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| Em finais dos anos 60 havia um programa de televisão, na Rede Record |
| de São Paulo, comandado por Blota Jr., que era uma espécie de desafio |
| envolvendo compositores musicais. |
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| Dentre os compositores, que disputavam um automóvel Gordine como |
| prêmio, eram sorteados os temas sobre os quais teriam de escrever a |
| composição musical. Após sorteados e distribuidos os temas, os |
| compositores dispunham de um pequeno tempo para realizarem as tarefas. |
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| Era uma espécie de Repentismo, só que com qualidade poética um pouco |
| maior, já que o Repente, por exigir ser composto de imediato, acaba se |
| tornando um tanto repetitivo nas bases de construção poética, tais como |
| Métrica, Cadência e Rimas. |
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| Foi num desses programas que os irmãos Marcos e Paulo Sérgio Valle |
| escreveram e cantaram Viola Enluarada, que acabou se tornando um bom |
| classico da MPB. |
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| A Roda-Viva do Chico adquiria outras configurações de texto para ganhar |
| algum apoio, e os irmãos Valle deram o seu recado dessa forma, num |
| protesto misto contra a mídia e o governo militar vigente, já que, na época, |
| a música para ser divulgada necessitava ter no texto alguma coisa que desse |
| a idéia de luta social nos engajamentos vários alimentados pela imprensa. |
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A mão que toca um violão
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Se for preciso faz a guerra,
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Mata o mundo, fere a terra.
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A voz que canta uma canção
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Se for preciso canta um hino,
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Louva à morte.
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Viola em noite enluarada
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No sertão é como espada,
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Esperança de vingança.
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O mesmo pé que dança um samba
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Se preciso vai à luta,
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Capoeira.
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Quem tem de noite a companheira
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Sabe que a paz é passageira,
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Prá defendê-la se levanta
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E grita: Eu vou!
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Mão, violão, canção e espada
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E viola enluarada
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Pelo campo e cidade,
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Porta bandeira, capoeira,
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Desfilando vão cantando
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Liberdade.
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Quem tem de noite a companheira
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Sabe que a paz é passageira,
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Prá defendê-la se levanta
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E grita: Eu vou!
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Porta bandeira, capoeira,
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Desfilando vão cantando
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Liberdade.
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Liberdade, liberdade, liberdade…
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| Trata-se de uma letra primária, com objetivos indefinidos para uma luta a ser |
| travada defendendo a que? A Liberdade ou a Paz Passageira?; cuja defesa |
| exija que se levante e se grite que vai, mas para onde? |
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| Mais uma vez foi para o folclórico comportamento de luta corporal, a |
| capoeira, já bem utilizada por Vinícius de Moraes e Baden Powel noutro |
| clássico da MPB chamado Berimbáu. |
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| Essa época apresentava uma repressão militar ainda branda, pois a coisa |
| pegou mesmo à partir do governo Médici, todavia, resultante daquela |
| algazarra toda, criada e alimentada pelos veículos de comunicação nos anos |
| imediatamente anteriores. |
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| Nada justifica a repressão qualquer, mas tudo justifica ao estudo do porque |
| das coisas. |
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| Tivemos também naquele período outras manifestações folclóricas, tais |
| como Arena Canta Zumbi, de Gianfrancesco Guarnieri, com trilha sonora |
| elaborada por Edu Lobo, com letras de parceiros. |
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| Peça interessante, todavia perigosa. Não para os militares, mas pro próprio |
| desenvolvimento social do brasileiro. |
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| Naqueles anos estávamos conseguindo diminuir bastante o ranço ideológico, |
| herdados dos anos de escravidão, na desvalorização da raça negra. Por |
| alguma idiotice qualquer escreveram, numa das músias da peça, o seguinte |
| texto, que imaginavam incentivar ainda mais o combate à segregação: |
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| A mulher do branco é esposa |
| E a esposa do preto é mulher |
| Mas minha mulher é só minha |
| E a do branco eu não sei |
| Se só dele é. |
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| Ambos os compositores, responsáveis pela idiotice, eram brancos, logo, |
| naturais chifrudos e irresponsáveis artistas, pois esse tipo de atitude apenas |
| gerou nos brancos um revanchismo que se tentava acabar. |
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| O povo não era tão burro assim e sabia interpretar um texto, só que o |
| Oportunismo falou mais alto na hora de vender o produto, já que o negro |
| estava bem próximo de ser a maioria no Brasil. |
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| Havia, por parte dos artistas, uma preocupação com a Censura dos seus |
| trabalhos, mas havia também uma enorme preocupação da imprensa, que |
| estava vendo a sua Liberdade de Fofoca ser limitada e, para tentar corrigir |
| a esse estado de coisas, usava os artistas com maior ou menor divulgação |
| dos seus trabalhos, de acordo com as suas conveniências. |
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| Essa era a essência do protesto de Chico em Roda-Viva, a do uso dos |
| artistas como Instrumento de Domínio por parte da mídia, o que os levava |
| a trabalhar meio como por encomenda: |
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| - Fala de Zumbi, dá bom Ibope, a gente vende mais jornais, a peça fica em |
| cartaz por bastante tempo e saímos ambos felizes! |
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| Aquela Irresponsabilidade Social também corria solta nos anos 60, e os |
| irmãos Vale só aproveitaram à correnteza para compor Viola Enluarada, |
| uma linda melodia sobre um texto oportunista, já que refletia apenas a |
| folclóricos sonhos de pouca aplicação lógica no comportamento social. |
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| Lembro novamente um pensamento do Vitor Hugo, colocado no livro |
| O Corcunda de Notre Dame, onde um cigano diz a um poeta: |
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| Vocês, artistas, são piores que os políticos, que nos alimentam com |
| falsas promessas, enquanto vocês fazem com que os seus sonhos se |
| transformem nos nossos ideais, dos quais não nos livramos mais, mas |
| nem eles nem vocês colocam pães em nossas mesas. |
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| Se livrar do semelhante, para que ele não emita qualquer juízo a seu respeito, |
| é até simples de se conseguir. Basta viver isolado da civilização, mas tente se |
| livrar do próprio pensamento! |
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| O que é a Liberdade senão um sonho sobre o qual se fundamentaram as |
| costituições dos estados? |
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| Falar dela é fácil, o difícil é torná-la menos abstrata, pois quando a supomos, |
| por exemplo, como Máxima Democrática, acabamos elegendo a políticos |
| dos quais falaremos mal por um bom tempo. |
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| A escolha entre entendê-la e tentar fazer uso dela é toda sua. |
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| Bom Divertimento! |
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