Archive for setembro, 2009

Sílabas Invertidas

Uma das brincadeiras de infância predileta, que tínhamos nos anos 60, era a
de pronunciarmos as palavras com a ordem invertida das sílabas, pois dessa
forma a molecada podia conversar sobre segredos, além de falar palavrões,
de maneira menos perigosa.
 
No começo é um pouco difícil, mas rapidinho se pega a manha e logo um
grupo de moleques já está com a linguagem cifrada bem definida, cujas
regras de acentuação variam de grupo para grupo, mas normalmente 
usávamos transformar todas as palavras oxítonas.
 
Havia também o truque de camuflar o É, juntando-o à primeira sílaba da
palavra seguinte. O aprendizado fica mais fácil, por ser mais interessante,
quando se começa a pronunciar os palavrões de forma invertida. Assim:
 
Ussê lhofí ád tapú - Seu filho da….
Quepôr cevô onã ivá martô onúc – porque você não vai tomar….
Tapú okê riupá
 
E assim por diante.
 
Grandes propostas eram elaboradas e normalmente aceitas pelos grupos:
 
Mosvã tarfál an lacoês jeô arp garjô labó tracôn?
 
Mis! Era a resposta normalmente ouvida, mas quando algum recusava
vinham coisas como: Odaví, gãocá, carimá
 
Lembro até hoje de um episódio que vivi usando essa brincadeira.
 
Acabara de levar uma bronca do meu pai pelas notas baixas do boletim, e
enquanto ele olhava o próprio, resmunguei baixinho:
 
Lhové ód tessecá!
 
Sem tirar os olhos do boletim no vermelho, ele respondeu calmamente:
 
Degrân dedavinô, lhodefê!
 
Ao observar o meu ar de surpresa com a resposta, ele disse à minha mãe:
 
Izabel, pegue a pimenta, por favor!
 
Ela não entendeu nada, mas eu e ele tudo.
 
Conclusão: – Acho que a molecada dos anos 30 já sabia dessa!

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Viola Enluarada – Análise de Texto

 Viola Enluarada (vídeo de troiamaues)

 

 

Anterior – > http://mpbsapiens.com/mordaça-analise-de-texto/
 
Em finais dos anos 60 havia um programa de televisão, na Rede Record
de São Paulo, comandado por Blota Jr., que era uma espécie de desafio
envolvendo compositores musicais.
 
Dentre os compositores, que disputavam um automóvel Gordine como
prêmio, eram sorteados os temas sobre os quais teriam de escrever a 
composição musical. Após sorteados e distribuidos os temas, os 
compositores dispunham de um pequeno tempo para realizarem as tarefas.
 
Era uma espécie de Repentismo, só que com qualidade poética um pouco
maior, já que o Repente, por exigir ser composto de imediato, acaba se
tornando um tanto repetitivo nas bases de construção poética, tais como
Métrica, Cadência e Rimas.
 
Foi num desses programas que os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle
escreveram e cantaram Viola Enluarada, que acabou se tornando um bom
classico da MPB.
 
A Roda-Viva do Chico adquiria outras configurações de texto para ganhar
algum apoio, e os irmãos Valle deram o seu recado dessa forma, num
protesto misto contra a mídia e o governo militar vigente, já que, na época,
a música para ser divulgada necessitava ter no texto alguma coisa que desse
a idéia de luta social nos engajamentos vários alimentados pela imprensa.
 
A mão que toca um violão
Se for preciso faz a guerra,
Mata o mundo, fere a terra.
 
A voz que canta uma canção
Se for preciso canta um hino,
Louva à morte.
 
Viola em noite enluarada
No sertão é como espada,
Esperança de vingança.
 
O mesmo pé que dança um samba
Se preciso vai à luta,
Capoeira.
 
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira,
Prá defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
 
Mão, violão, canção e espada
E viola enluarada
Pelo campo e cidade,
 
Porta bandeira, capoeira,
Desfilando vão cantando
Liberdade.
 
Quem tem de noite a companheira
Sabe que a paz é passageira,
Prá defendê-la se levanta
E grita: Eu vou!
 
Porta bandeira, capoeira,
Desfilando vão cantando
Liberdade.
Liberdade, liberdade, liberdade…
 
Trata-se de uma letra primária, com objetivos indefinidos para uma luta a ser
travada defendendo a que? A Liberdade ou a Paz Passageira?; cuja defesa
exija que se levante e se grite que vai, mas para onde?
 
Mais uma vez foi para o folclórico comportamento de luta corporal, a 
capoeira, já bem utilizada por Vinícius de Moraes e Baden Powel noutro 
clássico da MPB chamado Berimbáu.
 
Essa época apresentava uma repressão militar ainda branda, pois a coisa
pegou mesmo à partir do governo Médici, todavia, resultante daquela
algazarra toda, criada e alimentada pelos veículos de comunicação nos anos 
imediatamente anteriores.
 
Nada justifica a repressão qualquer, mas tudo justifica ao estudo do porque
das coisas.
 
Tivemos também naquele período outras manifestações folclóricas, tais
como Arena Canta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri, com trilha sonora
elaborada por Edu Lobo, com letras de parceiros.
 
Peça interessante, todavia perigosa. Não para os militares, mas pro próprio
desenvolvimento social do brasileiro. 
 
Naqueles anos estávamos conseguindo diminuir bastante o ranço ideológico,
herdados dos anos de escravidão, na desvalorização da raça negra. Por 
alguma idiotice qualquer escreveram, numa das músias da peça, o seguinte
texto, que imaginavam incentivar ainda mais o combate à segregação:
 
A mulher do branco é esposa
E a esposa do preto é mulher
Mas minha mulher é só minha
E a do branco eu não sei
Se só dele é.
 
Ambos os compositores, responsáveis pela idiotice, eram brancos, logo,
naturais chifrudos e irresponsáveis artistas, pois esse tipo de atitude apenas
gerou nos brancos um revanchismo que se tentava acabar.
 
O povo não era tão burro assim e sabia interpretar um texto, só que o
Oportunismo falou mais alto na hora de vender o produto, já que o negro
estava bem próximo de ser a maioria no Brasil.
 
Havia, por parte dos artistas, uma preocupação com a Censura dos seus
trabalhos, mas havia também uma enorme preocupação da imprensa, que
estava vendo a sua Liberdade de Fofoca ser limitada e, para tentar corrigir
a esse estado de coisas, usava os artistas com maior ou menor divulgação
dos seus trabalhos, de acordo com as suas conveniências.
 
Essa era a essência do protesto de Chico em Roda-Viva, a do uso dos
artistas como Instrumento de Domínio por parte da mídia, o que os levava
a trabalhar meio como por encomenda:
 
 - Fala de Zumbi, dá bom Ibope, a gente vende mais jornais,  a peça fica em
cartaz por bastante tempo e saímos ambos felizes!
 
Aquela Irresponsabilidade Social também corria solta nos anos 60, e os
irmãos Vale só aproveitaram à correnteza para compor Viola Enluarada,
uma linda melodia sobre um texto oportunista, já que refletia apenas a
folclóricos sonhos de pouca aplicação lógica no comportamento social.
 
Lembro novamente um pensamento do Vitor Hugo, colocado no livro
O Corcunda de Notre Dame, onde um cigano diz a um poeta:
 
Vocês, artistas, são piores que os políticos, que nos alimentam com
falsas promessas, enquanto vocês fazem com que os seus sonhos se
transformem nos nossos ideais, dos quais não nos livramos mais, mas 
nem eles nem vocês colocam pães em nossas mesas.
 
Se livrar do semelhante, para que ele não emita qualquer juízo a seu respeito,
é até simples de se conseguir. Basta viver isolado da civilização, mas tente se
livrar do próprio pensamento!
 
O que é a Liberdade senão um sonho sobre o qual se fundamentaram as
costituições dos estados?
 
Falar dela é fácil, o difícil é torná-la menos abstrata, pois quando a supomos,
por exemplo, como Máxima Democrática, acabamos elegendo a políticos
dos quais falaremos mal por um bom tempo.
 
A escolha entre entendê-la e tentar fazer uso dela é toda sua.
 
Bom Divertimento!
 
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Mordaça – Análise de Texto

Mordaça (vídeo de Jabur64)

Nota: Dentre várias músicas cantadas pelo MPB4, parte da composição Mordaça está localizada aos 2 min. e 38 seg. do vídeo.

Anterior – http://mpbsapiens.com/comunicacao-analise-de-texto/
 
Paulo Cesar Pinheiro é um dos maiores letristras da MPB, embora o seu
nome seja bem menos famoso do que o de outros, já que, ao contrário 
deles, não investiu na carreira de cantor das próprias composições.
 
É daquela leva de bons compositores dos anos 60 e, a exemplo deles, foi
submetido a uma série de cobranças de engajamentos político-sociais, no 
entanto a sua luta maior foi pela qualidade das composições musicais.
 
O texto de Mordaça pode sugerir até àlguma dor de cotovelo, vinda de um
relação amorosa em vias de extinção, mas o título dela nos leva a suspeitar
ter abordado à famosa Censura dos militares na época em que foi escrita.
 
Como já disse, engajara-se também na causa da composição musical bem
escrita e honesta, voltada muito mais ao sentimento do poeta do que às
conveniências do mercado de discos. Coincidiu que tal época também
apresentou alguns compositores se voltando mais para o aspecto comercial,
e suspeito que Mordaça tenha se referido mais a esse aspecto:
 
 - Ou escreve como achamos melhor, ou não tem divulgação da obra!
 
Tudo o que mais nos uniu separou
Tudo que tudo exigiu renegou
Da mesma forma que quis recusou
O que torna essa luta impossível e passiva
O mesmo alento que nos conduziu debandou
Tudo que tudo assumiu desandou
Tudo que se construiu desabou
O que faz invencível a ação negativa
 
É provável que o tempo faça a ilusão recuar
Pois tudo é instável e irregular
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
 
Mas só se a vida fluir sem se opor
Mas só se o tempo seguir sem se impor
Mas só se for seja lá como for
O importante é que a nossa emoção sobreviva
E a felicidade amordace essa dor secular
Pois tudo no fundo é tão singular
É resistir ao inexorável
O coração fica insuperável
E pode em vida imortalizar
 
E de repente o furor volta
O interior todo se revolta
E faz nossa força se agigantar
 
Convém lembrar que os compositores musicais dos anos 60 formaram uma
espécie de sindicato classista, cujas sedes estavam espalhadas por bares do
Rio e de Sampa, e era dessa forma que se mantinham informados sobre os
trabalhos da maioria deles, desde os problemas com a Censura, quanto das
debandadas de alguns para o lado das conveniências comerciais.
 
Olhando por esse lado, o texto da composição mostra claramente, à partir
da primeira estrofe, que havia uma coesão de pensamentos sendo rompida.
Na segunda, o Ser poético, esboça uma reação contra o Parecer artístico 
dando, na terceira,  uma espécie de receita para a retomada da coesão 
filosófica perdida.
http://mpbsapiens.com/roda-viva-disparada-um-claro-enigma/
O texto é encerrado com uma retomada forte da reação vista na segunda
estrofe, que cita a uma “dor secular”. O que seria essa dor?
 
Poderia muito bem ser as diferenças sociais que nos posiciona em classes, 
inclusive a de compositores musicais preocupados com a cultura do povo, o
que era bem o caso do Paulo Cesar na época, tanto que um dos seus maiores
sucessos, Canto Das Três Raças, trás num fragmento essa idéia:
 
…Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um Soluçar de Dor.
 
Havia uma preocupação dos poetas da época com a condição social, tanto
do povo, quanto da honestidade dos compositores que os alimentavam na
cultura. Sugiro a leitura da postagem:
http://mpbsapiens.com/o-ocultismo-do-canto-das-tres-racas/
 Nota: Composiçâo de Paulo Cesar Pinheiro e Eduardo Gudin
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Comunicação (Gilberto Gil)- Análise de Texto

Comunicação (vídeo de Elisetom1974)

Anterior – http://mpbsapiens.com/superbacana-analise-de-texto/
 
Seguindo a idéia das 3 últimas postagens, citei na última delas  à forma
com que o baiano Gilberto Gil foi mais contundente do que, o também 
baiano, Caetano Veloso tratou da intervenção da mídia nas composições
musicais, uma relação denunciada por Chico na peça Roda-Viva.
 
Embora haja no vídeo acima a data – 1974 – a composição foi feita bem
antes, já que fez parte de um LP da Elis gravado em 1970.
 
Os artistas, talvez acima de protestarem contra o regime militar vigente 
no país, estavam incomodados com a situação comercial que os limitava
na exposição dos trabalhos, reféns daquela parafernália comercial
que os envolvia, dando ao público uma falsa idéia de cumplicidade.
 
Ao longo dos tempos, uma conduta foi repetitiva entre os pensadores,
tanto poetas quanto filósofos, quando amordaçados de alguma forma
e proibidos de se expressarem como queriam: A Sátira!
 
Assim como Chico satirizou na música Essa Moça Tá Diferente, Caetano
o fez em Superbacana, e Gil idem em Comunicação:
 
(Roda, roda e avisa!)
 
Sinto o anúncio e vejo
Em forma de desejo o sabonete
Em forma de sorvete 
Acordo e durmo na televisão.
 
Creme dental, saúde
E vivo num sorriso, paraíso
Quase que jogado
Impulsionado, no comercial.
 
(refrão)
Só tomava chá
Quase que forçado vou tomar café
Ligo o aparelho e vejo o Rei Pelé
Vamos então repetir o gol!
E na lua sou
Mais um cosmonauta-patrocinador
Chego atrasado perco o meu amor
Mais um anúncio sensacional!
 
Ponho um aditivo 
Dentro da panela a gasolina
Passo na janela da cozinha 
Tem mais um fogão
 
Tocam a campainha
Mais uma pesquisa e eu respondo
Que enlouquecendo, já sou fã 
Do comercial!
 
(refrão)
 
Na Brastel, tudo a preço de banana!
Quem nao se comunica, se trumbica!
Tereeziiinha…!
Estamos pensando em bloco…!
Conheça o Brasil pela Varig!
Ducal… meu nome é Gal… Ducal….!
 
Nesta composição, além do conjunto Capeta (imprensa e televisão), Gil 
adicionou o Anjo (Ibope), todos personagens da peça Roda-Viva.
http://mpbsapiens.com/roda-viva-a-peca-parte-1/
É interessante a forma como o Chico se usa dos pensamentos dos 
outros compositores anos mais tarde. Embora toda essa parafernália
de denúncias, contra o Consumismo Artístico, tenha sido iniciada por
ele mesmo na peça Roda-Viva, em 1968, 10 anos após ele lançou a
Ópera do Malandro, que apresenta no final uma versão brasileira, em
forma de paródia, de consagradas obras óperas passadas.
 
Separei um texto, que embora longo, é apenas um fragmento da ópera
inteira da peça. Notem as semelhanças:
 
O sol nasceu
No mar de Copacabana
Pra quem viveu
Só de café e banana
Tem gilete, Kibon
Lanchonete, Neon
Petróleo, Cinemascope
Sapólio, Ban-lon
Shampoo, tevê
Cigarros longos e finos
Blindex fumê
Já tem Napalm e Kolinos
Tem cassete e ray-ban
Camionete e sedan
Que sonho
Corcel, Brasília
Plutônio, Shazam
Que orgia
Que magia
Reina a paz
No meu país
Ai, meu Deus do céu
Me sinto tão feliz
 
Agora é só comparar:
 
Copacabana me engana
Esconde o superamendoim
O espinafre, o biotônico
(Superbacana – Caetano Veloso)
 
Só tomava chá
Quase que forçado vou tomar café…
 
É pra lá de fascinante como os pensamentos transitam simultaneamente
nas cabeças dos vários poetas em épocas distintas, não é mesmo?
 
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Superbacana (Caetano Veloso) – Análise de Texto

Anterior – http://mpbsapiens.com/lunik-9-analise-de-texto/
 
Nas postagens anteriores, Essa Moça Tá Diferente e Lunik-9, tratei das
distintas formas como diferentes poetas interpretaram à quebra dos seus 
ancestrais motivos de inspiração, como banda, realejo, lua; pela feroz entrada
da televisão na vida deles.
 
Citei a peça Roda-Viva, do Chico Buarque, como uma denúncia contra esse
tipo de manipulação da carreira do artista pela mídia e mostrei como Gilberto
Gil reagiu a toda essa nova realidade das telas nas composições musicais.
 
Continuo o assunto com uma composição do Caetano Veloso que, ainda
bem jovem, sofreu esse tipo de intervenção pelo povo concretista que
habitava a crítica da folha de São Paulo, sendo portanto, a composição a
a seguir, uma espécie de depoimento dele de como enxergava ao quadro.
 
Quando queremos dominar o comportamento de um jovem, temos várias
estratégias de ação, e dentre elas, a jogada do Elogio, que suponho ter sido
o argumento daquele povo velhaco para puxar o Caetano para o lado dele.
 
Enquanto Gil sempre teve uma visão mais contudente do quadro social que
o cercava, Caetano, como bom baiano, sempre deu uma idéia do tanto faz,
e muitas vezes foi mal interpretado por isso, no entanto, esse joguinho do 
descompromisso era apenas uma armadura do artista para manter a sua
essência poética fora do alcance, naquela jogada do Ser x Parecer.
http://roda-viva-disparada-claro-enigma/
Diante de toda aquela oferta de elogios, Caetano se defendeu assim:
 
Toda essa gente se engana
Ou então finge que não vê que eu nasci
Pra ser o Superbacana
Eu nasci pra ser o Superbacana
Superbacana, Superbacana
Superbacana
 
Super-homem, Superflit, Supervinc, Superist
Superbacana
Estilhaços sobre Copacabana
O mundo em Copacabana
Tudo em Copacabana 
Copacabana
 
O mundo explode longe, muito longe
O sol responde
O tempo esconde
O vento espalha
E as migalhas caem todas sobre
Copacabana me engana
 
Esconde o superamendoim
O espinafre, o biotônico
O comando do avião supersônico
Do parque eletrônico
Do poder atômico
Do avanço econômico
 
A moeda número um do Tio Patinhas não é minha
 
Um batalhão de cowboys
Barra a entrada da legião dos super-heróis
E eu superbacana
Vou sonhando até explodir colorido
No sol, nos cinco sentidos
Nada no bolso ou nas mãos
 
Um instante, maestro!   (consagrada frase do maestro Flavio Cavalcanti)
 
Super-homem Superflit
Supervinc, Superist
Superviva, Supershell
Superquentão
 
De repente, aquele jovem compositor, supervalorizado pela mídia, por
alguns momentos se sentiu ridículo diante daquilo, e misturando os valores
infantis aos novos que se ofereciam, se transformou no Super-Tudo.
 
Misturou valores dos gibis do Tio Patinhas a outros, tidos como mais 
adultos, como Avanço Econômico. A coisa ganha um pouco mais de 
lógica quando se sabe que toda aquela “piscina de dinheiro”, exemplo da
riqueza do Tio Patinhas, se deveu à famosa e oculta Moeda Número 1.
 
Se percebe que parte do texto de Superbacana foi tirado da composição
Alegria-Alegria, só que com uma nova visão, muito mais realista, daquele
mundo que o cercava como artista.
 
Se por um lado:
 
O sol nas bancas de revista
Me enche de alegria e preguiça
Quem lê tanta notícia?
 
Mostra a reação de um garoto, mais interessado no gibi do Tio
Patinhas, que diante daquela oferta toda de notícias, comum a uma 
banca de jornais, tenha se explanado daquela maneira, por outro:
 
Sem lenço, sem documento
Nada no bolso ou nas mãos
Eu quero seguir vivendo
Amor
 
Mostra que, buscando se livrar daquele jogo todo de interesses da mídia,
tenta voltar a um tempo menos exigente, além de sugerir, que a despeito
da Super-Propaganda ao redor do seu nome, continuava quase tão 
“duro” quanto antes, já que a fatia maior do dinheiro, resultante da 
exposição do artista e sua arte, sempre fica nas mãos dos empresários.
 
Os compositores musicais da época sabiam que faziam algo que os 
diferia do povo. Se por um lado tinham uma condição de vida bem
melhor do que a maioria do povo para o qual a sua arte era negociada,
por outro, tal situação os chateava, mais ou menos, mas incomodava.
 
Essa leveza baiana, com que Caetano Veloso enxergava a Roda-Viva
do Chico Buarque era descrita na época, pelo também baiano Gilberto 
Gil, de outra forma mais contundente.
 
É o que veremos na próxima postagem.
 
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 Superbacana (vídeo de LeandroRJ)

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