Archive for junho, 2009

Como Fazer Poema Com Rimas

     

Antes de tudo é necessário um Motivo para escrever o Poema. Os assuntos podem ser vários, mas suponhamos que eu queira fazer um texto divertido sobre Funerais que, no fundo, são reuniões tristes para poucos e divertidas para a grande maioria dos presentes.

Usarei demonstrar isso usando a composição  A Opereta do Moribundo (Chico Buarque e Edu Lobo), do Lp O Corsário do Rei, onde eles fazem uma divertida análise comparativa dos velórios do rico e do pobre.

O assunto principal é o que mais vale no desenvolvimento do texto em versos, mas não me prenderei às análises de Métrica ou Cadência deles. Apenas às rimas usadas na confecção dessa Comédia Poética.

Deve-se evitar usar as rimas só pelos seus sons naturais parecidos. Elas têm que fazer parte do assunto abordado e, se possível, pertencerem ao pensamento descrito na estrofe em que o verso esteja. Assim:

                

Rico quando vai
Desta vida sempre vai de mau humor
Ir deitado de casaca é um terror
Abafado e morto de calor
Aturar a marcha fúnebre

            

Percebam que houve uma descrição de morte: Vai desta vida. Vai de mau humor por estar deitado, com casaca, abafado e Morto, também de calor, e tendo de aturar a famosa Marcha Fúnebre.

Usarei mostrar mais as Rimas Consoantes e com colocações padronizadas, tanto em fim quanto em centro de verso, embora esse trecho do texto esteja carregado de Rimas Toantes no interior, como Aturar a com Marcha, por exemplo.

http://mpbsapiens.com/rima-consoante-ou-perfeita/
http://mpbsapiens.com/rima-toante-ou-imperfeita/
http://mpbsapiens.com/rimas-de-extremidades/
http://mpbsapiens.com/rimas-centrais/

      

Só de imaginar
Que os amigos vão deitar nos seus sofás
Vão tomar os seus vermutes, os seus cristais
E as suas mulheres principais
Já na beira do seu túmulo

                      

Aqui se supõe o que poderia estar se passando pela cabeça do rico morto ao observar as reações do povo abutre que cerca o seu caixão. Embora o termo Fúnebre aparente ter ficado isolado no último verso do primeiro texto, o último do segundo trás o seu parceiro sonoro: Túmulo.

Nos dois trechos percebe-se que o curto verso 1 tem Rima Cruzada com o centro do longo verso 2, cujo final rima com os finais dos versos 3 e 4 em colocação Paralela.    

http://mpbsapiens.com/rimas-cruzadas-simples/
http://mpbsapiens.com/rimas-paralelas/

           

- Gente, quanta gente
Que excelente funeral
- Ficas bem de preto
E o cabelo ao natural
- Dizem que o eminente
Triplicou seu capital
- Vai sobrar para gente
Que nem viu ele vivo
- Tem até donativo
Para as obras do hospital.

          

Aqui pode-se perceber um trabalho de Assonâncias Nasais. Embora o fim do verso 3 aparente estar branco, o Preto tem uma Rima Toante com o Cabelo do verso seguinte. As rimas com o som al formam dois grupos, um com a consoante R e outro com a T.

http://mpbsapiens.com/assonancia/

Nesta estrofe Chico mostra que, quanto mais rico for o morto, mais “Fashion” é o velório, com disputadíssimos Modelitos em Preto, que dão aos cabelos soltos um charme sóbrio.

Normalmente os mais ricos costumam driblar o imposto de renda com fundações e outras atitudes benevolentes, o que acaba nos beneficiando de alguma forma, enquanto eles fazem as suas propagandas.

Vejamos agora como ficaria o nosso enterro:

            

Pobre quando vai
Sempre dizem que ele vai prumá melhor
Vai olhando aquela gente a seu redor
Todos com poeira e com suor
E ele achando a coisa ótima

           

Percebam que houve uma descrição de outra morte: Vai desta vida para outra melhor do que ela. Vai bem humorado e sem vestimentas desconfortáveis. A Marcha Fúnebre virou Coisa Ótima, embora as rimas tenham obedecido ao mesmo esquema das da morte do rico. Vejam porque:

           

Só de imaginar
Que os amigos vão pagar o seu caixão
O barbeiro, o aluguel do rabecão
O vinho do padre, o sacristão
E o sermão na igreja gótica

              

Aqui se supõe o que poderia estar se passando pela cabeça do morto pobre, ao observar as reações do triste povo que cerca o seu caixão. Embora o termo Ótima aparente ter ficado isolado no último verso do primeiro texto, o último do segundo trás o seu parceiro sonoro: Gótica, e com rimas bem melhores do que as das proparoxítonas do rico. Pobre é mais Dáctilo.

http://mpbsapiens.com/rima-dactila/

            

- Gente, não tem gente
Tem parente pobre só
- Esse teu modelo
Mais parece um dominó
- Nem o indigente
Quis herdar seu paletó
- Vai sobrar para a gente
Que nem viu ele vivo
- Tem até um passivo
No caderno do Jacó

              

Aqui pode-se perceber um trabalho mais “rico” de Assonâncias Nasais. Embora o fim do verso 3 aparente estar branco, porque o Modêlo, mesmo sendo único, é salvo pelo Esse que iniciou o verso,  que rima com o Parece do verso seguinte. As rimas com o som ó formam um só grupo.

 Nesta estrofe Chico mostra que, quanto mais pobre for o morto, mais chocante é o velório, com manjadíssimos Modelitos que, remendados em branco, dão ao ambiente os graciosos ares do Dominó, comumente jogado pelos pobres nas mesas dos periféricos Bares dos Jacós, que costumam anotar as contas deles em cadernetas.

 Normalmente os mais pobres costumam, nessa única ocasião, driblar a renda dos amigos com  “afundações” e outras despesas maledicentes, o que acaba nos lesando de alguma forma com outros Jacós, que não costumam fazer propagandas próprias.

Espero ter ajudado a esclarecer um pouco os caminhos das rimas nos textos. Elas devem sempre buscar seguir, o mais que puderem,  ao tema que originou o texto que as contém.

Não é um bicho de sete cabeças. Basta um uso mais frequente do dicionário, que permite identificar os significados das palavras que contenham os sons desejados. Daí para a frente é correr pro abraço, ou se divertir pra valer com o texto analisado, que foi o que acabei de fazer trajando o meu Dominó.

             

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Michael Jackson e a BR-3

               

Antes. Muito antes dessa estrela, que infelizmente perde parte do brilho pela presença da ausência, havia o conjunto The Jackson Five, que chamava a atenção pela afinadíssima voz infantil do solista, que se tornou a estrela, agora habitante do mundo da ausência.

No desenvolvimento do brilho, essa estrela foi perdendo o maior atributo da Voz e ganhando o ilimitado atributo da Dança.

Como todo ídolo popular, teve a vida invadida pelas fofocas da imprensa. Muitas delas vindas de furos de reportagens, outras tantas, que creio a maioria, resultantes de acordos promocionais entre a mesma e a assessoria empresarial do seu talento.

Deixando de lado esse cansativo papo das estratégias da Roda Viva nas promoções dos ídolos populares, a presença de Michael Jackson na MPB não se resume à última visita dele à Bahia, onde trocou arte com o Olodum, pois a sua essência andou por aqui em 1970.

Diriam alguns que isso ocorreu pelas músicas Ben e Music And Me, presentes nas trilhas sonoras das novelas da globo..; mas vou além.

A voz dele só causou maior interesse quando criança, pois embora tivesse se mantido afinada pelo resto da carreira, perdera o charme infantil e se transformara numa voz normal dos cantores homens, que com algum exercício conseguem habitar os tons sopranos mais baixos das mulheres.

Mas a sua melhor essência ainda estaria por vir. A Dança. Tinha, lá nos USA, referenciais muito bons em tal atributo, cujo destaque era Fred Astaire, mas a nossa realidade não permitia mais ao dançarino sugerir à levitação pelos pés, característica do Fred.

O Homem já havia pisado na Lua, não tinha mais porque Flutuar na Dança. Seus pés tinham que voltar à Terra e Deslizar sobre ela.

Dois foram os artistas, um homem e uma mulher, que conseguiram nos espantar por tal essência artística nos últimos anos: Michael e Madona.

Idenpendente de toda uma armação empresarial, que caracterizou às apresentações de ambos pelo mundo, está o inigualável valor artístico deles de traduzir, pela dança, que não possui letra, ao nosso atual sentimento presente na composição musical, que a possui.

Semelhante ao comportamento musical de uma casa de Candomblé numa Dança de Santo. Os cantos, ou “Sassanhas”, são feitos em Yorubá. Ninguém entende nada do que está sendo cantado, mas sentem tudo do que está sendo mostrado.

Um Orixá dançando, seja ele da Caça, Da Terra, da Estrada ou da Morte; implica numa Tradução pelos atabaques. Enquanto dois deles, Rumpí e Lé, se incumbem da marcação rítmica, em Batá, Huntó ou Hamunia (Avaninha), dependendo do orixá em terra; um outro, o Rum, conta a história do orixá no canto, pela percussão, realizando prodigiosas Onomatopéias Rítmicas.

Numa dança de Obaluayê, um bom “Dobrador de Rum” sabe muito bem que a palma da mão para cima, por representar à Vida, implica em mera marcação rítmica, mas bastou a mão, do orixá dançante, inclinar um pouco para ele dar um repique de alerta, seguido de brusco toque com ambas as mãos quando a palma virar para baixo, o que significou a Morte.

Michael não foi à Bahia para aprender isso. Quem o levou ao Olodum foi a sua Essência Artística, para rever a alguns amigos da velha e mesma África, berço ancestral de todos os negros.

Não creio que essa morte prematura tenha ocorrido por vingança de orixás, pela opção dele quanto à cor da pele, pois eles, por serem essências, estão muito acima dessa nossa pobreza conceitual das suas condutas.

Na realidade, Michael estava “voltando” ao Brasil, também, para reencontrar o princípio da sua própria dança. Do Deslizar sobre a Terra, que além de ser comum às danças dos Orixás no candomblé, já havia sido traduzida para o mundo visual das artes por outro negro, só que brasileiro:

Tony Tornado.

O Americanismo da imprensa pode até tentar camuflar à História das Artes, com as suas adequações cotidianas, mas quem presenciou o Festival de 1970, além de ver um excelente trabalho da dupla Antonio Adolfo e Tibério Gaspar, na composição BR-3, viu pela primeira vez um homem Deslizando sobre a Terra, enquanto um menino fazia sucesso com a sua interessante e afinada voz infantil.

Michael dançou, Deslizou como ninguém sobre a Terra, traduzindo Letra, Melodia e Gente; mas…

Refrão
A gente corre na BR-3
A gente morre na BR-3
       
Há um foguete
Rasgando o céu, cruzando o espaço
E um Jesus Cristo feito em aço
Crucificado outra vez
     
Refrão
      

Há um sonho
Viagem multicolorida
Às vezes ponto de partida
E às vezes porto de um talvez
    
Refrão
          
Há um crime
No longo asfalto dessa estrada
E uma notícia fabricada
Pro novo herói de cada mês

O ar pode até ter-se acomodado e hoje se encontra inflado, mas carrega o mesmo nome desde 1970:

- Tony Tornado!

É só comparar os pés:

http://www.youtube.com/watch?v=kGMDR8O_Jbo

Boa Viagem Michael!

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Chico, o INSS, a Galinha e Jung

           

…Talvez à noite
Quase-palavra que um de nós murmura
Que ela mistura as letras que eu invento
Outras pronúncias do prazer, palavra…

Esses versos do Chico, da composição Uma Palavra, servem bem para dar uma idéia do tanto que ele fotografou do cotidiano brasileiro, e independendo das ocasiões em que determinadas composições foram feitas, as situações atuais se explicam pela junção dos seus fragmentos.

Há uns dias atrás fui ao Barbeiro dar um trato na crista. Lá chegando, enquanto aguardava a minha vez de ser atendido, vasculhei um bloco de revistas, já bem antigas, para encontrar alguma que me fizesse companhia na espera.

Todas com muitas fotografias de gente sorridente em reuniões. Algumas com o povo sorrindo na própria foto, outras com mulheres nuas, e o povo da barbearia sorrindo fora da foto. Foi quando encontrei, perdida lá no fundo da caixa, uma revista Seleções, muito antiga e ainda com a famosa pergunta: – Você Sabia?

Na hora lembrei da infância, quando o meu pai me arrastava até a barbearia para cortar o cabelo, e a Seleções era bem comum, dentre algumas revistas semelhantes, com muito mais informações do que fotos.

Junto com isso, já veio a primeira composição dele. Almanaque:

Oh menina vá ver nesse Almanaque como é que isso tudo começou
Diz quem é que marcava o tique-tac e ampulheta do tempo disparou

Não demorou muito chegou a minha vez. Sentei na cadeira e ouvi a pergunta: - O que vai patrão? No que respondi:

- Máquina quatro no geral!

Enquanto o profissional exercia o ofício e eu lia a minha revista, o ambiente apresentava um quase silêncio, aconchegante, alterado levemente pelo som das tesouras e das maquininhas elétricas, quando adentrou no recinto um senhor de pouca idade.

O silêncio foi trocado por uma barulheira de vozes, de alguns dos habitantes até então silenciosos, acolhendo ao recém-chegado com efusivas saudações, e pensei:

- É impressionante como o homem, que em seu estado natural de solidão tende ao silêncio, muda rapidamente para a barulheira quando algum motivo o reúne em grupo.

O assunto, atrás da cadeira, continuou com a seguinte pergunta:

- E aí, conseguiu a aposentadoria? No que veio a resposta:

- Tive de encarar fila por alguns dias,…

Foi quando lembrei da música “Vai Trabalhar Vagabundo”:

Vai trabalhar vagabundo
Vai trabalhar criatura
Deus permite a todo mundo
Uma loucura…
…Vai terminar moribundo
Com um pouco de paciência
No fim da fila do fundo
Da Previdência…

… mas depois encontrei um velho conhecido, que me devia alguns favores. Deu ”um jeitinho”  na papelada, para torná-la legal, e ainda…

Foi quando voltei novamente aos tempos de criança e lembrei de uma Galinha, do musical infantil Os Saltimbancos:

…A escassa produção
Alarma o patrão
As galinhas sérias
Jamais tiram férias…

…por cima ele conseguiu aumentar o valor do meu Benefício, em troca de dez por cento ao mês por um ano.

Aí a galinha voltou furiosa:

…É esse o meu troco
Por anos de choco
Dei-lhe uma bicada
E fugi chocada
Quero cantar na ronda
Na crista da onda…

O papo continuou animado atrás da cadeira e terminou com a seguinte frase do jovem senhor:

- Recebi o meu primeiro Benefício na semana passada! Todos riram alto, menos a galinha, que resignada cantou:

Pois um bico a mais
Só faz mais feliz
A grande gaiola
Do meu país
    
Todo ovo
Que eu choco
Me toco
De novo…

O barbeiro tinha terminado o serviço, e enquanto me escovava o pescoço pude notar entre os meus pés, postados no apoio inferior da cadeira, o sugestivo nome: 

- FERRANTE !

Terminei de ler rapidamente o artigo da revista, que dizia:

- Você Sabia, que segundo a Sincronicidade de Jung, em algum lugar do planeta uma outra pessoa está tirando conclusões iguais às suas no mesmo momento?

E fui embora cantando:

Agora já não é normal
O que dá de malandro regular, profissional…

 

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Januária – Análise Poética

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1 2 3 4 5 6 7 8   vs.
To da gen te-ho me na ge ia   1
Ja nu á ria na ja ne la   2
Á te-o mar faz re che ia   3
Pra che gar mais per to de la   4
O pes soal des na-a re ia   5
E ba tu ca por a que la   6
Que mal va da se pen te ia-E A+ 7
não es cu ta-a quem a pe la   8
1 2 3 4 5 6 7 8   vs.
Quem ma dru ga sem pre-en con tra   9
Ja nu á ria na ja ne la   10
Mes mo-o sol quan des pon ta   11
Lo go-a pon ta-os la dos de la   12
E la faz que não con ta   13
De sua gra ça tão sin ge la   14
O pes soal se de sa pon ta   15
Vai pro mar le van ta ve la   16
1 2 3 4 5 6 7 8    

                    

Rimas Versos Colocação Qualidade
                   Estrofe I    
R1 v1-v3 Alternadas rica
R2 v2-v4 Alternadas boa
R3 v3-v5 Alternadas rica
R4 v4-v6 Alternadas pobre
R5 v5-v7 Alternadas rica
R6 v6-v8 Alternadas boa
                   Estrofe II    
R7 v9-v11 Alternadas boa
R8 v10-v12 Alternadas boa
R9 v11-v13 Alternadas rica
R10 v12-v14 Alternadas boa
R11 v13-v15 Alternadas rica
R12 v14-v16 Alternadas rica


 

http://mpbsapiens.com/rimas-alternadas/
http://mpbsapiens.com/rima-boa/
http://mpbsapiens.com/rima-rica/
http://mpbsapiens.com/rima-pobre/
 
Januária foi feita em Versificação Regular, com Cadência 1-3-5-7, e toda
em versos Graves, ou Femininos, já que se trata da descrição de uma Musa.
http://mpbsapiens.com/poema-regular/
http://mpbsapiens.com/cadencia-poetica/
http://mpbsapiens.com/rima-grave/
 
Foram dezesseis versos dispostos em duas Oitavas Líricas. A composição é
inteira Lírica, tanto pela qualidade especial das estrofes oitavas, quanto pela
mesma rima que finaliza a ambas as estrofes, o que indica ter Chico tratado 
de sentimentos bem pessoais.
http://mpbsapiens.com/oitava-lirica/
 
Todas as rimas colocadas na forma de Alternadas nos finais de versos. Chico 
fez a composição inteira usando só três grupos de sons nas rimas: o Ela, 
comum às duas estrofes, o Eia na primeira e o Onta na terceira.
 
Há também algumas rimas de centro, como por exemplo nas terceiras sílabas
dos versos 3 e 4, ou mesmo umas Rimas Toantes à partir das terceiras sílabas
dos versos 6, 8 e 9, e uma outra Cruzada Simples entre os versos 11 e 12.
http://mpbsapiens.com/rimas-centrais/
http://mpbsapiens.com/rima-toante-ou-imperfeita/
http://mpbsapiens.com/rimas-cruzadas-simples/
 
Houve uma Anáclese entre os versos 7 e 8 que permitiu ao oitavo ter métrica
igual à dos demais. Tivemos também, além das usuais mudanças de tonicidade
nas palavras, o uso de Diérese em Su + a = suá e Pes + so + al = pes + soal que fez
as sílabas poéticas ficarem em menor número que as gramaticais.
http://mpbsapiens.com/anaclase/
http://mpbsapiens.com/dierese/
                    

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Um Chorinho – Análise Poética

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1 2 3 4 5 6 7 8 9 vs.
Ai meu a mor         1
A su a dor           2
A nos sa vi da         3
não ca bem na ba ti da   4
Do meu po bre ca va qui nho   5
Quem me de ra           6
Pe lo me nos um mo men to   7
Jún tar to do-o so fri men to   8
Pra bo tar nes cho ri nho   9
Quem me de ra           10
Ter um cho ro de-al to por te   11
Pra can tar co´a voz bem for te-E A+ 12
nun ci ar a luz do di a   13
Mas quem sou eu  B         14
Pra cân tar al to-as sim na pra ça 15
Se vem di a di a pas sa-E-a A+ 16
pra ça fi ca mais va zi a   17
1 2 3 4 5 6 7 8 9 vs.
Vem mo re na           18
Não me des pre sa mais não     19
meu cho ro-é coi sa pe que na   20
Mas rou ba do-a du ras pe nas   21
Do co ra ção           22
1 2 3 4 5 6 7 8   vs.
Meu cho ri nho           23
Não é u ma so lu ção     24
En quan to-eu can tar so zi nho   25
Quem cru zar o meu ca mi nho   26
Não pa ra não           27
1 2 3 4 5 6 7 8   vs.
Mas eu in sis to-E A+  B     28
quem qui ser que me com preen da-A A+ 29
que-al gu ma luz a cen da-Es A+ 30
meu can to con ti nu a   31
Jun meu can to-A  A+        32
ca da pran to-A   A+       33
ca da cho ro-A   A+       34
´que-al guém me fa ça co ro   35
Pra can tar na ru a       36
1 2 3 4 5 6 7 8    

         

Rimas Versos Colocação Qualidade        
                   Estrofe I            
R1 v1-v2 Paralelas pobre        
R2 v3-v4 Paralelas boa        
R3 v5-v9 Finais boa        
R4 v6-v10 Finais pobre        
R5 v7-v8 Paralelas boa        
R6 v11-v12 Paralelas boa        
R7 v13-v17 Finais boa        
  v14 Branco          
                   Estrofe II            
R8 v18-v20 Alternadas boa        
R9 v19-v22 Opostas vulgar        
R10 v20-v21 Paralelas boa        
                   Estrofe III            
R11 v23-v5 Alternadas rica        
R12 v24-v27 Opostas boa        
R13 v25-v26 Paralelas boa        
                   Estrofe IV            
  v 28 Branco          
R14 v29-v30 Paralelas rica        
R15 v31-v36 Opostas boa        
R16 v32-v33 Paralelas boa        
R17 v34-35 Paralelas rica        
               
               
Como julgar às qualidades das rimas que envolveram os versos 19-22 e   
os 24-27 embora as palavras sejam de categorias gramaticais diferentes?  
               
Solução com Não, perdem a vulgaridade pelo desuso da primeira, mas rimar  
Não com Coração é bem usado desde quando o poeta Adão escrevia para a 
sua musa única Eva.          
Outros julgamentos meus seguem a esse mesmo critério.    
               
Embora certas rimas dêem a idéia de terem sido colocadas na nobre forma  
Oposta, a presença de só um verso diferente, após as Paralelas interiores da   
mesma, descaracteriza à Oposição, todavia, se surgirem mais outras  
Paralelas no interior, ela volta a ser Oposta, o mesmo ocorrendo se tivermos, 
entre dos versos em oposição, um paralelismo de, no máximo, 3 versos em  
mesma rima, pois daí pra frente vira bagunça e pobreza..    
Foi o oque aconteceu com os “Quem me dera” e os Brancos entre as supostas 
rimas Opostas.            
               
Um Chorinho foi feito com 36 versos distribuídos em 4 estrofes. A primeira,  
Polimétrica com 17 versos totalizando 116 sílabas, seguida de duas Quintilhas
contendo 32 sílabas cada, e finalizando, uma Oitava Lírica, pela presença de   
igual rima envolvendo os seus versos quarto e oitavo, totalizando 56 sílabas.  
               
Só essa Oitava Lírica, finalizando o poema, já lhe daria a idéia de estar o poeta
tratando dos sentimentos pessoais, mas ela não foi o único indício disso, pois a 
essência da pessoal solidão, numa subjetica causa perdida, se estendeu aos  
aspectos Rítmicos, Métricos e Sonoros ao longo dos versos. Assim:  
               
Os versos primeiro e último da composição foram os únicos pentassílabos,   
ambos com o Ritmo 1-3-5, sendo o primeiro Agudo e o segundo Grave.   
Os textos de ambos mostram o poeta sozinho com os sentimentos próprios. O 
seu Amor no primeiro e a solidão finalizada no último.    
O texto repetitivo dos verso 6 e 10, cujas rimas denotam à pobreza que o  
tornava um humilde poeta diante da solidão.      
               
O verso 14 é um Verso Branco, ou sem rimas, ou solitário na estrofe, e tem  
um texto em que o poeta questiona o próprio valor, o que ganha um reforço  
no texto do verso seguinte, também único e mais comprido da obra.  
               
Os versos 19, 20 e 25 são os únicos, de um total de 20 Redondilhas Maiores
com Ritmo diferente dos demais 1-3-5-7. Foram respectivos  1-4-7 e 2-4-7.
Basta entender a humildade do poeta-pedinte requisitando alguma atenção da
“morena” das quintilhas, que pode muito bem ser entendida como a MPB.  
               
Aliás, as duas Quintilhas, inter-líricas pelas rimas dos versos finais, mostram   
estar o poeta se  dirigindo a algo bem mais amplo que uma simples mulher,   
quando clama humildemente por mais atenção.      
               
Finalmente, abrindo a última estrofe temos outro Verso Branco cujo texto trás o
poeta se referindo a ele mesmo, a exemplo do ocorrido no outro branco.  
               
Esta composição foi escrita na mesma época em que as atenções do Chico se
voltavam mais para a peça Roda Viva. O texto não pode definir se foi escrita  
um pouco antes dela, ao constatar à forma como a mídia manipulava a ele e aos
colegas artistas; durante a mesma, e nesse caso poderia até integrar à peça sem
perda qualquer de conteúdo; ou logo após a peça, o mais provável, ao notar que
estava sozinho na denúncia, pois não houve nada a respeito de ter sido apoiado
pela classe artística logo após a encenação de Roda Viva.    
               
Acho que a tal Morena era mesmo a MPB, mas é como ele mesmo disse:  
               
Mas eu insisto
 
 
 
 
 
 
E quem quiser que me compreenda
 
 
 
 
Até que alguma luz acenda
 
 
 
 
 
Esse meu canto continua…
 
 
 
 
 
“No raiar de um novo dia 
 
 
 
 
 
que a mentira usa esconder…” (os dois finais são meus)
   
               
Os versos utilizados na composição tiveram os seguintes Ritmos e Timbres:  
               
Trissílabos Graves  -  06          
Tetrassílabo 1-4 Grave (G)  -  01        
Tetrassílabo 2-4 Agudo (A)  -  01        
Tetrassílabos 2-4 G -  05          
Redondilha Menor 1-3-5 A   -  01        
Redondilha Menor 1-3-5 G   -  01        
Redondilha Maior 1-4-7 A   -   01        
Redondilha Maior 2-4-7 G   -   02        
Redondilha Maior 1-3-5-7 A -  01        
Redondilha Maior 1-3-5-7 G -  16        
Sáfico Quebrado 2-4-6-8  G  -  01        

                

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