fevereiro 18, 2008
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A Grande Vilã
Talvez de forma óbvia, pois mostra ter sido um dos motivos pelo sumiço dos Realejos e Bandas, a próxima composição foi feita em 67 e mostra a retirada das pessoas das ruas, campo maior do convívio social nas calçadas, repletas de cadeiras:
O homem da rua
Fica só por teimosia
Não encontra companhia
Mas pra casa não vai não
Em casa a moda já mudou
Que a moda muda
A roda é triste
A roda é muda
Em volta lá da televisão
No céu a lua
Surge grande e muito prosa
Dá uma volta graciosa
Pra chamar as atenções
O homem da rua
Que da lua está distante
Por ser nêgo bem falante
Fala só com seus botões
O homem da rua
Com seu tamborim calado
Já pode esperar sentado
Sua escola não vem não
A sua gente
Está aprendendo humildemente
Um batuque diferente
Que vem lá da televisão
No céu a lua
Que n´o estava no programa
Cheia e nua, chega e chama
Pra mostrar evoluções
O homem da rua
Não percebe o seu chamego
E por falta de outro nêgo
Samba só com seus botões
Os namorados
Já dispensam seu namoro
Quem quer riso, quem quer choro
Não faz mais esforço não
E a própria vida
Ainda vai sentar sentida
Vendo a vida mais vivida
Que vem lá da televisão
O homem da rua
Por ser nêgo conformado
Deixa a lua ali de lado
E vai ligar os seus botões
No céu a lua
Encabulada e já minguando
Numa nuvem se ocultando
Vai de volta pros sertões.
Uma das características das letras de Chico é buscar um reforço de melodia pelo texto, conforme citei em Beatriz, no começo. Aqui, a nota mais alta da composição está na primeira sílaba da palavra “Nuvem”. Lá no céu mesmo.
Dentre alguns significados, Sertão também quer dizer Solidão.
fevereiro 18, 2008
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A próxima composição data de 1967 e surgiu no segundo Lp. É só mais um registro da desconfiguração da cidade de S.Paulo, algo já visto em A Banda.
Refrão
Estou vendendo um realejo
Quem vai levar
Quem vai levar
Quem vai levar
Já vendi tanta alegria
Vendi sonhos a varejo
Ninguem mais quer hoje em dia
Acreditar no realejo
Sua sorte, seu desejo
Ninguém mais veio tirar
Estou vendendo um realejo
Quem vai levar
Refrão
Quando eu punha na calçada
Sua valsa encantadora
Vinha a moça apaixonada
Vinha a moça casadoura
Hoje em dia já não vejo
Serventia em seu cantar
Estou vendendo um realejo
Quem vai levar
Refrão
Quem comprar leva consigo
Todo o encanto que ele trás
Leva o mar, a amada, o amigo
O ouro, a prata, a praça, a paz
E de quebra leva o harpejo
Da sua valsa se agradar
Estou vendendo um realejo
Quem vai levar
Balada Lírica que mostra o desaparecimento de um instrumento musical, com adornos em ouro e prata, movido a manivela, possuindo no alto uma gaiola com um periquito. Havia muitos espalhados pela cidade. Tocavam todos as mesmas valsas: Bianca, Sobre As Ondas, Danúbio Azul…; dependendo do artista, que era o maniveleiro e o programador.
Eram muito pacientes com a meninada, que vivia pedindo para virar a manivela, o que acabava às vezes transformando as valsas em marchas, hinos, choros…
Eram também gozadores, porque as perguntas tinham de ser feitas diretamente aos periquitos, que saiam das gaiolas, após a abertura da portinhola e retiravam a sorte de dentro de uma caixinha localizada bem abaixo.
Curiosamente os cartões com os textos da sorte vinham impregnados com alpiste.
Foram desaparecendo por roubo dos ornamentos. Às vezes do instrumento inteiro, com gaiola e periquito.
A última estrofe mostra isso, e coloca a arte do fundamental harpejo como quebra na negociação.
Nesta composição o cancioneiro pisou na bola, pois além de registrá-la em 3 estrofes, tirou um verso do refrão, como que endossando à desvalorização artística de uma época: A do Realejo.
fevereiro 18, 2008
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Continuando o enredo, imaginemos Penélope atendendo ao novo aceno e à nova jura fingida do outro moreno de Ela E Sua Janela e melhorado de vida. Certamente o Ulisses, sambista preterido e magoado poderia muito bem dizer:
Você era a mais bonita
Das cabrochas dessa ala
Você era a favorita
Onde eu era mestre-sala
Hoje a gente nem se fala
Mas a festa continua
Suas noites são de gala
Nosso samba ainda é na rua
Refrão
Hoje o samba saiu
Procurando você
Quem te viu
Quem te vê
Quem não a conhece
Não pode mais ver pra crer
Quem jamais a esquece
Não pode reconhecer
Quando o samba começava
Você era a mais brilhante
Se a gente se cansava
Você só seguia adiante
Hoje a gente anda distante
Do calor do seu gingado
Você só dá chá dançante
Onde eu não sou convidado
Refrão
O meu samba se marcava
Na cadência dos seus passos
O meu sono se embalava
No carinho dos seus braços
Hoje de teimoso eu passo
Bem em frente ao seu portão
Pra lembrar que sobra espaço
No barraco e no cordão
Refrão
Todo ano eu lhe fazia
Uma cabrocha de alta classe
De dourado lhe vestia
Pra que o povo admirasse
Eu não sei bem com certeza
Por que foi que um belo dia
Quem brincava de princesa
Acostumou na fantasia
Refrão
Hoje eu vou sambar na pista
Você vai de galeria
Quero que você assista
Na mais fina companhia
Se você sentir saudades
Por favor não dê na vista
Bate palmas com vontade
Faz de conta que é turista
Refrão
A partir de certa data o autor passou a omitir à terceira oitava normal (não refrão) nas apresentações. Talvez pelo fato do Ulisses embutido ter matado a Penélope de vez. Sabe-se lá.
Seja como for, o fato é que não deve tê-lo feito, pois foi cantada em shows nos anos 90, mas omitindo a estrofe, como que dizendo: – Você não marca mais!; mas ainda fazendo questão de dizer.
Lembremos, que no conto, a Princesa do Ulisses estava nas arquibancadas, num dos seus sonhos.
fevereiro 18, 2008
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http://letras.terra.com.br/chico-buarque/85984/
Mas na composição seguinte do segundo Lp Ulisses se defende com a mesma astúcia ancestral. Logo Eu?
Essa morena quer me transtornar
Chego em casa, me condena
Me faz fita, me faz cena
Até cansar
Logo eu, bom indivíduo
Cumpridor fiel e assíduo
Dos deveres do meu lar
Essa garota
De mansinho me conquista
Vai roubando gota a gota
Esse meu sangue de sambista
Essa menina quer me transformar
Chego em casa, olha de quina
Diz que já me viu na esquina
A namorar
Logo eu, bom funcionário
Cumpridor dos meus horários
E um amor quase exemplar
A minha amada
Diz que é pra eu deixar de férias
Pra largar a batucada
E pra pensar em coisas sérias
E qualquer dia
Ela ainda vem pedir, aposto
Pra eu deixar a companhia
Dos amigos que mais gosto
E tem mais isso:
Estou cansado quando chego
Pego extra no serviço
Quero um pouco de sossego
Mas não contente
Ela me acorda reclamando
Me despacha pro batente
E fica em casa descansando
A construção do cotidiano de um dos personagens bem comuns à obra do Chico, o do Homem Ingênuo diante de mulheres Vilãs, dos tipos Rita e Madalena pode ser explicada pelo texto de Logo Eu.
Percebe-se que tanto a Rita quanto a Madalena já se mostraram marcos dos primeiros confrontos Mulher Vilã x Homem Ingênuo, mas o texto desta sugere um Homem menos ingênuo, num divertido jogo de Transferência de Culpas, que, por sinal, caracteriza à relação da maioria dos casais, que se entregam à absurda competição para a posse da “última palavra” nas decisões conjugais.
Na Ópera do Malandro Chico abordará novamente o tema ao embuti-lo na composição O Casamento Dos Pequenos Burgueses, onde coexistirão “até que a morte os una“.
fevereiro 17, 2008
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Um outro possível enredo começa a surgir a partir de agora, onde a mulher em questão pode ser a MPB.
Curiosidades numerológicas: Quarto verso com quatro sílabas e um total de cinco versos com cinco sílabas.
Com Açucar, Com Afeto foi a obra prima do Chico nas suas famosíssimas Cantigas De Amigo, onde o poeta fala como se fosse a mulher amada.
No Trovadorismo, época em que tais procedimentos poéticos ganharam força, o homem sempre colocava na boca da mulher amada aquilo que gostaria de escutar dela.
No caso do Chico, claro, só poderia ser diferente, porque o poeta deixou de colocar na boca da mulher apenas o que gostaria de ouvir, mas deu a ela o poder da crítica ao comportamento masculino, numa espécie de tradução, por auto-crítica, do que o mesmo observava em seu cotidiano conjugal.
Na contracapa do Lp, o próprio Chico explica que a composição foi originalmente cantada por Jane, integrante do grupo gaúcho Os Três Moraes, por causa da letra, por “motivos óbvios”. Posteriormente perdeu qualquer cisma de “viadagem” e gravou ele mesmo, o que acabou dando a ele toda essa identificação com a alma feminina.
Registra um tempo em que Penélope ainda era tolerante, mas já dava mostras de cansaço pelas viagens do Ulisses.
Com açúcar, com afeto
Fiz seu doce predileto
Pra você parar em casa
Qual o que
Com seu terno mais bonito
Vôce sai, não acredito
Quando diz que não se atrasa
Vôce diz que é operário
Vai em busca do salário
Pra poder me sustentar
Qual o que
No caminho da oficina
Há um bar em cada esquina
Pra você comemorar
Sei lá o que
Sei que alguém vai sêntar junto
Vôce vai puxar assunto
Discutindo o futebol
E ficar olhando as saias
De quem vive pelas praias
Coloridas pelo sol
Vem a noite e mais um copo
Sei que “alegre ma non troppo”
Você vai querer cantar
Na caixinha um novo amigo
Vai bater um samba antigo
Pra você rememorar
Quando a noite enfim lhe cansa
Você vem feito criança
Pra chorar o meu perdão
Diz pra eu não ficar sentida
Diz que vai mudar de vida
Pra agradar meu coração
E ao lhe ver assim cansado
Maltrapilho e maltratado
Ainda quis me aborrecer
Qual o que
Logo vou esquentar seu prato
Dou um beijo em seu retrato
E abro meus braços pra você
Durante bom tempo um apelido acompanhou o autor: Chico Redondilha. A composição mostra o porque. O mais popular dos versos surgiu 36 vezes num total de 40, sendo 26 Graves e 10 Agudos. Versos Graves são os terminados em sonância paroxítona, Agudos em oxítonas.
No próprio manuscrito o autor dá uma idéia quando disse o que faria com as receitas caso ousasse ser doutor. Muito mais pra frente ele dirá na composição Paratodos: – Foi Antônio Brasileiro / Quem soprou esta toada / Que cobri de redondilhas…
Existe uma expressão italiana “Alegro Ma Non Troppo” (alegre sem exageros) que designa um andamento musical. O verso seguinte da composição confirma no texto: “Vôce vai querer cantar”. Mas já vai cantar menos entusiasmado (ma non troppo), talvez pelo efeito de mais um copo.
Nunca é demais lembrar que, no conto, Ulisses vendia virabrequins e rolamentos para carro, logo, está explicado o verso: “No caminho da oficina“.
A composição serve também pra mostrar um tipo de conduta do homem, em sua relação conjugal com a companheira, onde o mesmo transfere pra ela toda uma sorte de tarefas, que se aparentam superficiais, enquanto “vai à caça” argumentando “ir à luta”, com a infantil idéia de que ela o estará esperando sem perguntas ou cogitações das andanças.
Ilusão. Ela pode até nada perguntar, mas certamente terá cogitado o bastante a ter até certa pena da sua imbecilidade, o perdoado e o recebido de volta com os braços abertos, o que o tornará dependente dela para sempre, conforme conta a última estrofe.
Cabe aqui um agradecimento, das mulheres que se beneficiaram dessa vertente literária do Chico, à Educação Final que Marieta Severo deu a ele por ocasião da “troca de tutela” de dona Maria Amélia, mãe do Chico, para ela.
Por menos que gostem, ou admitam, os homens terminam de ser educados pelas esposas, e foi ela quem terminou a formação do Chico como homem, poeta e músico profissional da MPB; além, claro, de dar a ele muitas idéias para compor a impressão das mulheres sobre as relações conjugais.