Domingo No Parque (Gilberto Gil)-Análise de Texto
Festival de 1967
Dando continuidade ao post matriz, Roda Viva Disparada, Um Claro Enigma; aonde citei a linha filosófica comum das quatro composições melhor colocadas no festival da Record de 1967, convém lembrar que utilizei dois rótulos, extraídos da obra Claro Enigma, de Drummond, comuns à realidade dos poetas: O Ser, que é a essência poética, e o Parecer, que é a postura social do poeta diante da fama.
A segunda colocada no festival foi Domingo no Parque, do Gilberto Gil, na qual o Ser se mostrou de forma mais complexa diante do Parecer.
Pelo fato do Ser do poeta ter-se formado na Bahia, e estar em terra estranha, talvez na capital de São Paulo, tenha se manifestado disposto à narrativa do novo cotidiano, presente na realidade dos conterrâneos, chegados antes nos movimentos migratórios já vistos em Pedro Pedreiro, onde cenas semelhantes às descritas por ele eram bem comuns nos ditos “parques” da periferia, tais como os de São Miguel Paulista e Itaquera, por exemplo.
Na época em que foi composta a obra, provavelmente Gil tenha pego o mote dos jornais Última Hora ou Notícias Populares, hoje, creio, extintos em Sampa, já que os demais jornais assumiram tais estratégias editoriais. Crime vende mais. Posso até supor a manchete:
“Domingo de Sangue No Gasômetro“: Traição da mulher acabou em briga, seguida de morte, entre dois amigos, ambos residentes em São Miguel Paulista, ontem às 14 horas. Informaram os transeuntes que os corpos esfaqueados, da adúltera e do amante, abandonados próximo a um carrinho de sorvetes Kibon, ainda estavam vivos quando a Rádio Patrulha chegou ao Parque de Diversões Xangai, mas não resistiram. O feirante assassino, José de Santana encontra-se foragido, tendo os corpos da doméstica Juliana dos Santos, e do pedreiro João da Silva, sido encaminhados ao Instituto Médico Legal:
O rei da brincadeiraÊ, José!
O rei da confusão
Ê, João!
Um trabalhava na feira
Ê, José!
Outro na construção
Ê, João!…
A semana passada
No fim da semana
João resolveu não brigar
No domingo de tarde
Saiu apressado
E não foi prá Ribeira jogar
Capoeira!
Não foi prá lá Pra Ribeira Foi namorar…
O José como sempre
No fim da semana
Guardou a barraca e sumiu
Foi fazer no domingo
Um passeio no parque
Lá perto da Boca do Rio…
Foi no parque
Que ele avistou
Juliana
Foi que ele viu
Foi que ele viu Juliana na roda com João
Uma rosa e um sorvete na mão
Juliana seu sonho, uma ilusão
Juliana e o amigo João…
O espinho da rosa feriu Zé
E o sorvete gelou seu coração
O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Foi dançando no peito
Do José brincalhão
O sorvete e a rosa
A rosa e o sorvete
Foi girando na mente
Do José brincalhão
Juliana girando
Oi, na roda gigante
Oi, na roda gigante
O amigo João…
O sorvete é morango
É vermelho!
Oi, girando e a rosa
É vermelha!
Oi girando, girando
Oi, girando, girando…
Olha a faca!
Olha o sangue na mão
Juliana no chão
Outro corpo caído
Seu amigo João
Amanhã não tem feira
Não tem mais construção
Não tem mais brincadeira
Não tem mais confusão…
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Eê eê eê eê eê
Infelizmente, esse era o provável quadro social observado por Gil na ocasião, todavia, apesar da possível tristeza do poeta, testemunhando a tudo aquilo, é impressionante a frieza do Ser quando se propõe apenas a fotografar um cotidiano do Parecer, pois cada um dos personagens da tragédia foram concebidos pela cabeça do poeta.
Isso costuma deixar marcas no poeta, que mais tarde pode reagir nestas formas:
Eu vim da Bahia cantar Mas algum dia eu volto pra lá…Ou mesmo:
A novidade era a guerra Entre o feliz poeta e o esfomeado… Ah, mundo tão desigual Tudo é tão desigual Ah, de um lado este carnaval Do outro a fome total…A exemplo do que o Caetano Veloso fez em Alegria, Alegria, quando usou um conjunto de rock para acompanhá-lo, Gilberto Gil fê-lo com Os Mutantes. Foi quando o universo artístico nacional pode testemunhar o surgimento de um dos seus ícones: Rita Lee.
Mas o que Domingo no Parque pode ter de semelhante com Roda Viva?
Eê eê eê eê eê Eê eê eê eê eêSeria o mesmo que dizer:
Mas eis que chega a Roda Viva E carrega o assunto pra lá.Pois na terça feira o crime já teria deixado de ser um assunto Paulistano e, com certeza, duraria, no máximo, até o outro domingo em São Miguel.
O Sol nas bancas de revista Me enche de alegria e preguiça Quem lê tanta notícia?… a

































