Angélica, A Poesia Dos Anjos do Chico
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| Nos anos 60, ir para Santos de carro tinha só duas opções: Estrada Velha ou |
| Via Anchieta. Ir para o Guarujá era um barato, porque exigia que se pegasse |
| a balsa, também conhecida por Ferry-Boat. |
| Ainda não havia as rodovias dos Imigrantes e, principalmente, a chamada |
| Piaçaguera-Guarujá, que ligava a cidade de Cubatão à do Guarujá através |
| de um macio caminho sobre quilômetros de manguezais, que era um paraíso |
| dos moleques que caçavam caranguejo para vender nas margens da Anchieta. |
| Foi nas primeiras idas ao Guarujá que descobri uma cidade chamada Vicente |
| de Carvalho, que ficava próxima à Ilha Barnabe, que de alguma forma dava |
| um charme especial ao nosso popular Barnabé. A placa era famosa: Vicente |
| de Carvalho e Ilha Barnabe adiante! |
| A ilha era um natural motivo de gozação, mas a minha curiosidade maior ficou |
| para o nome Vicente de Carvalho, e acabei descobrindo que o cara havia |
| sido um grande escritor e poeta de Santos, que dentre várias obras, tinha um |
| longo poema chamado Pequenino Morto. |
http://mpbsapiens.com/pequenino-morto/ |
| Pequenino Morto era a história de um pai, que perdera um filho ainda jovem, |
| e se recusava a acreditar na sua morte, mesmo já repousado o corpo no |
| devido caixão, mas o que mais me chamou a atenção no poema, além da |
| recusa do pai em acreditar que o filho morrera, foi a repetição sonora do |
| fragmento “Tange-o sino, Tange…”. |
| Além da descrição do texto, o som da frase dava a idéia de “Anjo” (anje + O) |
| extraída naturalmente do som do verso, o que deu ao poema uma espécie |
| de Onomatopéia Angelical. |
http://mpbsapiens.com/onomatopeia/ |
| Passado algum tempo, e abandonadas as expedições juvenis ao Guarujá, |
| certo dia, numa Feira Hippie, simpatizei com um estranho alaúde, que possuia |
| uma pequena caixa de ressonância, um braço enorme e curiosas 17 cordas |
| reguladas por três cravelhames. |
| O que mais me chamava a atenção no instrumento musical era o som que o |
| instrumentista tirava dele insistentemente: “Tange-on, tange-on, tange-on“. |
| Era o mesmo som do poema Pequenino Morto, do Vicente de Carvalho, na |
| forma de Mantra Angelical, comum à contracultura da época. |
| Minha vida me enveredou para os lados da composição musical, onde ganhei |
| uma razoável fama, com outros poemas e sons, mas aquela estranha |
| associação mântrica do poema do Vicente, com o som do alaúde estranho, de |
| alguma forma ficou em minha memória, que simpatizava com Anjos. |
| Eu pertencia a uma família com tradição filosófica socialista, embora papai, um |
| famoso historiador, não nos furtasse o aprendizado dos demais conceitos |
| sociais para justificar à sua postura socialista, pois qualquer conceito só se |
| permite ser escolhido quando se conhece o seu inverso. |
| De alguma forma, os jornais fizeram com que a minha fama ficasse alternando |
| entre o socialismo e o nacionalismo, do qual virei um ícone em virtude do |
| impacto que uma feliz composição minha causara no povo, o que me permitiu |
| aparecer várias vezes na televisão. |
| Nunca entendi direito porque o papai proibia eu e os irmãos de ficarmos |
| assistindo televisão, embora insistisse na presença de uma na casa. |
| Vivíamos um período que suponho difícil, pois os militares haviam tomado |
| as rédeas do país em conflito com toda aquela imprensa que me apoiava |
| nas canções, mas de forma confusa, pois ora me tornavam um ícone do |
| Nacionalismo, ora lembravam da minha formação familiar Socialista para |
| combater aos militares. |
| A família ficara marcada por uma posição Socialista Moderada. Muito mais |
| conceitual do que ativista, pois papai não era um homem dado a esses abusos |
| populares, em virtude da sua constante sede pelo conhecimento, que com o |
| passar dos anos nos torna cada vez mais prudentes. |
| Por outro lado, além de toda aquela festa que a imprensa fazia com o meu |
| nome, havia uma cobrança de muitos grupos ativistas para que eu me unisse |
| a eles nas manifestações, quando, no fundo, o que eu mais queria era continuar |
| fazendo as minhas canções e vivendo a vida prudentemente. |
| Acabei tendo de sair do Brasil por alguns meses, imaginando que, após o |
| retorno, aquele tipo de engajamento a fórceps houvesse diminuído entre os |
| grupos ativistas, mas piorara. De alguma forma acabei indo visitar a uma |
| ativista, que queria conversar comigo acerca de uma colega, jornalista, cujo |
| filho havia desaparecido em 1968, provavelmente sequestrado por grupos |
| de militares de caça aos comunistas. |
| Fui até o endereço da mulher. Era um prédio de apartamentos, e o dela |
| ficava alguns andares acima do térreo. Quando eu pedia informações ao |
| porteiro do prédio, houve uma grande explosão no edifício. Sem perder mais |
| tempo com qualquer pergunta me mandei de lá rapidinho. |
| No dia seguinte fiquei sabendo que a explosão ocorrera exatamente no |
| apartamento da mulher com quem eu estaria conversando minutos após. |
| Deixei toda aquela poeira baixar, continuei compondo as minhas músicas e, |
| curiosamente, aquele velho som, comum às minhas folias no Guarujá, que |
| fizeram com que eu conhecesse Vicente de Carvalho, e o Pequenino Morto |
| com o seu “Tange-o sino tante-o sino…”; associado ao som repetitivo do |
| estranho alaúde do hippie, começaram a conversar mais com os meus anjos. |
| Precisava saber o porque daquela insistência da harmonia repetitiva na minha |
| cabeça. Consultando um dicionário, descobri que, tanto a repetição de uma |
| harmonia fixa, quanto o nome do estranho alaúde era Angélica. Finalmente |
| entendera porque os meus Anjos Interiores se manifestavam diante daquele |
| evento de conjunções sonoras poéticas e instrumentais. |
| Foi quando recebi a visita de uma jornalista, cujo nome era Zuzu Angel, que |
| me contou a sua história. Aquela mesma que seria contada pela mulher ativista, |
| caso não houvesse ocorrido aquela explosão no edifício; que chorava à |
| ausência do filho desde 1968 e, a exemplo do que Vicente de Carvalho havia |
| me dito em seu Pequenino Morto, se recusava a crer que o filho tivesse |
| morrido, pedindo a minha ajuda, como se eu, com a minha simples condição |
| de poeta, pudesse ajudá-la numa missão muito mais apropriada a um detetive |
| do que a um compositor musical. |
| No entanto, aquela soma de sentimentos poéticos e melódicos anteriores, |
| associados ao recente enredo semelhante, adquirido após a conversa com a |
| jornalista, ficaram perambulando em minha cabeça por alguns dias. |
| Foi quando, certo dia, ao passar em frente à igreja São Bento, em Sampa, |
| escutei uns cantos dos monges vindos da igreja. Embalado pelo som do velho |
| companheiro escolar, o Latim, acabei ficando curioso o bastante a saber do |
| que se tratava aquele evento religioso. |
| Estávamos na época do chamado Círio Pascal, e fui informado que era um |
| ritual dos monges Marianos, de visitar às demais congregações de monges, |
| entoando àqueles cânticos referentes à Páscoa Católica. |
| A coisa pegou mesmo quando me disseram que aquele conjunto de cantos |
| tinha o nome de Angélicas. Foi como se todos os Anjos, anteriores e recentes, |
| se unissem em minha cabeça fermentando à inspiração de um novo poema, |
| pois não podemos esquecer que os monges Marianos estão relacionados ao |
| nome Maria, que, a exemplo da Zuzu Angel, também teve um famosíssimo |
| filho torturado e morto: Jesus. |
| Na música, não poderia faltar o som do Alaúde Angélica, nem a Fixação da |
| Harmonia Angélica, e muito menos os Pequeninos Mortos do Vicente de |
| Carvalho, da Zuzú Angel e da Santa Maria. Dessa soma de sentimentos e |
| conceitos, nasceu: |
| Vídeo de Nad2006 |
| Quem é essa mulher |
| Que canta sempre esse estribilho? |
| Só queria embalar meu filho |
| Que mora na escuridão do mar |
| Quem é essa mulher |
| Que canta sempre esse lamento? |
| Só queria lembrar o tormento |
| Que fez o meu filho suspirar |
| Quem é essa mulher |
| Que canta sempre o mesmo arranjo? |
| Só queria agasalhar meu anjo |
| E deixar seu corpo descansar |
| Quem é essa mulher |
| Que canta como dobra um sino? |
| Queria cantar por meu menino |
| Que ele já não pode mais cantar |
| Em todas as estrofes coloquei a figura da mulher cantando, já de olho numa |
| Rima de Eco para o segundo verso da última, que deveria ser: |
http://mpbsapiens.com/rima-de-eco/ |
| Quem é essa mulher |
| Que canta como tange-o sino… |
| Entretanto decidi não colocar assim, pois detesto entregar o ouro, pra outro |
| Malandro assim, de “mão beijada”! |
| Como, na letra, não sobrou argumento para o Vicente falar do seu Pequenino, fiz com que Ele cantasse sobre o seu filho pelo drama da mulher Zuzu Angel.
Basta reparar no texto. O filho não é o dela, mas o do narrador. Como a composição deu origem até a um filme, preferi calar sobre esse detalhe, que mais uma vez passou despercebido pela crítica.
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| Quem quiser saber qual é o formato do estranho alaúde, Angélica, basta |
| encontrar uma capa do meu LP Almanaque, achar a letra da música e |
| reparar ao lado. Tem uma Angélica lá…. |
| - Esse conto foi baseado nas experiências vividas pelo Compositor ou pelo |
| analista da obra? |
| Tirando a composição musical, nunca se saberá, com certeza, o que pertenceu a Um ou a outro, porque: |
| Mulher quando morre vira Santa |
| Criança quando morre vira Anjo |
| Malandro quando morre vira samba |
http://mpbsapiens.com/malandro-quando-morre-analise-de-texto/ |
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