Archive for novembro, 2009

Os Inconfidentes (Cecília Meireles)

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O quarto Lp, aquele primeiro com o selo Philips, contém a composição 
chamada “Os Inconfidentes” em que Chico apenas musicou poemas de 
Cecília Meireles, a exemplo do que já fizera com João Cabral de Melo Neto 
em Morte e Vida Severina.
http://mpbsapiens.com/funeral-de-um-lavrador-analise-de-texto/
Infelizmente, e a exemplo de algumas obras anteriores, não dispomos de um
vídeo no yotube para melhor ilustrar a esta postagem.
 
Toda vez que um justo grita
Um carrasco o vem calar
Quem não presta fica vivo
Quem é bom mandam matar
 
Foi trabalhar para todos
E vêde o que lhe acontece
Daqueles a quem servia
Já nenhum mais o conhece
Quando a desgraça é profunda
Que amigo se compadece?
 
Foi trabalhar para todos
Mas por ele, quem trabalha?
Tombado fica seu corpo
Nessa esquisita batalha
Suas ações e seu nome
Por onde a glória os espalha
 
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
Que comandava este mundo
De cima da montaria
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
No entanto à sua passagem
Tudo era como alegria
Por aqui passava um homem
E como o povo se ria
Liberdade ainda que tarde
Nos prometia
 
Repete a Primeira Estrofe
 
Como brincaria o Vinícius, com o termo “Libertas Quae Sera Tamen“, que
foi o lema de Tiradentes e consta na bandeira de Minas Gerais: 
 
 - Libertas que será também!
 
 - Vai me dizer que você nunca pensou ser esse o significado da frase antes de
saber do Liberdade Ainda Que Tardia?
 
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Nicanor – Análise de Texto

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Chico dificilmente começa e encerra a um assunto em uma só composição
musical. Muitas vezes, um mesmo assunto, requer várias delas para que todos
os personagens daquela novela específica da obra, que é o assunto, possam
se manifestar com justiça poética no enredo.
 
Essa idéia deve ficar mais forte ainda quando um assunto foi iniciado por uma
composição que, originalmente, não tenha sido dele. Foi o que suspeito ter
ocorrido com a canção Minha História, que é uma versão da original
Gesubambino, pertencente a dois colegas italianos, Dalla e Palotino.
http://mpbsapiens.com/minha-historia-analise-de-texto/
Quem era aquela mulher do porto em Minha História?
 
Uma Madalena Foi Pro Mar que estava recebendo o troco do homem?
http://mpbsapiens.com/madalena-foi-pro-mar-analise-de-texto
Afinal, quem foi o tal do Nicanor, que sequer mereceu um vídeo no yotube
para se tornar imortal?
 
Onde-andará Nicanor?
Tinha mãos de jardineiro
Quando tratava de-amor
Há tanta moça na-espera
Suas gentis primaveras
Um desperdício de flor
 
Onde-andará Nicanor?
Tinha-amor pro porto-inteiro
Um peito de remador
Ah, quem me dera-as morenas
Pra consolar suas penas
Para-abrandar seu calor
 
Olha elas sempre-aflitas
Bata-o vento ou caia chuva
Cada uma mais bonita
E mais viúva
Todas elas fazem ninho
Da saudade-e da virtude
Mas carinho
Queira Deus que Deus ajude
 
Onde-andará Nicanor?
Tinha nó de marinheiro
Quando-amarrava-um amor
Mas há recantos guardados
Nos sete mares rasgados
Sete pecados tão bons
Onde-andará Nicanor?
 
Mais adiante, a obra ganhará uma representante, mais gabaritada do que a 
Madalena, para fazer frente ao Nicanor: A Rosa, que travará com ele uma 
interessante guerra de milongas em A Mulher de Cada Porto. 
 
Na obra, um personagem sempre tem o seu ídolo, com comportamento inverso
ao dele. As duas mulheres de Umas e Outras querendo trocar de identidade. A 
Penélope se vingando do Ulisses, futuramente pela Rosa, que jamais cantaria 
Com Açúcar Com Afeto. 
http://mpbsapiens.com/umas-e-outras-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/ulisses-o-conto/
http://mpbsapiens.com/com-acucar-com-afeto-analise-de-texto/
O personagem de Você Não Ouviu se vingando por Nicanor, que jamais 
cantaria Madalena Foi Pro Mar… Enredos sociais enredados: 
http://mpbsapiens.com/voce-nao-ouviu-analise-de-texto/
…Um mundo-e dentro-um mundo que me leva…(Tanta Saudade)
 
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Onde É Que Você Estava – Análise de Texto

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Esta composição mostra o Chico reencontrando alguém importante após 
longo desencontro. Leva jeitão de mulher interesseira, mas pode muito bem 
ser algum quase parceiro musical. Também não se pode descartar a uma
possibilidade dele estar conversando com a própria MPB.
 
Hoje eu tenho a minha Lira
Tenho paz não admira
Que você venha me procurar
Os meus males são pequenos
Vivo bem não é pra menos
Que você vem me encontrar
Mas quando eu tanto precisava
Meu amor como é que é
Onde é que você estava       Bis
 
Pelas tardes sempre em vão procurei
Fiz alarde da paixão que penei
Pelas ruas tortas
Que eu percorria 
Vi bater as portas
Vi morrer os dias
Pelas noites sem luar eu errei
Pelas tantas da manhã eu cansei
Não restou mais nada
Das lembranças minhas 
Nas encruzilhadas
Nem nas entrelinhas
 
Mas agora eu tenho a lira 
(Repete o resto da primeira estrofe)
 
Sempre é bom lembrar o significado do termo Lira na trajetória de um poeta,
pois a Lira é também a sua antologia poética, portanto, o poeta está se
queixando do súbito interesse de alguém por ele, menosprezado quando ainda
não possuía a sua antologia própria e oficial.
 
Sugiro que leiam novamente o texto da composição Agora Falando Sério, e
perceberão que esta apenas continua um papo que pode ter nascido em
Sabiá, por exemplo. Basta comparar o que foi escrito na segunda parte da
música com o que já foi dito antes nessas outras músicas:
http://mpbsapiens.com/agora-falando-serio-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/sabia-analise-de-texto/
Vou voltar
Sei que ainda vou voltar
Não vai ser em vão
Que fiz tantos planos 
De me enganar
Como fiz enganos
De te encontrar
Como fiz estradas
De me perder
Fiz de tudo e nada
De te esquecer.
 
À partir disso podemos considerar, de sobremaneira, à possibilidade de Chico
ter conversado com a MPB, quer na forma de poemas, quer na de melodias,
semelhante ao que suspeitei ter ocorrido em Benvinda, com a falta de uma
dessas bases para se construir uma composição musical.
http://mpbsapiens.com/benvinda-t/
Muitas vezes vem à cabeça do compositor musical uma letra desacompanhada
de melodia, outras tantas ocorre o contrário, vindo a melodia mas não
vindo o assunto. Com Chico, o mais provável é ocorrer o primeiro caso, e 
diante de um possível surto de criação, em que tivesse vindo uma soma
considerável de melodias sem motes, ele tivesse extraído o mote justamente
da falta de motes ou da sobra de melodias.
 
Pelo fato desta composição não ter sido gravada em nenhum dos Lps oficiais
do Chico, por volta de 1969, surgindo apenas na coletânea Os Grandes
Sucessos de Chico Buarque, Volume 3; gravada em 1971 com o selo Premier;
infelizmente não dispomos de um vídeo adequado, portanto fico lhes devendo
o dito cujo.
 
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Agora Falando Sério – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/minha-historia-analise-de-texto/
 
Quando Chico deixou a Itália e voltou para o Brasil, tencionava manter-se
exilado, já que o seu exílio interior começara ainda por aqui, bem antes de
torná-lo oficial com a viagem à Itália.
http://mpbsapiens.com/sem-fantasia-auto-exilio-analise-de-texto
As razões que tinham causado à fuga para o seu interior, persistiam por aqui.
Não haviam sumido, pelo contrário, aumentado ao se estenderem à MPB de
forma mais acintosa, desrespeitando até a uma possível ética, que havia entre
os compositores musicais de então.
 
A palavra de ordem era Engajamento. Chico já demonstrara anteriormente
não gostar de se envolver com tais movimentos “populares”. Participara da
chamada Passeata dos 100 Mil, em 1968, já de forma forçada, e ao voltar
percebeu que a coisa havia piorado, pois novos grupos, sociais ou musicais,
exigiam que ele tomasse alguma posição menos neutra diante dos quadros.
 
Exigia-se dele uma postura mais Socialista, o que interiormente o desagradava,
pois ele sabia bem dos motivos que o obrigaram a viajar para a Itália, porque
além da fuga pelo exílio interior, tal viagem se prestara também à troca de
gravadoras, de RGE para Philips, cujos trâmites exigiam dele muito mais
atenção Capitalista do que Socialista. Tudo aquilo era uma grande mentira,
uma festa, um faz de conta; e ele reagiu assim:
 
 Vídeo de alineregis
 
Agora falando sério
Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
Um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver banda passar
          
Agora falando sério
Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
C´o as flores do meu quintal
O amor-perfeito traindo
A sempre-viva morrendo
E a rosa cheirando mal
      
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
O síndico do meu tédio
Pedindo para eu cantar
      
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério
     
Agora falando sério
Preferia não falar
Falando sério
Falando sério…
     
A imprensa, pertencente aos seu patrões das gravadoras, incitando o povo
contra o governo militar, torcendo os significados das letras de composições
como Disparada, por exemplo, e Chico preocupado com o sumiço da
Banda e do Realejo cotidiano cultural paulistano.
http://mpbsapiens.com/a-banda-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/o-realejo-analise-de-texto/
A Tropicália falando do monumento no Planalto Central do país, com novas
tentativas de arranjos musicais, e Chico cantando Carolina, na ultrapassada
forma de Samba-Canção. No fundo, aquela posição contrastante dele, diante
das novas “tendências musicais” fomentadas pela imprensa, era uma última 
tentativa de não se perder as raízes culturais brasileiras, que permitiram até à
MPB atingir tamanha popularidade:
http://mpbsapiens.com/carolina-t/
Eu quero cantar o Amor
Antes que o Amor Acabe.
http://mpbsapiens.com/amanha-ninguem-sabe-analise-de-texto/
 
Pouco importava o que ele já dissera anteriormente, como nos versos acima.
A ordem era mudar para a chamada Vanguarda e desconsiderar à
Retaguarda, mas isso era uma insensatez, pois qualquer Futuro só é possível
quando se conhece o Presente, que representa à soma dos Passados.
 
Chico estava cercado por mídia, governo, povo e colegas:
 
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
O síndico do meu tédio  (prédio)
Pedindo para eu cantar
 
Analisemos o que foi escrito no texto acima, que apresenta, originalmente, o
termo Tédio, ao invés de Prédio, como consta no seu song-book da cia. das
letras. Ele cantou o primeiro, mas nas letras oficiais, posteriores à original do  
quarto Lp, o primeiro das Philips, surge o segundo.
 
Chico sempre gostou de brincar com isso. Cantou Tédio para nos confundir,
porque sabia que, automaticamente, cantaríamos Prédio, pois Síndico é algo
muito mais comum a Prédio do que Tédio; mas também tem um outro lado na
questão, pois o texto praticamente determinaria o Médico como o tal Síndico
do Tédio, e isso poderia pegar mal.
 
A censura das letras do Chico era muito maior pela sua assessoria do que
pela oficial dos militares. O texto deleera controlado por duas censuras,
e isso talvez tenha sido um dos maiores males literários que nos causaram,
pois em benefício da falsidade da prudência perdeu-se a originalidade do
pensador, mas a honestidade poética dele sempre o trai, pois é muito
difícil ele cantar numa forma diferente da original.
 
 - Fala Sério!
 
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Minha História – Análise de Texto

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 Vídeo de poetray
Durante o autoexílio na Itália, Chico travou amizades com colegas locais. 
Dois deles foram Lucio Dalla e Palotino, cuja composição “Gesubambino” 
mereceu uma versão brasileira chamada Minha História:
 
Ele veio sem muita conversa, sem muito explicar
Eu só sei que falava e cheirava e gostava de mar
Sei que tinha tatuagem no braço e dourado no dente
E mi´a mãe se entregou à esse homem, perdidamente
 
Ele assim como veio partiu não se sabe pra onde
E deixou minha mãe c´o olhar cada dia mais longe
Pendurada, parada, pregada na pedra do porto
Com seu único velho vestido, cada dia mais curto
 
Quando enfim eu nasci minha mãe embrulhou-me num manto
Me vestiu como se eu fosse assim uma espécie de santo
Mas por não se lembrar de acalantos, a pobre mulher
Me ninava cantando cantigas de cabaré
 
Minha mãe não tardou a alertar toda a vizinhança
A mostrar que ali estava bem mais que uma simples criança
E não sei bem se por ironia, ou se por amor
Resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor
 
Mnha história é esse nome que ainda hoje carrego comigo
Quando vou bar em bar viro a mesa, berro, bebo e brigo
Os ladrões, as amantes, meus colegas de copo e de cruz
Me conhecem só pelo meu nome de Menino Jesus
 
Embora a poesia latina tenha fixado as 14 sílabas como o limite entre a poesia
e a prosa, foram justamente os poetas italianos os primeiros a romperem essa 
barreira da ciência poética. A eles já pertencia o Verso Bárbaro, que era o 
verso limite, 14 sílabas. 
 
Até então, Chico ainda não se atrevera a lidar com tais comprimentos da 
poesia, vindos da influência árabe na formação cultural, por ocasião da 
presença dos Mouros na Península Ibérica em épocas anteriores. 
 
A poesia árabe, além de ser carregada de rimas, possui versos quilométricos. 
Mais adiante teremos a composição Construção onde Chico mostrará um 
semelhante trabalho com Bárbaros.
 
Dá para perceber bem, que se trata de uma versão, pelo tipo de rimas
presentes na construção poética. Enquanto Chico prefere trabalhar mais
com as rimas em colocação Alternada, a construção desta versão é feita
inteira em Rimas Paralelas, normalmente evitadas pelos poetas mais nobres.
 
Lucio Dalla andou fazendo algum sucesso por aqui na trilha musical de 
alguma novela, há uns 15 anos com a composição Caruso. Na obra do Chico,
além de Gesubambino, Dalla participou diretamente, sem ser citado, na 
melodia de Meu Caro Amigo, que Francis Hime transformou em Choro. 
 
A obra do Chico mostrará adiante muitas outras músicas onde teremos a
relação de um marinheiro com alguma mulher deixada por ele no cais, ou 
mesmo o inverso, como aconteceu em Madalena Foi Pro Mar.
http//mpbsapiens.com/madalena-foi-pro-mar-analise-de-texto/
 
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