Archive for maio, 2009

Disparada – Análise de Texto

 

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 Vídeo de amlajid
O Festival da MPB de 1966 terminou com duas composições empatadas em 
primeiro lugar: A Banda, do Chico Buarque, e a Disparada, da dupla Geraldo
Vandré e Theo de Barros.
 
Lá estavam Vandré e o jovem compositor de Sonho de um Carnaval, que o
próprio Vandré defendera num festival do ano anterior. As opiniões estavam 
divididas entre os jurados, mas entre nós, da platéia, havia uma nítida
preferência pela Disparada.
 
Como adolescentes não podíamos entender a visão adulta do texto da Banda, 
que embora escrita por um compositor ainda jovem, possuía um texto mais
conformista com a perda dos valores culturais que São Paulo estava sofrendo
naqueles anos, e que fugia à sensatez da adolescente platéia.
 
Do outro lado havia uma composição que nitidamente protestava contra algo, e
que também não conseguíamos entender bem como adolescentes, mas insinuava
tratar austeramente do desnível das classes sociais. 
 
Foi o bastante para ser adotada por nós, que éramos maioria na platéia. O ar de
protesto adulto na letra, aquela queixada de boi marcando o ritmo e a excelente
interpretação do Jair Rodrigues faziam com que preferíssemos a Disparada, pois
A Banda estava muito mais próxima do espírito infantil que todo adolescente
quer se livrar para virar logo um adulto:
 
              I
Prepare o seu coração
Prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar…
 
             II
Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar
E a morte, o destino, tudo
A morte, o destino, tudo
Estava fora do lugar
Eu vivo prá consertar…
 
             III
Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu…
             IV
Boiadeiro muito tempo
Laço firme e braço forte
Muito gado, muita gente
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
E boiadeiro era um rei…
              V
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E nos sonhos que fui sonhando
As visões se clareando
As visões se clareando
Até que um dia acordei…
               VI
Então não pude seguir
Valente em lugar tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente…
             VII
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto prá enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar
              VIII
Na boiada já fui boi
Boiadeiro já fui rei
Não por mim nem por ninguém
Que junto comigo houvesse
Que quisesse ou que pudesse
Por qualquer coisa de seu
Por qualquer coisa de seu
Querer mais longe que eu
                IX
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme e braço forte
Num reino que não tem rei
As estrofes I e II são um fiel retrato dos anseios de um adolescente da década
de 60:
 
 - Cheguei e não estou para brincadeiras. Vejo um monte de coisas erradas e,
doa a quem doer,  vou mudar as coisas por aqui!
 
Todo adolescente é um respeitável Herói Adulto desde os primeiros dias de
vida, que todavia corre atrás da primeira bola que passe à sua frente.
 
O Não é a sua palavra de ordem.
 
As estrofes III e IV já mostram o mesmo adolescente no seu estágio seguinte, 
onde começa a estabelecer comparações entre o Passado, recente e conhecido,
com um Futuro emergente, mas apenas imaginável.
 
Tal estado dele dura até o dia em que junta às premissas, tiradas do passado
observado, e chega à conclusão: – Até que um dia acordei!
 
Quando um Educador presencia a esse instante mágico ocorrendo na vida do
Educando, sabe que este pouco precisará dele para seguir a sua vida com maior
propriedade nos passos. A idéia do dever cumprido o incentiva a buscar ver 
cada vez mais à seguinte cena, comum nesses casos de Dedução Adolescente:
 
 - As sobrancelhas do educando erguem subitamente e, naturalmente, as faces
ficam vermelhas de vergonha!
 
Não uma vergonha pelo que acabara de ocorrer com ele naquele instante da
dedução primária, mas a uma soma de vergonhas anteriores, do passado
Infantil que deixava, rumo ao futuro incerto que o abraçaria.
 
Embora Disparada tenha sido escrita pelo Vandré já adulto, por ele tentar
retratar ao histórico da própria evolução filosófica como artista, tenho que ver a
composição escrita por dois vandrés, um anterior e outro posterior ao verso:
 
 - Até que um dia acordei!
O primeiro, ainda ligado ao sonho descrito em Porta Estandarte que, no fundo,
apenas seguia à juventude da letra de Sonho de Um Carnaval, do Chico, que 
o próprio Vandré defendera num festival anterior:
 
Era uma canção
Um só cordão
Uma vontade
De tomar a mão
De cada irmão
Pela cidade
No Carnaval Esperança
Que gente longe viva na lembrança
Que gente triste possa entrar na dança
Que gente grande saiba ser criança.
Basta comparar com este trecho de Porta Estandarte:
 
Certezas e Esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando
Estandarte na mão pra anunciar.
Quando resolveu “conversar poeticamente” com o jovem compositor em que
acreditara, as palavras do primeiro Vandré atingiram, também e em cheio, a 
toda geração de jovens dos anos 60, e que eram a maioria da platéia em 1966.
 
Os motivos que levaram o, agora adulto, Vandré a escrever a estrofe V, e
que coincidentemente assediavam aos jovens artistas da época, suspeito serem
os mesmos que coloquei na postagem Porta Estandarte – O Sonho de Vandré:
 
A bagagem literária, hoje considerada apócrifa, normalmente accessível aos
jovens dos anos 50 e princípio dos 60.
 
Claro que ele, após acordar do possível sonho de Porta Estandarte e dar de 
cara com o que o Futuro Artístico anunciava, só poderia não concordar em ser
um cúmplice daquela manipulação popular toda que a mídia lhe oferecia, e isso 
fica bem claro pelo que escreveu na estrofe VI.
 
E pouco interessava o que a mídia achasse a respeito da sua postura. Apenas 
não concordava com a cumplicidade oferecida por ela, justificava à recusa e
dava a Receita de Liberdade para os demais colegas, compositores e artistas,
na estrofe VII.
 
As estrofes VIII e IX anunciaram que, no Brasil, os ídolos populares ainda não
eram “fabricados” pelos mesmos agentes do Rei, ou Soberano Universal,
responsáveis pela idiotização popular, dirigida e atuante pelos veículos de
comunicação da mídia escrita, irradiada ou televisada; logo cada artista era o
Rei do próprio reinado resultante da própria competência.
 
Disparada foi um marco social da década de 60. Creio que, filosoficamente,
muito mais por esta ousada suposição do que pelo protesto aos militares, tão
alardeado pela imprensa que, obviamente, não concordaria comigo.
 
Um marco da grandiosa envergadura capaz de fazer com que Chico escrevesse
às peças Roda Viva, Calabar e Gota D´Água, além do livro Fazenda Modelo.
 
Grandiosa o bastante a permanecer viva até hoje, servindo de base até para Zé
Ramalho, muitos anos após, escrever o seu Admirável Gado Novo, com o
Vandré reforçando o Admirável Mundo Novo do Aldous Huxley que, por sinal,
era bem lido pela mesma juventude dos anos 50 e 60, que incluia o menino Zé.
 
Creio que esse festival de 1966 tenha feito Chico lembrar de um passado 
recente, ocorrido num festival de música estudantil do Colégio Santa Cruz, em
que terminou empatado com um concorrente, mas perdeu pelo Voto Minerva, 
dado pelo diretor.
              

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A Balada Poética É

            
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A mais antiga Forma Fixa dos Poemas. Até a década de oitenta passada, se
imaginava terem surgido as Baladas na Idade Média. Ocorre que algumas
pesquisas antropológicas da Escrita Minóica Linear C, (escrita grega de 3.000 
anos atrás), feitas em tal década de oitenta, mostraram alguns poemas de 
exaltação a Dionísio (Baco) com repetitivas estrofes curtas entre as longas.
 
No entanto não se pode precisar se ocorriam na forma de Cântico ou de 
Recitação, mas comprovadamente já eram presentes na Poesia Grega Clássica.
 
Na Idade Média a Balada surgiu inicialmente na forma de Canto, acompanhado
de Coreografia. Posteriormente virou só Recitação Lírica e a partir do século
XIV ganhou os moldes que mais se assemelham aos atuais, com três estrofes
Oitavas entremeadas por mesma Quadra repetitiva.
 
Por ocasião do Trovadorismo a Balada voltou a ser cantada e coreografada, só
que, aproveitando à série de acordos entre os poetas e os gramáticos da época,
que permitiram inclusive o surgimento da Versificação Irregular, a Balada
ganhou maior liberdade métrica, tanto nos versos quanto nas estrofes.
 
Deixou de ser obrigatório a sua feitura em Versos Regulares, bem como uma
nova regra para a Estrofação, o que acabou dando à Balada esta definição:
 
Formada por três estrofes longas com uma meia estrofe como Refrão, repetida
entre cada uma das grandes; cabendo ao poeta a opção do Lirismo, mas para
isso todas as estrofes longas deveriam terminar em mesmas rimas Assonantes.
 
Embora de feitura mais simples, o conjuto das estrofes Oitavas com as Quadras
não mais seriam obrigatórias na Balada, podendo-se combinar Décimas com
Quintilhas, ou mesmo Sextilhas com Tercetos.
 
A composição Meu Refrão, do Chico, é um bom exemplo de Balada Lírica no 
conjunto Oitava-Quadra: 
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Outro exemplo de Balada Lírica, só que no conjunto Sextilha-Terceto, é esta 
Bossa Àbalada. Bossa Nova de minha autoria com Jeff Nazareno, que canta:
 
É
Samba e jazz se uniram na canção
Alf
Tom Jobim, Vinícius de Moraes
E um João tirando em violão
O som dos ancestrais
Refrão
A bossa nova dos meus mares
Apesar dos pesares se refaz
Nas catedrais dos mesmos bares
Pois
Os destinos da MPB (emêpebê) 
Tem
Seus caminhos afro-tropicais  (acordes de “Segura o Tcham”) 
Muita coisa em que hoje se crê
Não lembra o som jamais
Refrão
Se
De um barquinho eu faço um galeão
Que
A Balada carrega pra trás
É porque nos mares da canção
Navegam Toms, Moraes…
Refrão
 
O título foi para mostrar que a Bossa Nova estava “Abalada” com tudo o que 
ocorria com a MPB na época em que a escrevi. Como a construção poética foi
em Balada, apenas coloquei Àbalada, com crase, para atender às duas idéias.
 
Mesmo porque as notas eram surdas
Quando um deus sonso e ladrão
Fez das tripas a primeira Lira
Que animou todos os sons
E daí nasceram as Baladas
E os arroubos de bandidos como eu
Cantando assim….           Choro Bandido (Chico e Edu Lobo) 
Se hoje temos a composição musical, cantada e com letra, devemos isso ao 
primeiro poeta grego que inventou a Balada.
             

Comentários (6) »

O Soneto Inglês É

            
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Um Poema de Forma Fixa com regras semelhantes às do Italiano, não iguais. 
Tem as mesmas quatro estrofes, os mesmos versos decassílabos, mas 
difere do Italiano por possuir três estrofes Quadras e uma Dístico, com os 
decassílabos não sendo obrigatoriamente Heróicos, e às rimas é exigido que
sejam Paralelas no Dístico que, obrigatoriamente, é a estrofe final do soneto.
 
 
Tão / pre / za / do-e / di / tor / dos / meus / so /ne / tos!
Pe / ço-a / go / ra-um / mo / men / to / de-a / ten / ção 
Que / im / plo / ra-al / te / rar / à / e / di / ção 
Do / meu / úl / ti / mo / tex / to / nes / te / te / to.
 
O /  So / ne / to-Ou / Ba / la / da? / que / man / dei 
Cu / jo / nú / me / ro / da / do-a / mim / de / pois 
Foi / o / cin / co / mais / cin / co / se / te / dois 
I / ta / lia / no / não / e / ra-e / sim / in / glês 
 
Por / que-a / ri / ma / do / dís / ti/ co / fi / nal 
Pa / ra / le / la-ao / com / trá / rio / das / de / mais 
Se / pres / tou / a / re / frão / tal / vez / ca / paz 
De / tor / nar / a / Ba / la / da / Tro / pi / cal 
 
Num / So / ne / to / In / glês / a / da / p / ta / do
Por / seu / sim / ples / po / e / ta / preo /cu / pa / do
 
 
Obs. As sílabas em vermelho são as tônicas que determinam as regras dos 
decassílabos Heróicos. Sexta e décima sílabas acentuadas. As acentuações das
não precisam obedecer às das gramaticais.
 
Enviei esse poema a um site de sonetos que frequentava há uns três anos. No
texto anterior, chamado Soneto ou Balada?; o editor errou na distribuição dos
versos nas estrofes. 
 
Reclamei poeticamente com o soneto acima, pois o erro de edição estava na
confusão das regras que diferenciam os sonetos Italiano e Inglês. Infelizmente, 
ambos os sonetos ingleses continuam lá, com duas Quadras e dois Tercetos até
hoje. Será que em algum dia haverá uma seriedade maior com a Poesia?
 
Embora não exigido pelas regras do Soneto Inglês, optei pelo uso dos
decassílabos Heróicos. Taí um Soneto Inglês com as suas três Quadras, o seu 
Dístico com rimas Paralelas, finalizando o poema feito inteiro em decassílabos.
                  

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Soneto – É Assim Que Se Faz.

           
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Soneto Da Separação – Vinícius de Moraes
 
De / re / pen / te / do / ri / so / fez / se-o / pran / to
Si / len / ci / o / so-e / bran / co / co / mo-a / bru / ma
E / das / bo / cas / u / ni / das / fez / se-a-es / pu / ma
E / das / mãos / es / pal / ma / das / fez / se-o-es / pan / to.
 
De / re / pen / te / da / cal / ma / fez / se-o / ven / to  
Que / dos / o / lhos / des / fez / a / úl / ti / ma / cha / ma
E / da / pai / xão / fez / se-o / pres / sen / ti / men / to
E / do / mo / men / to-i / / vel / fez / se-o / dra / ma.
 
De / re / pen / te / não / mais / que / de / re / pen / te
Fez / se / de / tris / te-o / que / se / fez / a / man / te
E / de / so / zi / nho-o / que / se / fez / con / ten / te.
 
Fez / se / do-a / mi / go / pró / xi / mo-o / dis / tan / te
Fez / se / da / vi / da-u / ma-a / ven / tu / ra-er / ran / te
De / re / pen / te / não / mais / que / de / re /pen /te.
 
Obs. As sílabas em vermelho são as exigidas pelas regras. A última é a que
termina o verso, a décima, e a interior é a sexta. Basta contar.
A sílaba poética não tem que obedecer à mesma tonicidade da gramatical.
 
Os Poemas de Forma Fixa, ou as Construções Poéticas de Forma Fixa, são
os que apresentam regras de Estrofação, Métrica, Ritmo e Rimas.
 
Dentre eles, os mais famosos são os Sonetos, e dentre estes, Italiano ou Inglês,
o mais popular é o Soneto Italiano cujas regras são:
 
Tem que possuir quatro estrofes, sendo duas Quadras seguidas de outras duas 
em Tercetos, logo, possui catorze versos obrigatórios. Nem mais nem menos.
 
Tem que ser feito inteiro em versos decassílabos (10 sílabas), acentuados na 
sexta sílaba, o que caracteriza o chamado Decassílabo Heróico.
 
Por fim, os tercetos devem estar ligados por um grupo de rimas idêntico, ou 
seja: Pelo menos um verso do terceto anterior tem que rimar com um verso do
terceto posterior.
 
Essas são as regras do Soneto Italiano, mas por serem antigas, ao longo dos 
anos novos poetas tentaram outras configurações, que por descaracterizarem
os originais moldes da Poesia Italiana, responsável por seu surgimento, tal
construção semelhante a ela passou a ser chamada simplesmente por Soneto.
 
Usei como exemplo o Soneto da Separação, de Vinícius de Moraes, talvez
por ter sido o poeta brasileiro que mais sucesso fez com os Sonetos, ao menos
na nossa Poesia Contemporânea da longínqua MPB.
 
Vinícius deu um toque de classe às rimas dos tercetos. Se a regra exigia,
ao menos, um grupo comum de rimas entre eles, Vinícius começou o
primeiro terceto com o mesmo verso com que terminou o segundo.
                 

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Porta Estandarte – O Sonho de Vandré

  
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Para entender à idéia filosófica da MPB daquela época é imperativo que se
registre também a progressão do pensamento do Geraldo Vandré nas suas
composições, que retratavam o cotidiano social de forma mais contundente.
 
Muito menos elaboradas do que as do Chico, dentro das bases da Ciência 
Poética, as composições do Vandré possuíam uma penetração social maior, já
que tratavam, fundamentalmente, dos conflitos interiores nossos com a situação
social que observávamos e sentíamos; diante do que a imprensa dizia ocorrer.
 
No princípio de 1964 o Brasil se encontrava numa turbulência social muito
grande. Enfrentávamos, além da propaganda corrosiva da imprensa, na
diminuição dos nossos Valores Culturais próprios, pelo chamado Americanismo
Induzido; a uma grande desvalorização do nosso dinheiro, e consequentemente
do nível de vida.
 
As horas de trabalho aumentavam e os salários baixavam. Como trabalhadores
era óbvio o nosso descontentamento, o que nos levou a sucessivas e 
simultâneas greves em vários setores, dentre os quais os responsáveis pela
distribuição de Energia no país. O Brasil estava parando.
 
Analisemos os seguintes textos presentes nos capítulos 1 e 2 do livro Os
Protocolos Dos Sábios Do Sião:
 
“…Basta deixar algum tempo o povo governar-se a si mesmo para que essa 
autonomia se transforme em licença. Então surgem dissenções que em breve se
transformam em batalhas sociais, nas quais os estados se consomem e em que
sua grandeza se reduz a cinzas.
Se o estado se esgota nas próprias convulsões ou se suas comoções intestinas 
o põem à mercê dos inimigos externos, pode ser considerado irremediavelmente
perdido; caiu em nosso poder.” (capítulo I)
 
“…Os Estados modernos possuem uma grande força criadora: a imprensa. O
papel da imprensa consiste em indicar as reclamações que se dizem 
indispensáveis, dando a conhecer as reclamações do povo, criando
descontentes e sendo seu órgão. A imprensa encarna a liberdade da palavra. 
Mas os Estados não souberam utilizar essa força e ela caiu em nossas mãos.”
(capítulo II).
 
Esse livro, hoje considerado tão Apócrifo quanto a Bíblia, tido como o livro 
mais lido no mundo; sempre foi pela oficial literatura. Por ter sido muito lido pela
juventude intelectual dos anos 50 e 60, me leva a supor que tanto Chico quanto
Vandré o conheciam antes de optarem pela carreira de compositores musicais.
 
Vandré pela profissão que abraçara e Chico pela biblioteca do pai, o sociólogo
Sérgio Buarque de Hollanda.
 
Suposição esta que conclui ter sido essa a matriz das respectivas contestações
nas letras das futuras composições musicais de ambos, a despeito de Março de
64, quando os militares tomaram o poder no Brasil.
 
Diante da nossa Constituição corrente, a tomada do poder pelos militares foi 
meio óbvia, posto que era essa a obrigação deles diante da instabilidade social
de risco em que nos encontávamos na época, com as paralizações atingindo até
os setores de fornecimento de energia.
 
Uma coisa é justificar à legalidade de uma atitude social, outra é a de apoiar 
uma violência estratégica, tanto na manutenção quanto na destituição de poder 
qualquer, convém lembrar.
 
Em março de 1965 tivemos os primeiros festivais da canção popular. Um 
vencido pela dupla Vinícius de Moraes e Edu Lobo, com a composição
Arrastão, no qual Chico Buarque iniciou à trajetória artística com a composição
Sonho De Um Carnaval, defendida pelo amigo Geraldo Vandré.
 
Vandré, cuja carreira já era um fato, foi o primeiro artista a confiar no jovem
compositor musical que estava surgindo na MPB. Se estivéssemos numa quadra
de escola de samba, e envoltos por seus rituais, seria normal ver Chico pedindo
a benção ao padrinho Vandré, que o iniciou no samba.
 
O outro festival de 1965 foi vencido por Geraldo Vandré e Fernando Lona 
com a composição Porta Estandarte:
 
 
Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando o teu canto ele não seja em vão
Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir
Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na avenida girando, estandarte na mão pra anunciar.
A letra cantada em Recitação Musical nos quatro primeiros versos e Lamento
nos demais mostra dois personagens conversando. Um sugerindo na 
Recitação e outro respondendo no Lamento.
 
Tais personagens do diálogo são os dois lados do mesmo compositor, Vandré,
que já abordei nas postagens anteriores, como Ser, que é a essência poética do
letrista, e Parecer, que é o artista em sua vivência social cotidiana. Ambos
descritos por Carlos Drummond de Andrade no livro Claro Enigma.
 
Na composição, o Parecer vem antes e recruta o Ser a escrever por ele. O
texto da resposta mostra a certeza do poeta na chegada de dias melhores que
os sugeridos pelo Parecer na Recitação.
 
Essa divisão das personalidades do Vandré ainda carregava a uma inocência
juvenil muito mais voltada para o Ser do que para o Parecer, porém se nota um
desconforto no segundo, ao constatar à tristeza que o assolava quanto ao 
presente e ao futuro do seu povo.
 
Houve muito mais fé numa possibilidade de mudança, do que propriamente um
recrutamento para a luta. 
 
 - Seria um voto de confiança nas mudanças que o novo regime, que se instalara
no país recentemente, poderia resultar futuramente?
 
Não dá para dizer que sim, porém não é prudente ter a certeza do contrário, 
mesmo porque o texto não permite afirmação qualquer. Só diz que a coisa não
andava bem, mas anuncia que iria melhorar, com certeza.
             
 

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