Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já numa baixela
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
Todo Texto nasce de uma idéia. Toda Idéia é uma representação mental que o espírito do dono do texto faz daquilo que o cerca.
Toda composição musical tem um Título, que resume a um conjunto de idéias que gerou o texto.
Várias são os significados do termo Tabela, mas no texto em questão creio que o Chico Buarque tenha se baseado na fusão de dois deles:
Tabela – Agrupamento coerente de cálculos previamente elaborados.
Por Tabela – Indiretamente por pessoa interposta.
Temos então os Cálculos como Idéias, cujo agrupamento foi feito indiretamente pelo Chico na forma de Texto, o que justifica o título da composição: Pelas Tabelas.
Para melhor conceituação das idéias, que motivaram o Chico a escrever o texto, temos que determinar a época em que a composição foi escrita, já que ele sempre procurou traduzir aos nossos Movimentos Sociais ao longo dos anos, sendo este apenas mais um deles.
Vivíamos o fim da ditadura militar e a chamada Fase da Transição Democrática. Ou seja: Estávamos recuperando o Direito de Voto para elegermos os nossos representantes políticos por maioria de escolhas.
Nosso presidente da república se chamava João Batista Figueiredo, general do exército, que buscava devolver-nos o poder do Voto Direto. Junto a essa idéia do Figueiredo ocorreu um famoso movimento chamado Diretas Já, que apresentava como líder o deputado Ulisses Guimarães, muito bem amparado pela Imprensa, responsável pela propagação da idéia entre nós.
Como a imprensa sempre funcionou como uma espécie de Indústria do Descontentamento Popular, a informação que nos vinha era, como ainda é, voltada somente para os Erros Evidentes, mas não para as possíveis Soluções Cogitadas, tanto a curto, quanto a médio prazo.
Muitos de nós tinha na cabeça a informação do Erro Democrático, mas desconhecia às Constatações Sociais do dito Vilão da Democracia, o EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), que na época buscava soluções para um erro social muito maior do que o da Não Democracia: O da Criminalidade cotidiana.
Era crescente, mas ainda não alarmante. Com um pouco mais de tempo no poder, as Soluções para o problema da Criminalidade, planejadas pelos militares do EMFA, poderiam alcançar o êxito esperado.
Os militares podiam nada entender de administrações estatal ou financeira, mas de Força e Segurança Nacional sim. Aliás, já o haviam demonstrado nos anos ferozes da ditadura, pelo sumiço de líderes. Muitos comprovados, mas uma grande quantidade apenas suspeitados e alardeados pela Indústria do Descontentamento Popular.
Figueiredo tinha diante dele este quadro de resoluções:
1 – Criminalidade crescente, com Soluções já previstas, que apenas dependiam do seu aval para serem levadas adiante pelos militares.
2 – Redemocratização do Brasil, via política (Ulisses) + Imprensa.
3 – Uma movimentação do congresso que o levaria, inevitavelmente, a ter de escolher, indiretamente, entre um representante do partido político ARENA, como da Situação; e outro do partido MDB, como representante da Oposição.
Figueiredo optou pela terceira possibilidade, e no ano seguinte se deparou com os nomes de Paulo Maluf, como representante da Situação, e Tancredo Neves, como representante da Oposição.
De alguma forma o escolhido foi Tancredo, que ganhou mas não levou, já que morreu e foi substituído pelo vice-presidente, José Sarney, em cujo mandato se efetivou à transição democrática hoje vista, e que resultou no nosso Sagrado Direito de elegermos, por voto popular, às, cada vez mais oficiais, quadrilhas dos congressos, e convivermos com as, cada vez mais organizadas, quadrilhas da criminalidade cotidiana nas ruas.
Conseguimos, numa só tacada, desenvolver às duas criminalidades com que hoje convivemos mas, infelizmente, por precariedade de memória, nem lembramos de quem nos incentivou a isso.
Chico, sempre bem informado dos bastidores políticos ou sociais, podia medir bem o tamanho do Pepino do Figueiredo. Como sempre permitira que a imprensa o utilizasse como estandarte da resistência à ditadura, jamais poderia dar qualquer apôio a um general presidente.
O povo, alimentado pela imprensa, exigia dele engajar-se àquilo tudo. Mais ou menos como na chamada Passeata dos Cem Mil, em 1968, quando se viu obrigado a participar, embora não gostasse, desde jovem, de aderir a qualquer tipo de movimento social, já que o mais importante era a arte de escrever sobre nós, mesmo não vivendo de forma semelhante à nossa.
Guardadas as adequações, era algo parecido com o que Chico, anos antes, houvera descrito na composição Umas e Outras:
O acaso faz com que esses caras
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma praça
Olhando-se com a mesma dor
Acho que podemos agora analisar um pouco do que ele tentou traduzir pelo texto da composição:
Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
O movimento Diretas Já, também conhecido pelo Movimento das Tabelas, se caracterizou pelas bandeiras e camisas amarelas. Fica a dúvida sobre a identidade do termo ELA, que poderia ser Liberdade ou Democracia.
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim
Aqui já surge o Chico engajado ao movimento, torcendo para ter acertado na escolha. Outra característica daquele movimento social foi o barulho das tampas de panela. Ensurdecedor nas concentrações populares. Surge novamente ELA, voltando ao povo, mas sem a plena convicção por parte do Chico, que apenas a suspeitava voltando.
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Aqui Chico mostra as dúvidas martelando a sua cabeça, ao comparar o inocente povo habitante das favelas cobrando o Homem que Olhava as Favelas, marca registrada do Figueiredo, cuja preocupação explícita com elas nada mais fazia do que resultar às previsões feitas pelo EMFA. E Chico sabia delas.
Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já numa baixela
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
Nesta parte final, Chico, perdido nas dúvidas interiores – Cabeça rolando no Maracanã – começa a fundir as dúvidas dele às prováveis preocupações do Figueiredo, já que a cabeça entregue numa Baixela era a dele mesmo, mas quem ficou famoso por ter a cabeça entregue numa baixela não foi nenhum Francisco, mas um tal João Batista, na Bíblia, curiosamente os pré-nome e nome do General Figueiredo.
Isso tudo, associado ao significado do termo Maracanã, que além de ser o nome de um importante centro de lazer do brasileiro, é também o de um pássaro que apresenta todas as cores da bandeira: A Arara Guaçú Brasileira; mostra um misto de preocupação e civismo no texto do Chico.
Por mais que a imprensa tenha usado a imagem do artista como um símbolo da resistência contra a ditadura militar, Chico não era isso. Tinha lá suas reservas, óbvias, contra qualquer mecanismo do poder que lhe tolhesse a liberdade de compor e expor, mas não era um opositor radical.
Por mais que a imprensa tenha usado a imagem dos militares como sinônimo da tortura e do mal, o general João Batista Fiqueiredo já exercía um governo bem mais brando que os dos generais anteriores.
Tanto um, quanto outro, na época das Diretas Já, eram só remanescentes do tempo perdido de um jogo quase acabado. O que a imprensa nunca questionou foi o fato do Chico continuar protestando, apesar da restauração da democracia no país. Por que será?
Não é muito razoável imaginar as coisas como feitas somente de qualidades más ou boas. Podem ter maior quantidade de uma ou outra qualidade, mas só uma delas não, e foi com sabedoria que Nelson Rodrigues disse:
“Toda Unanimidade é Burra!”
Corolário: – Pode a maioria ser, ocasionalmente, Idiota, mas a idiotice não é unânime! (corolário meu).
Conclusão: A mistura de Cabra com Binóbulo resulta em José Sarney, ou se preferirem, Bode Espiatório.