| Quando criança, Chico Buarque tinha a mania de ficar escutando, por um |
| vão de porta propositalmente deixado, as conversas do pai com amigos. |
| Um dos que mais visitava o historiador Sérgio Buarque era Vinícius de |
| Moraes, que usava mostrar ao amigo os poemas que fazia. |
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| É muito provável que ambos tenham conversado várias vezes sobre um |
| poema específico, dotado da seguinte introdução em prosa: |
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| …E o Diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de |
| tempo todos os reinos do mundo. E disse-lhe o Diabo: |
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| - Dar-te-ei todo este poder e a sua glória, porque a mim me foi entregue |
| e dou-o a quem quero; portanto, se tu me adorares, tudo será teu! |
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| E Jesus, respondendo, disse-lhe: |
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| - Vai-te, Satanás; porque está escrito: adorarás o Senhor teu Deus e |
| só a Ele servirás! ( Lucas, cap. V, vs. 5-8 ) |
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Era ele que erguia casas
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Onde antes só havia chão.
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Como um pássaro sem asas
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Ele subia com as casas
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Que lhe brotavam da mão.
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Mas tudo desconhecia
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De sua grande missão:
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Não sabia, por exemplo
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Que a casa de um homem é um templo
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Um templo sem religião
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Como tampouco sabia
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Que a casa que ele fazia
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Sendo a sua liberdade
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Era a sua escravidão.
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De fato, como podia
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Um operário em construção
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Compreender por que um tijolo
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Valia mais do que um pão?
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Tijolos ele empilhava
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Com pá, cimento e esquadria
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Quanto ao pão, ele o comia…
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Mas fosse comer tijolo!
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E assim o operário ia
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Com suor e com cimento
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Erguendo uma casa aqui
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Adiante um apartamento
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Além uma igreja, à frente
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Um quartel e uma prisão:
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Prisão de que sofreria
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Não fosse, eventualmente
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Um operário em construção.
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Mas ele desconhecia
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Esse fato extraordinário:
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Que o operário faz a coisa
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E a coisa faz o operário.
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De forma que, certo dia
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À mesa, ao cortar o pão
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O operário foi tomado
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De uma súbita emoção
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Ao constatar assombrado
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Que tudo naquela mesa
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Que tudo naquela mesa
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- Garrafa, prato, facão -
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Era ele quem os fazia
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Ele, um humilde operário,
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Um operário em construção.
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Olhou em torno: gamela
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Banco, enxerga, caldeirão
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Vidro, parede, janela
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Casa, cidade, nação!
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Tudo, tudo o que existia
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Era ele quem o fazia
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Ele, um humilde operário
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Um operário que sabia
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Exercer a profissão.
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Ah, homens de pensamento
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Não sabereis nunca o quanto
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Aquele humilde operário
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Soube naquele momento!
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Naquela casa vazia
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Que ele mesmo levantara
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Um mundo novo nascia
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De que sequer suspeitava.
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O operário emocionado
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Olhou sua própria mão
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Sua rude mão de operário
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De operário em construção
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E olhando bem para ela
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Teve um segundo a impressão
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De que não havia no mundo
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Coisa que fosse mais bela.
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Foi dentro da compreensão
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Desse instante solitário
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Que, tal sua construção
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Cresceu também o operário.
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Cresceu em alto e profundo
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Em largo e no coração
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E como tudo que cresce
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Ele não cresceu em vão
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Pois além do que sabia
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- Exercer a profissão -
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O operário adquiriu
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Uma nova dimensão:
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A dimensão da poesia.
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E um fato novo se viu
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Que a todos admirava:
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O que o operário dizia
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Outro operário escutava.
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E foi assim que o operário
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Do edifício em construção
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Que sempre dizia sim
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Começou a dizer não.
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E aprendeu a notar coisas
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A que não dava atenção:
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Notou que sua marmita
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Era o prato do patrão
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Que sua cerveja preta
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Era o uísque do patrão
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Que seu macacão de zuarte
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Era o terno do patrão
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Que o casebre onde morava
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Era a mansão do patrão
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Que seus dois pés andarilhos
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Eram as rodas do patrão
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Que a dureza do seu dia
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Era a noite do patrão
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Que sua imensa fadiga
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Era amiga do patrão.
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E o operário disse: Não!
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E o operário fez-se forte
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Na sua resolução.
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Como era de se esperar
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As bocas da delação
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Começaram a dizer coisas
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Aos ouvidos do patrão.
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Mas o patrão não queria
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Nenhuma preocupação
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– “Convençam-no” do contrário –
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Disse ele sobre o operário
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E ao dizer isso sorria.
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Dia seguinte, o operário
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Ao sair da construção
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Viu-se súbito cercado
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Dos homens da delação
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E sofreu, por destinado
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Sua primeira agressão.
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Teve seu rosto cuspido
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Teve seu braço quebrado
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Mas quando foi perguntado
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O operário disse: Não!
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Em vão sofrera o operário
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Sua primeira agressão
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Muitas outras se seguiram
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Muitas outras seguirão.
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Porém, por imprescindível
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Ao edifício em construção
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Seu trabalho prosseguia
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E todo o seu sofrimento
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Misturava-se ao cimento
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Da construção que crescia.
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Sentindo que a violência
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Não dobraria o operário
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Um dia tentou o patrão
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Dobrá-lo de modo vário.
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De sorte que o foi levando
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Ao alto da construção
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E num momento de tempo
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Mostrou-lhe toda a região
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E apontando-a ao operário
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Fez-lhe esta declaração:
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– Dar-te-ei todo esse poder
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E a sua satisfação
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Porque a mim me foi entregue
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E dou-o a quem bem quiser.
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Dou-te tempo de lazer
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Dou-te tempo de mulher.
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Portanto, tudo o que vês
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Será teu se me adorares
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E, ainda mais, se abandonares
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O que te faz dizer não.
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Disse, e fitou o operário
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Que olhava e que refletia
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Mas o que via o operário
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O patrão nunca veria.
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O operário via as casas
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E dentro das estruturas
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Via coisas, objetos
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Produtos, manufaturas.
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Via tudo o que fazia
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O lucro do seu patrão
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E em cada coisa que via
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Misteriosamente havia
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A marca de sua mão.
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E o operário disse: Não!
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– Loucura! – gritou o patrão
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Não vês o que te dou eu?
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– Mentira! – disse o operário
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Não podes dar-me o que é meu.
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E um grande silêncio fez-se
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Dentro do seu coração
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Um silêncio de martírios
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Um silêncio de prisão.
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Um silêncio povoado
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De pedidos de perdão
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Um silêncio apavorado
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Com o medo em solidão.
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Um silêncio de torturas
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E gritos de maldição
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Um silêncio de fraturas
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A se arrastarem no chão.
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E o operário ouviu a voz
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De todos os seus irmãos
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Os seus irmãos que morreram
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Por outros que viverão.
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Uma esperança sincera
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Cresceu no seu coração
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E dentro da tarde mansa
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Agigantou-se a razão
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De um homem pobre e esquecido
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Razão porém que fizera
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Em operário construído
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O operário em construção.
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| Uma das primeiras composições do Chico foi Pedro Pedreiro. Alguns anos |
| mais tarde ele escreveu as composições Construção e Deus Lhe Pague. |
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| O verso preferido de Chico, para a grande maioria das composições da |
| sua vasta obra, foi o Redondilha Maior (7 sílabas), o que acabou lhe dando |
| o apelido de Chico Redondilha. |
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| Operário em Construção foi feito inteiro em Redondilhas Maiores. Não |
| estranhem as aparentes diferenças nos comprimentos de versos imediatos, |
| tais como: |
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Não sabia, por exemplo
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Que a casa de um homem é um templo
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Um templo sem religião
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| Vejam porque: |
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| Não / sa / bi / a / por / e / xem / plo |
| Que-a / ca / sa / de-um / ho / mem-é-um / tem / plo |
| Um / tem / plo / sem / re / li / gião |
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| Quando escrita, a sílaba mem-é-um aparenta ser impossível de ser dita |
| num único tempo poético, mas pela fala idiomática a coisa fica normal. |
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| Sugiro a vocês uma Escansão do poema inteiro para ver se há algum erro |
| no que eu disse sobre ter sido feito inteiro em Redondilhas Maiores. Não |
| analisei o poema todo, apenas suspeitei à uniformidade nos versos. |
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| Na história da MPB, não foi só o Chico que se utilizou dessa obra do |
| Vinícius para fazer as próprias. Em Disparada, os versos: |
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Aprendi a dizer Não!
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Ver a morte sem chorar
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| Dão a dica de onde ele foi buscar a idéia, do operário, que mesmo |
| apanhando, aprendeu a dizer Não e mantinha a palavra. |
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| O Zé Ramalho também fez um pra lá de uso do poema do Vinícius na |
| sua composição Cidadão, que veremos logo adiante. |
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| Nenhuma construção pode ser erguida sem que alguém a planeje e compre |
| o material necessário. Na construção civil, muitos dos operários do ontem |
| são os patrões do hoje, que aprenderam a planejar e comprar material. |
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| Como Sonho Poético, as lições do Operário em Construção se justificam, |
| mesmo sendo os patrões do ontem os operários do anteontem. Nada mudou, |
| só algus patrões lembram que foram operários, outros não. |
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| - Vai-te Satanás! |
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