Archive for outubro, 2009

Da MPB Ao Jazz – Prólogo 2

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Antigamente, era comum os artistas se reunirem em bares específicos do
Rio de Janeiro e de Sampa, já que as popularidades ocorriam de forma mais
natural, sem tantas intervenções da mídia nas trajetórias artísticas, que 
acabaram fazendo com que a MPB se transformasse em algo muito mais
comercial do que artístico, conforme conta Jobim, naquele vídeo com o Gerry
Mulligan, que coloquei em Da MPB ao Jazz – Parte 2.
http://mpbsapiens.com/jazz-mpb-p-2/
Foi numa dessas ocasiões que Billy Blanco e Tom Jobim, observando ao
comportamento de Dick Farney e Lúcio Alves, em alguma mesa de algum
bar do Leblon, se referindo a uma certa moça que usava passear na região, 
compuseram Tereza da Praia.
Vídeo de horcris187
 
Nos USA dos anos 50 era comum ver Dick participando de encontros
jazzísticos que a cantora Billie Holiday tinha com instrumentistas consagrados,
como Lester Young, um consagrado Sax Tenor da chamada Ala Negra do
Jazz Americano
Vídeo de WhenSwingWasKing
 
Naquela época as questões da cor de pele eram acentuadas nos USA, 
em que ainda havia uma divisão bem definida de cores. Negro só tocava
com negro e branco só tocava com branco. Claro que nas orquestras essa
divisão era menos notada, mas nos conjuntos…
 
Reparem que o vídeo mostra um jovem saxofonista, branco, empunhando 
a um Sax Baixo. Foi esse o jovem, que cinco anos mais tarde conversaria
com o Tom Jobim naquele vídeo apresentado na Parte 2 dessa postagem.
 
Gerry Mulligan, embora não fosse um iniciante no jazz, já gozava de um
prestígio bastante a vencer àquelas barreiras raciais e, com o prazer de
um iniciante, foi o único instrumentista branco a se apresentar naquele
famoso encontro que, por sinal, foi um dos últimos promovidos por Billie
Holiday ainda viva.
 
Coloquei isso para mostrar que o cara, quando é bom no que faz, não há
barreiras que impeçam-no de buscar o constante aprendizado, o que até
justifica a uma passagem do vídeo anterior, em que Jobim confessa ter
também dificuldades com o jazz, ao sarcasmo do Mulligan agradecendo
ao apoio dado por ele.
 
Um consagrado saxofonista sendo incentivado por um, ainda desconhecido,
professor das Américas Pobres. Independente da posição que cada um 
deles ocupava na fama do jazz, essa constante disposição ao aprendizado
de Mulligan seria igual às demonstradas por Ben Webster, John Coltrane 
ou Dexter Gordon, todos saxofonistas negros, se estivessem no lugar dele
no encontro com Jobim. A pele perderia totalmente a cor.
 
Infelizmente, Billie Holiday morreu dois anos após esse encontro, mas a
sua trajetória artística deixou profundas marcas entre as jovens cantoras
negras e americanas. 
 
Embora meio contemporânea, foi Ella Fitzgerald quem continuou à trajetória
de Holiday no jazz, e também foi ela a primeira dessas cantoras a buscar
aproximação com a música brasileira, após aquele marco, que foi o 
Festival de Jazz de Monterrey, em que Laurindo Almeida executou o
Samba de Uma Nota Só com o The Modern Jazz Quartet, e que finalizou
com a chegada de Jobim por lá, levado por Dick Farney.
Vídeo de buffko85
 
Pode-se perceber pelo vídeo que Ella Fitzgerald tinha alguma idéia do que
era a nossa MPB no princípio dos anos 60, quando entonou no início a
uma sequência vocal consagrada na MPB pelo conjunto, Os Cariocas, na
composição Ela É Carioca.
 
Essa composição nada tem a ver com a que ela cantou no vídeo, Só Danço
Samba, do Dorival Caymmi, mas comparem com o vídeo abaixo:
Vídeo de horcris187
 
Foi um truque de marketing pessoal muito bom: Ella Fitzgerald + Os
Cariocas = ELLA é Carioca. Daí pra frente a composição brasileira mudou
de nome, embora o que havia de mais parecido com Ella Fitzgerald, na 
realidade musical do Rio de Janeiro fosse Leny Andrade:
Vídeo de musikavideos!
 
Podem reparar que, embora não tivesse ido visitar o Rio, Ella Fitzgerald
já deixara nobres raízes em nossa música por Leny Andrade que, quando
jovem cantora, teve o apoio de Dick Farney que, como pianista, era amigo
de Duke Ellington, um consagrado pianista do jazz, cujo início de carreira
ocorrera como segundo pianista da orquestra de Louis Armstrong nos 
anos 40, época em que o Dick saiu do Cassino da Urca para os USA; 
que no vídeo acompanha à Ella em Só Danço Samba.
 
Nos anos 60, a MPB já gozava de algum prestígio na Europa que, à 
exemplo do ocorrido no Festival de Jazz de Monterrey, recebera a visita
do Laurindo Almeida e o Modern Jazz Quartet, culminando com a
apresentação em Madrid, que, além do Concerto Para Aranjuez,  mostrou 
parte do cancioneiro da MPB contemporânea.
http://mpbsapiens.com/mpb-jazz-p-1/
Foi numa das reuniões musicais, ocorridas na França, que tinham bandas
brasileiras nas aberturas, que ocorreu um fato pra lá de pitoresco, mas
típico do músico brasileiro garimpando fama.
 
Haveria uma apresentação do Sammy Davis Jr., um consagrado Showman
americano do jazz, que por algum motivo estaria ausente e comunicara na
última hora. Com o show em andamento, os organizadores pediram à 
banda brasileira que se mantivessem no palco e entretessem ao público.
 
Foi quando os franceses aprenderam a cantar a uma tradicional canção
infantil brasileira, Meu Limão Meu Limoeiro, em português e francês.
Wilson Simonal, às pressas, ocupou o lugar do consagrado Sammy Davis
Jr. e deu conta do recado o bastante a repetir várias vezes o show em
teatros distintos da França. Mais ou menos como o feito por aqui:
Vídeo de dofundodobau
 
Como era amigo do Dick Farney, Sammy Davis comentou com ele o 
ocorrido. Na época, havia uma jovem, mas já consagrada, cantora do 
jazz, que por manter amizade com quem de alguma forma acompanhara
à carreira de Billie Holiday, como Dick Farney por exemplo, acabou se
tornando uma das grandes vozes femininas do jazz a vir para o Brasil, e o
fez justamente num show com Wilson Simonal:
Vídeo de FOCOMAGICO
 
Tentarei fazer da próxima postagem, o prólogo 3, a última que mostra à 
fusão das derivações da Música Negra nas américas. Para tal preciso
antes obter os vídeos bastantes a mostrar à forma como tais distintas
realidades musicais podem ocupar simultaneamente o mesmo espaço 
musical em uma só composição. Até lá.
 
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Da MPB ao Jazz – Prólogo 1

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Semelhante ao ocorrido com o filme Guerra nas Estrelas, vejo necessária, 
após editar  três partes do tema, Da MPB ao Jazz, uma maior explicação
do reencontro dessas duas variações da Música Negra, que aproximou os 
artistas brasileiros e americanos respectivamente.
 
                               O Grande Elo
 
Foi à partir de Carmem Miranda que o intercâmbio entre a MPB e o Jazz
se iniciou de forma mais íntima, pois toda aquela Exuberância Tropical das
suas vestimentas e, além disso saber cantar e dominar bem o palco, tanto
impressionou ao mundo musical americano que acabou ganhando o apelido
de Pequena Notável.
 
Infelizmente não pude testemunhar a esse movimento todo, pois meus pais
eram sequer namorados, mas independendo desse início de relações, que
propiciou até a abertura de portas do Tio Sam para a entrada de músicos
brasileiros, conforme citei no episódio inicial que marcou o surgimento do 
Samba-Jazz, a década de 50 foi povoada também por alguns artistas 
“transnacionalizados”.  
 
Dick Farney, foi um dos mais notáveis. O garoto Farnésio Dutra e Silva
aprendeu logo a cantar e tocar piano. Rapidamente formou um conjunto com
o irmão, Cyll Farney, baterista, chamado Swing Maníacos, que após se
apresentar num programa de rádio, acabou virando Crooner de uma
orquestra que atuava no Cassino da Urca, Rio de Janeiro.
 
Na época, embora estivéssemos vivendo  uma Segunda Guerra Mundial, os
Cassinos, ainda permitidos no Brasil, eram os que mais atraíam  turistas
estrangeiros. Foi nessa ocasião que Dick coheceu um pianista americano,
Eddie Duchin, e acabou indo com ele para os USA em 1946.
 
A música brasileira era pouco conhecida por lá, e Dick foi um dos primeiros
instrumentistas brasileiros a mostrar as suas várias vertentes, pois, como
crooner, dominava tanto o samba, quanto o choro, o frevo …
 
Após travar contatos com pianistas famosos do jazz, Dick Farney ficou por
lá o tempo bastante a chamar, e encaixar, músicos brasileiros nas orquestras,
e a porta principal era aberta aos pianistas pela Orquestra de Count
Basie, que adorava música brasileira.
 
Isso explica a presença de Johnny Alf por lá, citado por mim na primeira
parte desta série. Durante alguns anos Dick vagou entre nós e eles, sempre
envolvido com o pessoal das altas rodas, tanto da música, quanto das
sociedades brasileira e americana.
 
O irmão dele, o Cyll Farney, acabou virando ator de cinema, se destacando
em algumas “Chanchadas” da Atlântida. Se tivéssemos que estabelecer uma 
comparação entre os caminhos dos Irmãos Farney, eu diria que Dick estava
para Mário Lago o mesmo tanto que Cyll estava para Jece Valadão.
 
Enquanto Cyll era mais parecido com o pai, um gozador capaz até de tirar
do sofrível nome dado ao filho, Farnésio, o pseudônimo da Família Farney,
Dick tinha o refinamento da mãe, sua professora nas primeiras aulas de
piano e canto.
 
O cara só podia ser um gozador ou estar contrariado com a chegada do filho.
 - Farnésio, Cilênio! Isso lá é jeito de nomear a amáveis e indefesas criaturas?
 
Essa educação refinada acabou tornando o Dick Farney uma pessoa muito
estimada entre os artistas e o povo, e isso acabou fazendo com que se
tornasse uma espécie de “olheiro” dos novos talentos.
 
O caso mais interessante desse seu lado de olheiro ocorreu no final dos anos 
50, quando uma senhora o procurou insistentemente até que concordasse em
escutar o filho dela tocando piano, no qual Dick disse à mãe do garoto de 
forma taxativa:
 
 - Ele leva jeito, como a maioria nessa idade, mas tem um grave defeito: 
Não sabe usar os pedais do piano!
 
Nos anos 60, os Programas de Rádio ainda eram o único veículo de 
divulgação artístico-musical, pois a televisão ainda engatinhava nesse tipo
de propaganda, e foi num desses programas de rádio, do famoso radialista
Miguel Vacaro Neto, que ocorreu um episódio que considero como um dos
mais felizes reencontros do Dick.
 
Amigo de Vacaro há muitos anos, já que também viera do rádio, Dick foi
convidado por ele para fazer parte de uma espécie de juri capaz de eleger,
num concurso para jovens instrumentistas, o melhor deles.
 
Quando chegou a vez dele ter que dar o seu veredicto, elegantemente falou
de todos os concorrentes, no geral, mas desferiu sobre um deles, um jovem
pianista, o seguinte elogio:
 
 - Sua execução no piano é muito boa, mas o que mais me impressionou foi
a sua habilidade no uso dos pedais do piano. Parabéns!
 
O jovem pianista era o mesmo que a mãe insistente levara ao Dick nos anos
50, e que, coincidentemente, foi o protagonista da postagem anterior a estas
sobre MPB e Jazz: Cesar Camargo Mariano.
http://mpbsapiens.com/como-uma-onda-dialogos-da-mpb/
Existe dois tipos de informação: A da Mídia, que norteia a divulgação dos
fatos artísticos de acordo com as conveniências empresariais; e a dos
bastidores, que transitam pelos músicos das bandas, que acompanham a
esses cantores nos sobe e desce das popularidades.
 
O próximo episódio acerca da trajetória do Dick Farney, como descobridor
de talentos musicais, retirei de uma conversa com os sambistas da Velha 
Guarda da Mangueira, na ocasião em que estive fazendo um samba para o
Enredo Chico Buarque.
http://mpbsapiens.com/mangueira-98/
Conversa vai, conversa vem, surgiram os nomes de Dick Farney e Lúcio 
Alves, duelistas na disputa da Tereza da Praia, que verei adiante.
 
Contaram os sambistas, na ocasião, que Dick era uma espécie de elo
artístico-social, tendo inclusive participado da transferência de um menino,
cantor do coro da igreja de São Conrado, ou Gonçalo, do subúrbio carioca,
para os USA, pois sendo órfão, foi adotado por uma família americana.
 
Como o assunto não foi adiante, fiquei apenas com essa informação retida
na memória. Meses após, conversando com Di Mello, cantor da noite 
paulistana com quem fiz a música Abre-Te Sézamo, que ele cantava nos
Bares Gays de Sampa; ao citar a ele sobre a conversa com a turma da
Velha Guarda da Mangueira, escutei o seguinte:
 
 - Ah, eles falavam do João Matias, cujo nome artístico é Johnny Mathis. A
coisa ficou bem na surdina, mas toda vez que o cara vem pro Brasil dá uma 
passeadinha lá pela igreja!
 
Nunca fui atrás dessa história para confirmá-la, já que não sou detetive e, 
muito menos jornalista. Apenas a usei para mostrar o respeito que o nome
Dick Farney tinha entre os músicos, tanto sambistas quanto roqueiros pop,
já que, anteriormente, Di Mello era contrabaixista do RC-7, que 
acompanhava o Roberto Carlos nos shows antes da chegada do Eduardo
Lages com a sua orquestra, e da coca pro Mello.
 
A coisa está ficando longa, portanto dividirei este Prólogo em Prólogos 1 e 2;
pois, por ter convivido com Billie Holiday, a trajetória do Dick foi também
responsável pela aproximação de cantoras como Ella Fitzgerald e Sarah 
Vaughan da MPB, cujos históricos também foram interessantes.
 
Próxima – >   http://mpbsapiens.com/mpb-jazz-prologo-2/

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