Archive for julho, 2009

Rosa Dos Ventos – Análise de Texto

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 Vídeo de fadochico

E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
 
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
 
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
 
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A Rosa dos Ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
 
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar
 
Chico morou próximo ao Vaticano, e por mais avesso à Bíblia, que um 
compositor agnóstico sugira ser, a Arte pode pregar peças, pois, bem ou mal,
a Bíblia continua sendo a nossa melhor referência histórica, já que a maioria 
dos textos disponíveis foi escrita depois dela.
 
Com o Vaticano tão perto, a Arte dos enormes Versículos, componentes dos
Capítulos bíblicos, deve ter ocupado a cabeça do Chico, que lançando mão
do Santo Ócio da Criação, construiu a sua própria Rosa Dos Ventos, 
também conhecida como Rosa Dos Rumos, um profético instrumento náutico
que orienta os navegadores a aproveitar, ou evitar, ventos e calmarias.
 
Semelhante ao que Sérgio e Chico, pai e filho, representaram para a nossa 
Literatura, Amós e Isaías, com estilos inversos aos deles, deixaram os seus 
pareceres no Velho Testamento. 
 
O assunto dos quatro foi o mesmo: A estrutura social dos povos, e como o
 Chico admirava muito o estilo ponderado do pai, se espelhou no menos 
agressivo Isaías para compor a Rosa dos Ventos, ou dos Rumos:
 
“O Senhor disse: Pois que este povo se aproxima de mim, com a sua boca e
com os seus lábios me honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim
e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em que
foi instruído” – Isaías Cp.29 – vs.13.
 
E do amor gritou-se o escândalo
Do medo criou-se o trágico
No rosto pintou-se o pálido
E não rolou uma lágrima
Nem uma lástima
Pra socorrer
 
“Pasmai-vos e maravilhai-vos, obstinai-vos, feridos de cegueira, 
embriagai-vos, mas não de vinho, cambaleai, mas não por causa da 
bebida.” 
“Porque o Senhor espalhou sobre vós um espírito de torpor, fechou 
vossos olhos e cobriu vossas cabeças.”  -  Isaías Cp.29 – vss. 9 e 10.
 
E na gente deu o hábito
De caminhar pelas trevas
De murmurar entre as pregas
De tirar leite das pedras
De ver o tempo correr
 
“Portanto eis que criarei um estupendo milagre para este povo, uma obra 
maravilhosa e um assombro; que perecerá a sabedoria dos seus sábios e
ocultará o entendimento dos seus prudentes.” -  Isaías Cp. 29 vs. 14.
 
Mas sob o sono dos séculos
Amanheceu o espetáculo
Como uma chuva de pétalas
Como se o céu vendo as penas
Morresse de pena
E chovesse o perdão
E a prudência dos sábios
Nem ousou conter nos lábios
O sorriso e a paixão
 
“Ai do bramido dos grandes povos, que bramam como o mar, e do rugido
das nações que rugem como as impestuosas águas”
“Rugirão as nações, mas as repreenderei com as enchentes e com o sonido de
muitas águas em inundação do retumbante mar.”  Cp.29 vss. 12 e 13.
 
Pois transbordando de flores
A calma dos lagos zangou-se
A Rosa dos Ventos danou-se
O leito dos rios fartou-se
E inundou de água doce
A amargura do mar
 
Numa enchente amazônica
Numa explosão atlântica
E a multidão vendo em pânico
E a multidão vendo atônita
Ainda que tarde
O seu despertar
 
“Ao anoitecer eis que haverá o pavor, mas ao amanhecer já não mais o 
existirá, esta é a herança dos que nos despojam e a sorte daqueles que nos
saqueiam.” Cp. 17 vs.14.
 
A ordem, ou desordem, apresentada diz respeito à evolução do texto na 
composição, pois Chico deve ter lido, no Velho Testamento, todo o texto do 
Isaías, enquanto me resumi a trechos dos capítulos 17 e 29.
 
No texto de Isaías no Velho Testamento há muito mais versículos que 
sugerem ter servido de base filosófica para os versos, mas creio ter sido o
bastante o que postei a título de informação. Quem quiser que o estude.
 
Convém também ler Amós, cuja agressividade nas calamidades, ou pragas, 
contribuiu para a confecção da posterior Fazenda Modelo, que tratará das 
iniquidades, musas dos profetas, de forma figurativa mas bem localizada em 
nossa história contemporânea.
 
Embora a Rosa Dos Ventos seja mais utilizada como instrumento de
navegação, creio ter Chico se referido a ela mais como Rosa Dos Rumos, 
que permitiiu o uso figurativo transportado para o nosso comportamento
social, numa nítida contestação da forma como as religiões, no caso as de
origem hebraica, como a católica, sempre se utilizaram para aprisionar os
fiéis pelo Pecado.
 
Isaías escreveu muito mais do que a Bíblia apresentou no Velho Testamento.
Ele também foi responsável por uma interpretação do Apocalipse, além de
ter sido o que anunciou, com maior clareza, à chegada de Jesus Cristo, como
O Messias, que acabou colaborando muito para essa disposição religiosa 
conflitante entre cristãos e judeus.
 
Um estudo mais profundo dos textos de Amós e Isaías nos permite supor que
foram uma espécie de Divisor de Águas nas definições de Cristão, Judeu e
Fariseu, visto que as assombrosas profecias de ambos eram dirigidas aos 
homens de pouca fé, mais voltados ao enriquecimento pelos bens materiais
resultantes do frio Comércio e resumidos posteriormente no Ouro.
 
Quando Cristo cita, obviamente no Novo Testamento, o termo Fariseu para
designar a uma classe dos religiosos judeus, e obedientes do Torá, apenas
deu nome aos bois resultantes do seguinte pensamento de Isaías:
 
Ai dos que querem esconder profundamente o seu propósito do Senhor, e 
fazem as suas obras às escuras, e dizem: Quem nos vê? E quem nos conhece?
Cap. 29 e vs. 15.
 
Tudo isso, sobre os profetas e o Velho Testamento, à primeira vista se mostra
meio absurdo a uma análise de MPB, mas, infelizmente, foi o que mais cercou
o Chico desde a peça Roda-Viva e se tornou mais evidente por ocasião da
troca de gravadoras, que ocorreu nessa época de Rosa Dos Ventos.
 
Ele tentou, nesse LP, dar vasão a tudo isso que o reprimia, tanto na carreira
quanto no pensamento. Muitas composições foram feitas sobre textos do 
Isaías, inclusive Samba e Amor, que tem algo de um outro texto profético.
 
Essa idéia, de tentar extravasar a essa opressão que sofria dos “patrões”,  
acompanhará Chico até o LP O Corsário do Rei, quando suspeito ter ele
dado um tempo no assunto, mas enquanto ele surgir, por mais desagradável
que seja, infelizmente terei de relatar.
 
Meu propósito não é o de causar qualquer confusão religiosa entre as partes,
mas buscar às Ações responsáveis pelas Reações do Chico em textos. Se há
qualquer pré conceito racial nessa palhaçada religiosa toda, muito se deve à
incompetência dos gurús para com os seus fiéis ao longo da História. Nada 
tenho a haver com qualquer deles, que fique claro.
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Mulher, Vou Dizer Quanto Te Amo – Análise de Texto

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Em março de 69, na Itália, nasceu a filha do Francisco e da Marieta: A Silvia. 
Chico também estava presente e compos uma homenagem à Musa de ambos:
 
Mulher, vou dizer quanto te amo
Cantando a flor
Que nós plantamos
Que veio a tempo nesse tempo que carece
De um carinho
De uma prece
De um sorriso
De um encanto
 
Mulher, imagina o nosso espanto
Ao ver a flor
Que cresceu tanto
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
 
E que ela faça vir o dia
Dia a dia mais feliz
Que seja da alegria
Sempre uma aprendiz
Eu te repito esse meu canto de louvor
Ao fruto mais bendito desse nosso amor
 
Quando digo que a equipe de assessores, que cuida do registro cronológico
da obra do Chico é irresponsável, quanto à História Literária resultante , não
há nenhum exagero nisso. Há sim, no mínimo, uma grande desorganização
causada pela adequação histórica que tencionam dar à obra.
 
http://mpbsapiens.com/sabia-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/pois-e-analise-de-texto/
Colocar a composição, Pois É, como tendo sido escrita antes de Sabiá é até
compreensível, para camuflar ao desentendimente entre Chico e Tom, vindo 
daquela estrofe extra colocada pelo Tom no final de Sabiá, mas o que dizer
do ocorrido no cancioneiro da cia. das letras, quando o Gol de Letras, do 
Werneck, mostra na página 124 o Vinícius segurando Silvia no colo, em abril
de 1969, em Roma.
 
Silvia nasceu em março de 69 e o cancioneiro registra a composição Mulher,
Vou Dizer Quanto Te Amo; como tendo sido escrita em 1968, segundo 
consta na página 284.
 
Afinal, quem foi o responsável por esse contrasenso? Algum revisor da 
editora ou algum descuido do Werneck?
 
 Será que Chico compos assim que soube da gravidez, por volta de julho de
1968? Seria a letra uma espécie de profecia?
 
Seria de grande valia, para os meus estudos, que o Gol de Letras fosse mais
confiável, mas essa série de adequações presentes nele, infelizmente, me 
tornaram dependente apenas do meu senso crítico.
 
Enquanto pude dispor do Manuscrito, A Banda; foi uma beleza, pois estava
nele um depoimento pessoal do autor em próprio punho, que me permitiu,
inclusive, verificar o descaso das gravadoras e da cia. das letras para com a
fiel reprodução dos versos nas letras das contracapas e do livro.
 
É só comparar ao que Chico escreveu no manuscrito com as descrições das
letras das composições, tanto em LPs quanto no cancioneiro, bagunçando a
todo e qualquer estudo que se proponha à análise poética das músicas.
 
O próprio conteúdo filosófico do quarto LP sugere o autor bem incomodado
com todo aquele jogo ao seu redor: A peça Roda-Viva, os Auto Exílios
interior e oficial, a troca de gravadoras, as vaias de Sabiá…
 
Esse confuso estado de espírito do Chico aparece inclusive no texto dessa
composição, ao desejar à filha um mundo bem melhor do que ele mesmo 
enfrentava na ocasião:
 
Pois no silêncio mentiroso
Tão zeloso dos enganos
Há de ser pura
Como o grito mais profano
Como a graça do perdão
 
Por detrás de todo aquele jogo de poder, nos bastidores da MPB, havia um
milenar conflito religioso, ao qual Chico estava submetido desde quando
resolveu tentar denunciar com a peça Roda-Viva, e que acabou causando a
sua ida à Itália na forma de auto exílio.
 
Tudo isso acabou dando ao conteúdo filosófico do quarto LP um misto de
revolta e sátira, por não poder falar, confinado ao “silêncio mentiroso e tão
 zeloso dos enganos”, coisas de gente grande,  conforme veremos adiante na
composição Rosa Dos Ventos.
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Pelas Tabelas do Brasil – Análise de Texto

     
Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão
Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim
Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas
Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já numa baixela
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão

             

Todo Texto nasce de uma idéia. Toda Idéia é uma representação mental que o espírito do dono do texto faz daquilo que o cerca.

Toda composição musical tem um Título, que resume a um conjunto de idéias que gerou o texto.

Várias são os significados do termo Tabela, mas no texto em questão creio que o Chico Buarque tenha se baseado na fusão de dois deles:

Tabela – Agrupamento coerente de cálculos previamente elaborados.
Por Tabela – Indiretamente por pessoa interposta.

Temos então os Cálculos como Idéias, cujo agrupamento foi feito indiretamente pelo Chico na forma de Texto, o que justifica o título da composição: Pelas Tabelas.

Para melhor conceituação das idéias, que motivaram o Chico a escrever o texto, temos que determinar a época em que a composição foi escrita, já que ele sempre procurou traduzir aos nossos Movimentos Sociais ao longo dos anos, sendo este apenas mais um deles.

Vivíamos o fim da ditadura militar e a chamada Fase da Transição Democrática. Ou seja: Estávamos recuperando o Direito de Voto para elegermos os nossos representantes políticos por maioria de escolhas.

Nosso presidente da república se chamava João Batista Figueiredo, general do exército, que buscava devolver-nos o poder do Voto Direto. Junto a essa idéia do Figueiredo ocorreu um famoso movimento chamado Diretas Já, que apresentava como líder o deputado Ulisses Guimarães, muito bem amparado pela Imprensa, responsável pela propagação da idéia entre nós.

Como a imprensa sempre funcionou como uma espécie de Indústria do Descontentamento Popular, a informação que nos vinha era, como ainda é, voltada somente para os Erros Evidentes, mas não para as possíveis Soluções Cogitadas, tanto a curto, quanto a médio prazo.

Muitos de nós tinha na cabeça a informação do Erro Democrático, mas desconhecia às Constatações Sociais do dito Vilão da Democracia, o EMFA (Estado Maior das Forças Armadas), que na época buscava soluções para um erro social muito maior do que o da Não Democracia: O da Criminalidade cotidiana.

Era crescente, mas ainda não alarmante. Com um pouco mais de tempo no poder, as Soluções para o problema da Criminalidade, planejadas pelos militares do EMFA, poderiam alcançar o êxito esperado.

Os militares podiam nada entender de administrações estatal ou financeira, mas de Força e Segurança Nacional sim. Aliás, já o haviam demonstrado nos anos ferozes da ditadura, pelo sumiço de líderes. Muitos comprovados, mas uma grande quantidade apenas suspeitados e alardeados pela Indústria do Descontentamento Popular.

Figueiredo tinha diante dele este quadro de resoluções:

1 – Criminalidade crescente, com Soluções já previstas, que apenas dependiam do seu aval para serem levadas adiante pelos militares.

2 – Redemocratização do Brasil, via política (Ulisses) + Imprensa.

3 – Uma movimentação do congresso que o levaria, inevitavelmente, a ter de escolher, indiretamente, entre um representante do partido político ARENA, como da Situação; e outro do partido MDB, como representante da Oposição.

Figueiredo optou pela terceira possibilidade, e no ano seguinte se deparou com os nomes de Paulo Maluf, como representante da Situação, e Tancredo Neves, como representante da Oposição.

De alguma forma o escolhido foi Tancredo, que ganhou mas não levou, já que morreu e foi substituído pelo vice-presidente, José Sarney, em cujo mandato se efetivou à transição democrática hoje vista, e que resultou no nosso Sagrado Direito de elegermos, por voto popular, às, cada vez mais oficiais, quadrilhas dos congressos, e convivermos com as, cada vez mais organizadas, quadrilhas da criminalidade cotidiana nas ruas.

Conseguimos, numa só tacada, desenvolver às duas criminalidades com que hoje convivemos mas, infelizmente, por precariedade de memória, nem lembramos de quem nos incentivou a isso.

Chico, sempre bem informado dos bastidores políticos ou sociais, podia medir bem o tamanho do Pepino do Figueiredo. Como sempre permitira que a imprensa o utilizasse como estandarte da resistência à ditadura, jamais poderia dar qualquer apôio a um general presidente.

O povo, alimentado pela imprensa, exigia dele engajar-se àquilo tudo. Mais ou menos como na chamada Passeata dos Cem Mil, em 1968, quando se viu obrigado a participar, embora não gostasse, desde jovem, de aderir a qualquer tipo de movimento social, já que o mais importante era a arte de escrever sobre nós, mesmo não vivendo de forma semelhante à nossa.

Guardadas as adequações,  era algo parecido com o que Chico, anos antes, houvera descrito na composição Umas e Outras:

O acaso faz com que esses caras
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma praça
Olhando-se com a mesma dor

Acho que podemos agora analisar um pouco do que ele tentou traduzir pelo texto da composição: 

Ando com minha cabeça já pelas tabelas
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão

O movimento Diretas Já, também conhecido pelo Movimento das Tabelas, se caracterizou pelas bandeiras e camisas amarelas. Fica a dúvida sobre a identidade do termo ELA, que poderia ser Liberdade ou Democracia.

Dão oito horas e danço de blusa amarela
Minha cabeça talvez faça as pazes assim
Quando ouvi a cidade de noite batendo as panelas
Eu pensei que era ela voltando pra mim

Aqui já surge o Chico engajado ao movimento, torcendo para ter acertado na escolha. Outra característica daquele movimento social foi o barulho das tampas de panela. Ensurdecedor nas concentrações populares. Surge novamente ELA, voltando ao povo, mas sem a plena convicção por parte do Chico, que apenas a suspeitava voltando.

Minha cabeça de noite batendo panelas
Provavelmente não deixa a cidade dormir
Quando vi um bocado de gente descendo as favelas
Eu achei que era o povo que vinha pedir
A cabeça de um homem que olhava as favelas

 Aqui Chico mostra as dúvidas martelando a sua cabeça, ao comparar o inocente povo habitante das favelas cobrando o Homem que Olhava as Favelas, marca registrada do Figueiredo, cuja preocupação explícita com elas nada mais fazia do que resultar às previsões feitas pelo EMFA. E Chico sabia delas.

Minha cabeça rolando no Maracanã
Quando vi a galera aplaudindo de pé as tabelas
Eu jurei que era ela que vinha chegando
Com minha cabeça já numa baixela
Claro que ninguém se importa com minha aflição
Quando vi todo mundo na rua de blusa amarela
Eu achei que era ela puxando o cordão

Nesta parte final, Chico, perdido nas dúvidas interiores – Cabeça rolando no Maracanã – começa a fundir as dúvidas dele às prováveis preocupações do Figueiredo, já que a cabeça entregue numa Baixela era a dele mesmo, mas quem ficou famoso por ter a cabeça entregue numa baixela não foi nenhum Francisco, mas um tal João Batista, na Bíblia, curiosamente os pré-nome e nome do General Figueiredo.

Isso tudo, associado ao significado do termo Maracanã, que além de ser o nome de um importante centro de lazer do brasileiro, é também o de um pássaro que apresenta todas as cores da bandeira: A Arara Guaçú Brasileira; mostra um misto de preocupação e civismo no texto do Chico.

Por mais que a imprensa tenha usado a imagem do artista como um símbolo da resistência contra a ditadura militar, Chico não era isso. Tinha lá suas reservas, óbvias, contra qualquer mecanismo do poder que lhe tolhesse a liberdade de compor e expor, mas não era um opositor radical.

Por mais que a imprensa tenha usado a imagem dos militares como sinônimo da tortura e do mal, o general João Batista Fiqueiredo já exercía um governo bem mais brando que os dos generais anteriores.

Tanto um, quanto outro, na época das Diretas Já, eram só remanescentes do tempo perdido  de um jogo quase acabado. O que a imprensa nunca questionou foi o fato do Chico continuar protestando, apesar da restauração da democracia no país. Por que será?

Não é muito razoável imaginar as coisas como feitas somente de qualidades más ou boas. Podem ter maior quantidade de uma ou outra qualidade, mas só uma delas não, e foi com sabedoria que Nelson Rodrigues disse:

“Toda Unanimidade é Burra!”

Corolário: – Pode a maioria ser, ocasionalmente, Idiota, mas a idiotice não é unânime! (corolário meu).

Conclusão: A mistura de Cabra com Binóbulo resulta em José Sarney, ou se preferirem, Bode Espiatório.

 

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Estrofe Palíndroma

               

Se Raul Ardis
É do soro vaporoso,
O cio na rapariga,
A cera, causa à Marta ama
Amor, aroma à dama Libânia,
A inábil amada Amora Roma
Ama a trama à sua careca:
 - Agirá paranóico
O soro pavoroso
De Sidra Luares!
 
Isso é uma Estrofe Décima derivada da união de Palíndromos de Domínio
Público e curtos, com alguns médios de autores anônimos e alguns ajustes
que fui obrigado a fazer para conseguir àlguma lógica no texto:
http://mpbsapiens.com/decima/
http://mpbsapiens.com/verso-palindromo/
 
Se – és
Raul – Luar
Ardís – Sidra
O cio na rapariga – agirá paranóico
O soro vaporoso – o soro pavoroso
A cera causa – a sua careca
A Marta – trama
Ama – Ama
Amor – Roma
Aroma – amora
A dama – amada
Libânia – a inábil
 
Esse é um bom exercício para lidar com os Palíndromos. Inicia-se com os
mais simples, como Ana, ama, rever, Oto…; e à partir deles se alongando, 
expressões, frases, orações, períodos e, até, estrofes como fiz. Exemplo:
 
Amora e rama é amar e aroma
 
Basta pesquisar nos sites de Palíndromos, escolher uma lista deles e construir
um texto com ela. O resultado é surpreendente, e se algum ancestral e 
desocupado poeta ainda não tenha usado o seu Ócio Criativo para inventar
algo semelhante, o que acho difícil, a Ciência Poética acabou de ganhar, nesta
postagem, as famosas Estrofes Palíndromas ou, se preferirem, as charmosas
Décimas Anacíclicas.
http://mpbsapiens.com/ciencia-poetica/
 
Aceito colaborações nesta página, pois é do Ócio Comum que resultarão
as regras da Nova Versificação Palíndroma.

              

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As Vitrines – Chico Brincando

       

Vídeo de lucasvitoriano1994

 

Eu te vejo sumir por aí
Te avisei que a cidade era um vão
 - Dá tua mão
 - Olha pra mim
 - Não faz assim
 - Não vai lá não
 
Os letreiros a te colorir
Embaraçam a minha visão
Eu te vi suspirar de aflição
E sair da sessão, frouxa de rir
 
Já te vejo brincando, gostando de ser
Tua sombra a se multiplicar
Nos teus olhos também posso ver
As vitrines te vendo passar
 
Na galeria
Cada clarão
É como um dia depois de outro dia
Abrindo um salão
Passas em exposição
Passas sem ver teu vigia
Catando a poesia
Que entornas no chão
 
O LP Almanaque, editado em 1981, apresentou, além da beleza natural das 
composições, uma divertida e cultural contracapa.
 
Divertida pelas charadas, efemérides, horóscopo e calendários; ingredientes 
comuns aos antigos Almanaques, dos quais destaco Seleções e Capivarol como
os mais lidos, sempre presentes nas salas de espera de antigamente, como as 
das barbearias, por exemplo.
 
Sendo o meu pai um viciado nesse tipo de leitura, de alguma forma os filhos o
acompanharam no hábito, já que esse material de pesquisa, como Dicionário,
por exemplo, costumava estar no banheiro de casa, que todos usavam.
 
Ganhei o Lp logo que foi lançado, final de 81, como presente de aniversário,
e me deparando com a contracapa, logo a transferi para o banheiro de casa
para que fosse devidamente estudada no local apropriado.
 
Sem grandes novidades, embora muito bem trabalhada no visual, ela mostrou
As Vitrines como o estudo mais interessante, pois exigia maior calma, lápis,
papel, borracha e mesa, que não ficava no banheiro.
 
Procurando enfatizar o título da composição, a contracapa apresenta a letra 
disposta em duas distintas formas, que imitam os reflexos dos espelhos:
 
a) A letra surge como normalmente é escrita e apresenta, ao lado, o  reflexo
com os versos escritos de forma invertida. Do último caractere à esquerda ao 
primeiro à direita. Assim:
 
                                          EUQANAMLA
 
AS VITRINES                                                                        SENIRTIV SA
 
Eu te vejo sumir por aí                                              ìa rop rimus ojev et uE
Te avisei que a cidade era um vão             oãv mu are edadic a euq iesiva eT
 - Dá tua mão                                                                           oãm aut àD -
 - Olha pra mim                                                                     mim arp ahlO - 
 - Não faz assim                                                                    missa zaf oãN -
 - Não vai lá não                                                                  oãn àl iav oãN -
 
Os letreiros a te colorir                                             ocort ìa soriertel so reL
Embaraçam a minha visão                                    ahniram oãsiv a maçabmE
Eu te vi suspirar de aflição                                    oãçeliderp e sairùf saut iV
E sair da sessão, frouxa de rir                          soxie ed arof ãs ,adusis rarrE
 
Já te vejo brincando, gostando de ser     ratnaj od sojieb sednarg ,otnev ecoD
Tua sombra a se multiplicar                                saclop saut rebas ratilim mU
Nos teus olhos também posso ver                sohlotna sorev suem sotsop meB
As vitrines te vendo passar                                    srenid ,setevros ,savanitaP
 
Na galeria                                                                                    airgela aN
Cada clarão                                                                             ãlc od arac A
É como um dia depois de outro dia                aiseop aidec em odiod rotuod mU
Abrindo um salão                                                               odnir oãlasba mU
Passas em exposição                                                 oçapse ,asa ,oxes ,oãiP
Passas sem ver teu vigia                                          asseva megriv atipús sÉ
Catando a poesia                                                               onaip od acetsa A
Que entornas no chão                                                  retnec on ahnos oãuQ
 
AS VITRINES                                                                          SENIRTIV SA
 
b) A imagem colocada abaixo desta superior é a própria, só que refletida do
último verso até o título da composição. Infelizmente, aqui não dá para 
reproduzir fielmente à imagem invertida, já que é meio absurdo o registro dos
caracteres de cabeça para baixo.
 
Percebi que o Chico manteve essa conduta só na primeira estrofe, pois da 
segunda para baixo o reflexo de cada verso, à direita, já não repetia a ordem
invertida dos caracteres, surgindo novas palavras, ainda que invertidas.
 
Como num Anagrama, Chico procurou repetir os mesmos caracteres 
originais nos novos versos construídos com outros textos. Errou apenas em
três deles. Da segunda estrofe em diante, os reflexos se apresentaram assim:
 
LER OS LETREIROS AÍ TROCO
EMBAÇAM A VISÃO MARINHA
VI TUAS FÚRIAS E PREDILEÇÃO
ERRAR SISUDA, SÃ FORA DE EIXOS
 
DOCE VENTO, GRANDES BEIJOS DO JANTAR
UM MILITAR SABER TUAS POLCAS
BEM POSTOS MEUS VEROS ANTOLHOS
PATINAVAS, SORVETES, DINERS
 
NA ALEGRIA
O CARA DO CLÃ
UM DOUTOR DOIDO ME CEDIA POESIA
UM ABSALÃO RINDO
PIÃO, SEXO, ASA, ESPAÇO
ÉS SÚPITA VIRGEM AVESSA
A ASTECA DO PIANO
QUÃO SONHA NO CENTER
 
Ainda por cima tivemos um interessante trocadilho. Tente pronunciar
rapidamente o texto: As teclas do piano; e sinta o som resultante.
 
O cara fez da palavra uma diversão particular, que ousava até, timidamente,
tentar dividir conosco. Infelizmente, a grande maioria de nós não lhe dava o
retorno que esperava, então foi se recolhendo gradativamente a um mundo
particular e hoje apenas cumpre os compromissos com alguns CDs que 
sequer lembram à sua genialidade dos versos nos Lps. de outrora.
 
A título de curiosidade, tente encontrar em quais versos ele errou na
fidelidade às quantidades e tipos dos caracteres. Se dispuser de maiores
tempo e interesse, brinque de fazer o mesmo com a primeira estrofe.
 
É bem divertido observar os textos resultantes.

   

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