Archive for março, 2008

Noite Dos Mascarados-Análise Poética

                       
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Quem/ é/ vo/     1-4A

A/di/vi/nhe/ se/ gos/ta/ de/ mim      3-6-9A

Ho/je-os/ dois/ mas/ca/ra/dos    3-6G

Pro/cu/ram/ os/ seus/ na/mo/ra/dos     2-5-8G

Per/gun/tan/do-as/sim:     1-3-5A

    

Quem/ é/ vo// di/ga/ lo/go     1-4-7G

Que-eu/ que/ro/ sa/ber/ o/ seu/ jo/go     2-5-8G

Que-eu/ que/ro/ mor/rer/ no/ seu/ blo/co     2-5-8G

Que-eu/ que/ro/ me-ar/der/ no/ seu/ fo/go     2-5-8G

Eu/ sou/ se/res/tei/ro/ po/e/ta-e/ can/tor  (*)  2-5-8-11A

O/ meu/ tem/po-in/tei/ro/ só/ zom/bo/ do-a/mor  (*)   2-5-8-11A

Eu/ te/nho-um/ pan/dei/ro     2-5G

Só/ vou/ de/ vio/lão  (*)   2-5G

Eu/ na/do-em/ di/nhei/ro     2-5G

Não/ te/nho-um/ tos/tão  (*)   2-5G

Fui/ por/ta-es/tan/dar/te/ não/ sei/ mais/ dan/çar  (*)   2-5-8-11A

Eu/ /des/tia-à/ par/te/ nas/ci/ pra/ sam/bar  (*)   2-5-8-11A

Eu/ sou/ tão/ me/ni/na     2-5G

Meu/ tem/po/ pas/sou  (*)   2-5G

Eu/ sou/ Co/lom/bi/na     2-5G

Eu/ sou/ Pi/er/  (*)   2-5G                           

Mas/ é/ car/na/val     2-5A                    

Não/ me/ di/ga/ mais/ quem/ é/ vo/     3-6-9A              

A/ma/nhã/ tu/do/ vol/ta-ao/ nor/mal     3-6-9A                  

Dei/xa-a/ fes/ta-a/ca/bar     3-6A                     

Dei/xa-o/ bar/co/ cor/rer     3-6A                      

Dei/xa-o/ di/a/ ra/iar     3-6-A                 

Que-ho/je-eu/ sou     3A                  

Da/ ma/nei/ra/ que/ /ce/ me/ quer     3-6-9A                 

O/ que/ /ce/ pe/dir     3-6A                

Eu/ lhe/ dou     3A                

Se// vo// quem/ for     2-4-6A    

Se/já-o/ que/ Deus/ qui/ser     2-4-6A 

      

 No manuscrito a composição mostra duas estrofes. Uma com 21 e outra com 12 versos, totalizando 33. Após escutar a diversas execuções dela constatei uma imensa pausa após o 5° verso e nenhuma após o 21°, o que me fez crer ter havido um erro de grafia, pois surge até um solo de trombone antes do 6° verso, caracterizando a um nítido final de estrofe em tal ponto. Na ausência de outra pausa qualquer, os demais 28 versos formariam claramente à segunda estrofe.

A própria construção poética justifica a essa minha intervenção, porque uma das características presentes nos grandes poetas é o zelo com o qual tratam o ritmo após a última sílaba tônica de um verso.

Teoricamente, ele termina nela. Quando muito, por questões de rima, se observa as sílabas átonas posteriores a ela; no entanto, embora findo o verso, os tempos poéticos do ritmo permanecem pulsando no inconsciente do ouvinte, pois o seu compasso de referência, que é o coração, não para.

Um dos cuidados que Chico tem é o de dar à pausa, que finda um verso, um comportamento adequado à recepção do seguinte, buscando sempre o Equilíbrio Rítmico.

É o que observarei com mais empenho em Noite Dos Mascarados, cujo texto simplório jamais sugeriria tamanha nobreza na construção poética, pois trata do simples  diálogo de um casal folião qualquer em noite de carnaval. As fantasias do casal já sugerem a toda a vulgaridade do quadro.

Ele adora ocultar a essas preciosidades poéticas nos textos que sugerem vulgaridade.

Embora pareça fácil de ser cantada, Chico experimentou muitas parceiras na execução da obra, e não fez isso à toa, porque existem pausas em final de verso que deveriam ser respeitadas, principalmente no diálogo que , como qualquer diálogo, sugere um breve tempo para se dar a resposta a uma proposta recém-chegada.

É difícil de ser cantada obedecendo à maravilhosa construção poética em que prevaleceram os pés ternários. Observem que, fora os versos 5, 32 e 33, todos apresentam em seu interior um espaço de duas sílabas átonas entre as tônicas. Esse espaço não se resume aos versos, pois Chico o manteve entre o final do anterior e o começo do próximo.

Chico dificilmente deixa dois tempos fortes em seguida, porque o nosso “Ouvido Latino” não gosta de escutar duas sílabas tônicas coladas. Verão, neste estudo, que ele fará isso poucas vezes. Se o verso anterior terminar em sílaba tônica, e o seguinte começar também em tônica, fatalmente ele dará 1 ou 2 tempos de pausa na interpretação do Andamento musical.

Considerem ao sinal (*) como pausa de 1 tempo e vejam o que acontece com o ritmo poético da obra. Com excessão dos 3 versos citados, os 30 demais apresentam ritmo de 3 tempos no seu interior, e a primeira sílaba tônica de cada um dista os mesmos 3 tempos da última tônica do verso anterior.

Creio que os dois últimos versos tenham servido como uma espécie de lembrete ao ouvinte: ”Não esqueça que o coração bate em 2 tempos”!

Um verso Agudo sempre aconselha uma pausa na recitação de um poema.

O que é mais importante ao verso, a Estética do Metro, desenvolvida pela posterior Poesia Latina, ou o fundamental Ritmo da ancestral Poesia Grega?

Por que será que Chico simpatiza tanto com a Mitologia Grega?

Deixando de lado essa polêmica toda, observem o que aconteceu com as sonâncias nos versos. Não estou considerando às Rimas, padronizadas nos finais dos versos, mas ao comportamento sonoro ao longo deles inteiros. Vejam apenas um exemplo:

Fui porta-estandarte não sei mais dançar

Eu destia-à parte nascí pra sambar

Eu sou tão menina

Meu tempo passou

Eu sou colombina

Eu sou pier 

Uma outra curiosidade, quanto às sonâncias, pude perceber já por ocasião da gravação original da composição. Embora o manuscrito apresente o verso “Só vou de violão”, na gravação e na contra-capa do Lp surge “Eu quero violão”. Chico deve ter posteriormente modificado a letra por causa da sonoridade, que ficaria mais compatível à do verso “Não tenho um tostão” pela identidade das vogais tônicas em “quero” e “tenho”.

São essas minúcias que tornam um texto, aparentemente simplório, numa composição musical que não sai da cabeça por anos a fio. Segue abaixo a relação das qualidades e quantidades de todos os versos utilizados na obra.

2 versos Trissílabos Agudos.

1 verso Tetrassílabo Agudo.

10 (pentassílabo) Redondilha Menor, sendo 2 Agudos e 8 Graves.

7 (hexassílabo) Heróicos Quebrados, sendo 6 Agudos e 1 Grave.

1 (heptassílabo) Redondilha Maior Grave

4 (octossílabo) Quebrados de Arte Maior Graves.

4 (eneassílabo) Gregorianos Agudos

4 Hendecassílabos de Arte Maior Agudos

Curiosidade Numerológica: O 5° verso é o primeiro dos com 5 sílabas e o único a apresentar a cadência 1-3-5.

 

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Olê-Olá-Análise Poética

             
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Não/ cho/re-a/in/da/ não     2-4-6A    

Que-eu/ te/nho-um/ vi/o/lão     2-4-6A

E/ nós/ va/môs/ can/tar     2-4-6A

Fe/li/ci/da/de-a/quí    2-4-6A

Po// pas/sar/ e-ou/vir     2-4-6A

E/ se-e/la/ for/ de/ sam/     2-4-6G    

ba-Há/ de/ que/rer/ fi/car     2-4-6A

Seu/ pa/dre/ to/ca-o/ si/no     2-4-6G

Que/ é/ prá/ to/do/ mun/do/ sa/ber     3-6-9A    

Que-a/ noi/te-é/ cri/an/ça     2-5G    

Que-o/ sam/ba-é/ me/ni/no     2-5G

Que-a/ dor/ é/ tão/ ve/lha     2-5G

Que/ po/de/ mor/rer    2-5A                     

O// o// o// o/     2-4-6-8A     

Tem/ sam/ba/ de/ so/bra     2-5G

Quem/ sa/be/ sam/bar     2-5A

Que/ en/tre/ na/ ro/da     2-5G

Que/ mos/tre-o/ gin/ga/do     2-5G

Mas/ mui/to/ cui/da/do     2-5G

Não/ va/le/ cho/rar     2-5A

                         

Não/ cho/re-a/in/da/ não     2-4-6A    

Que-eu/ te/nho-u// ra/zão     2-4-6A

Pra/ /ce/ não/ cho/rar     2-4-6A

A/mi/ga/ me/ per/do/a     2-4-6G    

Se-eu/ in/sis/to-à/ to/a     1-3-5G    

Mas/ a/ vi/da-é/ bo/a     1-3-5G

Pa/ra/ quem/ can/tar     1-3-5A    

Meu/ pi/nho/ to/ca/ for/te     2-4-6G

Que/ é/ prá/ to/do/ mun/do-a/cor/dar     3-6-9A   

Não/ fa/le/ da/ vi/da     2-5G    

Nem/ fa/le/ da/ mor/te     2-5G

Tem/ / da/ me/ni/na     2-5G

Não/ dei/xa/ cho/rar     2-5A    

O// o// o// o/     2-4-6-8A      

Tem/ sam/ba/ de/ so/bra     2-5G

Quem/ sa/be/ sam/bar     2-5A

Que/ en/tre/ na/ ro/da     2-5G

Que/ mos/tre-o/ gin/ga/do     2-5G

Mas/ mui/to/ cui/da/do     2-5G

Não/ va/le/ cho/rar     2-5A                   

                 

Não/ cho/re-a/in/da/ não     2-4-6A    

Que-eu/ te/nho-a/ im/pres/são     2-4-6A

Que-o/ sam/ba/ vem/ a/í     2-4-6A

E-um/ sam/ba/ tão/ i/men/so     2-4-6G    

Que-eu/ às/ ve/zes/ pen/so     1-3-5G    

Que/ o/ pró/prio/ tem/po     1-3-5G

Vai/ pa/rar/ pra-ou/vir     1-3-5A    

Lu/ar/ es/pe/re-um/ pou/co     2-4-6G

Que/ é/ prá/ meu/ sam/ba/ /der/ che/gar     3-5-7-10A    

Eu/ sei/ que-o/ vio/lão     2-5A    

Es/tá/ fra/co-es/tá/ rou/co     3-6G    

Mas/ á/ mi/nha/ voz     2-5A

Não/ can/sou/ de/ cha/mar     3-6A    

O// o// o// o/     2-4-6-8A    

Tem/ sam/ba/ de/ so/bra     2-5G    

Nin/guém/ quer/ sam/bar     2-5A

Não/ / mais/ quem/ can/te     2-5G

Nem// mais/ lu/gar     2-5A

O/ sol/ che/gou/ an/tes     2-5G

Do/ sam/ba/ che/gar     2-5A

Quem/ pas/sa/ nem/ li/ga     2-5G

Já/ vai/ tra/ba/lhar     2-5A

E/ vo// mi/nha-a/mi/ga     3-6G    

Já/ po/de/ cho/rar     2-5A

 

Sessenta e quatro versos distribuidos entre 3 estrofes. As duas primeiras com 20 versos cada e a última com 24.

Quanto à Versificação, embora opte pelo que se usou chamar de Irregular, Chico costuma construir as estrofes com formas semelhantes, quanto aos versos formadores. Geralmente, busca posicionar os versos com determinadas qualidades idênticas em iguais ordens nos registros. Quando altera essa ordem nas estrofes, busca com isso reforçar o argumento do texto.

Em Olê-Olá ocorreu isso, com cada uma das estrofes registrando um comportamento regressivo do personagem: Entusiasmo Indeciso na primeira, Indecisão Insistente na segunda e Insistência Decepcionante na última.

Tudo plenamente justificado pelo comportamento Metro-Rítmico dos versos.

Como já sabia o final da história, Chico começa a descrever o seu indeciso entusiasmo com os seus famosos Heróicos Quebrados e se mantém assim até o 9° verso, curiosamente, o primeiro da composição com 9 sílabas e com um ritmo diferente dos demais, que vinham apresentando um ritmo binário uniforme de átonas-tônicas, 2-4-6.

Surpreendentemente, altera para os ternários 3-6-9 e diz: “Que é prá todo mundo saber”, para a partir dele ensaiar os Rendondilhas Menores com ritmo 2-5, misto binário-ternário, até a chamada Olê, olê, olê, olá; feita inteira nos binários do início, para logo em seguida retomar o ritmo misto até o final da estrofe.

Na segunda estrofe o comportamento metro-rítmico idêntico ao da primeira começa a ser alterado a partir do 5° verso, curiosamente, o primeiro com 5 sílabas nessa estrofe, e também o primeiro com ritmo 1-3-5 da composição, no que é acompanhado por dois outros idênticos em metro e ritmo.

Como houve uma alteração no ritmo e ninguém apareceu pra sambar, o personagem pede novamente, nos mesmos Heróicos Quebrados: ”Meu pinho toca forte”; e manda novamente um de 9 sílabas, no 9° verso da estrofe dizendo: “Que é prá todo mundo-acordar” e termina a estrofe de forma idêntica à primeira.

A terceira estrofe já vem com o mesmo comportamento da segunda nos 8 primeiros versos, mas no 9°, perde completamente o Ritmo e o Metro, já que, ao contrário dos dois anteriores, apresentou 10 sílabas com um ritmo todo desequilibrado, como que ja trazendo um samba todo “torto”, já tendo que se esforçar para fazer caber sílabas nos tempos, por exemplo, “Violão” pronunciado em duas sílabas, e ainda “fraco e rouco”, para assumir a decepção nos versos finais, ao misturar Heróicos Quebrados e Redondilhas Menores na parte final da estrofe, ao contrário do feito nas anteriores. 

As qualidades colocadas ao lado de cada um dos versos mostram a todo esse comportamento estrófico que descrevi. Segue abaixo a relação das qualidades e quantidades dos versos da composição.

37 versos Redondilhas Menores, sendo 15 Agudos e 22 Graves.

21 versos Heróicos Quebrados, sendo 13 Agudos e 8 Graves.

3 versos octossílabos Sáficos Quebrados, todos Agudos.

2 versos eneassílabos Gregorianos Agudos.

1 verso decassílabo Gaita Galega Agudo.

 
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Pedro Pedreiro-Análise Poética

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Sílabas nicas em Vermelho
Números – Posição ordinal da sílaba no verso
Letras A, G ou D = Timbres de Verso: Agudo, Grave ou Dáctilo
A+  Anáclase – captura da sílaba átona inicial do verso posterior pela final do anterior

A-  Anáclase –  captura da sílaba átona final do verso anterior pela inicial do posterior

 

 
    1     2     3     4    5     6    7    8  9 10 11      
  Pe   dro   pe   drei   ro   pen  sei   A-            
ro-Es   pe  ran   do-o trem                  
  Ma  nhã   pa    re   ce    ca   re   ce            
De-es   pe  rar   tam bém                  
  Pa ra-o bem                      
  De quem tem   bem                    
  De quem não   tem  vin   tém                
  Pe   drô   pe   drei   ro    fi ca-as  sim  pen san   A-      
do-As   sim pen   san do-o   tem   po  pas   sa          
 E-a   gen   te   vai   fi   can   do  pra  trás        
  Es   pe  ran  do-es   pe   ran do-es   pe  ran   A-        
do-Es   pe  ran   do-o  sol                  
  Es   pe  ran   do-o trem                  
  Es   pe  ran do-o-au men    to                
 Des de-o     pas   sa    do   pa ra-o mês que  vem      
    1     2    3     4    5     6    7    8    9   10     11  12 13   14
  Pe  dro   pe   drei   ro   pen  sei   A-            
ro-Es   pe  ran   do-o trem                  
  Ma  nhã   pa     re   ce    ca   re   ce            
De-es   pe  rar    tam bém                  
  Pa  ra-o bem                      
  De quem tem    bem                    
  De quem não    tem  vin   tém                
  Pe  drô   pe    drei ro-es    pe  ra-o  car   na  val        
 E-a  sor   te    gran   de    no   bi   lhe   te  pe   la   fe de ral
  To   do mês                      
  Es   pe  ran  do-es   pe   ran do-es   pe  ran   A-        
do-Es   pe  ran    do-o  sol                  
  Es   pe  ran    do-o trem                  
  Es   pe  ran do-o-au men    to                
  Pa  ra-o mês    que vem                  
  Es   pe  ran   do-a  fes    ta                
  Es   pe  ran   do-a  sor    te                
 E-á   mu  lher    de  Pe dro-Es   A+              
tá-es   pe  ran do-um   fi   lho                
Pra-es   pe  rar    tam bém                  
    1    2      3      4    5      6    7    8    9   10   11   12 13  14
  Pe  dro   pe    drei   ro   pen  sei   A-            
ro-Es   pe  ran   do-o trem                  
  Ma  nhã   pa     re   ce    ca   re   ce            
De-es   pe  rar    tam bém                  
  Pa  ra-o bem                      
  De quem tem    bem                    
  De quem não    tem  vin   tém                
  Pe  dro   pe    drei ro-es  tá-es   pe  ran do-a mor te-Ou  A+    
  es   pe  ran   do-o   di     a   de  vol  tar  pro nor   te    
  Pe  dro não     sa   be  mas   tal  vez   no  fun do-Es  A+    
  pe  re-al   gu     ma  coi    sa                
Mais   lin   da  que-o mun    do                
  Ma   ior   do  que-o mar                  
 Mas  pra  que    pen sar    se                
  Um   de  ses     pe   ro de-es   pe  rar   de mais        
  Pe  drô   pe    drei   ro  quer   vol  tar    a trás        
Quer  ser   pe    drei   ro    po bre-e   na   da mais        
 Sem   fi  car                      
  Es   pe  ran   do-es   pe   ran do-es   pe  ran   A-        
do-Es   pe  ran   do-o  sol                  
  Es   pe  ran   do-o trem                  
  Es   pe  ran do-o-au men    to                
  Pa  ra-o mês    que vem                  
  Es   pe  ran  do-um   fi   lho                
Pra-es   pe  rar    tam bém                  
  Es   pe  ran   do-a  fes   A-                
ta-Es   pe  ran   do-a  sor    te                
te-Es   pe  ran   do-a mor    te                
te-Es   pe  ran   do-o nor    te                
  Es   pe  ran   do-o   di     a                
De-es   pe  rar    nin guém                
  Es   pe  ran  do-en fim                  
  Na   da mais     a lém                  
Da-es   pe  ran   ça-a  fli    ta  ben   di ta-in   fi   ni   ta    
Do-a   pi   to de-um trem                  
    1     2    3      4    5      6     7     8    9   10    11    12    
  Pe  dro   pe    drei   ro    pe  drei  ro-es   pe  ran   do      
  Pe  dro   pe    drei   ro    pe  drei  ro-es   pe  ran   do      
  Pe  dro   pe    drei   ro    pe  drei  ro-es   pe  ran do-o trem    
 Que   vem    que    vem  que   vem          
Setenta e quatro versos dispostos em 3 estrofes Polimétricas com 15, 20 e 39
versos respectivamente.
 
Embora, no manuscrito, Chico tenha colocado a última delas com 39 versos 
seguidos, na interpretação musical há uma pausa, com breve arranjo melódico,
que separa os últimos 4 versos dos 35 anteriores, caracterizando o surgimento 
de mais uma estrofe Quadra final.
 
Creio ter ele feito isso por uma questão de espaço físico, pois em várias 
composições do manuscrito, incluindo A Banda, ocorreram esses ajustes, tanto
 nos registros dos textos como nos das partituras. 
 
No começo, escrita legível e bem espaçada. No final, com o fim da página 
próximo, tudo espremido para caber nela. Coisa de aluno adolescente mesmo. 
Puros Rascunhos, que trazem, por exemplo, erros comuns aos poetas quando
passam rapidamente uma idéia para o papel antes que a percam.
 
No quarto verso da segunda estrofe, ele já ia escrevendo “Desperar também”, 
quando se tocou do engano, rabiscou o S, separou o Esperar e, na cara dura,
mandou o texto direto para a gráfica.
 
Embora eu use sempre registrar as qualidades poéticas próprias de todos os
versos do poema, o que virá em seguida, nesta composição me deterei
mais sobre outros aspectos da construção poética, tais como Anáclase, 
Cavalgamento e Rima.
 
Perceberão o uso dos dois tipos de Anáclese para ajustar à relação Metro-
Ritmo dos versos. Vejam o ocorrido com o Ritmo dos 2 primeiros versos da 
primeira estrofe:
 
Pe dro pe drei ro pen sei
ro-Es pe ran do-o trem
 
Tônica-átona-átona-Tônica-átona-átona-Tônica-átona-átona-Tônica-átona-Tônica.  
 
Perceberam o equilíbrio? Isso só foi possível com a Anáclase.
Agora vejam o ocorrido nestes versos:
 
E-á mu lher de Pe dro-Es
tá-es pe ran do-um fi lho
Prá-es pe rar tam bém
 
Esta Anáclase ocorreu com a átona final do verso anterior absorvendo à inicial
do posterior, o que possibilitou identidades em Ritmo e Métrica.
 
Observando as sonoridades percebemos que quem mandou foi o som Á-E-S:
 
E-Á mu LHER de PE dro-ES TÁ-ES pe RAN do-um fi lho Prá-ES pe RAR
tam BÉM.
 
A única sílaba com vogal tônica diferente foi a FI.
 
No primeiro caso de Anáclase não foi diferente, pois houve um Cavalgamento .
do conteúdo sintático do verso posterior no anterior, e graças a ele tivemos uma
Rima de Eco em duas ocasiões: Pedreiro-Penseiro e Parece-Carece.
 
Quanto às sonoridades, Chico surpreendeu pela quantidade muito maior dos
efeitos sonoros do que das Rimas propriamente ditas, por exemplo, com a 
sonância “ÉM” persistindo ao longo da composição inteira, que, por sinal, se 
encerra numa imitação de som do trem (onomatopéia), cuja sonância é ÉM. 
 
Além dos ecos citados no Cavalgamento, percebam a sutileza da busca pela 
semelhança sonora de vogais e consoantes no fragmento: “Pedro pedreiro-
espera-o”. Como se não bastasse a quantidade de Ecos, Aliterações e
Assonâncias; tivemos Anáforas nas partes em que o Pedro ficava “Esperando” 
 um monte de coisas, bem como em 3 dos 4 versos finais: “Pedro pedreiro, 
 pedreiro-esperando…”.
 
Muito além de qualquer preocupação com Metro ou Ritmo poéticos, Chico 
dedicou a composição à sua parte mais forte na construção poética: As Rimas. 
Claro que sem deixar de trabalhar toda uma filosofia de Denúncia pela 
Degradação Social presente e, infelizmente, crescente de lá pra cá.
 
Como definir este pensamento:
 
“Esperando o dia de esperar ninguém”?
 
 Pode parecer gozação, mas dentre os 74 versos tivemos 3 “Heróicos
 Quebrados” que apresentaram o mesmo texto: 
 
“De quem não tem vintém”.
 
Curiosidades Numéricas: 7 versos com 7 sílabas – 10 versos com 10 sílabas.
 
Quase metade dos 74 versos da composição foi em Redondilhas Menores. 
Seguem abaixo as qualidades e quantidades dos versos:
 
5 versos Trissílabos Agudos
 
3 Tetrassílabos Agudos
 
36 Redondilhas Menores, sendo 23 Agudos e 13 Graves
 
3  Heróicos Quebrados Agudos 
 
7 Redondilhas Maiores, sendo 1 Agudo e 6 Graves
 
1 Sáfico Quebrado Grave
 
5 Eneassílabos, 1 simples e 4 Gregorianos, sendo 2 Agudos e 3 Graves
 
9 Decassílabos, 2 simples e 8 Heróicos, sendo 5 Agudos e 4 Graves
 
3 Hendecassílabos, sendo 1 Agudo e dois Graves
 
1 Dodecassílabo Agudo
 
1 Bárbaro Agudo

 

           

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Sonho De Um Carnaval-Análise Poética

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Sílabas nicas em Vermelho 
 
Números – Posição ordinal da sílaba no verso
 
Letras A, G e D = Timbre dos Versos.

 

    1    2     3    4    5   6    7     8   9  10 11  
 Car  na   val  de  sen  ga   no          
 Dei  xei    a  dor  em  ca   sa me-es  pe  ran do  
   E brin  quei   e  gri  tei            
   E  fui   ves   ti  do  de  rei          
Quar   ta   fei   ra  sem  pre  des  ce-o  pa   no     
    1     2     3     4    5   6    7      8    9  10 11  
 Car   na   val   de  sen  ga   no          
  Es     mo   re   na  me  dei   xou  so nhan do  
 Mão   na  mão     no chão            
 E-ho    nem  lem  bra  não            
 Quar   ta   fei   ra  sem  pre  des  ce-o  pa   no    
     1     2     3     4    5    6    7      8    9   10 11  
   E ra-u    can  ção              
  Um     cor  dão                
   U     von   ta   de              
  De   to   mar    a mão              
  De   ca  da-ir  mão              
  Pe      ci   da   de              
    1     2      3    4     5    6    7     8    9  10 11  
  No  car    na  val   es  pe  ran   ça        
 Que  gen    te  lon   ge   vi   va   na lem bran ça  
 Que  gen    te  tris   te  pos sa-en  trar  na   dan ça  
 Que  gen    te gran   de   sai   ba   ser cri   an ça  
  

Total de 20 versos dispostos em 4 estrofes: 2 Quintilhas, 1 Sextilha e 1 Quadra.

- 4 Tetrassílabos, sendo 2 Agudos e 2 Graves.

- 2 Redondilhas Menores Agudos. 

- 5 Heróicos Quebrados, sendo 3 Agudos   e 2 Graves.

- 2 Redondilhas Maiores, sendo 1 Agudo e 1 Grave. 

- 2 Eneassílabos Graves 

- 5 Heróicos Graves.

Os 3 últimos versos mostram que as Anáforas - repetição de termos nas mesmas posições em distintos versos – que Chico tanto usou ao longo da obra, já pertenciam ao seu estilo natural de composição.

Curiosidades Numerológicas: Tivemos 4 estrofes e 4 versos com 4 sílabas (terassílabos).

Procurem reparar nos textos dos decassílabos Heróicos. Notarão que se voltam todos a um estado de otimismo ou de sonho. Já os Heróicos Quebrados se prestam ao inverso.

Ainda sem perceber, esse tipo de coincidência, entre o sentido expresso no verso e o nome próprio do mesmo na Ciência Poética, já ocorria com o Chico desde o início da carreira, para posteriormente tornar-se proposital no seu estilo de construir os poemas.

 

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A Roda Viva da Arte

- Desde a remota Antiguidade que a Arte se confronta com o Comércio!

Para entenderem um pouco melhor a essa afirmativa, passarei um breve histórico das influências dele nela, especificamente no que se refere às Escritas, base das análises.

A maioria das escritas apresentou quatro fases distintas:

Pictografia – Ocorreu quando a humanidade começou a desenhar as coisas que a cercavam no cotidiano, normalmente, se inspirando nos animais e nos astros. Por exemplo: O desenho rupestre de um Boi.

Ideografia – Nessa fase começamos a juntar pictografias num mesmo quadro para sugerirmos uma Idéia. Por exemplo: um boi com um homem ao lado já dava a idéia de que ele tinha um dono. Ou mesmo, uma seqüência de sol-lua-sol-lua-sol-lua sugeria que alguém tinha ficado no local por três dias inteiros.

Silabismo – Coincidiu com a descoberta das demais utilidades da Língua, além da natural Gustação, que suspeito ter precedido ao Raciocínio. Com ela, descobrimos os grunhidos mais elaborados e próprios a cada elemento pictográfico integrante da ideografia. Nasceram as primeiras sílabas pronunciadas.

Alfabeto – Do silabismo a ele foi um pequeno salto de milênios, ou séculos, ou mesmo segundos, pouco importa, já que todos são, apenas, unidades de medida do tempo.

Com a chegada do Comércio, originalmente, as mercadorias eram negociadas à base de troca, na chamada fase das Permutas. Como os comerciantes se adentraram em territórios, antes nunca sequer supostos, para negociarem os seus produtos, depararam com povos, ou mesmo tribos, que se encontravam em distintas fases da escrita.

Começaram a usar sinais gráficos para identificar os grunhidos diferentes de cada dialeto silábico e, rapidamente, construíram o Alfabeto capaz de torná-los compreensíveis aos diversos e distantes clientes.

Dos alfabetos, o que mais nos interessa é o grego, cujos caracteres deram origem a estes que usamos até hoje.

Diversas civilizações, inclusive a grega, tiveram a história marcada pelo afastamento dos Artistas, com o crescimento dos Escribas, no período de transição da Ideografia para o Silabismo, provavelmente já usado pelo comércio nas respectivas épocas.

Os gregos usaram de muita criatividade para justificar ao próprio alfabeto, vindo dos comerciantes Fenícios, com a lenda das Núpcias de Cadmo e Harmonia, onde ele, um fenício que procurava pela irmã, Europa, perdida em alguma ilha do Egeu; ensinou o alfabeto e acabou se casando com deusa Harmonia, sob a tutela de Zeus.

Foi assim que a Grécia justificou as suas Artes Escritas a partir de um Alfabeto Comercial Fenício, com as Bençãos de Zeus.

A partir daí inventaram a Moeda, e o alfabeto é o seu fiel servo até hoje, pois, bem trabalhado, é capaz até de convencer o cliente da velocidade em Quilômetros por Segundo ser muito maior do que a de Jardas por Quinzena, independente dos números.

Foi sobre esse Tripé Mágico – Comércio, Alfabeto e Moeda – que se fundamentou o Racionalismo para criar o, sempre novo, mundo das Ciências, Religiões e, infelizmente, Artes.

Será? Mas teria a Arte se entregue assim ao comércio sem resistir?

Não! Apenas permanece intacta por detrás do Alfabeto, que veio do Silabismo, que veio das Artes Plásticas antes da Língua entrar na jogada. Não podemos esquecer que o Alfabeto teve avós e bisavós Artistas e, se reparem bem, muito bisneto lembra tanto ao avô, ou àlgum bisavô…

Ela ainda pulsa forte e subliminarmente por detrás de cada sílaba que pronunciamos, descrita pelos caracteres, independente de Faustões ou Gugús promovendo os desgastados instrumentos do Tripé Mágico, aos domingos, nas “Máquinas de Ensinar”.

Por que será que as emissoras de televisão procuram colocar cores diferentes nas letras das suas chamadas? Será que é apenas para deixá-las mais simpáticas?

Como diria Zé Ramalho:

E eô vida de gado
Povo marcado
Povo feliz…

            (Admirável Gado Novo)

             

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