Archive for novembro, 2009

Angélica, A Poesia Dos Anjos do Chico

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Nos anos 60, ir para Santos de carro tinha só duas opções: Estrada Velha ou
Via Anchieta. Ir para o Guarujá era um barato, porque exigia que se pegasse
a balsa, também conhecida por Ferry-Boat.
 
Ainda não havia as rodovias dos Imigrantes e, principalmente, a chamada
Piaçaguera-Guarujá, que ligava a cidade de Cubatão à do Guarujá através
de um macio caminho sobre quilômetros de manguezais, que era um paraíso
dos moleques que caçavam caranguejo para vender nas margens da Anchieta.
 
Foi nas primeiras idas ao Guarujá que descobri uma cidade chamada Vicente
de Carvalho, que ficava próxima à Ilha Barnabe, que de alguma forma dava
um charme especial ao nosso popular Barnabé. A placa era famosa: Vicente
de Carvalho e Ilha Barnabe adiante!
 
A ilha era um natural motivo de gozação, mas a minha curiosidade maior ficou
para o nome Vicente de Carvalho, e acabei descobrindo que o cara havia
sido um grande escritor e poeta de Santos, que dentre várias obras, tinha um
longo poema chamado Pequenino Morto.
http://mpbsapiens.com/pequenino-morto/
Pequenino Morto era a história de um pai, que perdera um filho ainda jovem,
e se recusava a acreditar na sua morte, mesmo já repousado o corpo no
devido caixão, mas o que mais me chamou a atenção no poema, além da 
recusa do pai em acreditar que o filho morrera, foi a repetição sonora do
fragmento “Tange-o sino, Tange…”.
 
Além da descrição do texto, o som da frase dava a idéia de “Anjo” (anje + O)
extraída naturalmente do som do verso, o que deu ao poema uma espécie
de Onomatopéia Angelical.
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/
Passado algum tempo, e abandonadas as expedições juvenis ao Guarujá,
certo dia, numa Feira Hippie, simpatizei com um estranho alaúde, que possuia
uma pequena caixa de ressonância, um braço enorme e curiosas 17 cordas
reguladas por três cravelhames.
 
O que mais me chamava a atenção no instrumento musical era o som que o
instrumentista tirava dele insistentemente: “Tange-on, tange-on, tange-on“.
Era o mesmo som do poema Pequenino Morto, do Vicente de Carvalho, na
forma de Mantra Angelical, comum à contracultura da época.
 
Minha vida me enveredou para os lados da composição musical, onde ganhei
uma razoável fama, com outros poemas e sons, mas aquela estranha 
associação mântrica do poema do Vicente, com o som do alaúde estranho, de
alguma forma ficou em minha memória, que simpatizava com Anjos.
 
Eu pertencia a uma família com tradição filosófica socialista, embora papai, um
famoso historiador, não nos furtasse o aprendizado dos demais conceitos
sociais para justificar à sua postura socialista, pois qualquer conceito só se
permite ser escolhido quando se conhece o seu inverso.
 
De alguma forma, os jornais fizeram com que a minha fama ficasse alternando
entre o socialismo e o nacionalismo, do qual virei um ícone em virtude do
impacto que uma feliz composição minha causara no povo, o que me permitiu
aparecer várias vezes na televisão.
 
Nunca entendi direito porque o papai proibia eu e os irmãos de ficarmos
assistindo televisão, embora insistisse na presença de uma na casa.
 
Vivíamos um período que suponho difícil, pois os militares haviam tomado
as rédeas do país em conflito com toda aquela imprensa que me apoiava 
nas canções, mas de forma confusa, pois ora me tornavam um ícone do
Nacionalismo, ora lembravam da minha formação familiar Socialista para
combater aos militares.
 
A família ficara marcada por uma posição Socialista Moderada. Muito mais
conceitual do que ativista, pois papai não era um homem dado a esses abusos
populares, em virtude da sua constante sede pelo conhecimento, que com o
passar dos anos nos torna cada vez mais prudentes.
 
Por outro lado, além de toda aquela festa que a imprensa fazia com o meu 
nome, havia uma cobrança de muitos grupos ativistas para que eu me unisse
a eles nas manifestações, quando, no fundo, o que eu mais queria era continuar
fazendo as minhas canções e vivendo a vida prudentemente.
 
Acabei tendo de sair do Brasil por alguns meses, imaginando que, após o
retorno, aquele tipo de engajamento a fórceps houvesse diminuído entre os
grupos ativistas, mas piorara. De alguma forma acabei indo visitar a uma
ativista, que queria conversar comigo acerca de uma colega, jornalista, cujo
filho havia desaparecido em 1968, provavelmente sequestrado por grupos
de militares de caça aos comunistas.
 
Fui até o endereço da mulher. Era um prédio de apartamentos, e o dela
ficava alguns andares acima do térreo. Quando eu pedia informações ao
porteiro do prédio, houve uma grande explosão no edifício. Sem perder mais
tempo com qualquer pergunta me mandei de lá rapidinho.
 
No dia seguinte fiquei sabendo que a explosão ocorrera exatamente no 
apartamento da mulher com quem eu estaria conversando minutos após. 
 
Deixei toda aquela poeira baixar, continuei compondo as minhas músicas e,
curiosamente, aquele velho som, comum às minhas folias no Guarujá, que
fizeram com que eu conhecesse Vicente de Carvalho, e o Pequenino Morto
com o seu “Tange-o sino tante-o sino…”; associado ao som repetitivo do 
estranho alaúde do hippie, começaram a conversar mais com os meus anjos.
 
Precisava saber o porque daquela insistência da harmonia repetitiva na minha
cabeça. Consultando um dicionário, descobri que, tanto a repetição de uma
harmonia fixa, quanto o nome do estranho alaúde era Angélica. Finalmente
entendera porque os meus Anjos Interiores se manifestavam diante daquele
evento de conjunções sonoras poéticas e instrumentais.
 
Foi quando recebi a visita de uma jornalista, cujo nome era Zuzu Angel, que
me contou a sua história. Aquela mesma que seria contada pela mulher ativista,
caso não houvesse ocorrido aquela explosão no edifício; que chorava à
ausência do filho desde 1968 e, a exemplo do que Vicente de Carvalho havia
me dito em seu Pequenino Morto, se recusava a crer que o filho tivesse
morrido, pedindo a minha ajuda, como se eu, com a minha simples condição
de poeta, pudesse ajudá-la numa missão muito mais apropriada a um detetive
do que a um compositor musical.
 
No entanto, aquela soma de sentimentos poéticos e melódicos anteriores, 
associados ao recente enredo semelhante, adquirido após a conversa com a
jornalista, ficaram perambulando em minha cabeça por alguns dias.
 
Foi quando, certo dia, ao passar em frente à igreja São Bento, em Sampa,
escutei uns cantos dos monges vindos da igreja. Embalado pelo som do velho
companheiro escolar, o Latim, acabei ficando curioso o bastante a saber do
que se tratava aquele evento religioso.
 
Estávamos na época do chamado Círio Pascal, e fui informado que era um
ritual dos monges Marianos, de visitar às demais congregações de monges, 
entoando àqueles cânticos referentes à Páscoa Católica.
 
A coisa pegou mesmo quando me disseram que aquele conjunto de cantos
tinha o nome de Angélicas. Foi como se todos os Anjos, anteriores e recentes,
se unissem em minha cabeça fermentando à inspiração de um novo poema,
pois não podemos esquecer que os monges Marianos estão relacionados ao
nome Maria, que, a exemplo da Zuzu Angel, também teve um famosíssimo 
filho torturado e morto: Jesus.
 
Na música, não poderia faltar o som do Alaúde Angélica, nem a Fixação da
Harmonia Angélica, e muito menos os Pequeninos Mortos do Vicente de 
Carvalho, da Zuzú Angel e da Santa Maria. Dessa soma de sentimentos e 
conceitos, nasceu:
 
 Vídeo de Nad2006
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse estribilho?
Só queria embalar meu filho
Que mora na escuridão do mar
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre esse lamento?
Só queria lembrar o tormento
Que fez o meu filho suspirar
 
Quem é essa mulher
Que canta sempre o mesmo arranjo?
Só queria agasalhar meu anjo
E deixar seu corpo descansar
 
Quem é essa mulher
Que canta como dobra um sino?
Queria cantar por meu menino
Que ele já não pode mais cantar
 
Em todas as estrofes coloquei a figura da mulher cantando, já de olho numa 
Rima de Eco para o segundo verso da última, que deveria ser:
http://mpbsapiens.com/rima-de-eco/
Quem é essa mulher
Que canta como tange-o sino…
 
Entretanto decidi não colocar assim, pois detesto entregar o ouro, pra outro 
Malandro assim, de “mão beijada”!
 
Como, na letra, não sobrou argumento para o Vicente falar do seu Pequenino,   fiz com que Ele cantasse sobre o seu filho pelo drama da mulher Zuzu Angel.

 Basta reparar no texto. O filho não é o dela, mas o do narrador. 

 Como a composição deu origem até a um filme, preferi calar sobre esse detalhe,

que mais uma vez passou despercebido pela crítica.

 

Quem quiser saber qual é o formato do estranho alaúde, Angélica, basta
encontrar uma capa do meu LP Almanaque, achar a letra da música e
reparar ao lado. Tem uma Angélica lá….
 
 - Esse conto foi baseado nas experiências vividas pelo Compositor ou pelo
analista da obra?
 
Tirando a composição musical, nunca se saberá, com certeza, o que pertenceu   a  Um ou a outro, porque:
 
Mulher quando morre vira Santa
Criança quando morre vira Anjo
Malandro quando morre vira samba
http://mpbsapiens.com/malandro-quando-morre-analise-de-texto/
 
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Pequenino Morto (Vicente de Carvalho)

Embora a composição Angélica, do Chico Buarque, tenha ganho maior fama
pela história de Zuzú Angel, creio ter nascido muito antes, pois Vicente de
Carvalho escreveu o Pequenino Morto bem antes de nascermos.
 
Poema copiado do site donquixote.blog.terra.com.br/
 
Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te…
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.
Como aquela imagem de Jesus, tão lindo
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronde loura um resplendor fulgindo
- Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores…
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham…
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge das cobiças dessas fundas valas.
Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho… A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre… É a hora
Do cair da noite…
Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!… Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela…
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós… É a hora quando a procuravas…
Vai rezar com ela!
Depois… teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
No colchão de penas…
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregas a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?
Vais ficar sozinho no caixão fechado…
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! – Pequenino!… É tarde!…
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando…
Eis fechada a cova. Lá ficaste… A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca…
Tão sozinho sempre por tamanha noite!…
Pequenino, dorme! Pequenino dorme…
Nem acordes nunca!
 
(Vicente de Carvalho 1866-1924)
 
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Construção – Uma Aula do Chico Buarque.

Anterior – > http://mpbsapiens.com/deus-lhe-pague-analise-de-texto/
 
À partir do visto na postagem anterior, Deus Lhe Pague, Construção foi um 
típico retrato de Pedro Pedreiro recontado por seu Cotidiano:
 
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento-e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão c´o arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se-ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
 
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão c´o arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
 
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico 
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro 
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
 
Encerra com parte da composição Deus Lhe Pague.
http://mpbsapiens.com/deus-lhe-pague-analise-de-texto/
 
Tenho por hábito iniciar a análise de uma composição olhando o momento
social, que cercava o poeta por ocasião da sua criação, para posteriormente
fazer uma outra análise, a da Construção Poética, bastante a explicar parte da
tradução do pensamento em versos.
 
Com Construção isso é mais difícil, porque muito já se escreveu sobre ela, o
que, de certa forma, deu-lhe certos rótulos históricos, padronizados pelo 
tempo de repetição via propaganda.
 
Embora Sonho de Um Carnaval tenha sido a composição que apresentou o
nome Chico Buarque de Hollanda ao cenário artístico nacional, o seu estilo
de contestação social veio com a música Pedro Pedreiro, que tratava de um
migrante norte-nordestino trabalhador de obras da construção civil em Sampa.
http://mpbsapiens.com/sonho-de-um-carnaval-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
Nada mais lógico do que imaginar que Construção fosse uma continuação do
que Chico escrevera anteriormente em Pedro Pedreiro, cujos anseios sociais
já eram presentes em Marcha Para Um Dia De Sol, que veio antes ainda. 
http://mpbsapiens.com/primeiros-versos/
Em termos filosóficos, devo salientar que Chico baseou o seu estilo num
poema de Vinícius de Moraes, amigo do seu pai, que certamente influenciou
na sua conduta quando ainda era criança: Operário Em Construção.
http://mpbsapiens.com/operario-vinicius/
Como esse poema do Vinícius abrangia a muito mais aspectos sociais do que
Chico conseguira abordar em Pedro Pedreiro, a despeito da imensa letra, 
faltava dizer algo mais, que suspeito ter sido dito em Deus Lhe Pague, que 
deve ter servido de mote para Construção, embora a mesma surja apenas
encerrando a ela.
 
Chico sempre adorou lidar com a Palavra, conforme já citei em As Vitrines.
Desta vez observou, na Literatura Brasileira, o que já fora escrito com todos
os versos terminados em palavras proparoxítonas, e não encontrando a nada
tão expressivo, colocou a cabeça pra funcionar.
http://mpbsapiens.com/as-vitrines-analise-de-texto/
Construiu os versos num texto repetitivo, quase em Anáfora, com sintaxes
repetitivas para as primeira e segunda metades dos versos e adjetivou a cada
um deles com uma proparoxítona que, como adjetivos, poderiam finalizar a
distintos pensamentos, o que acabou dando ao contexto poético um charme
todo especial, com a alternância dos adjetivos nos textos dos versos, num
divertido jogo de palavras. Quase um Anagrama múltiplo.
http://mpbsapiens.com/anafora/
Chico pode até ter, como foco central, a idéia da contestação filosófica numa
composição musical, mas se pode fazê-lo de forma divertida, não pensa duas
vezes em exercitar o seu passatempo predileto: Jogar com a Palavra.
 
Embora eu suspeite que Deus Lhe Pague tenha sido o Mote Filosófico de 
Construção, creio que o Mote Poético tenha sido Rosa Dos Ventos, feita um
pouco antes, onde Chico já ensaiara findar versos em termos proparoxítonos 
e, também nela, tenha enxergado a uma das grandes dificuldades: O Ritmo.
http://mpbsapiens.com/rosa-dos-ventos-analise-de-texto/
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
 
Declamar esse trecho de Rosa Dos Ventos, com alguma dificuldade, até que 
dá, pois os Redondilhas Maiores são versos curtos, que submetidos a uma 
declamação veloz, conseguem ocultar aos três tempos rítmicos existentes
entre a última sílaba tônica do verso anterior e a primeira do seguinte.
http://mpbsapiens.com/redondilha-maior/
Mas, como colocar melodia nisso?
 
Aí a coisa pegou, pois Chico não conseguiu cantar sem acentuar às últimas
sílabas dos versos. Assim:
 
E / do-a / mor / gri / tou / -se-o-es / cân / da /
Do / me / do / cri / ou / -se-o / trá / gi /
No / ros / to / pin / tou / -se-o /  / li /
 
Mesmo tendo constatado a essa impossibilidade poética em Rosa Dos 
Ventos, Chico resolveu tentar a mesma coisa com os versos longos, que são
os de Construção, todos com idênticas Métricas e Cadências:
http://mpbsapiens.com/metrica/
http://mpbsapiens.com/cadencia/
A / mou / da / que / la / vez / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
Bei / jou / su / á / mu / lher / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
E / ca / da / fi / lho / seu / co / / se / fos / se-o / ú / ni /
E-a / trá / ves / sou / a / ru / a / com / seu / pas / so / / mi /
 
Percebam que esses versos têm todas as sílabas pares acentuadas, o que 
torna o Ritmo Poético átona-tônica extemamente repetitivo com as sílabas
2-4-6-8-10-12 acentuadas. Nem que o ouvinte queira interromper a essa
acentuação, após a décima segunda sílaba, a longa repetição rítmica anterior
não deixa. Consequentemente, a última sílaba do verso vira tônica também.
 
Se, poeticamente, não é prudente deixar-se mais de duas sílabas átonas entre
duas tônicas, o que dizer dos versos de Construção, qua apresenta três
sílabas átonas em seguida, sendo duas da proparoxítona que encerrou o verso 
anterior e mais uma que iniciou o verso seguinte? É muita pausa!
 
Um declamador experiente, com muito, mas com muito esforço mesmo,
conseguiria finalizar o poema nas proparoxítonas originais, desde que a sua
velocidade de ação fosse lenta.
 
A melodia de Construção tem um Andamento bem calmo, mas, mesmo assim,
Chico não conseguiu tirar o acento da décima quarta sílaba nem nela, pois
todas da composição apresentam um alongamento de tempo na partitura.
 
Suspeito até que Chico tenha, se tocando do problema,  tentado dar um outro 
texto à composição, de modo a conseguir acentuar à primeira sílaba de cada 
verso, o que diminuiria à quantidade de sílabas átonas entre as tônicas, mas,
se já tivesse construído o texto do primeiro verso, era óbvio que não o
conseguisse, já que ficara escravo do seu Ritmo.
 
Não conseguindo livrar-se do Ritmo do primeiro verso, resolveu então levar
os demais na mesma Cadência, já que a crítica da imprensa, que propagaria
à obra, era formada por acadêmicos, deslumbrados mais com o que liam do
que com o que declamassem, pois se o fizessem notariam a tudo isso que
estou escrevendo. Conclusão:
 
Construção ficou sendo a Obra-Prima poética em versos Alexandrinos (doze
sílabas) Dáctilos (findados em proparoxítonas). Completamente aceitável
para aqueles que somente lêem os textos sem recitá-los.
 
Chico sabia disso anteriormente, pois já houvera se referido à mesma
crítica literária com este pensamento:
 
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar
http://mpbsapiens.com/o-velho-texto/
 
E ficou na dele.
 
 - Você também não ficaria na sua, Malandro?
 
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Deus Lhe Pague – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/acalanto-analise-de-texto/
 
A maioria das crianças, das décadas de 40 e 50, tinham um fascínio especial
pelo Trem. Aquela enorme composição formada por locomotiva e vagões,
de carga e de passageiros, era capaz de gerar a sonhos incríveis nas cabeças
das crianças, tais como se imaginarem maquinistas, por exemplo.
 
Todas as Estações Ferroviárias tinham um charme especial. Muito mais
atraentes do que as poucas Estações Rodoviárias da época.
 
Chico deve ter carregado com ele essa idéia infantil, acerca dos trens e das
e das estações ferroviárias, até os primeiros anos da idade adulta, e de 
alguma forma as sensações permaneceram nele por muito tempo.
 
A composição Pedro Pedreiro é um bom exemplo disso, pois contrastou os
sentimentos infantis com a realidade adulta das estações de trem de S.Paulo,
onde acabou observando à chegada de um contingente nordestino que migrou
para Sampa em busca de melhores dias.
 
Como a maioria deles acabou indo parar no ramo da construção civil, como
mão de obra barata, Chico enxergou o Pedreiro como exemplo de sonhos
trocados por pesadelos do cotidiano social, o que acabou resultando na
composição Pedro Pedreiro, como protótipo de outras que cercaram o
mesmo enredo das desigualdades sociais vistas por ele em 1965.
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
A composição encerra com uma onomatopéia que imita o som de um trem.
Essa mesma idéia do trem continuou na composição Roda-Viva, quando, no
final, ele e o MPB-4 aceleram o andamento do canto, como que buscando,
ou sonhando, com alguma estabilização de velocidade da Roda, que era Viva, 
mas levava todo o jeitão de ser a de um Trem iniciando marcha. Confiram:
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/
 Vídeo de rmboemer
 
 
Essa idéia, nascida infantil e evoluída à fase adulta do Trem de Pedro 
Pedreiro, acabou fazendo com que o Chico se comparasse a ele, já que
Roda-Viva foi a música tema de uma peça homônima, em que Chico
tentou mostrar o desenvolvimento do absurdo social do Trem Artístico.
 
O Trem do Pedro continuou na cabeça do Chico após Roda-Viva, bem como
todas as resultantes dos dois absurdos sociais, do Pedreiro e do Artista, que
se encontraram novamente na composição Deus Lhe Pague, cujo arranjo
musical busca à mesma onomatopéia da composição Pedro Pedreiro, só que 
desta vez por instrumentos musicais imitando à marcha contínua:
 
 Vídeo de CarolLioa
 
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
 
Pelo prazer de chorar e pelo estamos aí
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
 
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
 
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
 
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
 
O texto da composição sugere a uma crítica social contra as tendências da
própria sociedade em seu cotidiano. Somos assim, não podemos negar, mas
a quem Chico estaria agradecendo, com um Deus Lhe Pague, pelo quadro
social regular de irregularidades sociais nossas?
 
Ao governo militar da época? Creio que não, pois tudo o visto no texto da 
composição foi apenas uma soma de costumes que precederam a 1964.
 
À Igreja? Em parte, pois ela colaborou, em muito e em qualquer religião, para
que desenvolvêssemos os medos e os pecados, com as benaventuranças
ficando proporcionais às condições sociais dos habitantes.
 
Tudo que é exercitado permanece e cresce. É assim com um músculo nosso,
mas também é assim com os nossos costumes bons ou maus, logo, a
manutenção de todas essas irregularidades sociais na forma crescente 
depende da propaganda para que assim se mantenha:
 
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
 
 - Como viver sem isso?
 
 - A Propaganda é a Arma do Negócio!
 
Próxima – >  http://mpbsapiens.com/construcao-poetica-e-texto/
 

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Acalanto – Análise de Texto

Anterior – > http://mpbsapiens.com/apesar-de-voce-analise-de-texto/
 
Essa composição creio ser uma consequência da anterior, Mulher Vou Dizer 
Quanto Eu Te Amo, pois trata de uma conversa com alguma menina a dormir. 
http://mpbsapiens.com/mulher-vou-dizer-analise-de-texto/
 
Por outro lado, o outro título, Acalanto para Helena, pode muito bem
ser uma conversa de Chico com a Lua (Helena), a exemplo do ocorrido em
Januária, pois a Janus Ária (Canção da Abertura) ainda era aguardada.
 
 Vídeo de titocancino16
 
Dorm´inhá pequena
Não vale a pena
Despertar
 
Eu vou sair
Por aí afora
Atrás da aurora
Mais serena
 
Repete a Primeira Estrofe
 
O texto sugere a uma reflexão, que creio ser comum a alguns pais, diante de
um filho colocado num mundo, com a eterna qualidade de violências várias
e crescente insanidade mental.
 
Quando geramos um filho, alguns de nós, homens, ponderam sobre a
responsabilidade do ato, que além de judiar do corpo da esposa, vê como
imprudência trazer algum ser novo para conviver com tamanha violência.
 
Os pais costumam ter essas preocupações com os filhos pequenos. Se for
menina, então, a coisa piora, pois, talvez por uma postura machista, levemos
em conta à fragilidade do sexo. 
 
Afinal, Chico teve 3 filhas. Será que alguma delas chamava Helena?
 
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