Archive for novembro, 2009

Pequenino Morto (Vicente de Carvalho)

Embora a composição Angélica, do Chico Buarque, tenha ganho maior fama
pela história de Zuzú Angel, creio ter nascido muito antes, pois Vicente de
Carvalho escreveu o Pequenino Morto bem antes de nascermos.
 
Poema copiado do site donquixote.blog.terra.com.br/
 
Tange o sino, tange, numa voz de choro
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Como o sono apaga o teu olhar inerte
Sob a luz da tarde tão macia e grata!
Pequenino, é pena que não possas ver-te…
Como vais bonito, de vestido novo
Todo azul celeste com debruns de prata!
Pequenino, acorda! E gostarás de ver-te
De vestido novo.
Como aquela imagem de Jesus, tão lindo
Que até vai levado em cima dos andores,
Sobre a fronde loura um resplendor fulgindo
- Com a grinalda feita de botões de rosas
Trazes na cabeça um resplendor de flores…
Pequenino, acorda! E te acharás tão lindo
Florescido em rosas!
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Que caminho triste, e que viagem! Alas
De ciprestes negros a gemer no vento;
Tanta boca aberta de famintas valas
A pedir que as fartem, a esperar que as encham…
Pequenino, acorda! Recupera o alento,
Foge das cobiças dessas fundas valas.
Vai chegando a hora, vai chegando a hora
Em que a mãe ao seio chama o filho… A espaços,
Badalando, o sino diz adeus, e chora
Na melancolia do cair da noite;
Por aqui só cruzes com seus magros braços
Que jamais se fecham, hirtos sempre… É a hora
Do cair da noite…
Pela Ave-Maria, como procuravas
Tua mãe!… Num eco de sua voz piedosa,
Que suaves coisas que tu murmuravas,
De mãozinhas postas, a rezar com ela…
Pequenino, em casa, tua mãe saudosa
Reza a sós… É a hora quando a procuravas…
Vai rezar com ela!
Depois… teu quarto era tão lindo! Havia
Na janela jarras onde abriam rosas;
E no meio a cama, toda alvor, macia,
De lençóis de linho no colchão de penas.
Que acordar alegre nas manhãs cheirosas!
Que dormir suave, pela noite fria,
No colchão de penas…
Tange o sino, tange, numa voz de choro,
Numa voz de choro… tão desconsolado…
No caixão dourado, como em berço de ouro,
Pequenino, levam-te dormindo… Acorda!
Olha que te levam para o mesmo lado
De onde o sino tange numa voz de choro…
Pequenino, acorda!
Por que estacam todos dessa cova à beira?
Que é que diz o padre numa língua estranha?
Por que assim te entregas a essa mão grosseira
Que te agarra e leva para a cova funda?
Por que assim cada homem um punhado apanha
De caliça e espalha-a, debruçado à beira
Dessa cova funda?
Vais ficar sozinho no caixão fechado…
Não será bastante para que te guarde?
Para que essa terra que jazia ao lado
Pouco a pouco rola, vai desmoronando?
Pequenino, acorda! – Pequenino!… É tarde!…
Sobre ti cai todo esse montão que ao lado
Vai desmoronando…
Eis fechada a cova. Lá ficaste… A enorme
Noite sem aurora todo amortalhou-te.
Nem caminho deixam para quem lá dorme,
Para quem lá fica e que não volta nunca…
Tão sozinho sempre por tamanha noite!…
Pequenino, dorme! Pequenino dorme…
Nem acordes nunca!
 
(Vicente de Carvalho 1866-1924)
 
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Construção – Uma Aula do Chico Buarque.

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À partir do visto na postagem anterior, Deus Lhe Pague, Construção foi um 
típico retrato de Pedro Pedreiro recontado por seu Cotidiano:
 
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento-e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão c´o arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se-ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego
 
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão c´o arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
 
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico 
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro 
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
 
Encerra com parte da composição Deus Lhe Pague.
http://mpbsapiens.com/deus-lhe-pague-analise-de-texto/
 
Tenho por hábito iniciar a análise de uma composição olhando o momento
social, que cercava o poeta por ocasião da sua criação, para posteriormente
fazer uma outra análise, a da Construção Poética, bastante a explicar parte da
tradução do pensamento em versos.
 
Com Construção isso é mais difícil, porque muito já se escreveu sobre ela, o
que, de certa forma, deu-lhe certos rótulos históricos, padronizados pelo 
tempo de repetição via propaganda.
 
Embora Sonho de Um Carnaval tenha sido a composição que apresentou o
nome Chico Buarque de Hollanda ao cenário artístico nacional, o seu estilo
de contestação social veio com a música Pedro Pedreiro, que tratava de um
migrante norte-nordestino trabalhador de obras da construção civil em Sampa.
http://mpbsapiens.com/sonho-de-um-carnaval-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
Nada mais lógico do que imaginar que Construção fosse uma continuação do
que Chico escrevera anteriormente em Pedro Pedreiro, cujos anseios sociais
já eram presentes em Marcha Para Um Dia De Sol, que veio antes ainda. 
http://mpbsapiens.com/primeiros-versos/
Em termos filosóficos, devo salientar que Chico baseou o seu estilo num
poema de Vinícius de Moraes, amigo do seu pai, que certamente influenciou
na sua conduta quando ainda era criança: Operário Em Construção.
http://mpbsapiens.com/operario-vinicius/
Como esse poema do Vinícius abrangia a muito mais aspectos sociais do que
Chico conseguira abordar em Pedro Pedreiro, a despeito da imensa letra, 
faltava dizer algo mais, que suspeito ter sido dito em Deus Lhe Pague, que 
deve ter servido de mote para Construção, embora a mesma surja apenas
encerrando a ela.
 
Chico sempre adorou lidar com a Palavra, conforme já citei em As Vitrines.
Desta vez observou, na Literatura Brasileira, o que já fora escrito com todos
os versos terminados em palavras proparoxítonas, e não encontrando a nada
tão expressivo, colocou a cabeça pra funcionar.
http://mpbsapiens.com/as-vitrines-analise-de-texto/
Construiu os versos num texto repetitivo, quase em Anáfora, com sintaxes
repetitivas para as primeira e segunda metades dos versos e adjetivou a cada
um deles com uma proparoxítona que, como adjetivos, poderiam finalizar a
distintos pensamentos, o que acabou dando ao contexto poético um charme
todo especial, com a alternância dos adjetivos nos textos dos versos, num
divertido jogo de palavras. Quase um Anagrama múltiplo.
http://mpbsapiens.com/anafora/
Chico pode até ter, como foco central, a idéia da contestação filosófica numa
composição musical, mas se pode fazê-lo de forma divertida, não pensa duas
vezes em exercitar o seu passatempo predileto: Jogar com a Palavra.
 
Embora eu suspeite que Deus Lhe Pague tenha sido o Mote Filosófico de 
Construção, creio que o Mote Poético tenha sido Rosa Dos Ventos, feita um
pouco antes, onde Chico já ensaiara findar versos em termos proparoxítonos 
e, também nela, tenha enxergado a uma das grandes dificuldades: O Ritmo.
http://mpbsapiens.com/rosa-dos-ventos-analise-de-texto/
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
 
Declamar esse trecho de Rosa Dos Ventos, com alguma dificuldade, até que 
dá, pois os Redondilhas Maiores são versos curtos, que submetidos a uma 
declamação veloz, conseguem ocultar aos três tempos rítmicos existentes
entre a última sílaba tônica do verso anterior e a primeira do seguinte.
http://mpbsapiens.com/redondilha-maior/
Mas, como colocar melodia nisso?
 
Aí a coisa pegou, pois Chico não conseguiu cantar sem acentuar às últimas
sílabas dos versos. Assim:
 
E / do-a / mor / gri / tou / -se-o-es / cân / da /
Do / me / do / cri / ou / -se-o / trá / gi /
No / ros / to / pin / tou / -se-o /  / li /
 
Mesmo tendo constatado a essa impossibilidade poética em Rosa Dos 
Ventos, Chico resolveu tentar a mesma coisa com os versos longos, que são
os de Construção, todos com idênticas Métricas e Cadências:
http://mpbsapiens.com/metrica/
http://mpbsapiens.com/cadencia/
A / mou / da / que / la / vez / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
Bei / jou / su / á / mu / lher / co / / se / fos / se-a / úl / ti /
E / ca / da / fi / lho / seu / co / / se / fos / se-o / ú / ni /
E-a / trá / ves / sou / a / ru / a / com / seu / pas / so / / mi /
 
Percebam que esses versos têm todas as sílabas pares acentuadas, o que 
torna o Ritmo Poético átona-tônica extemamente repetitivo com as sílabas
2-4-6-8-10-12 acentuadas. Nem que o ouvinte queira interromper a essa
acentuação, após a décima segunda sílaba, a longa repetição rítmica anterior
não deixa. Consequentemente, a última sílaba do verso vira tônica também.
 
Se, poeticamente, não é prudente deixar-se mais de duas sílabas átonas entre
duas tônicas, o que dizer dos versos de Construção, qua apresenta três
sílabas átonas em seguida, sendo duas da proparoxítona que encerrou o verso 
anterior e mais uma que iniciou o verso seguinte? É muita pausa!
 
Um declamador experiente, com muito, mas com muito esforço mesmo,
conseguiria finalizar o poema nas proparoxítonas originais, desde que a sua
velocidade de ação fosse lenta.
 
A melodia de Construção tem um Andamento bem calmo, mas, mesmo assim,
Chico não conseguiu tirar o acento da décima quarta sílaba nem nela, pois
todas da composição apresentam um alongamento de tempo na partitura.
 
Suspeito até que Chico tenha, se tocando do problema,  tentado dar um outro 
texto à composição, de modo a conseguir acentuar à primeira sílaba de cada 
verso, o que diminuiria à quantidade de sílabas átonas entre as tônicas, mas,
se já tivesse construído o texto do primeiro verso, era óbvio que não o
conseguisse, já que ficara escravo do seu Ritmo.
 
Não conseguindo livrar-se do Ritmo do primeiro verso, resolveu então levar
os demais na mesma Cadência, já que a crítica da imprensa, que propagaria
à obra, era formada por acadêmicos, deslumbrados mais com o que liam do
que com o que declamassem, pois se o fizessem notariam a tudo isso que
estou escrevendo. Conclusão:
 
Construção ficou sendo a Obra-Prima poética em versos Alexandrinos (doze
sílabas) Dáctilos (findados em proparoxítonas). Completamente aceitável
para aqueles que somente lêem os textos sem recitá-los.
 
Chico sabia disso anteriormente, pois já houvera se referido à mesma
crítica literária com este pensamento:
 
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar
http://mpbsapiens.com/o-velho-texto/
 
E ficou na dele.
 
 - Você também não ficaria na sua, Malandro?
 
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Deus Lhe Pague – Análise de Texto

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A maioria das crianças, das décadas de 40 e 50, tinham um fascínio especial
pelo Trem. Aquela enorme composição formada por locomotiva e vagões,
de carga e de passageiros, era capaz de gerar a sonhos incríveis nas cabeças
das crianças, tais como se imaginarem maquinistas, por exemplo.
 
Todas as Estações Ferroviárias tinham um charme especial. Muito mais
atraentes do que as poucas Estações Rodoviárias da época.
 
Chico deve ter carregado com ele essa idéia infantil, acerca dos trens e das
e das estações ferroviárias, até os primeiros anos da idade adulta, e de 
alguma forma as sensações permaneceram nele por muito tempo.
 
A composição Pedro Pedreiro é um bom exemplo disso, pois contrastou os
sentimentos infantis com a realidade adulta das estações de trem de S.Paulo,
onde acabou observando à chegada de um contingente nordestino que migrou
para Sampa em busca de melhores dias.
 
Como a maioria deles acabou indo parar no ramo da construção civil, como
mão de obra barata, Chico enxergou o Pedreiro como exemplo de sonhos
trocados por pesadelos do cotidiano social, o que acabou resultando na
composição Pedro Pedreiro, como protótipo de outras que cercaram o
mesmo enredo das desigualdades sociais vistas por ele em 1965.
http://mpbsapiens.com/pedro-pedreiro-analise-de-texto/
A composição encerra com uma onomatopéia que imita o som de um trem.
Essa mesma idéia do trem continuou na composição Roda-Viva, quando, no
final, ele e o MPB-4 aceleram o andamento do canto, como que buscando,
ou sonhando, com alguma estabilização de velocidade da Roda, que era Viva, 
mas levava todo o jeitão de ser a de um Trem iniciando marcha. Confiram:
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/
 Vídeo de rmboemer
 
 
Essa idéia, nascida infantil e evoluída à fase adulta do Trem de Pedro 
Pedreiro, acabou fazendo com que o Chico se comparasse a ele, já que
Roda-Viva foi a música tema de uma peça homônima, em que Chico
tentou mostrar o desenvolvimento do absurdo social do Trem Artístico.
 
O Trem do Pedro continuou na cabeça do Chico após Roda-Viva, bem como
todas as resultantes dos dois absurdos sociais, do Pedreiro e do Artista, que
se encontraram novamente na composição Deus Lhe Pague, cujo arranjo
musical busca à mesma onomatopéia da composição Pedro Pedreiro, só que 
desta vez por instrumentos musicais imitando à marcha contínua:
 
 Vídeo de CarolLioa
 
Por esse pão pra comer, por esse chão pra dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir
Deus lhe pague
 
Pelo prazer de chorar e pelo estamos aí
Pela piada no bar e o futebol pra aplaudir
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
Deus lhe pague
 
Por essa praia, essa saia, pelas mulheres daqui
O amor malfeito depressa, fazer a barba e partir
Pelo domingo que é lindo, novela, missa e gibi
Deus lhe pague
 
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça desgraça que a gente tem que tossir
Pelos andaimes, pingentes, que a gente tem que cair
Deus lhe pague
 
Por mais um dia, agonia, pra suportar e assistir
Pelo rangido dos dentes, pela cidade a zunir
E pelo grito demente que nos ajuda a fugir
Deus lhe pague
 
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas-bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir
Deus lhe pague
 
O texto da composição sugere a uma crítica social contra as tendências da
própria sociedade em seu cotidiano. Somos assim, não podemos negar, mas
a quem Chico estaria agradecendo, com um Deus Lhe Pague, pelo quadro
social regular de irregularidades sociais nossas?
 
Ao governo militar da época? Creio que não, pois tudo o visto no texto da 
composição foi apenas uma soma de costumes que precederam a 1964.
 
À Igreja? Em parte, pois ela colaborou, em muito e em qualquer religião, para
que desenvolvêssemos os medos e os pecados, com as benaventuranças
ficando proporcionais às condições sociais dos habitantes.
 
Tudo que é exercitado permanece e cresce. É assim com um músculo nosso,
mas também é assim com os nossos costumes bons ou maus, logo, a
manutenção de todas essas irregularidades sociais na forma crescente 
depende da propaganda para que assim se mantenha:
 
Um crime pra comentar e um samba pra distrair
 
 - Como viver sem isso?
 
 - A Propaganda é a Arma do Negócio!
 
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Acalanto – Análise de Texto

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Essa composição creio ser uma consequência da anterior, Mulher Vou Dizer 
Quanto Eu Te Amo, pois trata de uma conversa com alguma menina a dormir. 
http://mpbsapiens.com/mulher-vou-dizer-analise-de-texto/
 
Por outro lado, o outro título, Acalanto para Helena, pode muito bem
ser uma conversa de Chico com a Lua (Helena), a exemplo do ocorrido em
Januária, pois a Janus Ária (Canção da Abertura) ainda era aguardada.
 
 Vídeo de titocancino16
 
Dorm´inhá pequena
Não vale a pena
Despertar
 
Eu vou sair
Por aí afora
Atrás da aurora
Mais serena
 
Repete a Primeira Estrofe
 
O texto sugere a uma reflexão, que creio ser comum a alguns pais, diante de
um filho colocado num mundo, com a eterna qualidade de violências várias
e crescente insanidade mental.
 
Quando geramos um filho, alguns de nós, homens, ponderam sobre a
responsabilidade do ato, que além de judiar do corpo da esposa, vê como
imprudência trazer algum ser novo para conviver com tamanha violência.
 
Os pais costumam ter essas preocupações com os filhos pequenos. Se for
menina, então, a coisa piora, pois, talvez por uma postura machista, levemos
em conta à fragilidade do sexo. 
 
Afinal, Chico teve 3 filhas. Será que alguma delas chamava Helena?
 
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Apesar de Você – Análise de Texto

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Voltando ao enredo de Rosa dos Ventos, ou dos “Rumos”, muito se 
comentou que a Revolução Militar fora financiada por grupos estrangeiros, 
nos idos de 1970. Tais boatos têm algum fundamento, pois tivemos alguns 
veículos de opinião transitando livremente nessa época. 
 
Foi quando Chico compos Apesar de Você, gravada em disco compacto 
simples, de vinil, na época, sendo logo depois censurada e posteriormente 
regravada em Lp, também de vinil, em 1978. 
 
O Capeta (imprensa) espalhou que era uma espécie de exaltação ao general 
Médici, nosso então presidente, que não ficou tão orgulhoso assim: 
 
 Vídeo de spigknot
 
Hoje você é quem manda
Falou tá falado
Não tem discussão, não
A minha gente hoje anda
Falando de lado
E olhando pro chão, viu?
Você que inventou esse estado
E inventou de inventar
Toda a escuridão
Você que inventou o pecado
Esqueceu se de inventar
O perdão
 
Apesar de você
 
Refrão
Apesar de você
Amanhã há de ser
Outro dia
 
Eu pergunto a você
Como vai se esconder
Da enorme euforia?
Como vai proibir
Quando o galo insistir
Em cantar?
Água nova brotando
E a gente se amando
Sem parar
 
Quando chegar o momento 
Esse meu sofrimento
Vou cobrar com juros, juro
Todo esse amor reprimido 
Esse grito contido 
Este samba no escuro
Você que inventou a tristeza
Ora, tenha a fineza
De desinventar
Você vai pagar e é dobrado
Cada lágrima rolada
Neste meu penar
 
Refrão
 
Inda pago pra ver
O jardim florescer
Qual você não queria
Você vai se amargar
Vendo o dia raiar
Sem lhe pedir licença
E eu vou morrer de rir
Que esse dia há de vir
Antes do que você pensa
 
Refrão
 
Você vai ter que ver
A manhã renascer
E esbanjar poesia      
Como vai se explicar
Vendo o céu clarear
De repente, impunemente?
Como vai abafar
Nosso coro a cantar
Na sua frente?
 
Refrão
 
Você vai se dar mal
Etecétera-e tal…
 
Começo com o trabalho de colocação conjugada das rimas, Alternadas, mas  
com 3 versos de distância, o que dá a idéia de Rimas Opostas na primeira
estrofe, que se transformam em Rimas Paralelas seguidas de Verso Branco
e finalizadas em Opostas na segunda.
http://mpbsapiens.com/rimas-alternadas/
http://mpbsapiens.com/rimas-opostas/
http://mpbsapiens.com/rimas-paralelas/
http://mpbsapiens.com/verso-branco/
Além das colocações a primeira estrofe apresentou uma rima paupérrima entre
os versos 8 e 11. Inventar com inventar, ao se referir diretamente ao inventor 
do estado de coisas, que abrange muitas possibilidades, dentre as quais o 
Estado Militar que, todavia, não é especificado pelo texto. 
 
O texto da composição serve como reação para qualquer oprimido por 
alguma ditadura, quer social, quer profissional ou até familiar, pois meu filho a 
cantava para a mãe e eu a pensava para a sogra. Criança sempre foi mais 
honesta e corajosa do que adulto. 
 
O verso Branco mostra que a Euforia, por ser apenas virtual, deveria ficar 
isolada e sem parceria, e ficou o mesmo tanto que a Poesia ficou na última.
 
Segundo o songboock da cia.das letras, a composição data de 1970, mas 
desconfio dessa informação, pois suspeito tê-la escutado antes disso, tanto
nas rádios quanto no tal compacto simples em que foi lançada originalmente.
 
Pelo fato do texto não concluir estar o Chico se referindo sequer à ditadura
militar, confesso desconfiar dessa fantasia toda, criada pela imprensa, acerca
do samba ter sido feito para o Médici.
 
A coisa era bem simples. O Chico compunha o samba, mas quem decidia
sobre a data de gravação não era ele, e sim os seus patrões, que eram os
donos das gravadoras e, na época, havia uma clara disputa de gravadoras,
RGE e Philips, pelos direitos sobre as suas obras.
 
Quem pode me garantir que o samba não foi feito antes de 1970, e estando
sob a responsabilidade de uma gravadora, tenha sido brecado pelo Anjo
da posterior com que Chico negociava?
 
Chico sempre honrou a um pensamento do pai, o historiador Sérgio Buarque,
em Raízes do Brasil: – O Brasileiro é cordial!
 
Nos primeiros anos de sucesso o cara era a própria Concórdia, que apenas
subia no avião e o Manoel Barenbein fazia o resto. Depois de algum tempo se
tocou da coisa e escreveu a peça Roda-Viva, onde explicou como era o
comportamento da mídia na fabricação de um Ídolo Popular, no caso, ele.
 http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/
Tal peça apresentou os personagens Anjo (Ibope e Televisão) e Capeta
(Imprensa) coordenando os destinos do humilde compositor Benedito Silva.
 
Assim sendo, quem pode me garantir que Apesar de Você não foi escrito em
homenagem a esses dois personagens da peça? Principalmente depois 
daquele vai-e-vem do “autoexílio” na Itália, que marcou também à troca de
gravadoras.
 http://mpbsapiens.com/roda-viva-o-divisor-das-flores/
O próprio texto da composição compromete o samba:
 
Todo esse amor reprimido
Esse grito contido
Este samba no escuro
 
Afinal, se o samba já fora gravado, e posteriormente censurado, como 
justificar o texto presente antes mesmo da censura tê-lo vetado?
 
Será que o Chico já sabia que seria censurado bem antes de fazer o samba?
 
Como poderia ter essa certeza se, anos antes, na composição Ano Novo, 
a censura já se mostrara imbecil o bastante a censurar a música nas 
lojas de disco e permitir a execução nas emissoras de rádio?
http://mpbsapiens.com/ano-novo-analise-de-texto/
O texto inteiro de Apesar de Você sugere já ter nascido censurado à partir
do esboço. Basta interpretar o que foi escrito.
 
Quem poderia tê-lo censurado, antes mesmo do nascimento, senão os 
responsáveis diretos pela sua posterior divulgação?
 http://mpbsapiens.com/roda-viva-a-peca-parte-4/
A Marieta Severo?
 
Sinto muito, caros leitores, mas esse sonho idealístico de Chico x Médici pode
muito bem ter sido uma construção da mídia para vender o produto em mais
de uma ocasião e com propaganda dobrada, infelizmente.
 
Próxima – > http://mpbsapiens.com/acalanto-analise-de-texto/
 

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