maio 14, 2008
· Arquivado na categoria Texto
À proporção em que se defendia do seu Parecer Social, o Ser Poético do Chico cada vez mais se auto-exilava. Construía muros ao redor da sua Fortaleza, cujo nome só nos viria em Calabar, que se “surpreendia apenas com fatos”, e esses não faltavam no lado de fora.
Uma preocupação juvenil com a nossa educação cultural, colaborando com novidades para a Ciência Poética, vistas em Retrato em Branco e Preto e Carolina, por exemplo, quando entre e ele e nós havia o despreparo dos críticos literários, que nos levavam para uma direção semelhante à da ignorância dos mesmos.
O que poderia o jovem compositor fazer com a nossa já parca educação, diante de um Capeta diário (imprensa) idiotizando-nos em massas?
Nada além de, mais uma vez, se despedir triste e gozador:
O Velho sem conselhos
De joelhos, de partida
Carrega com certeza
Todo o peso desta vida
Então eu lhe pergunto pelo amor:
A vida inteira diz que se guardou
Do carnaval, da brincadeira
Que ele não brincou
Me diga agora o que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo pra deixar?
Nada
Só a caminhada
Longa pra nenhum lugar!
O velho de partida
Deixa a vida sem saudades
Sem dívida, sem saldo
Sem rival ou amizade
Então eu lhe pergunto pelo amor:
Ele me diz que sempre se escondeu
Não se comprometeu
Nem nunca se entregou
Me diga agora o que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo pra deixar?
Nada
Eu vejo a triste estrada
Aonde um dia eu vou parar!
O velho vai se agora
Vai se embora sem bagagem
Não sabe pra que veio
Foi passeio
Foi passagem
Então eu lhe pergunto pelo amor:
Ele me é franco
Mostra um verso manco
Dum caderno em branco
Que já se fechou
Me diga agora o que é que eu digo ao povo
O que é que tem de novo pra deixar?
Não
Foi tudo escrito em vão
Eu lhe peço perdão
Mas não vou lastimar.
Em Carolina, Chico já havia sido criticado por retroceder a evolução da MPB ao usar o ultrapassado Samba-Canção. Nada de mais importante fora notado nela.
O Velho foi nova tentativa de mostrar que Carolina tinha algo a mais embutido na sua configuração poética, além, claro, desta própria composição apresentar uma novidade nas rimas, que cruzavam fim com centro de versos, algo ensaiado anteriormente e melhor executado nesta época, não tendo que optar por fim, começo ou centro de verso para colocar as sonâncias.
Claro também que a crítica não notou nada de novo na última composição do terceiro Lp.
Apenas para lembrar, Verso Manco é o mesmo que verso com o Pé Quebrado, cuja definição conta ter ele irregularidades métricas e/ou rítmicas em relação aos demais da composição. Verso Branco é aquele que não apresenta rima com nenhum outro próximo.
Quando temos os versos:
Ele me é franco
Mostra um verso Manco
De um caderno em Branco
Que já se fechou…
Nada mais fez do que reconhecer como ”péssimas” as construções poéticas, que fizera até então, ao mesmo tempo em que pedia perdão por ter ousado sair do auto-exílio em que se encontrava.
maio 8, 2008
· Arquivado na categoria Dalton, Peça
Um humilde e presunçoso cantor chamado Benedito Silva se apresenta ao público.
Em seguida, Anjo entra em cena mostrando a receita do sucesso, dando uma de protetor e rapidamente discute os percentuais das partes nos lucros, determinando que ficará com vinte por cento de tudo.
Benedito acha muito, mas Anjo passa uma receita inversa para mostrar-lhe a porcaria que era, diante do que iria ficar, e declamando a algo que exalta à moda, à propaganda e ao estrangeiro.
Entra em cena Juliana, que se identifica como esposa de Benedito. Anjo não gosta e diz a ela que Benedito vai mudar completamente, inclusive de nome, enquanto tenda seduzí-la discretamente. Juliana lhe dá um chega pra lá e ele declama seus dotes de Anjo da Guarda.
Benedito volta à cena todo brilhoso, Juliana estranha, reclama e o compara a uma bicha louca, no que Benedito diz: New Look.
Entra em cena o personagem Mané, debruçado numa mesa com copo e garrafa de cachaça.
Obs. Mané era um antigo amigo do Chico nos tempos da Consolação e do Sambafo.
Benedito canta pra ele um chorinho que conta dos seus planos e mudanças, no que Mané responde: – Você nunca me enganou!
Em seguida, Anjo descobre um pseudônimo para Benedito Silva: Ben Silver, passa uma receita de sucesso baseada na obediência à televisão, fala da onipotência da câmera e da imensa platéia que ela dá e o artista não vê.
Juliana canta a primeira parte da composição Sem Fantasia:
Vem, meu menino vadio
Vem, sem mentir pra você
Vem, mas vem sem fantasia
Que da noite pro dia
Você não vai crescer
Vem, por favor, não evites
Meu amor, meus convites
Minha dor, meus apelos
Vou te-envolver nos cabelos
Vem perder-te-em meus braços
Pelo-amor de Deus
Vem que-eu te quero fraco
Vem que-eu te quero tolo
Vem que-eu te quero todo meu
Em seguida, entram em cena Anjo e Capeta, juntos, cantando a marcha:
Nós somos velhos amigos
Nós somos os maiorais
Quando nós tamos unidos
Ai dos mortais
Eles se alegram com pouco
E depois ficam pra trás
Nós tamos sempre na onda
E não passamos jamais
Não somos como o otário
Que nunca sabe o que faz
Depois de almoçar c´o vigário
Jantamos com Satanás
Capeta grita: - Extra! Extra!
Faz propaganda de Ben Silver, no que é interrompido por Anjo, que anuncia a chegada de Sua Eminência o IBOPE. Em seguida Anjo declama um poema que trata dos poderes do Ibope entre a venerada televisão e o povo.
Depois, Benedito fala dos bens materiais, que ambiciona para si, sonha com um alambique pro Mané e pão para o povo. Se gaba da fama vindoura no que Mané diz ser uma merda. Fim do primeiro ato.