Archive for julho, 2009

O Soneto, Vinícius e a Musa Eterna

               

Os poetas naturais, não comerciantes de letras, trazem consigo uma ética que 
os difere dos segundos, e essa mesma ética dos primeiros, comprometidos 
com a Lira, acabou ao longo dos séculos gerando condutas que lembram
rituais, ou manias, incomuns aos pensadores naturalmente agnósticos. 
 
Nos anos 60 o violonista Toquinho sonhava, como a maioria dos colegas, em 
musicar poemas do Vinícius, mas para isso era necessário que ao menos
fosse apresentado a ele. Foi informado, não lembro se por Chico ou Tom, 
que Vinícius andava lá pela Bahia, pois iria compor com Dorival Caymmi.
 
Toquinho viajou para lá, mas Vinícius já havia voltado sem falar com
Dorival, no entanto voltou com uma letra que o poeta deixara para que o 
anfitrião ausente espiasse e musicasse. Ou seja: 
 
 - Voltou com a primeira e valiosa pepita de uma futura mina da MPB! 
 
Rapidamente musicou o poema, foi atrás do poeta e, na cara dura, mostrou a 
composição. Vinícius se despediu meio incomodado e falou que depois lhe 
daria uma resposta. Pensou alguns dias e depois foi se desculpar com Dorival
 porque alguém já tinha “casado” o poema com a melodia. Foi assim que 
nasceu Tarde em Itapoã e uma das mais felizes parcerias da MPB.
 
Toquinho foi de um oportunismo típico dos talentosos que merecem nascer,
ainda que a fórceps, pois usou o motivo da viagem de Vinícius à Bahia, a
casa do Caymmi como inspiração do poeta e ganhou o poema pronto.
 
Após ganhar a primeira melodia um poema não pode ter outra, pois também 
assume o fundamental compromisso das bodas de Cadmo e Harmonia. 
 
Cadmo foi quem levou o Alfabeto Fenício para a Grécia e Harmonia foi filha 
de Ares e Afrodite. Nesse lance, suspeitou-se até a uma bigamia de Afrodite
com Zeus, tamanho o empenho dele em promover o evento nupcial. 
 
Um natural filho de Cadmo, como Vinícius, não pode desprezar o natural e
primordial dote de Harmonia, caso contrário perderá a essência poética.
 
O que difere o poeta dotado do comerciante de letras está exatamente na 
intervenção de Zeus no evento, pois o alfabeto que Cadmo levou à Grécia 
era oriundo de um povo essencialmente comercial, que o criara só para tal.
 
Foi por tais núpcias que o comercial alfabeto Fenício se transformou em 
em Grego e artístico, tornando-se um divisor entre Artistas e Escribas. 
 
Imagino que a composição a seguir seja um canto do Vinícius à sua Musa
Eterna, Inatingível e que mora nas canções: Harmonia. Louvada por recitação
e canto, após o poema ter encontrado a sua Casa Harmônica na melodia.
 
São demais os perigos dessa vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua chega de repente
E se deixa no céu, como esquecida
 
E se ao luar, que atua desvairado
Vem-se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher
 
Deve andar perto uma mulher, que é feita
De música, luar e sentimento
Que a vida não quer, de tão perfeita
 
Uma mulher que é como a própria lua
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor, que vive nua.
 
Existe até a chance desse soneto do Vinícius ter nascido antes do Toquinho.
Por não estudá-lo com o merecido afinco, o que certamente ainda ocorrerá, 
não posso precisar a data da sua criação, porém não creio que alguém, em 
normal estado de consciência, possa escrever uma coisa semelhante, pois se
trata dessas “Psicografias Poéticas” que, às vezes, podem até se dirigir a um
suposto alvo fixo na cabeça do poeta, mas que acabam atingindo a uma
grande variedade de alvos dispersos nas cabeças dos ouvintes.
 
Talvez, um poema guardado por anos à espera do dote pré destinado a um 
violonista ainda por nascer, o que ocorreria quando Vinícius já estivesse com 
23 anos? Posso também fantasiar, por que não?
 
Dote vindo antes e fazendo o poeta finalmente encontrar a musa embutida, 
anos após, nos acordes de um jovem violonista? Caprichos de Harmonia?
 
Existem segredos que só os Deuses da Arte conhecem e nos ocultam, ao 
mesmo tempo em que se traduzem pelos filhos dotados.

                    a

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Não Fala de Maria – Análise de Texto

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Embora Não Fala de Maria tenha sido gravada antes de Olha Maria, dá para
notar que o texto se refere à segunda. O Mote que fez com que o trio, Chico,
Vinícius e Jobim compusesse Olha Maria, creio que só o Chico, hoje, 
possa esclarecer, portanto persisto com a suspeita de ter ela sido feita tendo
alguma saída rápida da Marieta como Mote.
 
Os três eram gozadores consagrados, logo nada impede do Chico, agora só,
ter continuado com a brincadeira dando um ar ainda mais trágico a uma 
possível ressaca da bebedeira conjunta de Olha Maria.
 
Como o quarto Lp teria também a composição Rosa Dos Ventos, com um
texto também “Apocalíptico”, Chico deve ter aproveitado o clima e colocado
Não Fala de Maria junto, e isso poderia justificar o fato dela ter surgido antes
de Olha Maria, vinda no Lp seguinte.
 
É só uma suposição minha, já que o motivo para a gravação na ordem
cronológica inversa foi coisa mais do Chico com a sua assessoria, que tem até
um competente biógrafo editor, Humberto Werneck.
 Vídeo de Morricone1
Não fala de Maria
Maria lembra o mar
Que lembra aquele dia
Que não é bom lembrar
Que dia, que tristeza
Que noite, que agonia
Que puxa a correnteza
E trás a maresia
E bate aquele frio
Que lembra um assobio
Que lembra um sofrimento
Que eu não merecia
 
Não fala não, te esconjuro
Que só de imaginar
O tempo fica escuro
E o espanto agita o mar
Que lembra aquele dia
Que lembra uma canção
Que faz lembrar Maria
Aí não lembro não
A coisa fica séria
É como um turbilhão
Fazendo uma miséria
No meu coração
 
Uma das características do Chico é a de apropriar o texto objetivo pela
construção poética subjetiva. Embora ela  seja melhor abordada numa
postagem separada desta, com maiores detalhes, é necessário que eu use
parte dela para melhor elucidar à minha suposta trama do Mote.
 
Toda vez que Chico está mentindo no texto costuma usar Verso Branco, ou
Verso Manco, ou mesmo alterar à regularidade métrica do poema, nos casos
dos que se apresentem, ou se insinuem, feitos em Versificação Regular.

http://mpbsapiens.com/versificacao-regular/
 http://mpbsapiens.com/verso-branco/
http://mpbsapiens.com/verso-manco/
Foi esse último recurso o usado no poema desta composição. Dos 24 versos,
só 3 foram diferentes dos demais Heróicos Quebrados, um tipo de verso
muito usado pelo Chico quando quer insinuar a um personagem Perdedor,
como esse que canta a composição.
 http://mpbsapiens.com/heroico-quebrado/
Os versos irregulares do poema são o último da primeira parte, o primeiro da
segunda e o último da mesma. Nem Brancos nem Mancos, já que foram
iguais em Ritmo Poético Binário. Apenas alteraram nos comprimentos,
quando tiveram os textos se referindo mais diretamente ao personagem.

http://mpbsapiens.com/cadencia-poetica/
http://mpbsapiens.com/pe-binario/
 
Talvez seja uma forma do poeta se redimir, com a própria consciência, de
toda a suposta seriedade descrita no texto objetivo. Quase como um moleque
levado, mas honesto consigo mesmo, já que, além do Violão, o Verso é o
grande parceiro e confidente do compositor musical violonista.
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              .
             

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Olha Maria – Análise de Texto

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Todo aquele desentendimento causado pela estrofe extra que Tom colocou em Sabiá, conforme visto, deixou o diplomata Vinícius de Moraes em alerta.

Tanto Chico quanto Tom, sendo ambos amigos e importantes pra MPB, precisavam reatar as relações, e de alguma forma, em indeterminada ocasião, Vinícius conseguiu juntar os dois novamente em mesma composição.

http://mpbsapiens.com/sabia-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/pois-e-analise-de-texto/

Tendo Vinícius como parceiro comum, Chico e Tom compuseram a música Olha Maria, presente no quinto Lp do Chico:

Vídeo de Mardosom

Olha Maria
Eu bem que queria
Fazer uma presa
Da minha poesia
Mas hoje Maria
Pra minha surpresa
Pra minha tristeza
Precisas partir
Parte Maria
Que estás tão bonita
Que estás tão aflita
Pra me abandonar
      
Sinto Maria
Que estás de visita
Teu corpo se agita
Querendo dançar
Parte Maria
Que estás toda nua
Que a lua te chama
Que estás tão mulher
Anda Maria
Na chama da lua
Maria cigana
Maria maré
      
Parte cantando
Maria fugindo
Contra a ventania
Brincando dormindo
Num colo de serra
Num campo vazio
Num leito de rio
Nos braços do mar
        
Vai alegria
Que a vida Maria
Não passa de um dia
Não vou te prender
Corre Maria
Que a vida n´o espera
É uma primavera
Não podes perder
         
Anda Maria
Pois eu só teria
A minha agonia
Pra te oferecer

Quem foi a tal Maria? Não consegui localizar. Alguma figuração de lua é improvável, pois a mesma é presente no texto como coadjuvante.

Marieta é um diminutivo de Maria. Quem sabe não foi feita em alguma ocasião que em ela tenha saído de repente para algum compromisso. Já seria o bastante para virar mote. Sabe-se lá o que é possível ocorrer numa reunião “etílica” dos três.

Mas suspeito que nenhum deles estivesse muito inspirado, porque a música é meio fraquinha, quando comparada às que os três costumavam compor.                  

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Cotidiano – Análise de Texto

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Cotidiano, a exemplo de Valsinha, pertence ao quinto Lp. Optei por 
colocá-la em seguida a ela pelos óbvios textos relacionados. Creio até ter
sido feita antes dela, pois o texto de Valsinha sugere mais a uma resposta da
Mulher às acusações do Homem de Cotidiano.
 
Embora o quarto Lp tenha se mostrado confuso, quanto às ordens textuais e
cronológicas das músicas, o que suspeito ter ocorrido pela necessidade de 
gravar um disco imediatamente, por exigência da nova gravadora, a Philips; 
Chico normalmente dá a cada Lp um enredo baseado na ordem das músicas.
 
Foi o que aconteceu no quinto Lp, já passada toda a turbulência contratual
ocorrida pela troca de gravadoras, ao colocar Cotidiano antes de Valsinha, e
essa é a razão que me leva a crer ter sido a ordem de feitura das músicas,
embora no cancioneiro da cia. das letras conste que Valsinha tenha sido
composta em 1970 e Cotidiano em 1971.
 
Esse tipo de “adequação”, por parte da assessoria empresarial do Chico, é
que emputece a quem goste de registrar à História Literária seriamente.
 Vídeo de fabonadio
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija co´a boca de hortelã
 
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija co´a boca de café
 
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Dêpois penso na vida pra levar
E me calo co´a boca de feijão
 
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija co´a boca de paixão
 
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde co´a boca de pavor
 
Repete a Primeira Estrofe
 
Dá para perceber bem o porque da Mulher da Valsinha ter iniciado à
música cantando: Um dia ele chegou tão diferente…; e essa mulher pode bem
ser a mesma que cantou Com Açucar, Com Afeto, na qual tratou o homem
como um garoto irresponsável.
 
Nas questões conjugais, sempre temos os óbvios dois lados, e qualquer juízo
só pode ocorrer após se ouvir a ambos. Foi o que Chico fez com Cotidiano,
onde só usou os chamados Versos Masculinos.
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Valsinha – Análise de Texto

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Como que sob uma réstia de influência, do finado Garoto em Gente Humilde, 
nova valsa foi composta por Chico e Vinícius de Moraes, mas gravada no 
quinto LP: Valsinha.
 
Esse período, que implicou na troca de gravadoras coincidindo com a viagem
do Chico pra Itália, também causou uma boa bagunça na cronologia das
músicas, pois muitos dos textos, que teriam lógica de continuidade pelos de 
outras, perderam tais ponderações pelas datas de edição.
 
Por exemplo, a composição, Pois É, feita em parceria com o Jobim, não foi
composta antes de Sabiá, mas depois dela, e o próprio texto da primeira
justificaria o ocorrido na segunda, com aquela estrofe extra do Jobim.
 
Outro exemplo. Como imaginar a música, Olha Maria, sendo composta após
uma outra chamada Não Fala de Maria, gravada no quarto LP, enquanto
Olha Maria veio no quinto, quando os textos sugerem terem sido feitas numa
ordem inversa à das gravações?
 
Então procurarei obedecer à lógica textual e fugirei da oficializada pelas 
gravações, pois em tal período houve muita história mal contada acerca da
obra dele, cujas adequações empresariais nâo têm cabimento aqui.
 Vídeo de luisacalvario
Um dia ele chegou tão diferente
Do seu jeito de sempre chegar
Olhou a dum jeito mais quente
Do que sempre costumava olhar
E nem maldisse a vida tanto
Quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto
Pra seu grande espanto
Convidou-a pra rodar
 
Então ela se fez bonita
Como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado
Cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços
Como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça
Foram para a praça
E começaram a se abraçar
 
E alí dançaram tanta dança
Que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade
Que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz
 
Valsinha é um bom exemplo das muitas novelas interiores, que Chico criou ao
longo da obra, pois ao mesmo tempo em que nos faz lembrar de Penélope e
Ulisses, personagens do conto Ulisses, presente no Manuscrito A Banda, 
sugere também um parentesco textual com a composição Cotidiano, gravada 
no mesmo Lp de Valsinha.
 
Taí nova incompatibilidade entre os textos das composições e a ordem de
gravação das mesmas. Se por um lado, Valsinha se aproxima da música
Gente Humilde, por ser uma valsa como ela, por outro, o texto sugere ter sido
composta após Cotidiano, gravada no mesmo LP, o quinto.
 
Esse confronto entre os pensamentos de homem e mulher nas relações 
amorosa e conjugal, que são distintas, apresentarão ecos futuros em muitas
outras músicas, tais como O Casamento Dos Pequenos Burgueses, presente
na Ópera do Malandro.
 
Á proporção em que forem surgindo os relacionamentos textuais das músicas
irei registrando e retornando às anteriores, de modo a interligá-las num
novo e futuro Indice de Assuntos.
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