Ao escutarmos qualquer composição musical, a primeira impressão que temos é a da melodia, executada pelo cantor, ou pelo solista, quando instrumental. Em seguida sintonizamos o acasalamento da letra com a melodia e, se o compositor conseguir a felicidade de ter como resultado um texto de fácil absorção, consideramos a música como bem feita, ou gostosa…
Normalmente essa música gostosa consagra primeiro o cantor, e depois raros são os ouvintes que buscam alguma informação sobre o compositor dela. Foi baseado nisso que Chico, e alguns colegas compositores, preferiram cantar as próprias composições, a despeito das sofríveis vozes que eventualmente tivessem, como o Chico, por exemplo.
Essa limitação nossa, em não nos aprofundar mais na observação do evento artístico, é um reflexo da baixa Educação Cultural que adquirimos nas últimas décadas. Como diria o heroi Caco Antibes, personagem do Miguel Falabela: – Isso é coisa de pobre mesmo!
Por mais que doa, a nossa ignorância cultural faz com que fiquemos calados, ao escutarmos isso e, o que é ainda pior, idolatramos a quem assim se dirija a nós. - Mas sempre fomos assim?
Claro que não, pois a interpretação profunda dos fatos que nos cercam foi deteriorada pelo processo da informação cotidiana, numa bem elaborada estratégia de ação dos mesmos responsáveis pela Fabricação de Ídolos Populares, a imprensa, no assunto abordado pelo Chico na peça Roda Viva. Querem ver o quanto perdemos num Samba?
O que sabemos a respeito do Samba? – É um ritmo musical trazido ao Brasil pelos africanos por ocasião da escravidão!
Creio que, para noventa por cento da população brasileira, é o máximo de informação que se tem sobre Samba: – Música de batuque pra negro escravo fazer festa!
Usarei a composição Canto Das Três Raças, de Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte, interpretada por Clara Nunes, para mostrar parte da limitação.
Para se ter uma idéia mais abrangente de todos os elementos, cuja soma deu à composição o grandioso sucesso, sugiro que se escute a gravação original, pois, quanto mais perto da criação, a Verdade tem maiores chances:
Ninguém ouviu
Um soluçar de dor
No canto do Brasil
Um lamento triste sempre ecoou
Desde que o índio guerreiro
Foi pro cativeiro
E de lá cantou.
Negro entoou
Um canto de revolta pelos ares
No Quilombo dos Palmares
Onde se refugiou
Fora a luta dos inconfidentes
Pela quebra das correntes
Nada adiantou.
E de guerra em paz
De paz em guerra
Todo o povo dessa terra
Quando pode cantar
Canta de dor.
Refrão – bis
O o O o o O
o O o o O o O o
E ecoa noite e dia
É ensurdecedor
Ai, mas que agonia
O canto do trabalhador…
Esse canto que devia
Ser um canto de alegria
Soa apenas como um soluçar de dor
Refão-bis
Interpretando o Texto
A primeira estrofe já começa sugerindo a nossa ignorância a respeito da própria História do Brasil, ao mesmo tempo em que se transforma numa aula da matéria, ao vivo, contada fora das salas de escolas com Educação Padronizada.
O primeiro a sofrer as consequências da invasão territorial foi o índio, seguido, já na segunda estrofe, pelo negro escravo, com ambos demonstrando o sofrimento, pelo canto triste do oprimido em, sabe-se lá quantos, movimentos de resistência além do Quilombo dos Palmares, hoje, um mero folclore.
Ainda na segunda estrofe, surge a terceira raça, a branca, também oprimida desde a, hoje também folclórica, Inconfidência Mineira.
A terceira estrofe conta das tentativas de resistência, das três raças, que acabaram por resultar em um lamento único, descrito no Refrão, com repetição, logo abaixo.
A quarta estrofe já nos transporta para a atualidade, onde sugere que a escravidão, a despeito da Abolição Folclórica do Treze de Maio, persiste e faz de todos nós escravos modernos de uma nova colonização, onde o Capital se usa do trabalhador sem os devidos respeito e valorização.
Independentes de cor ou raça, permanecemos todos escravos, pela Ignorância Cultural Acomodada.
Mas essa pequena idéia do texto ainda é muito pouco para tentar traduzir a toda a beleza do Samba, pois nos dá, quando muito, uma breve aula de História, mostrando a cultura dos compositores. A natural estrutura poética do texto reforça tudo o que foi dito na interpretação dele. Vejamos:
UM so lu ÇAR de DOR
NO can to DO Bra SIL
São dois versos Hexassílabos (seis sílabas poéticas), que por apresentarem acentuação tônica na sexta sílaba, são derivados dos chamados Decassílabos (dez sílabas) Heróicos, cuja definição exige que tenham a sexta sílaba acentuada. Como a Ciência Poética batizou a tais decassílabos como Heróicos, a mesma ciência usou batizar aos hexassílabos com o nome de Heróicos Quebrados.
Vejam a coincidência entre o texto de cada um deles e o nome que lhes foi dado pela Ciência Poética: Heróis Quebrados, tanto no Soluçar quanto no Cantador do soluço.
UM la MEN to TRIS te SEM pre-e co OU
É um decassílabo, mas está bem longe de ser um Heróico, pois não possui a sexta sílaba acentuada, mas isso lá é texto digno de um Heroi?
um CAN to DE re VOL ta PE los A res
Lembrando que a contagem silábica do verso termina em sua última sílaba tônica, agora temos um Heróico digno, tanto em acentuação quanto em texto, no verso acima.
FO ra-a LU ta DOS in CON fi DEN tes
É um verso Eneassílabo (nove sílabas), cuja estrutura rítmica foi muito usada na confecção de letras de Hinos, tanto essa Cadência (acentuação), 1-3-5-7-9; quanto a 3-6-9. Basta olhar o sentido do texto para imaginar que a luta dos inconfidentes mereceria até um Hino.
O Refrão trás outra curiosidade poética interessante:
O o O o o O
o O o o o o O o O o
O primeiro verso é um Heróico Quebrado, e o segundo, também um Eneassílabo, possui um Ritmo Poético todo disforme, que a Ciência Poética usa chamar por Verso Manco. Ou seja: Um disforme canto típico dos Derrotados, com o Conformismo Acomodado ao longo dos anos.
Só pode terminar como terminou:
SO a-a PE nas CO mo-um SO lu ÇAR de DOR
O único verso da composição com tal comprimento, um Hendecassílabo (onze sílabas), que sugere à Solidão com que nos sentimos a cada tentativa interior de reação.
Lembra muito um pensamento de Chico e Vinícius na composição Gente Humilde:
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar
Mesmo considerando às naturais associações, Objetiva e de Configuração Poética, do Texto, a grande Magia está na interpretação musical da composição.
Além de excelente cantora, a carreira da Clara Nunes sempre lhe deu uma aura mística, pela própria natureza das músicas que usava cantar. Antes de se consagrar como cantora, Clara era uma “puxadora de Pontos Cantados”, em terreiros de Umbanda e candomblé, fundamentados na chamada Nação de Angola, cujas batidas dos atabaques são feitas só com as mãos, sem nenhuma baqueta, também conhecida nos rituais Kêtu como Oghdavi.
Não sei quem fez o arranjo musical de Canto das Tres Raças, mas deu uma aula de História do Samba pelo seu elemento fundamental: O Toque da Percussão.
A composição começa com uma introdução em toque simples de atabaque, característico de terreiro de Umbanda, não de candomblé, secundado pela entrada de um violão anunciando a harmonia musical, para a entrada da voz da Clara que canta, acompanhada somente por esses dois instrumentos, a primeira estrofe.
Já na segunda, quando outra raça entra em cena, o negro, um Agogô entra junto e se une aos dois instrumentos, permanecendo assim até a quarta, a do Refrão, cantado só pela Clara, quando surge o som de um Surdão com “batida sem resposta” (tummmm……..tummm), exatamente como era o Samba em suas raízes. Depois de um tempo é que veio a “batida com resposta” (tum-tu….tum-tu) imitando o coração, acelerando o Andamento Musical e se mantendo até hoje nas escolas de samba, sendo que a última a usar o surdo com resposta foi a Mangueira há uns vinte anos atrás.
Esse trio de instrumentos se mantém com a Clara até o final da primeira execução da composição, que finda no segundo Refrão, agora cantado por um coro de vozes masculinas, imitando os escravos.
Na entrada da segunda execução, aquele atabaque único se transforma em tres (Run, Rumpí e Lé), comuns ao candomblé, o Surdão ganha batida com resposta, o Agogô começa a improvisar e, junto com eles, entra todo o instrumental de uma escola de samba cantando um enredo na avenida:
O Canto Das Tres Raças!
Se a maioria de nós não consegue enxergar a tudo isso, a culpa não é de quem executou a obra com tamanha abrangência histórico-musical, mas à falta de educação cultural do povo, que saiu das mãos dos Educadores e foi para as dos Formadores de Opinião, da imprensa, que se limitam a chamar de Esoterismo, ou mesmo Metalinguagem, à própria cegueira cultural despejada em nossas casas pelas telinhas culturais das Máquinas de Ensinar.
Zeca pensou: antes que era bom
Mano cortou: brother o que é que há
Foi a GE quem iluminou
E a Mac Intosh entrou com o vatapá
O JB fez a criticá
E o cardeal deu ordem pra fechar
O Carrefour, digo, o Baticum
Da Beneton, não, da beira do mar…
O original do Canto Das Tres Raças pode ser ouvido no endereço:
Obs. Bom Carnaval a todos…
Ver também
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