Archive for fevereiro, 2008

Roda Viva – A Peça – Introdução

 

 

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Azáfamas ou Barafundas? – A Primeira Peça.

Em síntese, a peça, Roda-Viva, mostrou como os instrumentos da Mídia agiam e agem na construção dos ídolos populares. No caso, enfocou mais especificamente os compositores e cantores. Na época, a imprensa lançou mão da sua essência vaselina e escorregou com esta:

- Extra, Extra! Chico Buarque tem ciúmes pelo sucesso de Roberto Carlos!   

Claro que a peça tratava também dele, entre muitos, no entanto, era de sí mesmo que Chico falava quando deu aos instrumentos da Mídia os apelidos de Capeta (Imprensa) e Anjo da Guarda (procurador do Ibope e da TV).

Embora o nome da peça seja Roda-Viva, a composição virá no seu lugar apropriado. Chico tratou muito desses dois instrumentos associados ao longo da obra, e a composição que melhor os encaixaria, nesta breve tradução que tentarei da peça, foi composta em parceria com Edu Lobo, para uma outra peça chamada O Corsário do Rei (Augusto Boal – 1985), cujas composições mostram certa continuidade da Roda-Viva quase 20 anos após.  

A Verdadeira Embolada               

A verdade que se preza
É fiel que nem um cão                   
A de César é de César                 
A de Cristo é do cristão                
A mentira anda na feira                 
Vive armando confusão                 
Cheia de perfume e rebolando na ladeira                      
De mão em mão                 
                         
A mentira e a verdade                   
São as donas da razão                 
Brigam na maternidade
Quando chega Salomão                
A razão pela verdade                     
Vai cortar c´o seu facão                
Vendo que a mentira chora e pede piedade                 
Dá-lhe a razão                    
                         
Na realidade            
Pouca verdade tem no cordel da história
No meio da linha                 
Quem escrevinha muda o que lhe convém                     
E não admira                 
Tanta mentira na estação da glória
Claro que a verdade
Paga a passagem e a outra pega o trem
                        
A mentira me acredite
Co´a verdade vai casar
Se disfarça de palpite
Pra à verdade enfeitiçar
Todo mundo quer convite
A capela vai rachar
Pra ver a verdade se mordendo de apetite
 Ao pé do altar
                        
Na verdade cresce a ira
A mentira é só desdém
A verdade faz a mira
A mentira diz amém
A verdade quando atira
O cartucho vai e vem
A verdade é que no bucho de toda mentira
Verdade tem.

Se Chico só foi gravar essa composição 17 anos após, noutra peça, é porque errou a data, ou em 1968 apenas cogitava:       

- Trêmulo, o ator recita um drama que ainda está por ser escrito! (Tempo e Artista – 1989).                              

Gozações à parte, a exemplo da futura Gota D´Água, a peça mescla poesia e prosa nas falas.

                 
 

 

 

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Até Segunda-Feira-Análise de Texto

 

 

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 Mas como “Amanhã tudo volta-ao normal”,  Até Segunda-Feira:

                
Sei que a noite inteira eu vou cantar
Até segunda-feira
Quando volto a trabalhar, morena
                        
 Sei que não preciso me inquietar
Até segundo aviso
Você prometeu me amar
                        
Por isso eu conto
A quem encontro pela rua
Que o meu samba é seu amigo
Que a minha casa é sua
                        
Que meu peito é seu abrigo
Meu trabalho é seu sossego
Seu abraço é meu emprego
Quando chego no meu lar, morena
                                

Embora o cancioneiro tenha registrado a letra juntando os tercetos numa estrofe e as quadras noutra, trata-se de uma configuração de Soneto Italiano não tradicional, que é inteiro em decassílabos. Dois tercetos e duas quadras interligados por rimas: trabalhar-inquietar; amigo-abrigo.

Bastaria interligar os tercetos, mas Chico ligou também as quadras e finalizou a última com a rima anunciando o recomeço, uma característica comum ao samba-enredo já vista em Ela Desatinou.

Misturar padrões fixos da ciência poética com truques de compositores de samba-enredo, em 1968, mostra que o autor sempre buscou ligar sua obra às artes de além e aquém mar.

O personagem desta composição leva bem o jeito de ser o Homem, cobrado pela Mulher em Com Açucar, Com Afeto; dando uma certa satisfação a ela. Tudo isso ocorrendo e a crítica nada de perceber.

 

Não deu outra: – Roda-Viva nela!               

 
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Ela Desatinou-Análise de Texto

 

 

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 Vídeo de fromthecold

 

 

 

                                            

A composição que encerrou o ano de 1967 foi Roda-Viva, terceira colocada no festival do ano, cujas quatro primeiras colocadas mereceriam qualquer das quatro primeiras colocações.

As outras três foram Ponteio (Edu Lobo) em primeiro, Domingo no Parque (Gilberto Gil) em segundo e Alegria-Alegria (Caetano Veloso) em quarto. Curiosamente, foi Caetano o mais incisivo dos 4, no aspecto denúncia. E o fez com a despretensiosa leveza baiana: “O sol nas bancas de revista / Me enche de alegria e preguiça / Quem lê tanta notícia?”

Pelo fato do terceiro Lp, 1968, conter outras composições, além das que não fizeram parte da peça Roda-Viva, alterarei um pouco a ordem cronológica. Escrita em 68, Ela Desatinou.         

Ela desatinou
Viu chegar quarta-feira
Acabar brincadeira, Bandeiras
se desmanchando
E ela ainda está sambando – bis
            
Ela desatinou
Viu morrer alegrias
Rasgar fantasias, Os dias
sem sol raiando
E ela ainda está sambando – bis
                         
Ela não vê que toda gente Já
está sofrendo normalmente
Toda a cidade anda esquecida
Da falsa vida da avenida Onde
                       
Repete primeira estrofe
                        
Quem não inveja a infeliz
Feliz no seu mundo de cetim
Assim debochando
Da dor, do pecado
Do tempo perdido
Do jogo acabado

Não estranhem à forma como escrevi a letra, com as palavras finais, de certos versos, começando com letras maiúsculas e as iniciais dos versos imediatos seguintes com minúsculas, pois Chico usou esta composição como uma espécie de aula de Ciência Poética, que também se prestou como um recado aos ranços do Modernismo dispersos então na crítica musical de São Paulo.

A construção poética de Chico, para ter a liberdade da sua escolha na forma de poema, sempre o caracterizou como um poeta Parnasiano, com decisão própria sobre a forma de construção do poema, enquanto o Modernismo, herdado da Semana Literária de 1922, determinava que o Verso Livre deveria obedecer a algumas “regras”, tais como a Proibição do recurso poético conhecido como Cavalgamento, criado pela poesia francesa com o  nome de “Enjambement”.

O Cavalgamento consiste em transferir para um verso, imediatamente posterior ou anterior, parte do conteúdo sintático dele, com a contagem métrica iniciando, ou findando, no fragmento sintático transferido que cavalgou noutro verso.

É um recurso de alta nobreza poética, cujo risco da perda do ritmo é imenso, daí a qualidade nobre do mesmo. No fundo, o recado de Chico serviu apenas pra ele mesmo, pois a crítica já era “Idiotizada” e incapaz de notar tal efeito.

A gozação mora exatamente no texto da composição: Ela Desatinou, pois para os Modernistas, quem desatinou foi exatamente ela: a Construção Poética do poema.

Esse é um dos motivos pelos quais deve ser considerado da forma que é: Um Sábio Gozador; capaz até de dar à composição os ares de um Samba-Enredo, ao cavalgar, no verso final de uma estrofe, o anúncio de outra, que serviu como Refrão:

Na falsa vida da avenida Onde
ela desatinou…

O poder de Chico com as rimas estava apenas no começo. Timidamente já ensaiara fugir do fim do verso, cuja nobreza das colocações o limitava a duas possibilidades: Alternadas ou Opostas, com pequenas tentativas de variação na última.

Percebe-se nesta obra a clara busca das rimas de Eco, também conhecidas por Leoninas: brincadeira-bandeiras, fantasias-os dias, esquecida-falsa vida-da-avenida; conseguidas com o Cavalgamento.            

Também pode ser vista, apenas, como uma continuação de Sonho de um Carnaval, após baixar o pano, e Noite dos Mascarados, que ocorre numa terça-feira. Escolham.

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Januária-Análise de Texto

          

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       Vídeo de normayclaudia     

 

Chico deve ter sentido saudades da mulher na janela quando compos Januária:                       

 


Toda gente homenageia
Januária na janela
Até o mar faz maré cheia
Pra chegar mais perto dela
O pessoal desce na areia
E batuca por aquela
Que, malvada, se penteia
E não escuta a quem apela
                        
Quem madruga sempre encontra
Januária na janela
Mesmo o sol quando desponta
Logo aponta os lados dela
Ela faz que não dá conta
De sua graça tão singela
O pessoal se desaponta          
Vai pro mar, levanta vela.

Composição lírica: apela-vela. Um pirulito selenita para quem adivinhar qual é a mulher que controla as marés, inspira poetas, presencia rituais com batuques e é iluminada levemente nas alvoradas.

Por outro lado, Janus Ária pode significar canção da abertura na Janus +  Ela = Abertura Pequena. Só faltou ter sido composta no mês de Janus Eiro. 

Ainda, por mais um lado, a Januária pode ter sido uma inspiradora garrafa de cachaça, docemente pousada sobre o parapeito de uma janela à beira-mar, posto que além de ser um dos significados do termo, é sabido que Chico sempre foi apreciador de tal musa, que o acompanhava desde os porões da FAU (Faculdade de Arquitetura e Urbanismo) onde havia um clube chamado “Sambafo”.          

Pequenas pegadinhas no gargalo dela poderiam ser pequenas aberturas para versos capazes de justificarem pelo menos metade da sua Lira. Ficou dificílimo saber qual Januária o inspirou.

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Ano Novo-Análise de Texto

 

 

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                                   Os Desencontros Da Censura

Escrita em 1967 e fazendo parte do segundo Lp, a composição Ano Novo foi uma espécie de apôio do Chico ao texto dado por Vandré à Disparada do ano anterior.

O festival de 1966 só terminou com as duas composições empatadas porque Chico se recusou a cantar como vencedor, pois os jurados haviam dado a vitória à Banda.

A situação ficou constrangedora pois a mensagem do Vandré nunca poderia ser encarada num plano secundário, e Chico sabia muito bem disso.

Numa das raras ocasiões em que demonstrou a coragem, bastante pra dizer não àquela armação toda da mídia, talvez pela pouca idade, Chico não fugiu da briga e só deixou uma possibilidade aos jurados: Empate. Eu estava lá por perto e presenciei tudo.

A exemplo da vindoura Apesar De Você, Ano Novo foi gravada em compacto simples e tocada nas rádios. Depois de algum tempo foi censurada nos veículos de opinião sem que estendessem a censura às lojas de disco. Ficou gozado:

- As rádios não tocavam, mas as lojas vendiam.        

O rei chegou
E já mandou tocar os sinos
Na cidade inteira
Que é pra tocar os hinos
Hastear bandeiras
E eu que sou menino
Muito obediente
Tava indiferente
Logo me comovo
Pra ficar contente
Porque é Ano Novo.
            
Há muito tempo
Que essa minha gente
Vai vivendo a muque
É o mesmo batente
É o mesmo batuque
Já ficou descrente
É sempre o mesmo truque
E quem já viu de pé
O mesmo velho ovo
Hoje fica contente
Porque é Ano Novo
                         
A minha nega
Me pediu um vestido
Novo e colorido
Pra comemorar
Eu disse:
Finja que n´o está descalça
Dance alguma valsa
Quero ser seu par
E ao meu amigo
Que não vê mais graça
Todo ano que passa
Só lhe faz chorar
Eu disse:
Homem, tenha o seu orgulho
Não faça barulho
O rei não vai gostar
                         
E quem for cego
Veja de repente
Todo o azul da vida
Quem tiver doente
Saia na corrida
Quem tiver presente
Traga o mais vistoso
Quem tiver juízo
Fique bem ditoso
Quem tiver sorriso
Fique lá na frente
Pois vendo valente
E tão leal seu povo
O rei fica contente
Porque é Ano Novo.

Dessa composição o autor tirou um personagem de Fazenda Modelo chamado Ladislao, conhecido pela alcunha: “Do Patrão”.

Pouca gente entendeu na época porque a Censura cismou com a composição. Deve ter recebido ordem para brecar e tentou fazê-lo de alguma forma, embora tardiamente. O que teria ocorrido com os militares para implicarem com ela?

Não chamava o povo à luta, não incitava à revolta. Era, quando muito, sarcástica quanto à situação social do brasileiro em geral.

Em Disparada Vandré já havia citado o “Reino que não tinha Rei”, e agora Chico voltava a falar nele, O Rei, em nítido tom de provocação e revolta. Mas que Rei era aquele de que tanto falavam?

A imprensa procurava associar o texto da composição a Roberto Carlos, tentando despistar acerca de qual Soberano Chico e Vandré falavam.

Tentava de todas as maneiras pregar rótulos de Nacionalista, Unanimidade Nacional com A Banda no Chico e Socialista, avesso ao Nacionalismo dos militares, no Vandré.

Obrigatoriamente, ambos tinham que pertencer a lados opostos, mas insistiam em usar a mesma linguagem.

Chico, por vir de uma família com tendências Socialistas, poderia até justificar algum parentesco com tal rótulo, mas não com o inverso dele, como a mídia fez com A Banda. O que dizer do Socialista Vandré escrevendo coisas deste tipo:

Prepare o seu coração
Prás coisas que eu vou contar
Eu venho lá do sertão
E posso não lhe agradar
                   
Aprendi a dizer não
Ver a morte sem chorar            
E a morte, o destino, tudo
Estava fora de lugar
Eu vivo pra consertar
                       
Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que quisesse, ou que pudesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu
                         
Boiadeiro muito tempo
Laço firme, braço forte
Muito gado, muita gente  
Pela vida segurei
Seguia como num sonho
Em que boiadeiro era o rei
                        
Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E no sonho que fui sonhando
As visões se clareando
Até que um dia acordei
                   
Então não pude seguir
Valente, lugar-tenente
E dono de gado e gente
Porque gado a gente marca
Tange, berra, engorda e mata
Mas com gente é diferente
                          
Se você não concordar
Não posso me desculpar
Não canto pra enganar
Vou pegar minha viola
Vou deixar você de lado
Vou cantar noutro lugar…
                           
…Mas o mundo foi rodando
Nas patas do meu cavalo
E já que um dia montei
Agora sou cavaleiro
Laço firme, braço forte
Num reino que não tem Rei.

Ao contrário de recrutar o povo à luta, quer pelo Nacionalismo, e muito menos pelo Socialismo, Vandré estava apenas denunciando que não se associaria a qualquer extrema ao dizer que pegaria a sua viola, as deixaria de lado e iria cantar noutro lugar, pois dependia apenas de sí mesmo neste “reino” efetivado pela mídia, associada à Elite Financeira Internacional à qual pertencia.

No fundo, era uma convocação ao Individualismo Consciente.

Nenhum dos dois estava se referindo a militar algum, mas falando da História recente de um Brasil anterior a 31 de Março de 1964.        

O “Vaqueiro que morreu” na Disparada era o Getúlio Vargas, que havia pago à nossa primeira dívida externa contraida junto ao sionismo britânico.

Quando o sucessor, JK,  subiu ao poder, logo em seguida pediu vultuosos empréstimos ao sionismo americano, ou seja, o Brasil ficou Independente nas mãos do Getúlio e tornou a ficar dependente logo após pelas mãos do Kubitscheck. Por olhar a encrenca e pular fora, Jânio nem será citado, ainda.

Além de ter a Meta religiosa de escravizar os povos cristãos, o Sionismo, que detém o domínio da Imprensa e do grande Capital Mundial, perdeu a unidade e se dividiu em dois polos: Europeu e Americano, que vivem em disputa por esta “praça comercial” chamada Brasil, no entanto, ambos os polos acreditam religiosamente na chegada do seu Soberano Universal, e é desse “Rei” que Vandré e Chico trataram em suas obras.

A peça Roda Viva, nascida na cabeça do Chico com os desdobramentos de A Banda no ano anterior, estava começando a ganhar mais corpo ainda num Ano Novo (1967) para nascer um ano após (1968).

A Peça, pois a composição que deu o nome a ela nasceu em 1967 mesmo, conforme veremos mais à frente.       

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