Archive for junho, 2009

Traduzir-se Em Cores

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Este é um exemplo de análise das naturais cores e melodias dos versos de um poema por Espectrometria.

Como no meu estudo anterior do poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, usei os Pés de Verso, ou Metros, como fundamento analítico procurei agora mostrar as cores médias, com iguais notas musicais resultantes, de cada metro estudado anteriormente.

A célula vital do Organismo Poético não é a letra do Alfabeto, mas a Sílaba pronunciada, seja ela gramatical ou poética, como menor parte do Tecido chamado Pé de Verso.

Tudo o que escrevemos, quando falado ganha cor e melodia, logo, quando um poeta fala que sente a melodia do seu verso, se já estiver meio fora da realidade enquanto compõe, eu diria que Pré Sente à melodia e depois a  traduz em verso poético.

No exemplo abaixo, as sílabas em Negrito correspondem às Tônicas dos pés, bem como as respectivas notas musicais abaixo.

         
U
ma
Par
te
de
Mim
É
to
do
Mun
do
    La
 
  
    La# 
 
 
     
 
  sol# 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
tra
Par
te-é
nin
Guém
Fun
do
sem
Fun
do
   la
 
  
   Re# 
 
 
      
      la
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
U
ma
Par
te
de
Mim
É
mul
ti
Dão
 
   La
 
 
     La#
 
 
 
 si
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
tra
Par
te-es
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Nhe
Za-e
so
li
Dão
 
   la
 
  Mi 
 
 
    sol# 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
U
ma
Par
te
de
Mim
Pe
sa
pon
De
ra
   La
 
    La# 
 
 
 
    Re#
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
tra
Par
te
de
Li
ra
 
 
 
 
  la
 
     
     Mi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
U
ma
Par
te
de
Mim
al
Mo
ça-e
Jan
ta
   La
 
   La#  
 
 
 
la#
 
si
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
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te
se-es
Pan
ta
 
 
 
 
la
 
 
Fa#
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
U
ma
Par
te
de
Mim
É
per
ma
Nen
te
     La
 
 La#
 
 
 
     Do
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
tra
Par
te
se
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De
re
Pen
te
   la
 
     Si
 
 
 
sol#
 
 si
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
U
ma
Par
te
de
Mim
É
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Ti
gem
    La
 
   La#  
 
 
 
     Mi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Ou
tra
Par
te
lin
Gua
gem
 
 
 
 
  la
 
 
    Fa
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
tra
du
zir
u
ma
Par
te
Na-ou
tra
Par
te
 
  Fa# 
 
Do# 
 
si
 
    Do#
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
que
é
U
ma
ques
Tão
de
Vi
da-ou
Mor
te
 
     Fa
   
 
si 
 
Do#
 
Mi
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
se
Ar
te
 
 
 
 
 
 
 
 
 
   Do#
 
 
 
 
 
 
   

 

Para entender o registro que fiz das notas musicais basta imaginar um teclado de piano à sua frente. Temos no centro dele uma sequência de teclas brancas (bemóis) e pretas (sustenidos). Essa é a Oitava Média. Para as notas pertencentes a ela, uso a primeira letra Maiúscula seguida por minúsculas. – Sol – à esquerda dela haverá uma outra sequência de teclas que corresponde à minha Oitava Baixa, que uso registrar só com letras minúsculas – sol – e finalmente, à direita da Oitava Central vem a minha Oitava Alta, que uso registrar só com letras Maiúsculas – SOL .

Qualquer poema apresenta a sua melodia natural, que uma vez calculada pelos Pés de Verso dá ao poeta uma base para confeccionar à futura Melodia de uma composição musical, caso a queira.

O objetivo, nesse tipo de construção melódica programada, é fazer com que a média, entre as notas musicais naturais e imaginárias, sempre busque à faixa central do Espectro, que corresponde a uma frequência de cor situada entre o Amarelo-Limão e o Verde-Limão, próximo ao Mi#.

Num Show Musical, vinte e uma luzes, com as devidas cores e bem distribuídas, quando acionadas por um Tecladista de Cores, que entenda a linguagem musical, levam o povão à loucura, ou à serenidade. Depende do que o conjunto queira, pois é Subliminar.

 

Boa sorte, e qualquer dúvida pergunta aí embaixo. Como está não pode ficar. Alguém precisa fazer alguma coisa, então acho que vou tomar um café.

             

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Traduzir-se Pelos Pés do Gullar

 

 

 

O poema Traduzir-se, de Ferreira Gullar, é um Marco da Literatura Poética
Brasileira por vários motivos. Permite tanto ao poeta, quanto ao analista do 
poema, uma Auto-Pergunta em busca da Auto-Resposta, cuja conclusão é
a Auto-Crítica inconveniente, pura.
 
Leva todo o jeitão de ter sido construído sempre sobre o pensamento 
imediato anterior desde o título. Poema feito do próprio poema. 
 
As diversas formas, com que normalmente são dispostos os versos nos vários
sites de pesquisa pouco importam, tamanha a objetividade, tanto da 
construção poética quanto da de texto.
 
Essa pureza toda do verso permitiu a Gullar traduzir ao conceito do verso
por vários movimentos literários. Tem melodia própria que se descobre e 
harmoniza a cada Pé de Verso, ou Metro, resultante do anterior.
http://mpbsapiens.com/metro/
 
Uma das grandes dificuldades, para quem analisa às construções poéticas,
foi o fato de terem ousado colocar uma melodia nele, pouco importando a
qualidade poética do músico responsável, Fagner ou Chico Buarque.
 
Costumo diferir os conceitos de Poetas e Compositores Musicais, pois 
penso terem os segundos maiores dificuldades no acasalamento do poema à 
melodia, mas Traduzir-se é um daqueles incomuns e inexplicáveis em tal
aspecto.
 
É Puro, e talvez esse seja o motivo que tenha me exigido tantas linhas para
demonstrá-lo em estudo. Demorei todo esse tempo para expor a minha
análise dele, não pela dificuldade em encontrar explicações mais técnicas,
mas por ter  certeza de que serão sempre insuficientres, embora esforçadas.
 
Portanto sugiro a você, leitor, bastante atenção e paciência, pois o texto é
longo, mas creio interessante embora insuficiente.
 
A Ciência Poética ganhou um grande entendimento entre Poetas e
gramáticos por ocasião do Trovadorismo. Finalmente os acordos entre
as partes se tornando mais coerentes permitiram à Versificação
ganhar normas mais lúcidas nas Construções Poéticas.
 
Com a chegada do Parnasianismo tais entendimentos melhoraram
ainda mais e livraram os poetas dos muitos compromissos sintáticos,
tidos até então com os versos e as estrofes.
 
Surgia o Poeta Livre. Não o Verso Livre. O poeta poderia escrever o
poema optando pelas bases da Ciência Poética ou não, mas isso não
significava bagunça na construção do poema, que deveria demonstrar
notórias lógicas Métrica e Rítmica
http://mpbsapiens.com/verso-livre/
http://mpbsapiens.com/metrica/
http://mpbsapiens.com/cadencia-poetica/
 
Ao alcançar tal liberdade na construção dos poemas, tudo levava a crer
que não haveria mais discussões a respeito do verso, mas isso não
ocorreu, pois além das bases científicas alguns poetas começaram a se
preocupar com os possíveis Desenhos dos poemas escritos.
 
À partir dessa idéia para os poemas surgiu um novo movimento: o 
Simbolismo. Nos países de origem latina não teve a mesma influência dos 
dos movimentos literários anteriores, por se tratar de um movimento
mais anglo-saxônico, mas deixou as suas marcas no norte americano.
 
A ramificação norte americana do Simbolismo surgiu nos Estados
Unidos por volta de 1920, com o nome de Imagismo que, embora menos
importante que os anteriores, agora dividia os poetas em distintas
correntes de pensamento por já trazer uma influência maior da
propaganda da imprensa nos destinos literários do verso. Vejam este texto:
 
“…Em uma palavra, sabendo, pela experiência de muitos séculos que os
homens vivem e se dirigem pelas idéias, que essas idéias somente são 
inculcadas aos homens pela educação, ministrada com êxito em todas as
idades por processos diferentes, bem entendido, absorveremos e
adotaremos em nosso proveito, os derradeiros clarões da independência
de pensamento que de há muito já dirigimos para as matérias e idéias de
que carecemos. O sistema de repressão do pensamento já está em vigor
no método denominado Ensino pela Imagem, que deve transformar os
…….. em animais dóceis, que não pensam e esperam a representação
das cousas em imagens, a fim de compreendê-las… Na França, um de
nossos melhores agentes, Bourgeois, já proclamou o novo programa de
Educação pela Imagem…”
 
Esse é um fragmento do capítulo XVI de um livro escrito em 1895, editado
em 1906 e já citado nas anteriores postagens abaixo:
http://mpbsapiens.com/fazenda-modelo-novela-pecuaria/
http://mpbsapiens.com/porta-estandarte-o-sonho-de-vandre/
http://mpbsapiens.com/disparada-analise-de-texto/
http://mpbsapiens.com/admiravel-gado-novo-analise-de-texto/
 
Leon Bourgeois recebeu o Prêmio Nobel da Paz, com Sociedade Das Nações
em 1920, mesmo ano em que se iniciava o Imagismo nos Estados Unidos, 
que teve como um dos expoentes Ezra Loomis Pound.
 
Segundo o Imagismo os poemas deveriam se voltar mais para os sentimentos
urbanos do leitor, o que recebeu o nome de Orbe Urbe, procurando anexar
aos versos curtos um possível reforço visual como auxiliar do texto objetivo.
Como uma espécie de Poema Jornalístico.
 
O Imagismo começou a entrar no Brasil pegando carona na carruagem que
trazia o Modernismo para cá: Semana Literária de 1922.
http://mpbdapiens.com/a-banda-analise-poetica/
 
Dois foram os participantes, dessa também chamada Semana de Arte 
Moderna de 22, que mais se afeiçoaram ao Imagismo: Os irmãos Osvald e
Mário de Andrade.
 
Pela série de interesses políticos e sociais, que se misturaram a esse evento
literário ocorrido na capital de São Paulo, tivemos como resultante dele
algumas conflitantes correntes, quer ideológicas, quer literárias.
 
Com a criação da União Soviética cinco anos antes, tivemos o Socialismo 
como estrela ideológica principal, e em oposição a ele um movimento de
extrema nacionalista, posteriormente batizado como Integralismo.
 
Dentre os poetas tivemos, da mistura de tendências Imagistas e Modernistas,
três correntes principais para o verso:
 
Os Conservadores, que aceitavam às novidades poéticas, pela própria idéia
do Poeta Livre Parnasiano; e tentavam tímidos experimentos nos poemas. Os
Moderados, que simpatizavam com as novas estéticas visuais dos poemas 
escritos, mas priorizando os Sons de Rimas e Ritmos nos poemas. Os de 
Vanguarda, cuja preocupação maior era a Estética visual do verso,
independente das bases científicas anteriores e dos seus respectivos sons.
 
Em 1940 tivemos mais um envento que reuniu os poetas brasileiros, porém 
com força bem menor que a Semana de 22, propagada pela imprensa:
O chamado Grupo dos 40, que além dos poetas Graça Aranha, Menoti Del
Picchia e outros remanescentes de 22, contou com a participação de Carlos
Drummond de Andrade, que embora desse aos seus versos uma tendência
Modernista, não participou da semana de 22 por não concordar com muitos 
dos motivos que a criaram e cercaram.
 
Também nesse Grupo dos 40 estava Vinícius de Moraes, um dos grandes,
senão o maior, responsável pelo transporte da essência do Poeta Livre 
Parnasiano para as letras da posterior MPB nos moldes que a efetivaram e
mantiveram como tal até hoje.
 
Correndo por fora, do Grupo dos 40, havia os irmãos Osvald e Mário de 
Andrade, simpatizantes do Imagismo de Pound. Tiveram seguidores que
habitariam espaços culturais jornalísticos nos anos 60, mas estávamos na
década de 50, carregada de interesses financeiros que ajudariam, por um
lado, e complicariam por outro os destinos dos versos na Poesia Brasileira.
 
Foi quando Ferreira Gullar conheceu esses seguidores dos Andrade, e de 
Pound por extensão, que desenvolviam um sub-movimento chamado
Concretismo. Rotulo a tal movimento como Sub pelo fato de ter sido só
uma tendência derivada das Artes Plásticas e não das Literárias.
 
A tentativa do Concretismo entrar, e ficar, na Poesia Brasileira tinha
as mesmas estratégias com que o Imagismo se aproximara da cultura
brasileira em 1922. Pela imprensa. No fundo, era mais uma tentativa
do Imagismo desenvolver o seu Poema Jornalístico da Orbe Urbe.
 
Gullar não ficou muito tempo convivendo com aquela gente, mas acabou
adotando, ou ganhando, não se sabe ao certo, o rótulo de Poeta Concretista.
Se por um lado o Concretismo teria a ganhar, contando com ele dentre
os seus seguidores, por outro, ele teria muito a perder com tal fama, pelo
fato de outros seguidores não se mostrarem, poeticamente, nem um
pouco parecidos com a competência literária dele.
 
Creio que Ferreira Gullar, em termos de quadro literário, estaria
entre os Moderados da Semana de 22. Simpatizava com os possíveis 
desenhos estróficos dos poemas, mas não abria mão do Som e do Ritmo
Poético, presentes neles desde o nascimento do primeiro Pé de Verso, o 
 Coreu, ou Cuore, que ligava o Coração às batidas dos Pés dos ouvintes na
forma de dança, ou Coreu Grafia, ou simplesmente Tum-tu Tum-tu…
http://mpbsapiens.com/coreu/
 
Legenda:
Uma barra inclinada / indica o término do Metro.
Duas barras // indicam à pausa interior da Cesura.
http://mpbsapiens.com/metro/
http://mpbsapiens.com/cesura/
http://mpbsapiens.com/coriambo/
http://mpbsapiens.com/jambo/
http://mpbsapiens.com/anapesto/
http://mpbsapiens.com/espondeu/
 
U ma / par te de mim // é to do mun / do:  -  1 Troqueu(t) + 2 Coriambos (c)
Ou tra / par  te-é nin guém: // fun do sem fun / do.  -  1t – 2c
 
U ma / par te de mim // é mul ti dão: /  -  1t – 2c
Ou tra / par te-es tra nhe // za-e so li dão. /  -  1t – 2c
 
U ma / par te de mim // pe sa, pon de / ra:  -  1t – 2c
Ou tra / par  te de li / ra.  -  1t – 1c
 
U ma / par  te de mim // al mo / ça-e jan / ta:  -  1t – 2c – 2 Jambos (j)
Ou tra / parte se-es pan / ta.  -  1t – 1c
 
U ma / par te de mim // é per ma nen / te:  -  1t – 2c
Ou tra / par te se sa // be de / re pen / te.  -  1t – 1c – 2j
 
U ma / par te de mim // é só ver ti / gem:  -  1t – 2c
Ou tra / par te, lin gua / gem.  -  1t – 1c
 
Tra du zir / u ma par / te na-ou / tra par / te  -  2 Anapestos (a) – 2j
 - Que é  u  /  ma ques tão  / de vi  / da-ou mor  / te -    – 2a – 2j
 
 - Se     ar  / te?  -  1 Espondeu
 
Coloquei os versos nessa disposição por suspeitar que o poema tenha
nascido assim. O Desenho final que o Gullar deu a ele, e que deve ter
coincidido com as descobertas das primeiras releituras, à proporção
em que novos Sons se anunciavam, tais como Delira, Espanta;
que coincidem com as súbitas mudanças nos pés de verso, ou metros.
 
Havia no poeta uma busca da ruptura conceitual da Ciência Poética,
no entanto, para que o poema se mostrasse de forma mais nítida para
ele, foi obrigado a descrevê-lo nos tradicionais Decassílabos Heróicos,
mesclados com os respectivos e derivados Heróicos Quebrados.
http://mpbsapiens.com/heroico/
http://mpbsapiens.com/heroico-quebrado/
 
A disposição dos versos em Dísticos, além de atender aos normais vínculos
sintáticos do poeta de outrora, se prestou a mostrar mais uma, das minhas
suspeitas, das rupturas de Gullar com a Ciência Poética ancestral.
 
Tivemos 7 estrofes Dístico e uma Monóstico, tendo esta última obedecido 
às suas origens de Destaque.
http://mpbsapiens.com/distico/
http://mpbsapiens.com/verso-único/
 
Sete Dísticos totalizam catorze versos. Sendo a maioria deles decassílabos
Heróicos, temos duas regras básicas que caracterizam o Soneto, mas não
existem sonetos cujos catorze versos estejam dispostos em sete Dísticos.
http://mpbsapiens.com/soneto-e-assim-que-se-faz/
http://mpbsapiens.com/o-soneto-ingles-e/
 
Acho que o divertimento do Gullar com a ruptura começou aí, com
o verso final, o do Monóstico, fazendo a gozação com a sua invenção.
Todo Único: Um só Metro, de raríssimo uso na Poesia Latina, só usado
uma vez no poema, numa estrofe Monóstico e com única pergunta,
depois de sucessivas explicações.
 
Gular usou pausas interiores nos decassílabos, mais usadas nos
Alexandrinos Latinos ancestrais, conhecidas por Cesura, que permitem
ao poeta dividir o verso longo em duas partes conhecidas por Hemistíquios.
http://mpbsapiens.com/cesura/
http://mpbsapiens.com/hemistiquio/
 
Usou quase todos os Metros possíveis das construções poéticas no poema, 
finalizado com um metro Espondeu, que por apresentar a duas sílabas
tônicas em seguida se torna mais apropriado às declamações do que aos
cantos, daí o seu raro uso na MPB.
 
Poderia até ter tentado usar o espondeu no centro dos decassílabos, mas 
com isso perderia a Cesura, fundamental para o Desenho que desejava
dar ao poema, decidindo pelos outros quaternários Coriambos.
 
A maioria das configurações do poema, que constam nos diversos sites da
internet, apresentam este desenho:
 
U  ma / par te  de  mim
é  to do  mun / do: 
ou tra / par  te-é nin guém: /  
fun do sem fun / do. 
U ma / par  te de mim
é mul ti dão: / 
ou tra / par  te-es tra nhe  /   za
e so   li  dão. / 
U ma / par te de mim
pe sa, pon de  /  ra
ou  tra / par  te
de li  / ra   
 
U  ma /  par  te de mim
al mo / ça-e jan  /  ta
ou tra  /  par  te
se-es pan  / ta. 
U  ma / par  te de mim
é per ma nen  / te: 
ou tra / par  te se sa  / be 
de  /  re  pen  / te
U  ma / par  te de mim
é só  ver ti  / gem: 
ou tra / par  te, 
lin gua  / gem 
 
Tra du zir  /  u ma par  /  te
na-ou  /  tra  par  / te 
 - que é u  /  ma ques tão  / 
de vi  /  da-ou mor  / te - 
se rá ar  te? 
 
Procurei manter a Escansão dos Metros para mostrar que, embora o
visual seja diferente, os metros continuam fundamentais nos poemas, que
poderiam ser escritos até da forma abaixo. Aliás, rompendo mais ainda.
 http://mpbsapiens.com/escandir/
 
Uma 
parte de mim
é todo mundo:
Outra 
parte-é ninguém
fundo sem fundo
Uma 
parte de mim
é multidão:
Outra par
te-estranhe
za-e solidão
Uma 
parte de mim
pesa, podera
Outra 
parte delira
 
Uma 
parte de mim
almo
ça-e janta:
Outra
parte se-espanta
Uma 
parte de mim
é permanente:
Outra par
te se sa
be de
repente
Uma 
parte de mim
é só vertigem
Outra
parte linguagem
 
Traduzir
uma par
te na-ou
tra parte
 - que é u
ma questão
de vi
da-ou morte -
Se arte?
 
A diferença é que Ferreira Gullar sabia do que tratava e buscava romper.
Alguns concretistas outros não.
 
Vanguarda sem Retaguarda?
 
 - Fala Sério!
 
                

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Ano Novo – Análise Poética

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http://mpbsapiens.com./ano-novo-analise-de-texto/
Sílabas Tônicas em vermelho
Números – Posição ordinal da sílaba no verso
Letras A, G e D – Timbres dos Versos
A+  Anáclase – captura da sílaba átona inicial do verso posterior pela final do anterior.
B – Verso Branco.    M – Verso Manco

   

   

1 2 3 4 5 6 7 8  
O rei che gou-E A+        
man dou to car os si nos  
Na ci da de-in tei ra      
Que-é pra to car os hi nos    
Has te ar ban dei ras      
E-eu que sou me ni no      
Mui to-o be di en te      
Ta va-in di fe ren te      
Lo go me co mo vo      
Pra fi car con ten te      
Pôr que-é A no No vo      
1 2 3 4 5 6 7 8  
mui to tem po        
Que-es as mi nha gen te      
Vai vi ven do-a mu que      
É-o mes ba ten te      
É-o mes ba tu que      
fi cou des cren te-É A+    
sem pre-o mes mo tru que-E A+    
quem viu de        
mes mo ve lho o vo-Ho A+  
fi con ten te      
Pôr que-é A no No vo      
1 2 3 4 5 6 7 8  
A mi nha ne ga  B      
Me pe diu-um ves ti do      
No vo-e co lo ri do      
Pra co me mo rar        
Eu  dis se:            
Fin ja que n´o-es des cal ça  
Dan ce-al gu ma val sa      
Que ro ser seu par        
E-ao meu a mi go  B      
Que não mais gra ça      
To do-a que pas sa      
lhe faz cho rar        
Eu  dis se:            
Ho mem te nha-o seu or gu lho  
Não fa ça ba ru lho-O A+  M  
rei não vai gos tar        
1 2 3 4 5 6 7 8  
E quem for ce go  B      
Ve ja de re pen te      
To do-o-a zul da vi da      
Quem ti ver do en te      
Sa ia na cor ri da      
Quem ti ver pre sen te      
Tra ga-o mais vis to so      
Quem  ti ver ju í zo      
Fi que bem di to so      
Quem ti ver sor ri so      
Fi que na fren te      
Pois ven va len te-E A+    
tão le al seu po vo-O A+    
rei fi con ten te      
Pôr que-é A no No vo      
1 2 3 4 5 6      
A composição utilizou 53 versos divididos entre quatro estrofes Livres com
11 versos nas duas primeiras, 16 versos na terceira e 15 na quarta.
http://mpbsapiens.com/estrofe-livre/
 
A rapidez do ritmo, associada à maioria dos versos curtos, obrigou Chico a 
mudar muito a acentuação original das palavras, bem como utilizar àlgumas 
Anáclases para equacionar uniformente Ritmo Poético e Métrica.
http://mpbsapiens.com/cadencia-poetica/
http://mpbsapiens.com/metrica/
 
Para se ter uma idéia melhor da construção poética, aconselho a escutar a 
interpretação com o autor, caso contrário as chances de surgirem verso 
Manco são muito grandes.
http://mpbsapiens.com/verso-manco/
http://mpbsapiens.com/verso-branco/
 
Toda vez que surgem versos Manco ou Branco convém conferir os textos:
 
Eu disse: 
Ho / mem / te / nha-o / seu / or / gu / lho
Não / fa / ça / ba / ru / lho-O M
rei / não / vai / gos / tar
 
O personagem que canta é um puxa-saco assumido, cujo maior orgulho é o
de agradar ao rei, logo, qualquer “barulho” estaria fora dos planos e isso
explica o verso ter ficado Manco no Ritmo Poético, que apresenta o único 
pé ternário na composição.
http://mpbsapiens.com/pe-ternario/
 
A última estrofe é uma receita do personagem, sem os limites da discreção
ou do óbvio cotidiano presente. Do Cego pra frente a estrofe é toda regular
em Ritmo e Métrica, como que sugerindo à “pré formatação” do elogio 
conveniente e com “Recibo”do virtual Ano Novo, num absurdo acordo entre
a regularidade Métrica da estrofe e a Irregularidade Ética do personagem. 
Ambas uniformes.
 
Os parâmetros da Peça Roda Viva eram presentes em todos os ângulos da
obra do Chico, consciente ou inconscientemente.
http://mpbsapiens.com/peca-roda-viva-introducao/
 
Nas rimas, as Colocações em finais de versos também sugerem ter Chico as 
incorporado à idéia do texto. Ora se insinuam em nobres colocações Opostas,
Opostas, que perdem a nobreza com súbitas Paralelas nos versos. 
http://mpbsapiens.com/rimas-opostas/
http://mpbsapiens.com/rimas-paralelas/
 
É o que ocorre nas três primeiras estrofes, ora apresentando certa 
homogeneidade nas colocações, como ocorreu na última estrofe. Por 
exemplo, na estrofe I, aconteceu o seguinte:
 
Embora o verso 1 aparente ser um Branco, está rimando em Cruzada com o 
centro do verso 2:  Chegou – Mandou. Do final do verso 2 aos final do 6 temos 
temos Rimas Alternadas. 
http://mpbsapiens.com/rimas-cruzadas-simples/
http://mpbsapiens.com/rimas-alternadas/
 
Os versos 7 e 8 apenas se insinuam como parte de Rima Oposta, pois
perdem tal qualidade pela repetição do som no verso 10, sem que o verso 9
tivesse o mesmo som do 6, o que configuraria à Oposta (6 com 9 e 7 com 8).
Ao invés disso o verso 9 rima com o 11.
 
Essa confusa configuração das rimas na estrofe I se repete nas estrofes II e III
e se mostra mais homogênea na IV e última estrofe, que inicia com um Verso 
Branco, se mostra Alternada do verso 2 ao 10, vira Paralela nos versos 11 e
12 para voltar a ser Alternada até o verso 15.
 
Os Versos Brancos foram reservados para os personagens alheios à relação
Rei/Servo da letra. A própria ¨Nega” do servo cantor, o descrente “Amigo” 
dele e o “Cego”, incapaz de ver àquela beleza toda descrita pelo fiel narrador.
 
Também tivemos na estrofe III Chico associando o narrador às Rimas Pobres
repetitivas, quando este assumiu a propriedade da fala nos versos “Eu disse”.
http://mpbsapiens.com/rima-pobre/
 
Para um melhor entendimento das rimas usadas na composição, segue abaixo
um quadro demonstrativo do comportamento delas nos finais dos versos.
Cada uma delas apresenta o Número de Ordem (R1), os versos envolvidos
(v1-v2), o tipo de Colocação (Alternadas, Paralelas, Opostas ou Cruzadas) 
e, por último a sua Qualidade (Pobre, Vulgar, Boa, Rica e Rara).
http://mpbsapiens.com/rima-vulgar/
http://mpbsapiens.com/rima-boa/
http://mpbsapiens.com/rima-rica/
http://mpbsapiens.com/rima-rara
 
Toda vez que suspeitamos haver um verso Branco, devemos observar todos 
os sons que o rodeiam nos versos próximos a ele. Foi o que aconteceu, por
exemplo, com o primeiro, cujo final – chegou – aparenta estar Branco, mas se
repararmos melhor, no centro do verso abaixo há uma rima Consoante - 
mandou – que acabou constituindo a uma Rima Cruzada de Centro.
http://mpbsapiens.com/rima-consoante-ou-perfeita/
 
Não posso dizer se Chico fez isso propositalmente, mas todos os primeiros 
versos das estrofes foram Suspeitos de Brancura. Convém cuidado nesse 
julgamento, mesmo porque a composição apresentou muito mais rimas do
que as de finais de versos do quadro. 
 
Todas nos interiores dos versos, mas essas eu deixo para os senhores verem
e julgarem, principalmente pela definição da Rima Toante, que exige apenas
uma identidade na Vogal Tônica, o que lança dúvidas quanto à “Brancura do
Verso do Cego”, pois há um monte de sílabas tônicas com vogal E ao redor,
mas todas com o som de Ê, e não de É. Eis o Quadro:

             

Rimas Versos Colocação Qualidade
                   Estrofe I    
R1 v1-v2 Cruz. Cent pobre
R2 v2-v4 Alternadas rica
R3 v3-v5 Alternadas boa
R4 v4-v6 Alternadas boa
R5 v7-v8 Paralelas boa
R6 v8-v10 Alternadas boa
R7 v9-v11 Alternadas rica
                   Estrofe II    
R8 v12-v14 Crz. Centr. boa
R9 v13-v15 Alternadas rica
R10 v14-v16 Alternadas rica
R11 v15-v17 Alternadas rica
R12 v16-v18 Alternadas rica
R13 v19-v20 Crz. Centr. boa
R14 v17-v21 Finais boa
R15 v20-v22 Alternadas rica
                   Estrofe III    
  v23 Branco  
R16 v24-v25 Paralelas boa
R17 v26-30 Finais boa
R18 v27-v35 Finais pobre
R19 v28-v29 Paralelas rica
  v31 Branco  
R20 v32-v33 Paralelas rica
R21 v34-v38 Finais pobre
R22 v36-v37 Paralelas rica
                   Estrofe IV    
  v39 Branco  
R23 v40-v42 Alternadas rica
R24 v41-v43 Alternadas rica
R25 v42-v44 Alternadas rica
R26 v45-v47 Alternadas boa
R27 v46-v48 Alternadas boa
R28 v49-v50 Paralelas rica
R29 v50-v52 Alternadas boa
R30 v51-v53 Alternadas boa

                        

As Estrofes I e II posuem onze versos cada, no entanto também têm no total
65 e 67 sílabas respectivas. A Estrofe III, com 16 versos, teve um total de 87
sílabas, enquanto a IV, embora apresente 15 versos, teve 89.
Segue um quadro da Geometria Poética dos Versos para melhor visualização
do ocorrido com as diferenças silábicas nas estrofes:


 

Verso Estrofe I   Estrofe II   Estrofe III   Estrofe IV
1 2-4 A -1 2-4 G   2-4 G   2-4 G
2 1-3-5-7 G 2 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G
3 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G
4 2-4-6 G 1 1-3-5 G   1-3-5 A -1 1-3-5 G
5 1-3-5 G   1-3-5 G    2 A -4 1-3-5 G
6 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5-7 G 2 1-3-5 G
7 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G
8 1-3-5 G 1 1-3-5 A   1-3-5 A -1 1-3-5 G
9 1-3-5 G -1 2-4-6 G   2-4 G -1 1-3-5 G
10 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G
11 1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G   1-3-5 G
12         1-3-5 A -1 1-3-5 G
13          2 G -3 1-3-5 G
14         1-3-5-7 G 2 1-3-5 G
15         2-5 G   1-3-5 G
16         1-3-5 A 5  
Totais 67   65   87   89
 
Os 53 versos da composição foram estes:
 
Dissílabos Graves – 02
Tetrassílabos Agudos – 01
Tetrassílabos Graves – 04
Redondilhas Menores Agudos – 05
Redondilhas Menores Graves – 36
Heróicos Quebrados Graves – 02
Redondilhas Maiores Graves – 03
 

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O Erro do Hino à Bandeira

    a

Para alguém que viveu na época áurea da MPB, ao menos naquela em que a Música Popular Brasileira recebeu tal nome para diferenciar o Samba da Bossa Nova, e hoje corresponde a ambos; a perda da Educação Poética pelos nossos ouvidos é notória, quando comparada à atual.

As novas gerações não conseguem mais encaixar textos em melodias prontas e, o que é pior, muito menos o contrário, que é criar melodias  partindo de textos. Quando muito se declama um poema, ou algo que o valha, e se apresenta um refrão cantado como glorioso ápice da construção poético-musical.

Será que tudo começou quando retiraram o tema Versificação do conteúdo da disciplina Língua Portuguesa nas nossas escolas?

Isso só vem ocorrendo atualmente com a Educação Poética dos nossos ouvidos?

Acho que não, pois mesmo na fulminante década de sessenta, em que a humanidade deu gigantescos saltos rapidamente, já se cantava errado até a letras de hinos, feitas com grande zelo por consagrados poetas brasileiros de outrora.

É de se estranhar o fato de, mesmo estando sob um regime militar nos anos sessenta, cantarmos errado o Hino à Bandeira Nacional, cuja letra é da autoria de Olavo Bilac, um dos expoentes da Poesia Brasileira.

Embora tenha tentado localizar o surgimento do erro em alguma época determinada, não consegui saber qual foi o infeliz que enfiou uma sílaba a mais no segundo verso da composição, presenteando o poema do Bilac com um sonoro Verso Manco, pois não existe no restante do poema, nem no suave Refrão, um verso com semelhante Métrica ou Cadência:

Sal / ve / sím / bo / / au / gus / to / da / paz

A letra é cantada assim até hoje, mas a partitura original tem uma nota musical a menos. Basta comparar com o segundo verso da terceira estrofe para perceber como é a melodia original do verso:

Es / te /  céu / de / pu / rís / si / mo-a / zul

Exatas nove notas musicais correspondentes às exatas nove sílabas do verso. Nenhuma a mais ou a menos: Nove.

É um Hino, muito bem escrito pelo Bilac sobre a gostosa melodia do Francisco Braga, que alterna os rígidos versos Gregorianos Anapésticos ternários, dos hinos, com os binários ritmos populares no Refrão, que até aceitou à proparoxítona, Símbolo, com duplo acento.

Cantado certo, o segundo verso da primeira estrofe deveria ser assim:

Sal / ve / sím / bo / lo-au / gus / to / da / paz  – 3-6-9

Toda vez que escutarem, nas execuções cívicas de 19 de Novembro, algum grupo cantando esse hino, não estranhem se a bandeira paralizar brevemente no segundo verso, será uma Praga Póstuma do Bilac:

- Ainda pego o imbecil que inventou esse verso Manco no meu poema!

Aqui vai a letra inteira com a respectiva escansão dos versos:

Sal / ve /  lin / do / pen / dão / da-es / pe / ran / ça
Sal / ve / sím / bo / lo-au / gus / to / da / paz
Tu / a / no / bre / pre / sen / ça-à / lem / bran / ça
A / gran / de / za / da / / tria / nos / traz
    
 (Refrão) 
    
Re / ce / be-o / a / fe / to / que / se-en / cer /   A-
ra-Em / nos / so / pei / to / va / ro / nil   (juvenil)
Que / ri / do / sím / bo / / da / ter / ra
Da / a / ma / da / ter / ra / do / Bra / sil

         
Refrão
     
Em / teu / se / io / for / mo / so / re / tra /tas
Es / te / céu / de / pu / rís / si / mo-a / zul
A / ver / du / ra / sem / par / des / tas / ma / tas
E-o-es / plen / dor / do / Cru / zei / ro / do / Sul
    
Refrão 
             
Com / tem / plan / do-o / teu / vul / to / sa / gra / do
Com / preen / de / mos / o / nos / so / de / ver
E-o / Bra / sil / por / seus / fi / lhos / a / ma / do
Po / de / ro / so-e / fe / liz / há / de / ser
    
Refrão   
    
So / bre-a-i / men / sa / na / ção / bra / si / lei / ra
Nos / mo / men / tos / de / fes / ta-ou / de / dor
Pai / ra / sem / pre / sa / gra / da / ban / dei / ra
Pa / vi/ lhão / da / jus / ti / ça-e / do-a / mor
     
Refrão 

 

Obs. Sílabas nicas em vermelho e o  (A-), colocado entre o primeiro e o segundo verso do Refrão mostra que houve uma Anáclase, onde a última sílaba átona do verso anterior foi capturada pela primeira sílaba do verso seguinte, também átona.

    a

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O Soneto da Separação e o Apelo – Análise

             
 
O nascimento de um poema é semelhante ao de qualquer outro nascimento:
 
 - É a mais antiga sequência da Natureza se justificando pela Vida.
 
No caso do poeta, para a nossa sorte, isso ocorre só no primeiro poema,
porque os demais só representam o renascimento do assunto abordado 
pelo pensamento matriz.
 
No caso do Vinícius de Moraes, para a Literatura Brasileira, a sorte foi 
imensa quando ele optou por traduzir os seus sentimentos usando os Sonetos, 
que limitados aos catorze versos, ainda que em longos decassílabos, deram 
aos seus poemas uma densidade sentimental muito grande.
 
Essa constante busca do complemento do poema, para nós completado, mas 
sempre inacabado pro poeta, acabou fazendo com que o Vinícius encontrasse
na MPB as continuidades dos seus muitos sonetos densos e inacabados.
 
O Soneto Da Separação foi um deles. Para nós, expectadores, atendeu por
completo às expectativas de cada um, mas para o poeta, escravizado pelo 
poema matriz, não.
 
Tal dependência do Vinícius, cujos poemas apresentavam as subjetivas
melodias próprias, acabou promovendo o seu encontro com os parceiros
musicais instrumentistas, que de alguma forma apresentassem semelhantes
harmonias nas melodias extraídas dos instrumentos.
 
O violão do Baden Powell foi o grande responsável pelo reencontro do 
Vinícius com uma Separação mal resolvida dentro dele. Escrevera sobre Ela,
mas os motivos do nascimento Dela num soneto se mostravam necessários.
 
E dessa dependência surgiram o Encontro com o Baden, a Fecundação da 
composição musical por acasalamento poético, a Gestação de um 
reencontro e o Nascimento da composição musical Apelo:
 
Ah, meu amor não vás embora
Vê a vida como chora
Vê que triste esta canção
 
Não, eu te peço, não te ausentes
Pois a dor que agora sentes
Só se esquece no perdão
 
Ah, minha amada me perdoa
Pois embora ainda te doa 
A tristeza que causei
 
Eu te suplico não destruas 
Tantas coisas que são tuas
Por um mal que eu já paguei
 
Originalmente, a composição trás o Homem cantando. Posteriormente, a
segunda parte dela, que vem abaixo, se encaixou muito bem à voz da Mulher
cantando, tanto no som agradável da voz feminina, quanto no drama descrito
pelo outro lado envolvido na original Separação.
 
Ah, minha amada, se soubesses
Da tristeza que há nas preces
Que a chorar te faço eu
 
Se tu soubesses num momento 
Todo o arrependimento
Como tudo entristeceu
 
Se tu soubesses como é triste
Perceber que tu partiste
Sem sequer dizer adeus
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus
 
Soneto da Separação (declamado)
 
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
 
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pré sentimento ***
E do momento imóvel fez-se o drama.
 
De repente não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho que se fez contente.
 
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente não mais que de repente.
 
(volta a música cantada)
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.
 
Ah, meu amor tu voltarias
E de novo cairias
A chorar nos braços meus.
 
*** Vinícius tinha uma grande preocupação com o que o desenvolvimento da
Língua Portuguesa estava causando aos significados das palavras. De alguma
forma estávamos juntando os Prefixos e Radicais delas em conceito único, o 
que nos levava a uma ignorância cada vez maior da amplitude dos conceitos.
 
O Pré Sentimento já virara, para a maioria de nós, um Pressentimento que 
perdera no significado a razão do Prefixo, englobado no conceito do Radical.
Sentimento é uma coisa definida, mas Pré Sentimento é a mesma coisa apenas
suposta, posto que a Suposição é só a fase anterior do Conceito Adquirido.
 
Várias foram, as falas e declamações em que ele procurava separar o Prefixo
do Radical de forma bem definida. Por exemplo:
 
…Aquela amada
Pelo amor Pré Destinada
Sem a qual a vida é nada…  (Minha Namorada)
 
Com excessão do Soneto embutido, Vinícius conjugou a composição Apelo 
inteira na Segunda Pessoa do Singular, o que é dificílimo e arriscado, já
que o Tu andava perdendo feio para o Você no nosso cotidiano verbal, assim
como, hoje, quase não empregamos mais as conjugações em Primeira Pessoa
do Plural. Nós acabou virando A Gente.
 
 - E o que é ainda pior: evoluimos até o “A Gente Regredimos”!
 
A análise poética do Soneto da Separação pode ser vista na postagem:
http://mpbsapiens.com/soneto-e-assim-que-faz/
 
Estou fazendo a análise do Espectro do Soneto da Separação e calculando a
melodia natural dele. Tenho dificuldades em encontrar as partituras 
musicais, portanto, se algum dos senhores leitores puder me ajudar enviando
a partitura da composição Apelo, poderíamos observar à semelhança das
linguagens entre as melodias, do Violão do Baden e da Poesia do Vinícius.
 
Grato!
 

           a

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