Archive for março, 2009
Sabiá-Análise de Texto
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Vídeo de Tauil
Já morando na Itália, Chico e Marieta acabaram por hospedar Toquinho com eles. Ao mesmo tempo em que eram amigos, desde a época pré festivais, Toquinho também era parceiro de Vinícius de Moraes nas composições musicais.
Desconfio até que a presença do Toquinho lá pela Itália, junto com o casal, tenha vindo de algum acordo do pai do Chico com o amigo Vinícius, ambos preocupados com seus filhos natural e “adotado”.
Como diplomata, o constante trânsito internacional dava a Vinícius a categoria de “Eterno Exilado”, e tal aspecto permitiu que se prestasse como uma espécie de Correio Confiável, já que por aqui, na época, a correspondência vinda de qualquer suspeito era digna de censura.
Para se ver a falta de estrelismo de alguns compositores, que se sabiam nobres, Tom Jobim mandou por Vinícius uma fita contendo uma melodia para que Chico a recheasse com letra. Sugeriu a um velho parceiro, e consagrado poeta, que pedisse a outro poeta o favor de letrar a melodia?
Sem qualquer constrangimento, Vinícius levou a fita contendo a melodia do Jobim e entregou ao Chico, conforme combinado.
Para entender o conteúdo do recheio que Chico deu à melodia do Jobim, convém lembrar um pouco da realidade em que ele se encontrava na ocasião:
1 – Tinha saído do Brasil por vontade própria.
2 – Tal exílio espontâneo, como já suspeitei nos posts anteriores, tinha começado, de forma interior, quando ainda morava por aqui.
3 – Por mais que não gostasse da nossa situação social, tinha saudades da terra, o que é comum aos nativos.
4 – Quando se está longe de casa, lembra-se primeiro dos estandartes culturais da História, associando-os à realidade presente no novo habitat.
Creio que baste. Como estava exilado, ainda que de forma espontânea, ao abandonar uma realidade social que não satisfazia, a saudade nativa buscou na nossa literatura um poema de Gonçalves Dias, 1847, famoso pelos versos iniciais, só se lembra mais destes:
Minha terra tem palmeiras Onde canta o Sabiá As aves que aqui gorjeiam Não gorjeiam como lá…Talvez pelo fato de ter um texto exagerado em nacionalismo, o poema, para os jovens das décadas de 50, 60 e 70; era bem chato e nem um pouco memorizável. Justamente por esse motivo só os quatro primeiros versos bastavam para justificar o Sabiá do Chico, acontece que ele costumava ler os poemas inteiros, e esse, que tem o interessante nome de Canção do Exílio, apresenta também estes versos:
Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá
Em termos do contexto direto de Sabiá, tais versos pouco somariam à conceituação:
- Tudo bem, ele não morreu e sabia que iria “Voltar”, como disse muitas vezes desde o primeiro verso!
Quem assim pensasse estaria cometendo um grave engano, pois o universo literário do Chico é capaz de buscar informações em diversas partes, tais como nestes versos:
Por mais terras que eu percorra,Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá…
Ocorre que esses versos, de Guilherme de Almeida, além de dois deles serem iguais aos da Canção do Exílio, são também parte do Hino da FEB (Força Expedicionária Brasileira).
Estaria a engenhosidade do Chico se divertindo com os marionetes militares que deixara no Brasil?
Pode até ter ocorrido isso, mas a coisa fica mais interessante quando a História conta que os Expedicionários ficaram mais conhecidos pela tomada do Monte Castela, na Segunda Guerra Mundial, e tal monte ficava na mesma Itália que Chico escolhera para o Auto-Exílio Oficial.
Pode ser até que Chico não tivesse construído a letra de Sabiá com essa idéia na cabeça, mas que ela existiu, não tenho dúvidas, pois é História Oficial aceita até por quem costuma ilustrá-la com lindos “Passarinhos”, a imprensa.
Vou voltar Sei que ainda vou voltar Para o meu lugar Foi lá e é ainda lá Que eu hei de ouvir cantar Uma sabiá Vou voltar Sei que ainda vou voltar Vou deitar à sombra de uma palmeira Que já não há Colher a flor Que já não dá E algum amor Talvez possa espantar As noites que eu não queria E anunciar o dia Vou voltar Sei que ainda vou voltar Não vai ser em vão Que fiz tantos planos de me enganar Como fiz enganos de te encontrar Como fiz estradas de me perder Fiz de tudo e nada e te esquecer Repete a primeira estrofeSabiá concorreu num festival de 1968, interpretada por Cynara e Cybele, que teve também a composição Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores (Geraldo Vandré).
Suspeitando encrencas com a censura e sem avisar o Chico, Jobim adicionou uma estrofe no final:
Vou voltar Sei que ainda vou voltar E é pra ficar Sei que o amor existe Eu não sou mais triste E que a nova vida já vai chegar E que a solidão vai se acabar – bisTalvez, graças a isso Sabiá passou de fase, porém, se compararmos o texto extra com o anterior, notaremos que o segundo tornou o primeiro apenas uma espécie de desabafo e jogou o Chico Letrista num time bem comum à época da ditadura: A turma do Eu Te Amo Meu Brasil!
Sem saber de nada, Chico voltou ao Brasil para a finalíssima e encarou a um auditório em alvoroço e protesto. Ainda sem saber de nada, ficou lá em pé, feito bobo, escutando, ao que dava para se escutar da doce interpretação, debaixo da maior vaia da história dos festivais. Escutou a estrofe extra de Jobim, virou as costas e voltou pra Itália.
Quem me contou o ocorrido foi Ana Buarque, irmã dele, depois que eu disse a ela ter estranhado o final da composição. Primeiro porque apresentou, pela primeira vez, uma repetição de rimas já usadas por Chico em Carolina, e segundo por não ser do seu estilo ferir e fazer curativo na mesma composição.
Chico não usa uma rima de duas palavras mais de uma vez. Triste com Existe, em final de verso e com a mesma ordem, pertencem só à Carolina. Podem ocorrer numa cruzada, mas nunca em final. Quanto às guerras nas composições, sempre atira depois e ainda se faz de arrependido.
Para a minha sorte, consegui um compacto do Vandré assim que saiu, o que aconteceu logo depois da primeira apresentação na fase classificatória. Eu estava lá no festival. Procurei algum panfleto com as letras, não consegui e pensei:
- Pôrra, lá em S.Paulo nunca foi assim, pois o que mais faziam era propaganda em panfletos que continham as letras das composições concorrentes!
Ao escutar o disco estranhei um grupo de pessoas aplaudindo à fatídica terceira estrofe:
Há soldados armados Amados ou não Quase todos perdidos De armas na mão……antes mesmo de Vandré começar a cantá-la.
Se não havia panfleto algum com as letras, como é que aquele grande grupo sabia do conteúdo da terceira estrofe antes mesmo de ser iniciada? Será que algum Anjo os havia contratado para baterem palmas?
Era somente um fragmento do texto, pois no restante dele Vandré incluiu os militares no mesmo barco em que estávamos.
Aliás, a obra do Vandré foi fundamental para o desenvolvimento do enredo, anterior e posterior, da do Chico. Assim sendo, colocarei, neste ponto cronológico da MPB, a essência filosófica do Vandré como Premissas responsáveis pelas Conclusões do Chico, que em algumas composições respondeu nitidamente a Vandré e vice-versa.
A análise de Sabiá continuará depois, visto que gerou uma outra Novela da MPB com um rico diálogo cultural dos dois maiores pensadores sócio-musicais da época:
- Quem pode garantir que o próprio Sabiá não foi uma carta filosófica do Chico, endereçada ao Vandré, como resposta a uma possível cobrança deste, numa espécie de tira-teima do Festival de 1966, quando empataram com A Banda e Disparada?
Ambos eram grandes compositores, e por se suspeitarem assim, estendiam suas grandezas à Ética e à Elegância, qualidades natas dos que se sabem nobres e se bastam.
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Bom Tempo-Análise de Texto
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Vídeo de Tauil
Ainda em 1968, Chico resolveu “dar um tempo” naquela guerra toda, do Ser Poético com o Parecer Social, e compôs Bom Tempo, criticada por ter um texto alienado, quando o momento social exigia todo um engajamento, no combate à força que supúnhamos dominante, a dos militares, que na realidade só faziam o papel de Bandido contra o conjunto Mocinho (imprensa e artistas); conforme o próprio Chico denunciara na peça Roda Viva.
Era claro que ele estava cansado de tanta cobrança de “Engajamento”, que já denunciara como falso na peça, persistindo em martelar na sua porta da Individualidade, como se não tivesse sido bastante claro nela.
Suspeito até que Bom Tempo tenha sido um dos arquétipos da futura composição Samba E Amor que, dentre outros pensamentos, diz o seguinte:
…No colo da “benvinda” companheira No corpo do bendito violão Eu faço samba e amor a noite inteira Não tenho a quem prestar satisfação…Chico estava à fim mesmo era de ficar na dele. Assim:
Um marinheiro me contou Que a boa brisa lhe soprou Que vem aí bom tempo O pescador me confirmou Que-o passarinho lhe cantou Que vem aí bom tempo Dou duro toda a semana Senão pergunte a Joana Que não me deixa mentir Mas finalmente é domingo E naturalmente, me vingo Eu vou me espalhar por aí No compasso Do samba eu disfarço o cansaço Joana debaixo do braço Carregadinha de amor Vou que vou Pela estrada Que dá numa praia dourada Que dá num tal de fazer nada Como a natureza mandou Vou Satisfeito A alegria batendo no peito O radinho contando direito A vitória do meu tricolor Vou que vou Lá no alto O sol quente me leva num salto Pro lado contrário do asfalto Pro lado contrário da dor. Repete a primeira estrofe Ando cansado da lida Preocupada Corrida, surrada, batida dos dias meus Mais uma vez na vida Eu vou viver a vida Que eu pedi a DeusOs quarto e quinto Lps bagunçaram um pouco a cronologia da obra, pois contêm composições anteriores e posteriores à passagem do Chico pela Itália, além de outras feitas por lá.
Bom Tempo é um exemplo disso, pois foi gravada no quinto Lp, junto com Desencontro, composta em 67.
Já, Benvinda, não foi incluída em qualquer dos Lps oficiais, mas numa coletânea de sucessos. O quarto Lp trouxe Não Fala de Maria, mas a oficial Maria, que se evitou falar no quarto disco, só viria no quinto…
Depois do descanso do Chico em Bom Tempo, ou mesmo do descaso da assessoria dele, com a história da sua obra no contexto da cultura nacional, assumo agora o papel de Anjo, transformo o Auto-Exílio Interior do Ser em Exterior do Parecer, já que o Chico nunca foi exilado oficialmente, e mando o autor para a Itália, aonde persistiria com o Auto-Exílio nos dois aspectos, Interior e Exterior, só que oficialmente.
Quem seria a tal da Joana Sovacal (debaixo do braço)? Na volta da Itália voltaremos ao assunto.
- Extra! Extra! – O cantor Chico Buarque de Hollanda foi mandado embora do Brasil e viajou para a Itália junto com a amante, a atriz Marieta Severo!
“Brasil, Ame-o ou Deixe-o”
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Em Legítima Defesa
11.3.09
Chico versus Versos
Leitor recomenda este blog (link), do professor Dalton, e detalha: ele mora em São Paulo, mas já morou em Curitiba e administrou fazendas no Paraná. “Como já li artigos e críticas de outros autores sobre a obra de Chico Buarque, nem sempre concordo com o ponto de vista dele, mas também já me encantei com alguns de seus pontos de vista. Uma curiosidade: em 97 houve um concurso interno na Mangueira para escolher o samba enredo de 1998, ano em que Chico foi o homenageado. O Dalton concorreu com o pseudônimo “Netinho da Miúda”. O samba dele é bem elaborado, e assim como um terceiro que conheço também foi eliminado. O samba vencedor, mais simples, é daqueles com refrão fácil e previsível. Os três que conheço são muito bons, mas creio que os jurados foram sábios ao escolher um mais simples, que caiu facilmente na boca do povo e ajudou a Mangueira vencer naquele ano. O professor ficou revoltado, pisou na bandeira verde e rosa, foi embora e nunca mais voltou na quadra. Bafão!”.
Carolina-Análise de Texto
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Vídeo de kadiweu1969
Vinícius uma vez disse: Quando se está longe de casa não se faz bossa nova. Lembra-se mesmo do samba tradicional, de raiz ou de lamento, mas samba!
Acho que essa idéia deva ter levado Chico, ainda que aqui, porém auto-exilado da realidade, a rever os seus conceitos de Samba-Canção, lembrar de Almir Ribeiro, Agostinho dos Santos etc.; e dentro do seu Exílio Interior, suposto por mim, construído a composição Carolina, inscrita num festival de menor envergadura.
Carolina
Nos seus olhos fundos
Guarda tanta dor
A dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei que não vai dar
Seu pranto não vai nada mudar
Eu já convidei para dançar
É hora, já sei, de aproveitar
Lá fora amor
Uma rosa nasceu
Todo mundo sambou
Uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo
Pela janela: – Ói que lindo!
Mas Carolina não viu
Carolina
Nos seus olhos tristes
Guarda tanto amor
O amor que já não existe
Eu bem que avisei: – Vai acabar!
De tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar
Agora não sei como explicar
Lá fora amor
Uma rosa morreu
Uma festa acabou
Nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela
O tempo passou na janela
E só Carolina não viu
As estrofes de verso único se prestam a chamar a atenção para o pensamento que virá a seguir. A exemplo de Retrato em Branco e Preto, a composição tem duas partes, e também a exemplo dele, se retirarmos o chamamento Carolina, temos dois Sonetos. A disposição dos versos confirma, mas a inexistência de rimas interligando os negam, contudo, reparem nos textos dos tercetos dos dois Sonetos Adaptados.
Tentava ele uma nova forma de vincular os tercetos, em sonetos duplos, pela relação de textos?
O primeiro terceto de cada parte tem o texto vinculado aos Olhos de Carolina, e os segundos vinculados às janelas que os mesmos olhos não viram.
Nas duas partes de Carolina, e a exemplo do que fez na composição Roda Viva, Chico usou os chamados pés Espondeus na construção de alguns versos, ao dar a eles um ritmo poético que apresentava duas sílabas tônicas seguidas:
Eu BEM que-a vi SEI VAI a ca BAR
O histórico da composição, no song book da cia. das letras, conta que Carolina foi feita às pressas e sob encomenda para algum dos festivais de 68, no qual alcançou o terceiro lugar, no que Chico mostrou-se surpreso e desgostoso, pois além de achá-la péssima, segundo o song book, agradou muito ao General Costa e Silva, nosso segundo presidente militar.
Fato muito usado pelos concretistas da folha de S.Paulo para agitarem com um:
Extra! – Quando se agrada aos chatos, deve-se desconfiar da chatice própria! (o texto foi algo assim).
Tudo endossado por Caetano e Gil, deslumbrados com toda a atenção que os articulistas lhes davam, a ponto de tentarem enfear à própria obra com uma espécie de movimento artístico de resistência chamado Tropicalismo.
Essa oficial palhaçada jornalística corria solta, com o Chico quieto, só na dele, percebendo que o silêncio lhe rendia muito mais que a palavra, para, na hora certa, finalmente, e num infalível estilo Jânio Quadros, declarar:
- Nem toda loucura é genial, como nem toda lucidez é velha!
Essa declaração causou um grande alvoroço entre os críticos da folha. Se analisarmos o que foi dito pelo Chico, chegaremos a uma conclusão: – Supôs muito e não afirmou algo!
Foi aí que ele descobriu o grande segredo pra “Domar Capeta” (imprensa em Roda Viva)
- Palavras bonitas num texto que nada conclua ou comprometa!
Isso foi o bastante para mantê-lo no mesmo degrau de fama acima dos Tropicalistas.
Por mais que os baianos tentassem, segundo Caetano, fazer propositalmente algo feio, não conseguiam destruir toda uma sedimentação artística que os concebera:
Estou aqui de passagem
Sei que adiante um dia vou morrer
De susto, de bala ou vício
Num precipício de luzes
Entre saudade e soluços
Eu vou morrer de bruços
Nos braços de uma mulher…
(Gilberto Gil)
Por sua vez, Caetano escrevia coisas “feias” como a Tropicália, já vista em no post Roda Viva Comparada – Interpretando Textos.
Por mais agressivos que fossem os textos, a resistência maior era a da Arte, que teimava em resultar lindas rimas por Gil e um retrato denúncia, por Caetano, contra os próprios críticos, que os iludia.
Assim como em 22 não se deveria ter chegado ao contra senso de regrar um Verso Livre, cabe agora a necessidade de isentar poetas do quilate de um Ferreira Gullar de qualquer parentesco com o grupo concretista da folha.
Aquele risco, que citei nos primeiros posts, de se tentar conciliar biografias de Arte e Autor, mostrou em Carolina todo o potencial desagregador do Parecer do Francisco sobre o Ser do Chico. Para proteger o segundo, o primeiro até se divertia de forma inescrupulosa. Carolina foi um grande sucesso de vendas. Todo o Brasil sabia, mas o cidadão gozador, fingindo inocência, não dando o valor merecido a ela, se divertia ao mesmo tempo em que constatava:
- Qualquer merda que eu disser esses otários da crítica acreditam!
Como já citei acima, nem todos os poetas concretistas brasileiros poderiam ter seus poemas comparados a imbecilidades, que se diziam poéticas, do tipo:
terrrrrra
aaaterr
aaaterr
rrrrterra
Ou algo assim, como um poema.
Na mesma época um termo começou a vagar na realidade cultural brasileira, todavia sem o menor cabimento lógico para alguns poetas desse mesmo grupo concretista: Vanguarda!
A Vanguarda era válida e a Retaguarda proibida. Não precisa ser nenhum grande Relativista, que aliás também era moda filosófica na época, final dos anos 60; para entender que um termo só é explicável na presença do outro. Como imaginar o significado de um sem se falar do outro?
Essas idéias costumavam cair de paraquedas nos nossos olhos, pelas folhas dos jornais, sem que ousássemos questionar os absurdos para não sermos taxados de Reacionários, outro termo bastante usado pela turminha de “sábios” poetas. O que fazer com o conceito de que “A toda Ação corresponde uma Reação”?
Voltando à normalidade, sintam a forma enxuta, e por que não dizer Concreta?; com que Ferreira Gullar simplificou os conceitos de Ser e Parecer, do Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade, dos quais tanto venho me utilizando nos últimos posts:
TRADUZIR-SE
Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte;
linguagem.
Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?
Percebe-se que a construção poética do Gullar foge muito do que venho tratando na Ciência Poética Histórica. É própria em Métrica, Ritmo, Rima, Sintaxe e Semântica; mas nem por isso é ilógica, como os demais concretistas da folha insinuaram naquilo, ou bem parecido com aquilo, que ousaram chamar de poema.
Pela História, o que se imaginou como Verso Livre não teve o nascimento na Semana de Arte Moderna de São Paulo em 1922, mas no século anterior, mais especificamente no Parnasianismo Brasileiro, que associou a liberdade do verso à Vontade do Poeta. O poeta sim, passava a ser Livre para optar na construção do poema: Seguir ou não seguir os fundamentos da Ciência Poética era a Questão Livre.
Claro que essa definição de bases praticamente impediria o poeta de se permitir pertencer a novos movimentos literários. Claro que não ocorreu, mas para isso bastaria se esquecer que um dia houve o Parnasianismo Brasileiro. Foi o que se tentou fazer, mas esse não é o nosso caso, pois o poeta morre, mas a Lira fica.
Depois do nosso Parnasianismo tivemos, tanto pela Europa, quanto pelas Américas, o Imagismo, que dentre as figuras medianas apresentou o poeta judeu Ezra Loomis Pound, responsável pelos primeiros conceitos do que posteriormente, bem posteriormente, ficou conhecido como Concretismo, e que caiu também de paraquedas no Brasil na troca de credores vista em Fazenda Modelo.
Dessa forma, como em Traduzir-se Gullar optou pelo verso com Ciência Própria, ele foi, antes de concretista, um Poeta Parnasiano Brasileiro. Se preferiu chamá-lo de Poema Concreto, a própria liberdade que o nosso Parnasianismo deu ao Poeta permitiu que assim o definisse.
Muitos anos mais tarde, como parte do Grande Circo Místico, Chico escreveu A Bela E A Fera, que apresenta este fragmento:
No bucho do analfabeto
Letras de macarrão
Fazem Poema Concreto
Não podia mesmo incluir Ferreira Gullar no pensamento, tanto não o fez, que anos após cantou com Fagner a composição “Será Arte”, na qual homenageia o grande Poeta, talvez uma rara Ilha Concreta no oceano de águas imbecis que caracterizou o concretismo no Brasil, infelizmente.
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