Como Fazer Poema Com Rimas
Antes de tudo é necessário um Motivo para escrever o Poema. Os assuntos podem ser vários, mas suponhamos que eu queira fazer um texto divertido sobre Funerais que, no fundo, são reuniões tristes para poucos e divertidas para a grande maioria dos presentes.
Usarei demonstrar isso usando a composição A Opereta do Moribundo (Chico Buarque e Edu Lobo), do Lp O Corsário do Rei, onde eles fazem uma divertida análise comparativa dos velórios do rico e do pobre.
O assunto principal é o que mais vale no desenvolvimento do texto em versos, mas não me prenderei às análises de Métrica ou Cadência deles. Apenas às rimas usadas na confecção dessa Comédia Poética.
Deve-se evitar usar as rimas só pelos seus sons naturais parecidos. Elas têm que fazer parte do assunto abordado e, se possível, pertencerem ao pensamento descrito na estrofe em que o verso esteja. Assim:
Rico quando vai Desta vida sempre vai de mau humor Ir deitado de casaca é um terror Abafado e morto de calor Aturar a marcha fúnebre
Percebam que houve uma descrição de morte: Vai desta vida. Vai de mau humor por estar deitado, com casaca, abafado e Morto, também de calor, e tendo de aturar a famosa Marcha Fúnebre.
Usarei mostrar mais as Rimas Consoantes e com colocações padronizadas, tanto em fim quanto em centro de verso, embora esse trecho do texto esteja carregado de Rimas Toantes no interior, como Aturar a com Marcha, por exemplo.
http://mpbsapiens.com/rima-consoante-ou-perfeita/
http://mpbsapiens.com/rima-toante-ou-imperfeita/
http://mpbsapiens.com/rimas-de-extremidades/
http://mpbsapiens.com/rimas-centrais/
Só de imaginar
Que os amigos vão deitar nos seus sofás
Vão tomar os seus vermutes, os seus cristais
E as suas mulheres principais
Já na beira do seu túmulo
Aqui se supõe o que poderia estar se passando pela cabeça do rico morto ao observar as reações do povo abutre que cerca o seu caixão. Embora o termo Fúnebre aparente ter ficado isolado no último verso do primeiro texto, o último do segundo trás o seu parceiro sonoro: Túmulo.
Nos dois trechos percebe-se que o curto verso 1 tem Rima Cruzada com o centro do longo verso 2, cujo final rima com os finais dos versos 3 e 4 em colocação Paralela.
http://mpbsapiens.com/rimas-cruzadas-simples/
http://mpbsapiens.com/rimas-paralelas/
- Gente, quanta gente
Que excelente funeral
- Ficas bem de preto
E o cabelo ao natural
- Dizem que o eminente
Triplicou seu capital
- Vai sobrar para gente
Que nem viu ele vivo
- Tem até donativo Para as obras do hospital.
Aqui pode-se perceber um trabalho de Assonâncias Nasais. Embora o fim do verso 3 aparente estar branco, o Preto tem uma Rima Toante com o Cabelo do verso seguinte. As rimas com o som al formam dois grupos, um com a consoante R e outro com a T.
http://mpbsapiens.com/assonancia/
Nesta estrofe Chico mostra que, quanto mais rico for o morto, mais “Fashion” é o velório, com disputadíssimos Modelitos em Preto, que dão aos cabelos soltos um charme sóbrio.
Normalmente os mais ricos costumam driblar o imposto de renda com fundações e outras atitudes benevolentes, o que acaba nos beneficiando de alguma forma, enquanto eles fazem as suas propagandas.
Vejamos agora como ficaria o nosso enterro:
Pobre quando vai
Sempre dizem que ele vai prumá melhor
Vai olhando aquela gente a seu redor
Todos com poeira e com suor
E ele achando a coisa ótima
Percebam que houve uma descrição de outra morte: Vai desta vida para outra melhor do que ela. Vai bem humorado e sem vestimentas desconfortáveis. A Marcha Fúnebre virou Coisa Ótima, embora as rimas tenham obedecido ao mesmo esquema das da morte do rico. Vejam porque:
Só de imaginar
Que os amigos vão pagar o seu caixão
O barbeiro, o aluguel do rabecão
O vinho do padre, o sacristão
E o sermão na igreja gótica
Aqui se supõe o que poderia estar se passando pela cabeça do morto pobre, ao observar as reações do triste povo que cerca o seu caixão. Embora o termo Ótima aparente ter ficado isolado no último verso do primeiro texto, o último do segundo trás o seu parceiro sonoro: Gótica, e com rimas bem melhores do que as das proparoxítonas do rico. Pobre é mais Dáctilo.
http://mpbsapiens.com/rima-dactila/
- Gente, não tem gente
Tem parente pobre só
- Esse teu modelo
Mais parece um dominó
- Nem o indigente
Quis herdar seu paletó
- Vai sobrar para a gente
Que nem viu ele vivo
- Tem até um passivo
No caderno do Jacó
Aqui pode-se perceber um trabalho mais “rico” de Assonâncias Nasais. Embora o fim do verso 3 aparente estar branco, porque o Modêlo, mesmo sendo único, é salvo pelo Esse que iniciou o verso, que rima com o Parece do verso seguinte. As rimas com o som ó formam um só grupo.
Nesta estrofe Chico mostra que, quanto mais pobre for o morto, mais chocante é o velório, com manjadíssimos Modelitos que, remendados em branco, dão ao ambiente os graciosos ares do Dominó, comumente jogado pelos pobres nas mesas dos periféricos Bares dos Jacós, que costumam anotar as contas deles em cadernetas.
Normalmente os mais pobres costumam, nessa única ocasião, driblar a renda dos amigos com “afundações” e outras despesas maledicentes, o que acaba nos lesando de alguma forma com outros Jacós, que não costumam fazer propagandas próprias.
Espero ter ajudado a esclarecer um pouco os caminhos das rimas nos textos. Elas devem sempre buscar seguir, o mais que puderem, ao tema que originou o texto que as contém.
Não é um bicho de sete cabeças. Basta um uso mais frequente do dicionário, que permite identificar os significados das palavras que contenham os sons desejados. Daí para a frente é correr pro abraço, ou se divertir pra valer com o texto analisado, que foi o que acabei de fazer trajando o meu Dominó.


































