus sonhos: A 
Juvenópolis, mas para atingir tal meta teve que se sujeitar aos chamados 
“Invisíveis”, cujos nomes começavam todos pela letra K. Klaus, Kleber, 
Krieger, Katazan etc.
 
Acho que esteja meio óbvia a associação do presidente Juscelino Kubitscheck
 ao Juvenal, dos Kás Invisíveis, presentes em Fazenda Modelo: J + K; bem 
como Brasília ser a Juvenópolis do plano alto central da fazenda. É muito 
difícil associar?
 
Vai passar
Nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade
Essa noite vai se arrepiar
 
Na Velha Cidade do Rio de Janeiro os desfiles das escolas de samba 
ocorriam na Avenida Presidente Vargas, cujo calçamento era feito em
paralelepípedos (Oh, quanta coincidência!).
 
Ao lembrar
Que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
 
Muitos sambas se perpetuaram, mas muita gente sangrou para que 
sambássemos com os pés livres, ao mesmo tempo em que muitos ancestrais 
nossos “sambaram” nas mãos dos credores internacionais. Mas, quando?
 
Num tempo
Página infeliz da nossa história
Passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
 
A forma mais fácil de desbotar a memória das futuras gerações é confundir a 
sua trajetória do passado. O que começou a ocorrer conosco mais fortemente 
na segunda metade da década de 50 com a chegada dos novos moldes 
americanos da imprensa.
 
Vejam o que Chico escreveu em Dr. Getúlio:
 
Lutando contra grupos financeiros
E altos interesses internacionais
 
Agora vejam como ele tratou do mesmo assunto, continuando em Vai Passar:
 
Dormia
A nossa pátria-mãe tão distraída
Sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
 
Notem a interessante coincidência da Juvenópolis, de Fazenda Modelo, 
com o “posterior” Vai Passar:
 
Seus filhos
Erravam cegos pelo continente
Levavam pedras feito penitente
Erguendo Estranhas Catedrais
 
A Nova História, com os novos “Tapa Olhos” da imprensa, estava resumindo 
cada vez mais as nossas raízes culturais ao Carnaval, uma fértil reserva 
comercial que atuava no mesmo povo que construiu Brasília e foi transferido 
para São Paulo para justificar parcialmente ao atual caos habitacional dessa 
Orgulhosa Megalópole. . Assim:
 
E um dia afinal
Tinham direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia
Que se chamava carnaval
O Carnaval, o carnaval
 
Personagens da nossa História se tornavam elementos banais dessa nova raiz 
cultural desta forma:
 
Palmas pra ala dos Barões Famintos
O bloco dos Napoleões Retintos
E os Pigmeus do Bulevar
 
Tivemos na História os riquíssimos Barões do Café ficando duros subitamente 
por conta das especulações financeiras do produto por mãos de financistas 
do capital externo.
 
Quando Getúlio chegou ao poder em 1930, o fez com o apoio dos chamados 
Integralistas, cujo extremo nacionalismo lhes rendeu o apelido de Novos 
Napoleões, que Chico, por questões de rima, chamou de Napoleões Retintos.
 
Pigmeus do Bulevar foi um apelido que Chico deu aos chamados Novos Ricos
que habitaram as residências luxuosas das grandes avenidas (Bulevar) à partir 
dos anos 40. Grandes fortunas nas mãos de Pigmeus Sociais.
 
Meu Deus vem olhar
Vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade
Até o dia clarear
Ai que vida boa olerê
Ai que vida boa olará
O estandarte do Sanatório Geral
Vai Passar.
 
Tudo transformado numa Festa de Sonhos, tão atingíveis quanto o significado 
integral dos termos Liberdade, Lei, Ordem…; comuns ao Sanatório Geral do
Carnaval.
 
Vai Passar foi um peculiar estudo da História Recente do Brasil, que apenas 
mostrou estar a ilusão social acima dos presidentes e seus respectivos partidos
políticos, justificados pelos votos que os elege e alimentados pelas próprias
trajetórias posteriores às urnas.
 
Ando com minha cabeça já Pelas Tabelas
Claro que ninguém se toca com minha aflição…
 

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