Archive for março, 2009

08/03 – A Mulher Internacional e o Exducador Nacional

Dava aulas de Educação Física numa escola municipal da periferia de São Paulo. Preparava uma equipe de Ginástica de Solo para uma competição regional que, se vencida, nos levaria à final.

Havia uma aluna, negra de cor, cuja habilidade e impulsão, se bem trabalhada, poderia fazer com que evoluísse muito na modalidade. Foi campeã da fase regional, mas na final, por competir com ginastas que disputavam os campeonatos estadual e nacional, só chegou à semifinal.

Era uma promessa tão nítida, que alguns colegas meus, profissionais de clubes, encantados disputavam-na como ginasta deles. Infelizmente, após avaliações das diretorias dos clubes interessados, foi recusada em todos com argumentos do tipo: Estamos com o quadro lotado…

Quase metade do “quadro lotado” já havia sido derrotada por ela na humilde competição municipal. Infelizmente, por mais que doa, a ginástica paulistana era dominada pelos ditos Clubes de Elite, que não suportavam a idéia de uma ginasta negra.

Passaram alguns anos, cansado de ver os fundamentos morais, administrados nas aulas do dia, serem aniquilados pelos telejornais e telenovelas noturnos, larguei a Educação, pois ela já não tinha os propósitos que eu supunha no começo de carreira.

Mudei de estado, de profissão, mas de vez em quando voltava à Paulicéia Desvairada, porém nativa. Foi numa dessas idas, que ao passar novamente pelo bairro em que trabalhava anteriormente, encontrei a mesma aluna, só que envergonhada e grávida aos quinze anos.

Aquele estado dela, confesso, me chocou bastante, pois alguns anos antes eu a tivera sentada no colo pra consolar, e agora a encontrava já grávida. O tempo passa e não nos poupa…

Passados mais alguns anos voltei ao bairro, mas desta feita, ela não estava mais grávida e se tornara uma profissional do sexo. Sinceramente, não pude avaliar se tão hábil, em tal ocupação mais adulta, quanto o era na infantil ginástica. Já não ficava envergonhada.

Estávamos em ano e época de posse presidencial. Ao ver o telejornal noturno deparei com a recém-eleita primeira dama, Ruth Cardoso, pronunciando diversas vezes uma expressão global que era a coqueluche “intelectual” do momento: Exercício de Cidadania.

No dia seguinte, voltando à rua, deparei com uma propaganda eleitoral do marido dela (Sociólogo), remanescente da eleição anterior, meio desbotada, mas que trazia ainda visíveis os seguintes dizeres: 

“Educação. Um Direito do Cidadão e um Dever do Estado”. 

Como o pronunciamento da Dona Ruth foi uma espécie de abertura do jornal, cujo interior, dentre muitos relatos bem vendáveis de crimes e assassinatos, apresentou uma reportagem sobre a migração feminina juvenil para a Espanha.

Creio que, sonhando com melhores dias para aquela aluna criança, mãe e prostituta; num arroubo de otimismo escrevi: 

Cidadania Jazz (ou Jaz?)
    
Mamãe:
Não preocupa estou por Madrid
Aqui
É uma luta que eu nunca vi
Ganhei
A boneca que nem pedi
Francês
O seu pai batizou Petit
    
Titio
Você sabe como ele é
Abriu
Por aqui mais um cabaré
Mas tem
Tanto homem que já nem sei
Se alguém
Bem me quer como eu sonhei
    
De tanto que me entrego
Pro ofício eu percebi
Que o meu próprio trajeto não fui eu que escolhi
Pensando desse jeito
Eu acho que esqueci
O que era Direito aí na terra onde eu nasci
    
Papai:
Não se zangue estou bem feliz
“Atrás”
O francês sempre diz mercí
Tem vez
Que me batem que nem você
Mas vem
Em seguida um Pe$o ca$hê
    
Talvez
Pe$o aqui pe$e mai$ Real
Que tal
A menina internacional
Já sei
Que se orgulha de eu ser assim
Adeus
Desta muda do teu jardim
    
(O pai canta)
De tanto que se entrega
Pro ofício n´o aprendeu
Quem trança a sua reta é a terra onde nasceu
Criança no seu jeito
Armou a confusão:
- Na dança do Direito, quem balança a Obrigação?
 

No começo deste século resolvi me dar uma outra chance na tentativa de Educação. Depois de alguns dias lecionando, houve um dia chuvoso. Como sempre fazia antes, pude recolher os alunos numa sala de aula para conhecê-los melhor numa proveitosa conversa.

Várias questões foram abordadas, as que causavam maior interesse eram as sexuais. As coisas tinham mesmo mudado, pois na outra época em que lecionava, as conversas mais interessantes a tal faixa etária eram sobre escalações de times de futebol; mas uma outra foi fundamental para o meu futuro. Discutíamos sobre drogas, quando um aluno de doze ou treze anos concluiu: 

- Se for para mexer com drogas, eu vou ser traficante! Perguntei por que aquilo, e ele disse:

- Tem muito mais otário que cheira do que esperto que vende. Prefiro a grana!

Meio assustado perguntei se ele não tinha medo de ser preso, no que escutei:

- Com o dinheiro eu compro polícia! 

Realmente, o Educador estava ultrapassado e se extinto. Só eu que não percebera que o meu substituto, o Formador de Opinião, estava fazendo jus ao nome a bom tempo: Formando Opiniões na garotada. 

- Será que alguma coisa mudou, na transformação de meninos e meninas em mulheres e homens, desde a extinção deste Educador que quebrou o seu violão?

Enfim, um dia
Sorria, sorria…
Você que passa
Sorria, sorria…
Dia da Graça
Alegria, alegria…
Vem me dar a mão
(Sérgio Ricardo)

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Até Pensei-Análise de Texto

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        Vídeo de DivaFranco      

No submundo do auto-exílio creio que a insegurança, batendo forte, tenha obrigado o Ser Interior a se transportar para uma outra época da vida do Chico, onde o urgente não compromisso o levou para a realidade do jovem de Até Pensei: 

Junto à minha rua havia um bosque
Que um muro alto proibia
Lá todo balão caia
Toda maçã nascia
E o dono do bosque nem via
      
Do lado de lá tanta aventura
E eu a espreitar na noite escura
A dedilhar essa modinha
A felicidade morava tão vizinha
Que de tolo
Até pensei que fosse minha 
     
Junto a mim morava a minha amada
Com olhos claros como o dia
Lá o meu olhar vivia
De sonho e fantasia
E a dona dos olhos nem via
      
Do lado de lá tanta ventura
E eu a esperar pela ternura
Que a enganar nunca me vinha
Eu que andava pobre
Tão pobre de carinho
Que de tolo
Até pensei que fosses minha
      
Entoa os versos 6, 7 e 8
     
Toda a dor da vida
Me ensinou essa modinha
Que de tolo
Até pensei que fosse minha 

Talvez, lembrando de algum amor adolescente, Chico retrocedeu, ou progrediu, sabe-se lá, ao infante pulador de muro, que roubava frutas no bosque. Correr atrás de balão já era coisa de adolescente, os populares balões “caixa e almofada”, com 8 ou 16 folhas, eram os mais usados e valorizavam muito o heroísmo do feito. “Chinesinho” não contava.      

A idade que ele abordou na composição é bem complexa, pois envolve sentimentos e atenções simultâneos e distintos. O olhar bonito de uma garota, também bonita, merecia, na realidade da época, a mesma atenção de um balão caindo nas proximidades, numa verdadeira batalha entre o enamorado e o herói na difícil guerra do crescimento, onde as vitórias, ou derrotas, dá no mesmo como impostoras, ocorrem em níveis extremos. 

Outra curiosidade está no verso “Do lado de lá tanta (a)ventura”, pois a melodia, idêntica à do primeiro verso de Retrato em Branco e Preto, que pertence ao Tom Jobim, justifica o texto dos últimos quatro versos, provavelmente feitos pelo Chico no momento em que constatou  estar plagiando o Tom, e tentou se desculpar saindo pela tangente no texto.                  


   
   
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Retrato Em Branco E Preto (Chico-Jobim)-Análise de Texto

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        Vídeo de moisespastorius         

Se por um lado o autor preferia se livrar do Parecer exterior, o seu Ser interior, ou todo um contingente de Seres interiores que houvera criado, recrutavam os seus versos a cada nova visão social que tinha ao redor, nas vezes em que ousava espiar o cotidiano por uma janela cada vez menor. Foi numa dessas espiadelas que um dos personagens do contingente requisitou continuidade.

O Ser, inserido naquele jovem corpo, provavelmente sentado na cama do seu quarto-cúmplice, observando a algum rascunho de um inacabado “retrato sem cor jogado aos seus pés” lhe cobrou uma atitude, e ele respondeu com Retrato Em Branco E Preto: 

Já conheço os passos dessa estrada
Sei que não vai dar em nada
Seus segredos sei decór
      
Já conheço as pedras do caminho
E sei também que ali sozinho
Eu vou ficar
Tanto pior
      
O que é que eu posso contra o encanto
Desse amor que eu nego tanto
Evito tanto e que no entanto             
Volta sempre a enfeitiçar
      
Com seus mesmos tristes velhos fatos
Que num álbum de retratos
Eu teimo em colecionar
     
Lá vou eu de novo como um tolo
Procurar o desconsolo
Que cansei de conhecer
      
Novos dias tristes, noites claras
Versos, cartas
Minha cara:
Ainda volto a lhe escrever
     
Pra lhe dizer que isso é pecado
Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado
E você sabe a razão
     
Vou colecionar mais um soneto
Outro retrato em branco e preto
 A maltratar meu coração 

 

Esta composição está tão ligada a Desencontro, que demonstra nitidamente ter sido começada antes dela e terminada depois. Mas quem seria o personagem de Desencontro, capaz de promover essa explosão toda de arte poética no Ser?

Suspeito que fosse a mesma essência contida na Juliana, de Sem Fantasia: A MPB!

Naquela época Chico tinha duas atenções maiores, ambas musas, esposas e inter-dependentes:

A MPB no Ser e a Marieta Severo segurando a barra do Parecer, como uma espécie de Guardiã da Arte, pois, conhecendo o Chico, sabia que, mantido fora do alcance dos interesses comerciais da mídia, a MPB, e consequentemente nós, só tinha a ganhar com novas composições maravilhosas.

Nada melhor do que uma mulher de classe, incapaz de ser atingida por essas vulgaridades menores do cotidiano comercial, com cintura bastante a deixar Jacós falando sozinhos nas laterais do campo, formulando novas regras para o jogo, enquanto ela já cuidava de fazer um cruzamento preciso para o seu centro-avante preferido.

Essa era a Coringa Marieta, que jogava em qualquer posição do Campo Dos Bastidores, para a segurança do, até então, imaginário Polytheamma F.C.

- Deixem o Chico sossegado jogando, lá com os seus botões, que vocês só têm a ganhar!

Acho até que alguns versos, feitos bem depois, tenham começado a nascer nessa época: 

Que nobreza você tem
Que seus lábios são reais
Que seus olhos vão além…
 
…Que salta de sonho em sonho
E não quebra a telha
Que passa através do amor
E não se atrapalha
Que cruza o rio
E não se molha… 

Voltando ao Retrato, tenho uma idéia do porque fora interrompido para continuar o papo na forma de Desencontro. Isso requer algumas explicações sobre Ciência Poética.

Se tomarmos como referência a primeira parte do Retrato, perceberemos que foi feita em catorze versos que, com alguns truques de pausas na interpretação, e de sintaxe na escrita, poderiam resultar num esboço de Construção Poética de Forma Fixa chamada Soneto Italiano.

Digo: Somente Um Esboço; pelo fato do texto não obedecer às regras de construção desse tipo de soneto, o outro é o Soneto Inglês com regras próprias; o Italiano exige catorze versos, dispostos em duas Quadras e dois Tercetos, preferencialmente com as Quadras antes e os Tercetos depois, já que uma outra regra exige que estejam ligados por, pelo menos, uma Rima em comum.

A primeira parte apresenta, na ordem das estrofes, um Terceto, seguido por duas Quadras, seguidas do segundo Terceto. Como a ordem delas fugia um pouco da regra, Chico tentou corrigir interligando o Terceto Inicial à Quadra primeira por uma Rima comum – Decór com Pior – o mesmo ocorrendo com a segunda Quadra e o Terceto final – Enfeitiçar com Colecionar.

Com esses ajustes, de fato, ficou algo parecido com um Soneto Italiano Adaptado, mas uma regra, bem importante, pela história do surgimento de tal tipo de construção poética, estava sendo desrespeitada: O Soneto deve ser construído inteiro em versos Decassílabos Heróicos, que além das óbvias dez sílabas, requerem acentuação interior na sexta.

Chico até tentou seguir essa regra no primeiro verso, mas o máximo que conseguiu foi um Eneassílabo (nove sílabas) que não atendia, e nem teria cabimento atender, a tal regra.

Acredito que essa tenha sido a razão maior da interrupção do Retrato: Ter que decidir entre a Objetividade do Texto e os fundamentos da Ciência Poética, ambos de suma importância, pra ele, nas construções poéticas das composições musicais!

E agora?

 - Bom, pra descansar a idéia, enquanto decido o melhor a fazer, mostro todo o meu Desencontro com a questão da carta resposta!

A saia era justíssima. Acho que nem a dona do Folhetim caberia nela!

A melodia era do Tom Jobim. Nada preocupante, em se tratando somente do maestro, mas o cara também havia sido parceiro do mestre Vinícius de Moraes, cujos famosos Sonetos Chico deva ter cansado de escutar, quando criança, nas espiadelas que dava em conversas do pai com os amigos, que incluíam Vinícius.

Acabou decidindo por manter o texto original de Soneto Adaptado, fez a segunda parte com os mesmos truques da primeira, se justificando no final dela com o texto: 

Vou colecionar mais um Soneto (aliás, mais dois sonetos)
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração (a indecisão judia mesmo…)

Com certeza, pouca gente notou a jogada. Creio que só o Vinícius possa ter dado uma gozada nele, já que nem o Tom mostrara ter entendido a letra, pois ficou famosa uma pergunta dele ao Chico, e a resposta deste ao Tom:

- Mas Chico, o mais certo não é escrever Retrato em Preto e Branco? No que Chico respondeu:

- Pois é, mas daí eu teria que usar “tamanco” como rima e não ficaria tão bonito!

Quanto à crítica literária da época, ninguém comentou, talvez porque, já com o respeitoso nome de “Articulista”, não mais soubesse o significado de Ciência Poética, quanto mais o de um Soneto Italiano.

Por mais engraçada que a situação pudesse se insinuar, da Ignorância Literária Articulista, toda aquela parvoice da crítica deu a Chico uma triste constatação:

- Estou falando sozinho!

O cara tinha todo um cuidado poético nas composições pra que, ou pra quem?

Só lhe restou, muitos anos mais tarde, admitir tristemente: 

Palavra dócil
Palavra d´água pra qualquer moldura
Que se acomoda em balde, em verso, em mágoa
Qualquer feição de se manter palavra… 

Bem mais à frente virá a composição Outra Noite, que apresentará internamente os acordes de Retrato em Branco e Preto. Poderá soar como inexplicável para a maioria, mas não para nós, como cúmplices do enredo dessa novela do Auto-Exílio Interior. 

Outra noite
Outro sono
Como se eu sonhasse o sonho
De outro dono… (cada um de nós)
   
   
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Desencontro-Análise de Texto

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      Vídeo de lufalcaoporra         

Comecei, no post Sem Fantasia – O Começo do Auto-Exílio, a tratar de uma situação na qual Chico estava no Brasil somente com o Parecer, ou identidade artística, enquanto a sua essência poética, o Ser, já se encontrava exilado da triste realidade que o cercava, denunciada na composição Roda Viva, quando dormiu com os sonhos do poeta criança e acordou com a realidade do artista adulto.

Após a peça, ou mesmo durante a sua feitura, não se pode precisar, Chico fez, ainda pelo Brasil, algumas outras composições cujos textos confirmaram essas minhas suspeitas sobre o seu comportamento.

Independente da ordem em que possam ter sido compostas, isso só ele sabe, já que a data de gravação nem sempre corresponde com a da feitura, por pertencerem ao terceiro LP, gravado antes da sua viagem à Itália, que oficializou o Auto-Exílio, só confirmam que o Ser já se encontrava ausente do Parecer que o cercava em cotidiano.

Começo por uma composição, com sugestivo nome, gravada com a colaboração do Toquinho, seu posterior e fiel parceiro na Itália.  Desencontro: 

A sua lembrança me dói tanto         
Eu canto pra ver
Se espanto esse mal          
Mas só sei dizer 
Um verso banal   
Fala em você        
Canta você           
É sempre igual   
      
Sobrou desse nosso desencontro   
Um conto de amor              
Sem ponto final  
Retrato sem cor 
Jogado aos meus pés         
Saudades fúteis  
Saudades frágeis               
Meros papéis      
      
Não sei se você ainda é a mesma    
Ou se cortou os cabelos   
Rasgou o que é meu          
Se ainda tem saudades      
E sofre como eu  
Ou tudo já passou
Já tem um novo amor        
Já me esqueceu    

De qual mulher estaria Chico tratando na composição?

Uma das maiores dificuldades é saber pra quem Chico endereçou as suas composições, pelo fato dele usar muito figurativo. Numa entrevista, Toquinho contou de certos personagens, com os quais ele conversava e homenageava nas composições. Algumas delas foram feitas para a Frida (geladeira), outras resultavam de altos papos com o Ferreti, que era um personagem fictício, usado para se livrar de certos compromissos desagradáveis: – Não vai dar. Tenho um compromisso inadiável com o amigo Ferreti!

O tal Ferreti, provavelmente, tenha sido tirado do seu Jogo de Botões, que praticava, embora já adulto; pois foi um famoso centro-avante do Botafogo do Rio, que infernizava às defesas. Tocava pouco na bola, embora fizesse muitos gols. Imaginem a eficiência da fera. Ferreti era perigoso.

Voltando à musa da composição, pode ser a Marieta Severo, a Morena Dos Olhos D´Água etc. após algum afastamento. Pode ser, até mesmo, a moça de Ela E Sua Janela, ou a essência Juliana, de Sem Fantasia.

Só suponho que uma coisa era presente nessa fase da carreira dele: A necessidade de compor, mas se ele ainda estava no Brasil, o que lhe dava tanta saudade?

Chamo a atenção para o texto de dois versos da segunda estrofe:

Retrato sem cor
Jogado aos meus pés

O que seria um retrato sem cor? Talvez um daqueles em branco e preto, ainda comuns na época.

Por qual razão um retrato em branco e preto, jogado aos pés dele seria tão importante?

Ou seria, por acaso, alguma letra de música, dentre as muitas que rascunhava, e talvez deixasse espalhadas pelo chão do quarto, como “meros papéis” comuns aos jovens?

Talvez, a próxima composição a ser vista, Retrato Em Branco e Preto sugira algo. Sigamos com a novela do Auto-Exílio Interior.

                     
 

   
   
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Ponteio (Capinam-Edu Lobo)-Análise de Texto

Festival de 1967

Dando continuidade ao post matriz, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma, aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas no festival da Record de 1967, convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência poética, e o Parecer, que é a postura social do poeta  diante da fama.

Descritas as três composições posteriores, Domingo no Parque, Roda Viva e Alegria, Alegria, a composição vencedora foi Ponteio, escrita por Capinam, sobre uma melodia de Edu Lobo, que junto com Marília Medalha foi o intérprete oficial.

Convém lembrar que Edu já era um ganhador de festivais, o primeiro deles, da TV Excelsior em 1964, com Arrastão, quando teve a honra de compor sobre uma letra de Vinícius de Moraes, e a sorte de contar com uma intérprete, ainda meio desconhecida, mas de retumbante sucesso posterior: Elis Regina.

Embora Arrastão tenha ganho um histórico pioneiro e próprio no cenário artístico nacional, teve por trás, nos bastidores familiares, toda uma Ética, infelizmente degradada ao longo dos anos, e hoje praticamente extinta.

Nos dias posteriores, e próximos à consagração da composição, houve uma entrevista com Fernando Lobo, pai do Edu, também poeta,  compositor e amigo do Vinícius. Quando perguntado o que achava de tudo aquilo, respondeu secamente com outra pergunta:

- Você está entrevistando o Pai do Edu Lobo?

Meio sem jeito, o entrevistador disse que sim, e ao fazê-lo escutou, também secamente, o seguinte:

- Graças ao amigo Vinícius eu sou o maior vencedor!

Meio sem entender, o entrevistador parou com as perguntas.

Mas o que essa entrevista deixou de útil à MPB?

Apenas a certeza de que ela, a MPB, era tratada, acima de tudo, por Cavalheiros, cuja Ética não era disposta em Códigos. Apenas resultava da Elegância Nata, proveniente da Educação Comum, que tinha o Atavismo como óbvio resultado:

- O filho deixar de ser conhecido pelo nome do pai, para este ser mais conhecido pelo nome do filho!

Fernando Lobo, a partir de Arrastão, conseguira ser mais conhecido como “O Pai do Edu Lobo”. Daí a resposta dele, em pergunta, a outra pergunta.

Do Arrastão, com o Vinícius, Edu passou pra Arena Conta Zumbí, com o Guarnieri e ganhou certa fama.

As quatro composições, todas voltadas às denúncias, que misturavam os conceitos de protesto social e artístico – Militares e Imprensa, respectivamente – apresentaram estilos diferentes e apropriados a cada compositor. Caetano foi o poeta surpreso com uma banca de jornais. Chico tentando se livrar do rótulo Unanimidade Nacional. Gil mostrando todo o sofrimento do poeta-narrador, ao fotografar uma cena comum ao cotidiano dos conterrâneos em terras distantes.

Podem perceber que os pesos dos textos foram fundamentais na ordem das colocações: A Surpresa Leve do Caetano em quarto, a Denúncia Cifrada do Chico em terceiro e o Sangue do Gil em segundo.

Embora tivéssemos, cada qual à sua maneira, parte dessas essências vistas, comum aos nossos sentimentos interiores, faltava uma “pegada” mais forte, no conjunto Letra e Melodia, capaz de impressionar-nos. A receita vencedora já era conhecida, mas somente o Capinam e o Edu enxergaram, quando deram à composição a pegada da Disparada do Vandré e do Théo, voltando o texto mais à realidade do artista do que a do povo. Não deu outra: Troféu em Casa! 

Era um, era dois, era cem
Era o mundo chegando e ninguém
Que soubesse que eu sou violeiro
Que me desse o amor ou dinheiro…
    
Era um, era dois, era cem
Vieram prá me perguntar:
- Ô voce, onde vai
De onde vem?
Diga logo o que tem
Prá contar…
    
Parado no meio do mundo
Senti chegar meu momento
Olhei pro mundo e não via
Nem sombra, nem sol
Nem vento…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar…(4x)
    
Prá cantar!
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Era um canto falado
Sem ponteio
Violência, viola
Violeiro
Era morte redor
Mundo inteiro…
    
Era um dia, era claro
Quase meio
Tinha um que jurou
Me quebrar
Mas não lembro de dor
Nem receio
Só sabia das ondas do mar…
    
Jogaram a viola no mundo
Mas fui lá no fundo buscar
Se eu tomo a viola
Ponteio!
Meu canto não posso parar
Não!…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar, prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Pontiarrrrrrrr!
    
Era um, era dois, era cem
Era um dia, era claro
Quase meio
Encerrar meu cantar
Já convém
Prometendo um novo ponteio
Certo dia que sei
Por inteiro
Eu espero não vá demorar
Esse dia estou certo que vem
Digo logo o que vim
Prá buscar
Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar prá cantar…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
Lá, láia, láia, láia…
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá cantar
Ponteio!…(4x)
    
Prá cantar
Pontiaaaaarrr!…(4x)
    
Quem me dera agora
Eu tivesse a viola
Prá Cantar!
 

Embora o texto anuncie, nas três primeiras estrofes, uma Surpresa do Ser poético com o Parecer social que o rodeava, a melodia dava à narrativa uma pegada muito mais forte, já que o quadro do Capinam estava sendo descrito por um pernambucano. Nada da leveza baiana do Caetano, pouco da frieza do Gil e nada do subjetivismo (tanto paulistano como carioca) do Chico. Uma Dura Surpresa Objetiva.

Dentro do Parecer, na época, a palavra de ordem era Engajamento, e isso colaborou muito para o texto do Refrão, quando o Ser pede socorro como um Repentista, que pouco tem a explicar sem a sua fiel companheira: A Viola.

Algo como: -Eu não sei  bem o que estão querendo de mim, com tantas perguntas e exigências de escolher um dos lados, quando não conheço nenhum deles! – Eu só sei cantar, cadê a minha viola? 

Tudo era mal explicado, “Era um dia, era claro, quase meio…”. Acusações, insultos acadêmicos, com a aparência de doutarados, frios protestos musicais, ameaças do Parecer e consequente afastamento da arte musical.

Como diria, muitos anos mais tarde, Fábio Jr.:

Muito cacique pra pouco índio
Muito papo e pouco som
Pessoas querendo ser
O que não são (ou melhor, eram)

Essa parte se encerra no reencontro do Ser Repentista com a Viola Ocultada pelo Parecer social.

Na parte final, já provido da companheira Viola, e ainda com medo dela sumir novamente, o Ser Repentista se manda rapidinho daquela realidade louca do Parecer, mas com a “quase”, ou “meia”, certeza de que um dia achará o mesmo lugar, já muito mais merecedor da sua Arte Espontânea.

Curiosamente, depois de vencer o festival, Edu Lobo e Capinam sumiram do cenário artístico, cuja Roda Viva presente começou, a partir de então, a buscar uma maneira de colocar em conflito as tendências musicais férteis da MPB, comuns aos primeiros colocados. Foi quando o confronto, Chico x Tropicalistas (Caetano e Gil eram os expoentes) começou a ser articulado pelos críticos concretistas do tablóide paulistano a Folha de São Paulo, o que será visto adiante.

Quanto ao Edu, seguiu parcialmente o que o seu Ponteio disse na despedida:

Correndo no meio do mundo
Não deixo a viola de lado
Vou ver o tempo mudado
E um novo lugar pra cantar 

Se isolou, trocou a viola pelo piano, melhorando consideravelmente a sua concepção melódica, se tornou Maestro, Arranjador e, quinze após, a arte nos premiou, com a dupla Chico e Edu, já num outro lugar pra cantar,  em O Grande Circo Místico.

Aqueles quatro jovens compositores, sobre os quais Tom Jobim, Dorival Caymmi e, principalmente, Vinícius de Moraes, depositavam os sonhos de continuidade artística na MPB estavam sendo colocados uns contra os outros pela ação nociva de Anjos e Capetas, instrumentos comuns da Roda Viva Norte Americana, na destruição dos valores culturais dos povos a serem dominados por seu Capital Credor, já que os colonizadores anteriores, sendo somente agiotas, só haviam feito por progredir a nossa cultura, incentivando o surgimento de Toms, Caymmis e Vinícius, por exemplo.

Hoje, a MPB continua um fiel espelho do nosso quadro Social. O que mudou foi a Educação. Só isso.

Trazer uma aflição dentro do peito
É da vida um defeito
Que se extingue com a razão
(Chuvas de Verão – Fernando Lobo)

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